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John Boyega, ator de Star Wars critica O Senhor dos Anéis por falta de diversidade!

Em entrevista para a revista “GQ”, publicada em 16 de julho de 2017, o ator John Boyega, que participa da nova trilogia de “Star Wars”, criticou a série “Game of Thrones” e os filmes de O Senhor dos Anéis pela falta de atores pretos em seus elencos.

“Não há pessoas pretas em ‘Game of Thrones’. Você não vê uma pessoa preta em ‘O Senhor dos Anéis”, disse Boyega. “Não estou pagando para sempre ver só um tipo de pessoa na tela. Você vê diferentes pessoas, de diferentes origens e culturas, todos os dias. Mesmo se você é racista, é preciso viver com isso.”[1]

Evidente que o ator está falando sobre os filmes de O Senhor dos Anéis (e provavelmente estendendo para O Hobbit). As adaptações feitas pelo diretor Peter Jackson tem diversas alterações que não são propriamente baseadas nas obras de Tolkien. Contudo, por se tratar de uma adaptação de uma obra literária, muitas pessoas acabam por tomar aquelas imagens como sendo a representação dos livros. Ou seja, chegam a conclusão que se não ha diversidade nos filmes isso e gracas aos livros que não tem.  O que não deixaria de acabar chegando as obras de Tolkien. E dentro desse tema polemico surgem acusações de todos os tipos em desfavor do seu autor.e por isso é necessário esclarecer o tema.

Esse tipo de questionamento sobre a obra máxima de Tolkien é sempre constante. Aquele tipo de assunto que sempre volta para as pessoas que não conhecem a vida e a obra do professor. Por isso é bom esclarecer alguns pontos para evitar qualquer associação da obra do Tolkien a essas ideias tão abomináveis.

O primeiro ponto é deixar claro que J.R.R. Tolkien não era racista, não defendia o racismo e muito menos tinha alguma forma de preconceito baseado em ideias desse tipo. Um longo artigo foi escrito para justamente mostrar que a mãe do Tolkien não era racista e ficou impressionada quando teve que morar no sul da África, onde havia uma clara divisão entre brancos e pretos (que gerou o Apartheid).  Além disso, em várias ocasiões o Tolkien se posicionou contrário ao racismo, declarando verdadeiro ódio ao mesmo. Então recomenda-se a leitura atenta do artigo sobre Tolkien e o Apartheid AQUI. Alem disso, Tolkien se posicionava totalmente contra o nazismo e suas ideias, como pode ser visto AQUI.

Visto que o autor do Senhor dos Anéis não defendia e não era racista. Questiona-se então as razões de não existir, por exemplo, um protagonista preto ou mesmo um asiático em suas obras. Por que Tolkien não explorou a diversidade de suas obras¿

Primeiramente é preciso entender o contexto e o que se pretendia ao iniciar os livros. A ideia inicial de Tolkien era criar uma mitologia que fosse dedicada ao seu país. Ou seja, uma mitologia que fosse cercada de elementos que se voltassem a região onde ele morava. Nisso dentro de uma ideia de patriotismo. (você pode ler mais sobre essa ideia de Tolkien e sua mitologia para a Inglaterra me nosso artigo AQUI).

Visto que a histórias tem esse vinculo com uma região setentrional (e não nórdica), como ele mesmo chamava, não parece estar relacionada com outras regiões do mundo. Ou seja, as histórias são vistas com um pensamento ‘eurocêntrico’ por assim dizer.

Além disso, a cronologia do mundo criado por Tolkien é na verdade o passado mitológico de nosso próprio mundo. Ou seja, é como se fosse um passado imaginário do planeta terra. Onde, segundo o Tolkien estaríamos na sexta ou sétima era do sol (três ou quatro eras após os acontecimentos que levaram a destruição do anel). Segundo o próprio Tolkien, por exemplo, o condado onde viveram os Hobbits se localiza basicamente na Inglaterra. (Veja mais sobre esse assunto AQUI).

Então se o autor pretende construir histórias de um passado mitológico, que tem relação com a região setentrional europeia, é uma questão de observação histórica não incluir pessoas de outras etnias naquele tempo. Tolkien utilizou muitas características do período medieval da Inglaterra e por isso a obra tem vários elementos que a evocam. Por exemplo, era algo altamente raro uma pessoa preta na Inglaterra naquela época.

A Inglaterra só tem seus primeiros relatos de pessoas assim na época do Rei Henrique VIII e Rainha Elisabeth I, nos séculos XVI e XVII, o que demonstra que o contato com as pessoas com esse perfil em épocas que as navegações estavam ampliadas por todo o mundo. E até hoje a grande maioria da população Inglesa é constituída de brancos, enquanto que apenas 2% são pessoas pretas descendentes de africanos e caribenhos.

Então, fazendo uma analogia. Se um japonês quisesse criar uma mitologia para o Japão, tendo aquele país em seu passado mitológico não seria muito coerente colocar em suas histórias personagens protagonistas vindos de lugares que só tiveram aproximação recentemente. Ou mesmo se um escritor de algum pais africano desejasse escrever uma mitologia para seu pais que tratasse de uma época ocorrida a mais de dez mil anos atras, certamente não haveria representação de uma pessoa branca, pois esse contato só ocorreu em tempos recentes. Ou ainda para deixar bem evidente, um brasileiro que quisesse escrever uma mitologia para os índios brasileiros, certamente não contemplaria os brancos por ser uma historia ocorrida em um tempo muito remoto ao primeiro dia que os portugueses chegaram na América do sul.

Um questionamento parecido aconteceu com o escritor George R. Martin. Onde um leitor questionou por que não tem asiáticos em suas histórias. Ao que o autor de Crônicas de Gelo e Fogo respondeu:

“Bem, Westeros é análoga a uma versão fantástica das ilhas britânicas em seu mundo, por isso é um longo, longo caminho até a Ásia. Não havia um monte de asiáticos na Inglaterra York também[2].

A resposta parece semelhante ao que o próprio Tolkien poderia afirmar. Tem a mesma lógica e argumento semelhante. Contudo, as situações de Martin e Tolkien são diferentes. Tolkien era um inglês, enquanto que Martin não. Além disso, Tolkien iniciou sua obra por um sentimento de patriotismo e em uma época que esse ideal era ainda mais aguçado por causa da guerra mundial (Tolkien foi um soldado na primeira guerra mundial), como pode ser observado nesse artigo sobre o Tema AQUI. Existe todo um contexto para explicar as razões de Tolkien e tudo aquilo que ele colocou em suas obras, que passou praticamente sua vida inteira para escrever.

Além disso tudo, Tolkien não projetava detalhes sobre características de seus personagens. Em alguns casos ele praticamente ignorava detalhes sobre como eram portes físicos e focava mais em detalhes do seu mundo. Alguns personagens são inclusive representados como tendo pele morena ou escura (e isso geraria um artigo enorme no site, mas não vou me estender muito aqui, pois sera feito posteriormente). Dentre eles pode ser destacado o Beorn, que é representado na obra de O Hobbit como tendo uma pele escura e na ilustração de John Howe pode ser vista a representação abaixo:

Certamente esse personagem poderia ser uma pessoa preta nos filmes de o Hobbit. Mas ao que parece, o diretor trouxe uma imagem que nem mesmo os fãs esperavam para o personagem.

As obras de Tolkien demonstram justamente uma ideia do Tolkien de que vários povos, mesmo que de diferentes culturas (anões, elfos, hobbits, humanos etc) podem se unir para um bem comum e lutar contra o mal. Ou seja, as obras pregam justamente a diversidade, a pluralidade de ideias, o convívio de pessoas diferentes em um universo cheio perigos estranhos.

Além de todos os pontos apresentados, deve ser destacado que o motivo principal de suas obras, em especial o Senhor dos Anéis, foi simplesmente fazer com que os seus leitores se divertissem. E assim, Tolkien não pretendia apresentar ideias  de moral, critica social, politica, religião etc. Ele queria `apenas` escrever historias que todos pudessem ler e se divertir. Veja mais sobre o motivo da obra nesse artigo AQUI.

Enfim, esse tipo de acusação se torna infundada quando se busca conhecer um pouco mais sobre as obras de Tolkien e o que se pretendia com elas.

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NOTAS

[1] “There are no black people on Game of Thrones,”  “You don’t see one black person in 
Lord of the Rings.” “I ain’t paying money to always see one type of person on-screen,” says Boyega. “Because you see different people from different backgrounds, different cultures, every day. Even if you’re a racist, you have to live with that.

[2] Well, Westeros is the fantasy analogue of the British Isles in its world, so it is a long long way from the Asia analogue. There weren’t a lot of Asians in Yorkish England either. (http://grrm.livejournal.com/375353.html?thread=19273017#t19273017)

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6 comentários

  1. Douglas Melo /

    Aném, mano.
    Um ambiente como o de Star Wars é totalmente plausível que se tenha diversidade étnica, mas em obra como SdA não faz nem sentido. É baseado num período antigo da Europa, em que eles não conheciam outros povos, não faz nem sentido a crítica do ator…
    Poxa, Boyega.

    • Pérsio /

      Exato!
      Em Star Wars tudo bem. Mas num cenario de fantasia, baseado numa Europa medieval, seria muito difícil encontrar pessoas de outras etnias. Faltou um pouco de atenção para o Boyega.

  2. Pérsio /

    Concordo que Tolkien não era racista. Aliás, muitos escritores de fantasia tomam como cenário de fundo algo muito parecido com a Europa, durante a Idade Média (476-1453). Naquela época, não havia grande “diversidade étnica” na Europa. Como bem lembrou o autor do artigo, Tolkien era CONTRA o nazismo e nas suas histórias aparecem anões, elfos e humanos. Muitas vezes, lutando lado a lado contra o Mal.

  3. Davi Bastos /

    Bons argumentos. Contudo, na obra de Tolkien aparecem sim povos de pele escura, especialmente homens, e, tanto no SdA como no Silmarillion eles são maus e se aliam com o inimigo. O povo de Uldor no Silmarillion é caracterizado como traidor e desonrado, não podendo ser incluído nas casas dos Edain. O mesmo se aplica aos orientais no SdA, que são análogos aos persas e aos muçulmanos e aliados de Sauron.

  4. SDA é ambientado em ym mundo europeu ancestral e não tem contato com a África não existem negros na europa s mrsmo os mitológicos que tolkien aborda não existem elfos negros na mitologia tolkiana

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