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Novo Testamento Bíblico completo traduzido para a língua dos Elfos!

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É de conhecimento comum que as obras de J. R. R. Tolkien são lidas por milhões de pessoas pelo mundo, estando O Senhor dos Anéis entre as obras mais vendidas na história da humanidade. Algumas fontes até sugerem que O Senhor dos Anéis é o segundo livro mais lido do século XX.

Mas o fato é que o livro (ou conjunto de livros) mais importante da humanidade é a Bíblia. Não é necessário explorar aqui a sua importância, já que isso se torna evidente na civilização ocidental.

Desde que Johannes Gutenberg desenvolveu as primeiras máquinas de Imprensa, seu livro inicial relevante foi justamente a Bíblia. Durante cinco anos a Bíblia de Gutenberg foi impressa e finalizada em 1455. Foram um total de 180 exemplares na versão da Vulgata Latina, encomendados por um bispo da Igreja Católica.

Desde o surgimento da Imprensa, o livro mais adquirido até o momento é justamente a Bíblia. São bilhões de exemplares novos impressos, de uma forma que se torna difícil estabelecer uma quantidade certa de exemplares já feitos, isso se perde na história. Mas estima-se que cerca de 80 a 90 milhões de Bíblias são impressas a cada ano.

Por ser um católico praticante, Tolkien tinha algumas versões da Bíblia que costumava ler e fazer anotações. Ele tinha um profundo conhecimento dos textos bíblicos e até mesmo de questões relativas as línguas hebraica, grega e latina. O próprio Tolkien trabalhou como tradutor e consultor da versão inglesa da Bíblia de Jerusalém (1966), tendo sido o tradutor do livro de Jonas.

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem que Tolkien participou da tradução

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalém

Tolkien tinha como uma prática comum e um passatempo pessoal, a tradução de várias orações católicas para as línguas dos elfos. Foram traduzidos para o Quenya por exemplo o “Pai Nosso”, “Ave Maria”, “Litania de Loreto” e outros.

Em uma carta para Christopher Tolkien (que na época estava lutando na Segunda Guerra Mundial), Tolkien recomenda que seu filho decorasse algumas das orações preferidas e ressalta que fazia muito uso delas em latim:

“Se você já não o tiver, crie o hábito dos “louvores”. Faço muito uso deles (em latim): o Gloria Patri, o Gloria in Excelsis, o Laudate Dominum; o Laudate Pueri Dominum (do qual gosto especialmente), um dos salmos dominicais; e o Magnificat; também a Litania de Loretto (com a prece Subtuum praesidium). Se você os souber de cor, nunca precisará de palavras de júbilo. Também é uma coisa boa e admirável saber de cor o Cânone da Missa, pois você pode proferi-lo em seu coração sempre que circunstâncias contrárias impedirem-no de assistir à Missa. Assim termina Faeder lár his suna. Com muito amor”. (Carta 54)

Então já que Tolkien participou da tradução da Bíblia de Jerusalém e costumava traduzir para o Quenya as orações católicas, ele teria feito uma tradução da Bíblia?

Infelizmente não. Tolkien não tinha essa pretensão de traduzir a Bíblia para suas línguas criadas (ele não tinha tempo suficiente). Além disso existem poucos textos do Tolkien em suas línguas ficcionais, de tal forma que não se forma uma língua completa. Assim, coube a alguns fãs especialistas em línguas tentarem desenvolver as regras e novas palavras para essas línguas. Essas línguas do Tolkien com os complementos dos fãs são conhecidas como Neo-Quenya e o Neo-Sindarin.

Um conhecido nome entre os estudiosos do Neo-quenya é o noruguês Helge Kare Fauskanger, linguista especialista em línguas nórdicas antigas. No Brasil ele é conhecido por ter publicado o livro Curso de Quenya pela editora Arte e Letra.

Há alguns anos Helge Fauskanger, que não tem religião, iniciou o trabalho de traduzir a Bíblia dos originais (em grego) para o Neo-Quenya. Finalmente ele terminou o Novo Testamento (Vinya Vére) que pode ser baixado de graça em seu site pessoal sobre línguas AQUI.

Como se trata de uma tradução feita com o material de Neo-quenya é importante ressaltar que o trabalho é produto das analises do autor, sendo que muitas palavras foram desenvolvidas por ele e que não são encontradas como sendo do próprio Tolkien. Assim, os vários neologismos necessários para completar os textos foram marcados com asteriscos para serem destacados. Helge Fauskanger pretende fazer uma lista com todas essas palavras e explicar as razões de estarem nessa forma.

Helge Fauskanger especialista em línguas

Helge Fauskanger especialista em línguas

Fauskanger, mesmo não tendo religião, considera que traduzir a Bíblia para o Neo-quenya é algo para seu prazer pessoal, sendo um linguista e especialmente como um ato de se criar o que ele chama de um “monumento literário de nerdice”.

O início dos trabalhos ocorreu em 2007 com a tradução do livro de Apocalipse e foi finalizado em julho desse ano (2015) com Efésios, que contou com o apoio da também especialista em línguas Valeria Barouch.

Inicialmente Fauskanger utilizou como fonte para traduzir uma versão da Bíblia das Testemunhas de Jeová “Kingdom Interlinear”, que trazia o texto em inglês e grego palavra por palavra e a versão traduzida da Torre de Vigia. Porém, devido a questões teológicas colocadas nessa versão pelos organizadores, que não são comuns entre os cristãos, ele buscou a versão original em grego propriamente e até mesmo uma versão em hebraico do novo testamento. Para encontrar os sentidos das palavras para a tradução ele também buscou recursos em versões norueguesas e na versão “Bible In Basic English”.

Desde que começou o projeto vários novos manuscritos de Tolkien foram sendo publicados e assim questões gramaticais e palavras devem sofrer uma intensa revisão das traduções anteriores. Além disso, Helge informa que se aprofundou em Grego Koine e isso implicará revisões nas palavras de todo o trabalho. Assim, por ser uma versão que ainda não está completa, recomenda-se cautela para utilizar os textos.

Certamente Tolkien gostaria de ler uma versão da Bíblia em alguma de suas línguas élficas. Em suas cartas ele chegou a declarar que gostaria de ter em sua casa uma máquina de datilografar que tivesse as letras do alfabeto dos elfos. Porém, ele entendia que isso seria muito caro de ser feito na época.

Existem várias passagens do novo testamento que teriam uma atenção especial de qualquer católico como Tolkien. Por exemplo, o Magnificat, mencionado acima na carta que Tolkien recomenda ao seu filho que decore. Na tradução para o Neo-Quenya de Helge Fauskanger ficou assim:

46 Tá María quente: “Feanya laita i Héru, 47 ar fairenya ná mi alasse Eru *Rehtonyanen, 48 an ecénies *núreryo naldie. Ar yé! ho sí ilye *nónari estuvar ni valima, 49 an i Taura acárie túre cardali nin, ar aire ná esserya; 50 ar ter *nónaréli ar nónaréli oravierya ea issen melir se. 51 Acáries taure natali, ivinties i nar turinque endalto sanwessen. 52 Hantes undu taurali mahalmallon ar ortane naldali; 53 aquáties i maitar máre natalínen ar ementie oa luste i sámer lar. 54 Amánies Israel núroryan, enyalien oravie, 55 ve nyarnes atarilvain, Avrahámen ar nosseryan, tennoio.” (LUCAS 1:46-55).

Atualmente muitos padres e pastores, especialmente na Europa, utilizam as obras de Tolkien como fontes de aproximação dos jovens com a religião. Existem aqueles inclusive que fazem citações de textos da Bíblia em Quenya e quando o trabalho de Helge Fauskanger for completamente revisado, certamente será utilizado com frequência.

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Para saber mais como Tolkien participou da tradução da Bíblia de Jerusalém acesse AQUI.

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  • Ban dos Santos

    otimo post, excelente texto. uma pena eu não saber elfico