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Tolkien Brasil entrevista Verlyn Flieger, editora oficial de Tolkien

A Verlyn Flieger é professora no Departamento de Inglês da University of Maryland. Ela escreveu diversos livros relacionados a Tolkien e recebeu condecorações do Mythopoeic Award. Juntamente com Michael Drout, é coeditora do Tolkien Studies: an Annual Scholarly Review. Ela é também membra do corpo acadêmico da editora Waking Tree.

Desde jovem Flieger teve uma aproximação da família Tolkien, o que possibilitou uma confiança e garantia de editar alguns livros do professor. Em 2005 foi editora e comentarista do livro Smith of Wotton Major (Ferreiro de Bosque Grande), em que comentava os manuscritos do livro de mesmo nomes escrito por Tolkien.  Em 2007, com contribuição de Douglas Anderson, editou e comentou o ensaio de Tolkien chamado On Fairy Stories (Sobre Contos de Fadas) na edição definitiva entituladada “Tolkien On Fairy Stories”.

No ano passado (2015), Verlyn Flieger foi responsável por editar o livro The Story of Kullervo (A História de Kullervo), reunindo os manuscritos de Tolkien que há cem anos dariam inicio ao seu universo mitológico. Nós do site Tolkien Brasil tivemos uma participação em relação a esse livro (veja AQUI) e ele foi publicado no Brasil pela editora Wmf Martins Fontes e tradução de Ronald Kyrmse.

Agora recentemente, no início de novembro (2016), mais uma vez editou um livro escrito por Tolkien chamado The Lay of Aotrou and Itroun. Um raro e antigo poema que desde sua publicação original não teve uma publicação para o grande público.

Capa de The Lay of Aotrou & Itroun (clique para ampliar).

Verlyn Flieger tem atualmente oitenta e um anos e atua diretamente com os manuscritos de J.R.R. Tolkien e outros trabalhos acadêmicos sobre esse autor.

A entrevista que se segue foi realizada em inglês por Eduardo Stark, administrador do site Tolkien Brasil e a tradução para o português foi feita por Mirane Campos:

TOLKIEN BRASIL: Como se iniciou sua paixão pelos livros de Tolkien. O que mais lhe fascinou nas obras dele e o que o levou a decidir estudá-las em profundidade, no âmbito acadêmico?

VERLYN FLIEGER: Eu li O senhor dos anéis pela primeira vez no inverno de 1956-57. Era uma cópia da primeira edição britânica que me foi emprestada por um colega de trabalho da Biblioteca Folger Shakespeare na cidade de Washington D. C. Eu imediatamente percebi que Tolkien estava se baseando em uma série de textos mitológicos anteriores, tais como Beowulf, os Eddas e a literatura arturiana, incluindo a cultura de Rohan, o motivo da espada quebrada, da viagem e do último barco.

Eu notei que essa obra não era uma simples fantasia do tipo “capa e espada”, mas o trabalho de alguém que estava imerso na literatura e na cultura medieval e que também era um grande escritor e contador de histórias. Quando eu era professora de pós-graduação nos anos 70 iniciei uma disciplina sobre fantasia como uma maneira de introduzir O senhor dos anéis na estrutura curricular. Ainda hoje essa matéria continua sendo ensinada. Foi o desejo dos estudantes, mais do que qualquer outra coisa, que me levou a estudar Tolkien mais profundamente. E eu aprendi tanto com meus alunos quanto eu os ensinei. Vou ser sempre grata por isso.

TOLKIEN BRASIL:  Conte-nos sobre a revista Tolkien Studies: An Annual Scholarly Review. Como surgiu a ideia dessa publicação desenvolvida junto com Douglas A. Anderson e Michael Drout?

VERLYN FLIEGER: Mike e Doug primeiro discutiram essa ideia entre eles no começo dos anos 2000 e me convidaram para juntar a eles, o que me deixou muito feliz e honrada. Nós três estávamos entusiasmados e eletrizados pela ideia de criar uma revista acadêmica séria que estudasse a obra de nosso escritor preferido. Mike conseguiu o apoio de uma editora, a West Virginia University Press, e, então, lançamos nosso primeiro volume. Nós estamos no processo de composição do 13o volume que vai sair ainda este ano. Todos nós trabalhamos duro para fazer a revista digna de seu nome. Doug Anderson deixou o jornal em 2012 para abrir sua própria editora, Nodens Books, e David Bratman, um estudioso de Tolkien de longa data, assumiu seu lugar como co-editor.

verlynflieger

Verlyn Flieger

TOLKIEN BRASIL: Durante muito tempo Tolkien foi objeto de estudos acadêmicos, mas, desde o lançamento de A lenda de Sigurd e Gudrún, parece haver o aumento da onda de estudos acadêmicos acerca de Tolkien. E, com a publicação de A queda de Artur, de Beowulf: uma tradução comentada e, agora, com os livros editados pela senhora, me parece que essa é uma tendência que vai se acentuar mundo afora com o passar do tempo. Uma iniciativa que contribuiu para isso foi a criação do Instituto Mythgard. Comente, por favor, sobre tudo isso.

VERLYN FLIEGER: Eu sinceramente espero que haja um aumento do interesse acadêmico e da atenção sobre Tolkien. Já faz algum tempo que isso se anuncia, mas já há uma grande expansão de bom material crítico nos últimos dez anos mais ou menos, especialmente na Europa.

A editora Walking Tree produziu algumas coleções sérias de ensaios em que colaboraram estudiosos de todo o mundo. Há interesse acadêmico no Japão, França, Alemanha, Itália, Hungria, assim como no Brasil e em muitos outros países.

O Instituto Mythgard está sendo um espaço muito bem vindo para ensino e oferta de bolsas de estudo. Eles elencam uma série de importantes novos estudiosos em mito e fantasia, mesclando-os com um grupo de pesquisadores mais experientes como Tom Shippey, Doug Anderson e eu. O Instituto oferece cursos variados e os seus estudantes estão entre os melhores com quem já trabalhei. E, é claro, o fato de que os cursos são online significa que pessoas de qualquer lugar do mundo podem se inscrever para as aulas. E, o fato de que elas são ao vivo via stream implica que os estudantes podem participar de uma maneira mais imediata do que a costumeira nos cursos online.

TOLKIEN BRASIL: Que conselhos você daria para aqueles que desejam estudar Tolkien academicamente?

VERLYN FLIEGER: Eu os encorajaria e daria as boas vindas. Eu acho que é uma importante área dos estudos literários e que quanto maior a atenção acadêmica crítica e séria, melhor. Eu diria a eles que não se trata ainda de um campo de estudo completamente reconhecido ou academicamente respeitado, então não espere que o começo vá ser fácil. Mas as coisas estão melhorando.

TOLKIEN BRASIL: Como é lidar com os manuscritos de Tolkien? Eles são complicados de ler? Quais são as dificuldades para analisar esse material?

VERLYN FLIEGER: Depende muito da caligrafia, ela pode variar entre uma bela letra cursiva e um rabisco ilegível, ou ser algo entre esses dois polos. Eu geralmente uso uma lupa e, ocasionalmente, nas passagens mais difíceis, um leitor de microfilme com capacidade de ampliação.

TOLKIEN BRASIL: O que você acha que chamou a atenção de Tolkien no Kalevala e, especialmente, na história de Kullervo? E, ainda, como essa narrativa pode ter influenciado a história de Os filhos de Húrin?

VERLYN FLIEGER: A história de Kullervo é a grande passagem trágica do Kalevala. É uma história com um tom bastante diferente daquele do resto do material e com um grande poder trágico. Atraiu artistas como Jan Sibelius, que escreveu várias peças para orquestra baseadas no Kalevala, incluindo uma sinfonia com coro sobre Kullervo.

O mais famoso artista visual finlandês, o pintor Akseli Gallen-Kallela, pintou muitas das cenas do Kalevala, entre elas quatro sobre Kullervo. As cartas de Tolkien deixam claro que o Kalevala foi o “ponto de partida” da história e, como escritor, ele naturalmente se sentiria mais atraído pelos episódios mais dramáticos. O fato de Kullervo estar essencialmente sozinho no mundo pode também ter impressionado Tolkien, que perdeu seus pais ainda muito novo.

Capa de A História de Kullervo a ser publicado em 27 de agosto de 2015

Capa de A História de Kullervo

TOLKIEN BRASIL: A história de Kullervo foi publicada no sétimo volume da Tolkien Studies, em 2010. O que a versão em livro traz de novidade em relação àquele material?

VERLYN FLIEGER: Essencialmente é o mesmo material, só que mais expandido e com a adição de uma longa introdução e um ensaio final feitos por mim. Eu já havia publicado esse ensaio no meu livro Green Suns and Faerie e a Kent State University Press foi muito gentil ao permitir que eu o publicasse novamente. Eu também tive a oportunidade de corrigir algumas falhas anteriores na leitura dos manuscritos e corrigir alguns erros.

TOLKIEN BRASIL: Qual a sua opinião sobre os filmes realizados por Peter Jackson? Você acha que O hobbit conseguiu refletir a ideia de Tolkien?

VERLYN FLIEGER: Eu acho que os filmes de Peter Jackson têm em vista uma audiência cujo gosto foi moldado por Star Wars, ou seja, que dá bastante atenção aos efeitos especiais. Nos filmes essa ênfase tende a ofuscar e simplificar o que no livro escrito por Tolkien é sutil, complicado e psicologicamente complexo.

Nos filmes, as pessoas ficam sentadas por um longo tempo e é necessário prender a atenção delas por esse período, por isso se prefere excitação e barulho à profundidade, enquanto o livro pode ser lido a qualquer momento, você pode parar e depois retomar a leitura quando quiser.

Eu não acho que os filmes de O senhor dos anéis são uma boa representação da obra de Tolkien e eu não vi a adaptação de O hobbit. Nada do que eu ouvi sobre ela, no entanto, sugere que seja um bom reflexo do livro de Tolkien.

No vídeo abaixo você pode ver um pouco de uma rápida entrevista com a editora Verlyn Flieger falando sobre o livro A História de Kullervo e a emoção de lidar com os textos de Tolkien:

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