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Cartas de um diabo a seu aprendiz – O livro de C.S. Lewis dedicado a Tolkien

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É de conhecimento de todos os admiradores do professor Tolkien que ele tinha uma forte amizade com outro escritor também conhecido, o C.S. Lewis.  Tolkien adjetiva Lewis como um “grande amigo”, um “fã fiel”, um “admirador”, “infatigável homem”, “velho amigo”.

Além dessa amizade Jack (apelido de Lewis) foi uma das poucas pessoas que tiveram acesso aos manuscritos do Silmarillion e tomou conhecimento de O Senhor dos Anéis durante seu processo de escrita. De fato Jack escutou a maioria dos capítulos do Senhor dos Anéis em voz alta, pedaço por pedaço, e foi um grande incentivador para que Tolkien terminasse o livro (que demorou doze anos para ser escrito).

C.S. Lewis pode ser considerado não apenas o primeiro ‘fã’ de Tolkien, mas também seu grande amigo, que o confortava com suas conversas e gostos em comum em épocas solitárias durante a Segunda Grande Guerra. Ambos frequentavam o mesmo grupo de amigos conhecidos como os Inklings, que se reuniam com frequência no pub Eagle and Child em Oxford.

Em 1942, C.S. Lewis publicou um livro chamado “The Screwtape Letters”, traduzido no Brasil atualmente pela editora Wmf Martins Fontes como “Cartas de um diabo a seu aprendiz”. O livro foi dedicado ao seu amigo J.R.R.Tolkien.

No exemplar que Lewis deu ao Tolkien foi escrito o seguinte: “Em pagamento simbólico de uma grande dívida” (In token payment of a great debt). De fato, J.R.R. Tolkien foi uma das principais influências na vida de Lewis em termos literários e religiosos. O professor Tolkien teve participação ativa na conversão de Lewis ao cristianismo e seu mundo de fantasia influenciou a criação de Nárnia.

O livro Cartas de um diabo a seu aprendiz apresenta uma série de 30 cartas de um diabo sênior a seu aprendiz que tenta levar um homem britânico a condenação. Nessas cartas o diabo maior traça as principais artimanhas que um diabo tem que provocar no homem para que ele canha em tentação e no pecado.

As cartas foram originalmente escritas para o jornal The Guardian, mas depois reunidas e compiladas em livro. O sucesso do livro foi muito interessante, talvez até inesperado por C. S. Lewis, e esse foi o seu primeiro passo como escritor mais conhecido.

Opinião de Tolkien sobre o livro

 

Embora o livro seja dedicado ao Tolkien, isso não quer dizer que ele tenha gostado do livro. Em uma forma geral ele era um grande critico das obras de C.S. Lewis. Tolkien não gostava do uso de alegorias feitas por Lewis em Crônicas de Nárnia e discordava de seus preceitos teológicos.

Tolkien não expressou claramente sua opinião sobre o livro Cartas de um diabo a seu aprendiz, os únicos registros conhecidos, até o momento, são duas cartas (com conteúdo parecido).

A primeira carta foi endereçada a Michael Tolkien, em novembro ou dezembro de 1963:

“Além disso, ironicamente me diverti ao ver dito (D. Telegraph), que « o próprio Lewis nunca gostou muito de Cartas de um diabo a seu aprendiz’- seu best-seller (250.000). Ele o dedicou para mim. Eu me perguntava por quê. Agora eu sei – dizem eles.” (Carta 252).

Em um conteúdo similar, Tolkien escreveu a George Sayer, em 28 de Novembro de 1963, o seguinte:

“Mas então Jack (C.S. Lewis) nunca me mandou nada. Nem mesmo o Cartas de um diabo ao seu aprendiz, que ele dedicou para mim (sem permissão). Eu sarcasticamente me diverti ao saber do Daily Telegraph que ‘Lewis nunca gostou muito de seu trabalho’. Eu depois / muitas vezes [esta palavra é especialmente difícil de discernir] me perguntei por que a dedicatória foi feita. Agora eu sei, ou deveria.

A primeira referência sobre a opinião do Tolkien vem no livro The Inklings, do biografo Humphrey Carpenter. O autor conheceu o Tolkien pessoalmente e escreveu a primeira biografia do professor autorizada, tendo procedido com diversas entrevistas e acesso amplo a documentos pessoais. Humphrey Carpenter também foi o editor do livro As Cartas de Tolkien, que reúne mais de trezentas cartas do professor.

Assim, no livro The Inklings está escrito o seguinte:

“O próprio Tolkien não era de todo modo um entusiasta do livro, pois sendo alguém que acreditava profundamente no poder do mal ele achava uma tolice brincar com essas coisas e mais ainda desdenhar”. (The Inklings, Houghton Mifflin, p. 175)

Os biógrafos posteriores ao Humphrey Carpenter apresentam a mesma tendência de que Tolkien não teria gostado do livro, porém apresentando argumentos um pouco diferentes.

Segundo o biografo Michael White:

“Ironicamente, Tolkien não se importou com a história, considerando-a bastante banal e feita de maneira apressada. Em muitos aspectos, Tolkien era quase um católico fundamentalist. Acreditava que o diabo e seus demônios realmente existiam e, portanto, seria bastante temerário desdenhar de assuntos sérios como este”. (J.R.R.Tolkien, O Senhor da Fantasia, editora Darkside, p.133).

O Bradley J. Birzer, no livro “J.R.R. Tolkien’s Sanctifying Myth” apresentou de forma mais agressiva a ideia de que Tolkien não gostou do livro:

A dedicatória de Lewis enfureceu Tolkien, pois o livro perturbava-o profundamente. Como o Lewis poderia mergulhar tão profundamente nas artes do Inimigo, Tolkien deve ter se perguntado? Inequivocadamente, Tolkien desaprovava tais empreendimentos — mesmo quando realizada por bons cristãos como Lewis”.

Com os trechos das cartas do Tolkien citadas acima não se pode concluir que o professor tenha ficado enfurecido com a dedicatória feita pelo Lewis, apenas que ele não gostou de não ter sido comunicado sobre isso. Assim, Bradley J. Birzer em seus argumentos ultrapassa um pouco a linha do possível para o que ele acha que o Tolkien pensaria.

Assim, há uma certa concordância entre os biógrafos que o Tolkien não gostou do livro, em especial por seu aspecto religioso, mas não sabemos ao certo sua opinião diretamente por ausência de documentos deixados.

De todo modo, a leitura do livro é interessante para aqueles que desejam compreender um pouco mais sobre o escritor C.S. Lewis e tentar entender por que Tolkien não gostou do livro. Para quem é cristão é uma leitura praticamente obrigatória, o livro é uma história muito intrigante e mostra pontos de alto interesse religioso.

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A edição brasileira

 

A primeira publicação no Brasil de Cartas de um diabo a seu aprendiz ocorreu em 2005 pela editora Martins Fontes e logo mais re-publicada pela editora Wmf Martins Fontes.

A edição é baseada na versão do sexagésimo aniversário da obra, que inclui pela primeira vez “Fitafuso propões um brinde”, no qual o notório Fitafuso oferece um jantar aos jovens demônios na Faculdade de Treinamentos de Tentadores.

A Claire Scorzi apresente em seu canal no youtube uma série de resenhas dos livros de C.S. Lewis. Confira abaixo a vídeo resenha do livro Cartas de um diabo a seu aprendiz:

É importante lembrar que em outubro de 2009, foi lançado o audio book (em inglês) do livro e o personagem principal da trama foi interpretado por Andy Serkis (o ator que interpretou e dublou o Gollum nos filmes do Senhor dos Anéis e O Hobbit). Confira um pequeno vídeo da produção do audiobook AQUI.

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