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Papa Francisco reconhece o “erro” que Tolkien apontou na tradução do ‘Pai Nosso’ em Inglês

 

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

O chamado “Pai Nosso” é conhecido como a oração mais importante ensinada por Jesus Cristo aos seus discípulos e que é repetida até os dias de hoje por Igrejas por todo o mundo. O problema começa quando justamente se pretende traduzir a oração em diversas línguas. Algumas delas podem conter “erros teológicos” que poderiam ser corrigidos com uma tradução mais equilibrada.

Em entrevista concedida em Dezembro de 2017, o Papa Francisco se manifestou quanto a tradução do Pai Nosso em versão do inglês, dizendo que havia imprecisões quanto a tradução que poderiam levar a erros teológicos. É justamente nesse sentimento que o Papa Francisco concorda com J.R.R.Tolkien, em um de seus estudos linguísticos realizado há mais de oitenta anos atrás sobre a tradução do Pai Nosso para o Inglês.

A seguir trataremos do tema das traduções do Pai Nosso visando contextualizar a ideia do Papa Francisco e em seguida apresentar a relação com o ensaio escrito por J.R.R. Tolkien sobre a tradução do Pai Nosso para a língua Inglesa.

O Pai Nosso e suas traduções

No sexto capítulo do Evangelho de Mateus, Jesus Cristo ensina aos seus seguidores como se deve realizar uma oração a Deus. Trata-se de um momento solene e de característica individual, onde o ser humano pode dirigir seus pedidos com reverência ao criador. Há uma crítica aos chamados hipócritas que usam da oração para se exibir a terceiros, mostrando em público como estão orando e como são fiéis a Deus. Dessa forma, é ensinado por Jesus que a oração deve ser um ato de humildade e que seja realizado em segredo: “quando orares, entra no teu quarto e, fechando a porta, ora a teu pai que está lá, no segredo; e teu Pai, que vê no segredo, te recompensará”.

Em seguida, o livro de Mateus apresenta o seguinte texto:

 “Nas vossas orações não useis de vãs repetições, como os gentios, porque imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos. Não sejais como eles, porque vosso Pai sabe do que tendes necessidade antes de lho pedirdes. Portanto, orai desta maneira: Pai nosso que estás nos céus, santificado seja o teu Nome, venha o teu Reino, seja feita a tua vontade, na Terra como no Céu. O pão nosso de cada dia dá-nos hoje. E perdoa-nos as nossas dívidas, como também nós perdoamos aos nossos devedores, E não nos submetas à tentação, mas livra-nos do Maligno”.

O texto em português utilizado acima foi retirado da Bíblia de Jerusalém e logo em suas notas ao versículo “E não nos submetas à tentação”, pode ser lido o seguinte:

“A tradução proposta é equivocada. Deus nos submete à prova, mas não tenta ninguém (Tg 1,12; 1Cor 10,13). O sentido permissivo do verbo aramaico, utilizado por Jesus, “deixar entrar” e não “fazer entrar”, não foi traduzido pelo grego e pela Vulgata. Desde os primeiros séculos, muitos manuscritos latinos substituem “Ne nos inducas” por “Ne nos patiaris induci”. Pedimos a Deus que nos livre do tentador e suplicamos a ele a fim de não entrar em tentação (cf. Mt 25,41), isto é, a apostasia”.

A nota da Bíblia de Jerusalém resume toda a controvérsia. O evangelho de Mateus foi escrito originalmente em língua Aramaica, sendo o sentido diverso do que foi feito na tradução para o Grego. Posteriormente, São Jerônimo traduziu a Bíblia do grego antigo para o Latim, na conhecida Vulgata Latina, e nesse processo manteve o mesmo sentido da versão em Grego e não no sentido aramaico. A Vulgata Latina se tornou a tradução mais utilizada pelos tradutores posteriores, sendo a Bíblia com grande número de cópias. O versículo em questão utiliza a sentença “et ne nos inducas in tentationem” que é uma tradução do grego “καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν” (kai me eisenenkeis hemás eis peirasmón), que seria traduzido como “E não nos induzas à tentação”.

As primeiras traduções do Pai Nosso para as línguas comuns (as línguas que não eram o latim), foram sendo realizadas por escribas medievais com base na Vulgata Latina. Existem várias traduções para o Inglês antigo e nenhuma é considerada oficial pela Igreja Católica. Eram feitas com a pretensão de trazer o entendimento dos fiéis ingleses.

No período Medieval, inicialmente temos a versão em gótico “Yah ni briggais uns in fraistubbnyai” (E não nos leve à tentação), em Anglo-Saxão, por volta de 995 como exemplo “And ne gelæd ðū ūs on costnunge”[1] (E não guia-nos à tentação) e também o mesmo verso “Ne læt usic costunga cnyssan to swiðe”[2] e diversas em Inglês Médio.

Chama atenção a tradução realizada pelo Rei Alfred de Wessex, conhecido como um dos maiores reis dos Anglo-saxões que resistiu a invasão dos Vikings à Bretanha. É uma das traduções mais antigas nessa língua e data de 875. A versão tomou como base a Vulgata Latina:

Fæder ure þu þe eart on heofonum;
Si þin nama gehalgod
to becume þin rice
gewurþe ðin willa
on eorðan swa swa on heofonum.
urne gedæghwamlican hlaf syle us todæg
and forgyf us ure gyltas
swa swa we forgyfað urum gyltendum
and ne gelæd þu us on costnunge
ac alys us of yfele soþlice

Posteriormente, em 1389, Wycliffe traduziu a Bíblia para o Inglês, também se baseando na Vulgata Latina, como “and leede us nat in to temptacioun”[3] (E não nos lidere para a tentação). Também tendo como a fonte de tradução o texto em latim de São Jerônimo, Tyndale (1526) traduziu o versículo como “leede vs not into temptacion” (não nos lidere à tentação).

Rei Alfred, o grande, um dos primeiros a traduzir o Pai Nosso para o Inglês Antigo. Na série The Last Kingdom.

E, por último, porém a mais relevante versão em Inglês da bíblia, a conhecida King James Version (1611) traduziu o versículo como “And lead us not into temptation.” (E não nos lidere à tentação). Essa tradução se popularizou entre os falantes de língua inglesa e se tornou consenso nas orações entre protestantes e católicos.

As várias edições da Bíblia tomaram como base a versão do Rei James e somente com a tradução da Bíblia autorizada pelo vaticano em 1966, a conhecida Bíblia de Jerusalém, apresentou um texto diferenciado para o versículo “And do not put us to the test” (E não coloque-nos ao teste).

A Bíblia de Jerusalém, publicada em 1966 no Reino Unido, com organização de Alexander Jones, foi a mais importante iniciativa católica inglesa para traduzir a bíblia. Na época, renomados estudiosos das línguas antigas foram convidados para trabalhar e dentre eles, o próprio J.R.R. Tolkien, que ficou encarregado de traduzir o livro de Jonas do Antigo Testamento. (você pode ler o artigo completo sobre a participação do Tolkien na tradução da Bíblia AQUI).Mesmo com a participação direta do Tolkien, o editor ou o tradutor do evangelho de Mateus e Lucas não devem ter contatado o autor do hobbit sobre o assunto e por isso a tradução se manteve ainda com os mesmos problemas.

Nas traduções em Espanhol e Português o problema da tradução parece não ter sido tão evidente. Algumas traduções em espanhol estão comono nos introduzcas en la tentación”, porém entre os católicos é costume usar “Y no nos dejes caer en tentación”. Da mesma forma, em língua Portuguesa, entre os católicos se utiliza a tradução “não nos deixeis cair em tentação”.

Ocorre que outras traduções do Pai Nosso, que também tiveram como base a Vulgata Latina, traduziram de forma similar a versão em inglês. Em Alemão foi traduzido como “und führe uns nicht in Versuchung”, em Italiano “non indurci in tentazione” e em Francês “Et ne nous soumets pas à la tentation”.

Observando essas traduções, o Vaticano tomou providências quanto ao Italiano e o Francês. Em 2008 a Conferencia Episcobal Italiana apresentou uma nova tradução do trecho que passa a ser usado como “non abbandonarci alla tentazione” (Não nos abandoneis à tentação). Já quanto ao Francês, em 3 de dezembro de 2017, entrou em vigor a nova tradução da sexta linha do Pai Nosso na França, que havia sido aprovada em 12 de julho de 2013 pelo Vaticano. Até então, os fiéis rezavam “Ne nous soumets pas à la tentation” (não nos induzam à tentação); Entretanto, a partir de então, os fieis católicos passam a usar “Et ne nous laisse pas entrer en tentation” (não nos deixes cair em tentação).

Das traduções mencionadas, resta ainda a nova tradução do Inglês e do Alemão e é nesse ponto que chegamos a fala do Papa Francisco e J.R.R. Tolkien, como será visto a seguir.

 

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem

 

O Papa Francisco e o comentário sobre as traduções do Pai Nosso

Em 7 de dezembro de 2017, foi noticiado pelo Vaticano que durante o programa “Padre Nostro”, transmitido pela TV 2000, o Papa Francisco se referiu à mudança introduzida na oração do Pai Nosso na língua francesa. O Pe. Marco Pozza, capelão da prisão em Pádua (Itália), perguntou ao Pontífice se Deus poderia induzir à tentação.

“‘Não nos induzas à tentação’. Aqui há amigos que não são crentes, ou também crentes, que às vezes dizem: ‘Deus pode induzir à tentação? ’”, perguntou o sacerdote e apresentador do programa “Padre Nostro”.

O Santo Padre respondeu que esta “não é uma boa tradução”. “Agora os franceses também mudaram o texto com uma tradução que diz: ‘não nos deixes cair em tentação’”.

“Sou eu que caio, mas não Ele não me empurra à tentação para ver como eu caí. Um pai não faz isso, um pai ajuda a levantar-se rapidamente”, afirmou. Nesse sentido, o Pontífice advertiu que “quem te induz à tentação é Satanás. Este é o trabalho de Satanás”.

O pronunciamento do Papa Francisco a respeito do tema está relacionado ao versículos bíblicos Tg 1,12 e 1Cor 10,13, que demonstram que Deus não tenta o ser humano a cometer o mal.

Não há indicativo de que o Papa Francisco tenha sido influenciado por Tolkien. Até mesmo pelo fato de que os documentos em que o autor trata sobre o assunto ainda não foram totalmente publicados. Contudo, é notório o fato que o líder maior católico leu as obras de J.R.R. Tolkien, o Hobbit e O Senhor dos Anéis e os citou em uma homilia de 2008.

 

J.R.R. Tolkien

Tolkien e a critica a tradução inglesa do Pai Nosso

Em seu tempo, é inegável que J.R.R. Tolkien foi o maior estudioso de línguas antigas relacionadas ao Inglês. Ele foi professor de Anglo-saxão em Oxford atuou no dicionário de Inglês Medieval. Foi responsável por diversas orientações acadêmicas e por trabalhar em manuscritos medievais, com foco especialmente no épico Beowulf.

Além de ser um renomado filólogo, Tolkien também foi um católico devoto e tradicional. E isso trouxe implicações em todos os âmbitos de sua vida, desde familiares, profissionais e em suas obras literárias.

Investigando sobre a controvérsia da tradução do versículo do Pai Nosso. O jornalista John R. Holmes analisou os manuscritos de Tolkien, encontrados nos arquivos da Biblioteca Bodleian, em Oxford no Reino Unido. O manuscrito Tolkieniano tinha como título “the history of the ‘Our Father’ in English,” (a história do ‘Pai Nosso’ em Inglês).

Em uma passagem que Tolkien escreveu há mais de 80 anos, ele observou que a palavra traduzida no inglês moderno como “tentação” já era problemática na tradução latina do Pai Nosso em grego “Tentatio”, escreveu Tolkien:

“(ou a temptatio não relacionada que foi confundida) foi uma boa tradução de [peirasmos] ‘um teste ou prova (de força ou valor)’ e já tinha começado por volta de1200 nos contextos bíblicos e teológicos.” [4]

A confusão, argumentou Tolkien,

“certamente fez ‘lead us no tinto temptation’ (não nos levar à tentação) ininteligível (de Deus), embora em todo caso esta petição continue difícil. Lead também não é a palavra certa – já que agora sugere a ação de um líder ou guia, frequentemente a ação sinistra de um enganador.”[5]

No início da primavera de 1936 – um ano antes da publicação de O Hobbit – Dom Adrian Morey da Downside Abbey em Bath enviou a Tolkien uma fotocópia de um antigo manuscrito inglês que ele havia encontrado no Museu Britânico e pediu o comentário de Tolkien.

O ensaio resultante ocupou pelo menos os próximos 30 anos da vida de Tolkien. O texto na Bodleian consiste em um grande volume de notas feitas em caneta azul em 1936, transferidas para datilografados em algum momento da década de 1940 e cobertas com emendas á caneta vermelha datadas de 1966. Quando Tolkien morreu em setembro de 1973, o estudo permaneceu incompleto, junto com vários de seus outros escritos. Um item da coleção que foi concluído, no entanto, revela a experiência de classe mundial de Tolkien em outra forma criativa: caligrafia. Aparentemente, o primeiro impulso de Tolkien em ver o fac-símile do manuscrito foi fazer um de seus próprios, em uma bela imitação do manuscrito anglo-saxão do século X. É, de fato, superior ao original e digno de enquadramento.

O encanto por Tolkien em relação ao Pai Nosso foi constante em sua vida. Ele aprendeu a oração com sua mãe ainda na infância e desde então foi sendo repetida todos os dias em suas orações na missa pela manhã ao acordar cedo.

Na década de 50 do século XX, Tolkien traduziu para o Quenya o Pai Nosso. Como forma de treinar aspectos linguísticos e no exercício de sua criatividade católica. Como parâmetro da tradução usou o texto em inglês de 1928[6] do livro das orações comuns da Igreja Católica.

Àtaremma i ëa han ëa,
na aire esselya,
aranielya na tuluva,
na kare indomelya,
cemende tambe Erumande.
Ámen anta sira ilaurëa massamma,
ar amen apsene úcaremmar,
siv’ emme apsenet tien i úcarer emmen.
Álame tulya úsahtienna
mal ame etelehta ulcullo.
Násie.

Segundo Tolkien, a língua Quenya seria o equivalente ao latim para os elfos da terra-média e númenorianos. Uma língua considerada antiga e elevada para solenidades. Tolkien também transcreveu a oração nos alfabetos dos elfos e também traduziu para a língua élfica Sindarin.

 

 

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[1] Corpus Christi College MS 140, ed. Liuzza, 1994.

[2] The Exeter Book, ed. Krapp and Dobbie, 1936

[3] Oure fadir that art in heuenes, halewid be thi name; thi kyndoom come to; be thi wille don in erthe as in heuene: gyue to us this dai oure breed ouer othir substaunce; and forgyue to us oure dettis, as we forgyuen to oure gettouris; and lede us not in to temptacioun, but delyuere us fro yuel.

[4] “(or the unrelated temptatio that was confused with it) was a good translation of [peirasmos] ‘a test or trial (of strength or worth)’ and was already beginning c. A.D. 1200 in English in scriptural and theological contexts.”

[5] The confusion, Tolkien argued, “has surely made ‘lead us not into temptation’ unintelligible (of God), though in any case this petition remains difficult. Lead is also no longer the right word — since it now suggests the action of a leader or guide, often the sinister action of a deceiver.”

[6] Book of Common Prayer (1928)Our Father, who art in heaven, Hallowed be thy Name. Thy kingdom come. Thy will be done, On earth as it is in heaven. Give us this day our daily bread. And forgive us our trespasses, As we forgive those who trespass against us. And lead us not into temptation, But deliver us from evil. For thine is the kingdom, and the power, and the glory, for ever and ever. Amen.

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REFERÊNCIAS:

 

1888 , The Gothic and Anglo-Saxon gospels in parallel columns with the versions of Wycliffe and Tyndale https://archive.org/details/gothicanglosax00ulfi

Papa Francisco fala sobre nova tradução do Pai Nosso em francês’ http://www.acidigital.com/noticias/papa-francisco-fala-sobre-nova-traducao-do-pai-nosso-em-frances-84772/

Vinyar Tengwar: The journal of the Elvish Linguistic Fellowship, a Special Interest Group of the Mythopoeic Society. Edited by Carl F. Hostetter. Crofton (Maryland): 1988

Pope Francis, J.R.R. Tolkien and the Lord’s Prayer commentary John R. Holmes, http://www.ncregister.com/daily-news/pope-francis-j.r.r.-tolkien-and-the-lords-prayer

Bíblia de Jerusalém, editor Paulus, São Paulo, 2002

The Jerusalem Bible, Alexander Jones ed., London, 1966.

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