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Tolkien entre a direita e a esquerda: Entrevista com a Princesa Vittoria Alliata, tradutora na Itália

Princesa Vittoria Alliata

by Eduardo Stark

Tolkien é um homem de tradição e não um homem de revolução. Devemos deixar isso bem claro”. Com essas palavras enfáticas, a princesa Vittoria Alliata apresenta um resumo de sua luta contra duas correntes revolucionárias. De um lado a direita e de outro a esquerda na Itália e no meio a tradutora de O Senhor dos Anéis.

Certamente, o desejo de muitos fãs de J.R.R. Tolkien seria o de ter algum contato com o autor. Infelizmente Tolkien faleceu em 1973 e restam poucas pessoas que tiveram contato pessoal com ele. Uma dessas pessoas agraciadas é a princesa Vittoria Alliata, que fez a primeira tradução para o italiano de O Senhor dos Anéis, que foi elogiada e aprovada pelo próprio Tolkien.

Vittoria Alliata de Villafranca e Valguarnera nasceu em Genebra em 23 de janeiro de 1950. Ela é escritora, tradutora e jornalista na Itália, especialista em direito islâmico, escreveu diversas obras a respeito e traduziu livros para o Italiano. Em sua adolescência começou a trabalhar como tradutora e um dos seus primeiros trabalhos foi a tradução de O Senhor dos Anéis.

Vittória Alliata é uma descendente de família nobre. Ela é filha do príncipe Francesco Alliata Villafranca e primo de Dacia Maraini. Essa é uma das famílias mais antigas da Europa com vínculos na Grécia antiga e tem relações histórias com a Itália desde a época do imperador romano Constantino (século IV). Um de seus notáveis membros foi o Santo Dacio Agliati, que foi arcebispo de Milão no século VI e lutou contra diversas heresias de sua época e defendeu o Papa Vigílio. Na idade média, os irmãos Gaspare, Melchiorre e Baldasserre Alliata foram lutar nas Cruzadas em favor dos peregrinos que estavam sendo atacados por muçulmanos. Outro membro dessa família que se notabilizou foi o Beato Signoretto Alliata,que ajudava pobres e excluídos em hospitais na Sicilia, quando partiu a fim de catequizar as pessoas no deserto do norte da África, onde foi atacado por um grupo de muçulmanos e foi considerado mártir pela Igreja Católica. Outro conhecido foi o capitão Leone Alliata, que em 1274 defendeu Constantinopla contra os ataques bárbaros e é daí que o ramo da família se estabeleceu em Pisa, logo depois partindo para a Sicilia, onde a família ainda permanece até hoje. No século XV, Francesco Alliata conseguiu o título de príncipe pelo Rei Felipe III da Espanha e no século XVII a família recebeu do rei Carlos III o título hereditário do Reino da Sicilia, cargo ocupado até 1838.  

Se os antepassados de Vittoria Alliata lutaram bravamente no passado contra as ameaças ao seu povo, agora parece que a princesa está em mais uma guerra, dessa vez pela tradução de O Senhor dos Anéis.

Em 19 de janeiro de 2019, ocorreu uma reunião na Biblioteca do Senado, onde o tema central era “a politização de O Senhor dos Anéis”. Atendendo a convite do Senador Maurizio Gasparri, um grupo de estudiosos e jornalistas contou a história editorial das obras de Tolkien na Itália, defendendo a tradução de Vittoria Alliata di Villafranca e rejeitando a decisão da editora Bompiani de retraduzir os três livros do Senhor dos Anéis.

Em contato com Vittoria Alliata, o site Tolkien Brasil, representado por seu fundador Eduardo Stark, realizou uma entrevista para esclarecer o que se passa na Itália e como a tradutora atuou nas obras do Tolkien. Certamente será apresentada aqui a versão dos fatos segundo a entrevistada. Maiores informações e complementos poderão ser publicados no site posteriormente em outro momento.

A entrevista tem seu valor para entender um pouco mais sobre o que se passa sobre Tolkien na época em que a tradutora teve contato com o autor.Além de apresentar novas informações sobre o tema, a princesa relata dados que ainda não tinham sido publicados anteriormente.

Primeiramente, a tradutora fala sobre sua carreira e como se tornou tradutora ainda muito jovem, aos quinze anos de idade. O fato de pertencer a uma família de nobres possibilitou um bom estudo na juventude e a possibilidade de estar em contato com editores:

Eu me tornei uma tradutora ainda muito jovem, pois eu aprendi muitas línguas com minhas babás, e na escola de Francês, e depois consegui minha proficiência Cambridge em Inglês. Na época eu tinha quinze anos. Também estudei na escola de interpretes, onde me graduei em interpretação e tradução simultânea. Em diversas línguas Francês, Românico, Espanhol e, claro, Inglês. Então eu comecei a traduzir para várias editoras, ainda com quatorze ou quinze anos. Comecei com coisas simples e então pensei em traduzir coisas mais importantes e comecei a entrar em contato com os editores. E foi assim que tive contato com a editora Astrolabio, que sugeriu esse livro [O Senhor dos Anéis], que na época não era tão conhecido como hoje. Eles me deram o primeiro volume para tentar trabalhar no primeiro capítulo e também me deram algumas partes do Apêndice, para depois mandar para eles avaliarem e enviarem para o próprio autor [Tolkien}, que iria julgar e avaliar o texto. Ele estava muito bravo, pois as duas primeiras traduções não foram como ele esperava e ele queria que fosse assegurado que a tradução seguisse a risca as suas regras. Ele tinha suas próprias regras para a conversão do espírito de sua obra”.

Quanto aos critérios utilizados na tradução e aprovação do Tolkien sobre a tradução, a tradutora Vittoria explica o que observou naquela época e apresenta a importância sobre o tema para o professor J.R.R. Tolkien:

Eu sei que Tolkien apreciou minha tradução, e seu filho Michael Tolkien disse que apreciou tremendamente e foi aprovado por seu amigo que era um professor de italiano em Oxford. E claro que naqueles dias ele ainda era um autor desconhecido em grande parte da Europa. E era extremamente difícil de traduzir, não pelas próprias dificuldades da língua ou apenas por causa das diferenças, mas também por que ele esperava que o tradutor desse ao leitor a impressão que Tolkien não fosse um estrangeiro, distante, de um mundo desconhecido. Mas ao invés disso, ele desejava uma conexão direta com o próprio passado e os ancestrais míticos. Algo que atingisse cada um dos leitores. Então, meu trabalho, com a idade de quinze anos, quando o fiz, foi tornar atrativo e divertido os elementos contidos no texto. E ao mesmo tempo evidenciar sua profundidade, com um excêntrico e exótico impacto inglês. Mas tentando tornar em algo que influenciou Tolkien, com a dimensão épica de Virgilio. Especialmente Virgilio, uma de suas inspirações. Então, converter isso para o italiano foi usar a língua em uma forma evocativa, uma espécie de balada, uma novela época. Eu me inspirei na forma de escrita do Dante, em que os italianos poderiam estar mais relacionados. E estou convicta que o sucesso da tradução e o motivo do ataque é pelo fato de que é muito italiana. Pois ela prende o leitor italiano e não espera que o leitor seja um especialista em sagas pagãs e nórdicas. Não pressupõe que o leitor seja um fã ou conhecedor da grã-bretanha, ou mesmo que tenha lido uma de suas lendas britânicas. Ele te apresenta ao mundo, que é o seu mundo. Você se sentirá lutando em uma experiência planetária.

Quanto a questão dos nomes de O Senhor dos Anéis, o tema parece ser de grande importância para a tradutora Vittoria Alliata. Ela apresenta como sua tradução foi modificada por pessoas da direita na Itália e como agora as pessoas da esquerda pretendem, segundo ela, realizar a mesma coisa.

Nesses últimos meses, meus inimigos em comum decidiram que minha tradução tem que ser condenada. Por que não é uma tradução marxista/maoista. E Tolkien é, de acordo com eles, um escritor marxista, que foi capturado e usado pelos fascistas e neonazistas. E então eles pretendem destruir minha tradução e tudo o que foi construído nesses longos anos, protegendo Tolkien por mais de cinquenta anos. E agora estamos vendo uma manipulação política, por pessoas que acham que estão perdendo o poder na Itália e talvez em toda a Europa. Eles estão tirando do seu contexto real e tentando fazer do Tolkien um tipo de marionete política. É uma operação desprezível. E estamos lutando contra isso.

Quanto as manipulações que sua tradução sofreu no passado pelo que ela chama de “extrema-direita”, ela explica que o seu original foi modificado em várias partes, especialmente quanto aos nomes dos personagens e criaturas:

De fato, a forma como eu traduzi o livro e todos os nomes quando Tolkien me deu esse documento especial em como traduzir nomes específicos. Centenas deles. Ele foi muito preciso em explicar como ele queria cada nome inventado fosse traduzido em língua estrangeira. Para que o livro não parecesse distante dos leitores. O sucesso do livro, com várias edições da minha tradução, prova que eu estava correta. E até mesmo pelo fato de que foi criticada, no princípio pela extrema direita, pelo curador que desejava tornar a obra mais britânica e mais pagã, uma obra pagã. E evidente que Tolkien não era um autor pagão, ele era um grande fiel católico. Então a ideia do curador era transformar a obra em um livro pagão, ele interferiu em minha tradução, após a morte do Tolkien. Assim, após 1973, minha tradução foi manipulada politicamente para uma forma ideológica pagã de extrema direita. E agora ocorre o posto. Acho isso tudo incrível, mas acho que é a prova que é uma tradução razoável, que merece ser anotada por novas descobertas. Pois claro que, naquela época não existiam outras edições e nenhum livro sobre Tolkien. E ele era uma pessoa muito discreta. Que não aparecia e ele quase não dava entrevistas. Então não sabíamos muito e não tinha internet e poucos jornais falavam das histórias. Então as coisas surgiram com milhares de livros, que poderiam ser parte de uma tradução anotada da obra que mantivesse a identidade original que eu fiz.

Ainda sobre o tema, Vittoria esclarece que parece ocorrer o mesmo tipo de ação em relação a tradução do Tolkien. Ela explica sobre como realizou seu trabalho em meio a uma dificuldade da época por ausência de recursos:

Eu fui a primeira tradutora para a qual o guia dos nomes foi dado por Tolkien. E foi deixado claro por ele que eu deveria respeita-lo cem por cento. E uma das lutas com a nova tradução é que eles querem deixar todos os nomes em inglês. Ironicamente, essa é a mesma luta que eu tive na década de 70. Quanto tempo se passou! Eles estavam tentando tornar o livro em uma espécie de mito céltico ou algo muito nórdico, o que Tolkien não desejava. Pois uma de suas razões que ele considerou é uma direção â nossa vida e a resolução dos problemas naquele tempo. Essas eram as ideias dele. Mostrar uma saga medieval que passou muitos anos até chegar a algo que todos pudessem entender.  Assim, ele se preocupava com os nomes. Ele me enviou vários detalhes de como gostaria que cada nome fosse traduzido, mais ainda do que já foi publicado pela Tolkien Estate. Mas infelizmente eu devolvi para o editor. Naquela época não havia a possibilidade de se fazer fotocópias. Naquele tempo haviam duas traduções feitas, uma delas é a sueca que Tolkien não gostou. Foi muito difícil, pois eu não tinha nenhuma referência, eu trabalhei sozinha e tinha apenas o contato do Tolkien, através dos editores italianos. E foi muito satisfatório o fato de que ele amou o que eu fiz e foi uma grande honra para mim.

A Princesa nunca veio ao Brasil, porém possui alguns conhecidos. Começando pela família Matarazzo, que são seus parentes por parte de avô e tem primos morando no Brasil. Além disso, a princesa diz tem estima pela família imperial brasileira, como diz “Eu sou uma grande amiga da família imperial brasileira. Sou uma grande amiga dos Orleans e Bragança e seus membros espanhóis e franceses”.

Acompanhando as notícias sobre as eleições 2018 no Brasil, Vittoria Alliata ficou surpresa com o fato de que após mais de cem anos de golpe militar e deposição da monarquia, o príncipe Luiz Felipe de Orleans e Bragança foi o primeiro a conseguir um cargo de destaque na república. Foi assim que ela se lembrou das histórias antigas que envolvem as famílias nobres europeias. E narra o seguinte:

Luiz Felipe [rei da frança de 1839 a 1848] foi um apoiador da minha família. Ele veio e ficou aqui em minha casa, onde ele conheceu sua esposa Maria Amélia [de Nápoles e Sicília], embora seus parentes, que eram os Bourbon, fossem contra o casamento. Mas eles foram convencidos. Eles eram contra o casamento por que ele era filho de Luiz Felipe Igualdade (Philippe Égalité), que era apoiador da guilhotina, que decepou Maria Antonieta. Mas eles convenceram para que Maria Amélia se casasse. E nessa casa eles tiveram o começo de uma bela história de amor. Eles escrevem em suas memórias que foi aqui que o destino da Europa foi mudado. Então, talvez esse também chamado de Luiz Felipe de Orleans, irá mudar o destino da América latina. Assim eu tenho esperança.

O deputado Luiz Felipe Orleans tem como nome Luiz Philippe Maria José Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orléans e Bragança, nasceu em 3 de abril de 1969 e é um empresário brasileiro, cientista político que é príncipe de Orléans e Bragança no Brasil e França. Descendente dos imperadores Dom Pedro I e Dom Pedro II e sobrinho do príncipe Dom Luís Gastão de Orléans e Bragança, atual chefe da casa imperial do Brasil. Luiz Phillipe é autor do livro “Por que o Brasil é um país atrasado? – o que fazer para entrarmos de vez no século XXI” (2017). Em 2018 foi eleito para o mandato de Deputado Federal no Brasil, sendo o primeiro membro da família imperial brasileira a ocupar um cargo político de relevância desde a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889.

Embora a princesa italiana Vittoria Alliata tenha suas relações com a monarquia, evidentemente por ser uma descendente. Ela deixa claro que como tradutora pretende que as obras se mantenham o mais coerente possível com o que Tolkien desejava. Diante desses conflitos e insegurança, ela entrou em contato com a família Tolkien para ficarem cientes do que ocorre na Itália.

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