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Significados das capas d´O Hobbit e O Senhor dos Anéis feitas por Tolkien

Capas desenhadas por J. R. R. Tolkien.

Capas desenhadas por J. R. R. Tolkien.

Por: Sérgio Ramos*.

Publicado em: 09/01/2016.

A editora Allen & Unwin tinha um excelente relacionamento com J. R. R. Tolkien, que participou ativamente da produção de seu livro O Hobbit, dando ideias e sugestões. Foi assim que a editora reconheceu em Tolkien não apenas um escritor diferenciado, mas também um artista que era capaz de expressar em desenho a aura que sua fantasia queria transmitir. Desta forma, além de enviar ilustrações para compor a narrativa do Lá e de Volta Outra Vez, Tolkien contribuiu com os desenhos da capa e da sobrecapa (dust jacket) do livro.

Para a capa em si, a editora havia preparado desenhos ondulares que imitariam montanhas, mas Tolkien não aprovou e fez sua própria versão: colocou montanhas na parte superior junto com o sol e a lua ladeando a Montanha Solitária (representando o Dia de Durin) e, na parte inferior, colocou o famoso motivo de dragão. Na espinha do livro, brincou com as runas misturando as iniciais de Thrór e Thrain e o equivalente à letra D, de Durin.

Eu achei que a linha ondulada podia ser transformada em algo significante; e tentei encontrar um formato ornamental de dragão. O que será usado para o canto inferior direito pode vir a ser útil de outra forma. A montanhas onduladas poderiam aparecer na base ou no topo, de acordo com o dragão selecionado. Mas a coisa toda é muito elaborada. Eu nunca tive chance de reduzi-la. A capa revisada, a qual estou devolvendo, servirá – embora eu ainda anseie por um dragão, ou pelo menos algum tipo de fórmula de runas como as que eu coloquei ao centro da parte de trás.

(J. R. R. Tolkien – Carta para Allen & Unwin, julho de 1937)

Capa de O Hobbit - J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

Capa de O Hobbit – J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

Quanto à dust jacket, Tolkien preparou um modelo inicial, tendo dito a seus editores que:

Os senhores encontrarão com as provas revisadas um rascunho da sobrecapa para sua apreciação. Descobri (conforme antecipava) que ela estava muito além de minha habilidade e experiência. Mas talvez a ideia geral sirva.

Prevejo as principais objeções.

Há muitas cores: azul, verde, vermelho e preto. (Os 2 vermelhos são um acidente; os 2 verdes não são essenciais.) O desenho poderia ficar adequado, com possíveis melhoras, ao se substituir o branco por vermelho, e pela omissão do sol, ou pelo desenho de uma linha ao redor dele. A presença do sol e da lua juntos no céu refere-se à magia associada à porta.

O desenho é muito complicado, e precisa de uma simplificação: por exemplo, reduzindo-se as montanhas a uma única cor, e pela simplificação dos irregulares “abetos”….

Ao ser redesenhada, a coisa toda poderia ser reduzida – caso os senhores achem que as runas são atrativas. Embora mágicas na aparência, elas meramente significam: O Hobbit ou Lá e de Volta Outra Vez, sendo o registro da jornada de um ano feita por Bilbo Bolseiro; compilado de suas memórias por J. R. R. Tolkien e publicado por George Allen & Unwin….”

(J. R. R. Tolkien – Carta para Allen & Unwin, 13 de abril de 1937)

Versão inicial para a sobrecapa de O Hobbit (clique para ampliar).

Versão inicial para a sobrecapa de O Hobbit (clique para ampliar).

De toda forma, mesmo o desenho posterior, que compôs a versão publicada do livro, ficou magnífico: não tem como olharmos para ele e não nos sentirmos entrando em Faërie (o Mundo Encantado ou Perigoso, aquele dos contos de fadas). O desenho é belo, mas dele tiveram que cortar cores, como o vermelho que comporia o dragão e o sol, tudo por motivos financeiros (naquele tempo, publicar um livro demandava muitos recursos das editoras, e quanto mais cores e detalhes, mais gastos). O próprio Tolkien reconheceu este fato, não sem admitir que isso o deprimia, e esse corte do vermelho:

… foi a principal tristeza, mas eu reconheço que não há solução. Uma linha ligeiramente mais fina teria sido melhor, mas esse é um ponto pequeno.

(J. R. R. Tolkien – Carta para Allen & Unwin, 28 de maio de 1937)

Somente na reedição de 1975, é que o vermelho foi finalmente acrescentado ao desenho da forma como Tolkien gostaria.

Dust jacket final de O Hobbit (clique para ampliar).

Dust jacket final de O Hobbit (clique para ampliar).

O desenho mostra, na espinha do livro, a longa estrada através da floresta para Erebor, a Montanha Solitária. Na parte de trás está a noite, escuridão, o dragão maligno, fazendo contraste com a parte da frente, onde está o dia, a luz, as águias voando. A lua e o sol, como o próprio Tolkien explicou, são um sinal da magia: o Dia de Durin, que ocorre na história. É possível ainda ver a Cidade do Lago no meio do caminho. As runas dão o charme de antiguidade, como se fosse uma moldura de alguma civilização antiga. O significado das runas foi dito acima: “O Hobbit ou Lá e de Volta Outra Vez, sendo o registro da jornada de um ano feita por Bilbo Bolseiro; compilado de suas memórias por J. R. R. Tolkien e publicado por George Allen & Unwin”.

Posteriormente, em janeiro de 1954 (seis meses antes da publicação de O Senhor dos Anéis), a Allen & Unwin pediu a Tolkien que sugerisse algum design de dust jacket para a publicação vindoura. Diante disso, o Professor respondeu estar “… tanto sem tempo quanto inspiração” (Carta para W. N. Beard, 23 de fevereiro de 1954). No entanto, cerca de um mês depois, ele já tinha feito dois esboços para as sobrecapas dos dois primeiros volumes.

Na versão final para A Sociedade do Anel, podemos observar o Um Anel, no qual flutua o Olho de Sauron, com Narya, o Anel de Fogo de rubi usado por Gandalf, em oposição acima dele e entre chamas estilizadas.

A Sociedade do Anel - J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

A Sociedade do Anel – J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

Inscrito em tengwar vermelho ao redor do Anel de Sauron está a fala na Língua Negra:

Ash nazg durbatulûk, ash nazg gimbatul, ash nazg thrakatulûk, agh burzum-ishi krimpatul.

Um Anel para a todos governar, Um Anel para encontrá-los, Um Anel para a todos trazer e na escuridão aprisioná-los´.

Na parte debaixo do desenho estão os outros dois dos três Anéis Élficos, Nenya e Vilya, os Anéis da Água e do Ar, encrustados com diamante e safira, respectivamente.

Para o segundo volume, As Duas Torres, o desenho ficou ainda mais elaborado. Após alguns esboços iniciais, a versão final trouxe o Um Anel acima da Montanha da Perdição, e voando no céu acima encontra-se um Nazgûl. Dentro do Anel, a inscrição em tengwar significa “na terra de Mordor onde as sombras se deitam”.

As Duas Torres - J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

As Duas Torres – J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

O Anel está flanqueado pelas torres de Minas Morgul e Orthanc.

A torre da esquerda é Minas Morgul (Torre da Feitiçaria), e a lua crescente desenhada acima relembra seu nome anterior antes de ter sido tomada e profanada pelo poder sombrio: Minas Ithil (Torre da Lua). Embaixo da Torre, há a imagem de um eclipse, o que remete à descrição do Livro IV, cap. 8:

“Na realidade, a luz que agora brilhava ali era mais pálida que a lua doentia passando por algum eclipse lento, vacilando e bruxuleando como alguma exalação repugnante de podridão, uma luz cadavérica, uma luz que nada iluminava.”

Na base de Minas Morgul, é possível ver ainda nove círculos que representam os Nove Anéis dos Espectros do Anel, pois ali é seu quartel-general.

Já do lado direito, temos Orthanc, a morada de Saruman, o Branco. Seu símbolo está embaixo da torre – a famosa Mão Branca:

Somos servidores de Saruman, o Sábio, a Mão Branca: a Mão que nos dá carne humana para comer. Viemos de Isengard, e os trouxemos aqui, e vamos levá-los de volta pelo caminho que escolhermos. Sou Uglúk. Eu falei. (Livro III, cap. 3)

A estrela de cinco pontas acima de Orthanc representa o pentagrama de mago, já que ali era morada de Saruman.

Rayner Unwin sugeriu que talvez fosse melhor utilizar apenas um desenho para as três capas, alterando-se apenas a cor do fundo e a fonte das letras. Tolkien respondeu que ele estava:

… disposto a aceitar o que ele achasse mais conveniente. Eu apenas enviei essas coisas como sugestões.

Eu fiz um rascunho para o Vol. III; mas não o incomodarei com isso, pois creio que o mesmo design para os três volumes é, além da parte da despesa, desejável: a coisa toda é realmente um livro, e seria um erro enfatizar demais as divisões mecanicamente necessárias.

Ainda não entendi direito qual a variante que você prefere. Espero que seja aquela com os três anéis subsidiários, já que o simbolismo daquela é mais adequado à história toda do que aquela com o centro preto e apenas a oposição de Gandalf indicado pelo anel com gema vermelha.

Quanto à fonte do título, não pode ser em forma simples ou do tipo Black Letter, que combina mais (eu acho) com o design e escrita élfica do que a Roman?

(J. R. R. Tolkien – Carta para Rayner Unwin, 26 de março de 1954)

A editora discordou quanto à fonte e um artista ainda alterou o desenho do Um Anel. Tolkien não gostou das versões de prova para as contracapas que a Allen & Unwin fez. Após mais algumas mudanças, os livros receberam a seguinte configuração:

Primeira edição - O Senhor dos Anéis.

Primeira edição – O Senhor dos Anéis.

Ainda assim, J. R. R. Tolkien havia preparado o gran finale para a contracapa do terceiro volume. Ressalte-se que as três versões finais para os três volumes só foram utilizadas em edições posteriores.

Enquanto o design do primeiro volume mostra a forte oposição dos Três ao Um, e no segundo volume a relação é das próprias forças malignas em tons sombrios (nem sequer há alguma representação do bem na capa), o terceiro volume já apresenta sinais de triunfo e marcas do Domínio dos Homens. A dust jacket de O Retorno do Rei contém alguns símbolos númenorianos.

O Retorno do Rei - J. R. R. Tolkien

O Retorno do Rei – J. R. R. Tolkien (clique para ampliar).

O desenho mostra o trono vazio de Gondor esperando pelo retorno do Rei. Dentro do círculo do trono, onde deveria estar o Um Anel, que foi destruído no decorrer do livro, está a coroa alada de Gondor com o monograma de Elendil (L ND L) em tengwar, o primeiro Alto Rei de Arnor e Gondor.

De repente Pippin lembrou-se das rochas esculpidas dos Argonath, e ficou tomado de admiração, olhando aquela avenida de reis há muito mortos. Na extremidade, sobre uma plataforma de muitos degraus, erguia-se um trono alto sob um dossel de mármore, que tinha a forma de um elmo coroado. Atrás dele, gravada na parede e adornada com pedras, via-se a imagem de uma árvore em flor. Mas o trono estava vazio.

(Livro V, Cap. 1)

A coroa se ajusta à descrição do livro:

Então os guardas deram um passo à frente, e Faramir abriu o cofre, e ergueu uma coroa antiga. Tinha o formato dos elmos dos Guardas da Cidadela, mas era mais alta, e toda branca, e as asas dos dois lados eram feitas de pérola e prata, à semelhança de asas de uma ave marítima, pois era o emblema dos reis que vieram pelo Mar; no aro da coroa reluziam sete pedras, e na ponta uma única joia, cuja luz subia como uma chama.

(Livro VI, Cap. 5)

Acredito que a coroa de Gondor (o Reino do S.) era muito alta, como a do Egito, mas com asas presas, colocadas não esticadas, mas em um ângulo.

(J. R. R. Tolkien – Carta para Rhona Beare, 14 de outubro de 1958)

Detalhes da imagem central (clique para ampliar).

Detalhes da imagem central (clique para ampliar).

Dos lados esquerdo e direito do trono, estão escritas em tengwar as palavras ditas por Elendil ao chegar à Terra-média – Sinome maruvan ar Hildinyar tenn´ Ambar-metta (“Neste lugar vou morar, e também meus herdeiros, até o fim do mundo”) – As mesmas que foram repetidas pelo Rei Elessar quando de sua coroação.

Et Eärello Endorenna utúlien. Sinome maruvan ar Hildinyar tenn´ Ambar-metta!

E essas foram as palavras que Elendil disse quando chegou do Mar nas asas do vento: “Do Grande Mar vim para a Terra-média. Neste lugar vou morar, e também meus herdeiros, até o fim do mundo.”

(Livro VI, Cap. 5)

Acima do trono, está a Árvore Branca de Gondor com sete flores e as Sete Estrelas que eram o emblema de Elendil e seus herdeiros.

Abaixo do trono, está uma joia verde que representa a vinda do novo Rei Elessar, o Pedra Élfica.

Por trás de tudo, é possível ver a Sombra de Mordor em forma humana gigantesca com o longo braço de Sauron esticado que terminava numa mão em forma de garras cruzando as montanhas, possivelmente remetendo a sua aparição final após o desfazimento do Um Anel:

E, quando os Capitães olharam para o sul, na direção da Terra de Mordor, tiveram a impressão de que, negro contra a cortina de nuvens, erguia-se um enorme vulto de sombra, impenetrável, coroado de relâmpagos, enchendo todo o céu. Enorme, levantava-se sobre o mundo, e estendia na direção deles uma grande mão ameaçadora, terrível mas impotente: pois no momento em que se debruçava sobre eles um forte vento o arrebatou, e o vulto foi completamente varrido para longe, e passou; e então um silêncio caiu.

(Livro VI, Cap. 4)

Conforme se vê, os desenhos que J. R. R. Tolkien fez para as capas de seus livros, cheios de detalhes importantes e místicas revelações, só demonstram o quão grandioso foi seu esforço de tornar tão maravilhosa a experiência de quem se aventura neste Reino Perigoso (Faërie).

Referências:

O Senhor dos Anéis (J. R. R. Tolkien);

As Cartas de J. R. R. Tolkien (editado por Humprey Carpenter com assistência de Christopher Tolkien);

J. R. R. Tolkien: Artist & Illustrator; The Art of The Hobbit; The Art of The Lord of The Rings (todos por Wayne G. Hammond e Christina Scull).

*Sérgio Ramos é membro da Tolkien Society e administrador do Tolkien Brasil. Servidor público, artista marcial e entusiasta de histórias de heróis.

*Sérgio Ramos é membro da Tolkien Society e administrador do Tolkien Brasil. Servidor público, artista marcial e entusiasta de histórias de heróis.

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  • Leonardo

    Artigo muito bem explicado, obrigado! =)

  • André Bento

    Excelente essa matéria!

  • Geraldo Peron

    Parabéns, ótimo artigo.