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Entrevista com José Manuel Ferrández, autor do livro “Uncle Curro, J.R.R. Tolkien’s Spanish Connection”

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

Até pouco tempo atrás uma figura permanecia misteriosa para aqueles que conheciam a história da vida de J.R.R. Tolkien.  As informações sobre o Padre Francis Xavier Morgan (1857-1935) eram poucas e dispersas. Sabia-se que ele tinha origens espanholas e que foi o tutor do Tolkien desde sua infância até a idade adulta. Esse clérigo católico exerceu forte influência na vida do autor de O Senhor dos Anéis e saber mais sobre ele é também conhecer mais sobre tudo o que veio depois.

Recentemente o estudioso Tolkienista José Manuel Ferrández Bru, residente da Espanha, decidiu investigar mais sobre a vida desse padre. Resultado disso foi a publicação do livro “El Tío Curro. La Conexión Espanola de J.R.R. Tolkien” que atualmente ganhou nova edição em espanhol e a primeira versão em inglês “Uncle Curro. J.R.R. Tolkien’s Spanish Conection”.

A seguir teremos uma breve entrevista com o autor José Manuel Ferrández Bru sobre o livro e suas ideias tolkienianas. A entrevista foi realizada em 5 de maio de 2018.

A história de Ferrández com Tolkien é bem antiga e está relacionada com a propagação das obras do Tolkien na Espanha, em uma época bem anterior ao sucesso cinematográfico de O Senhor dos Anéis. Conforme ele relata: 

Conheci Tolkien quando li O Senhor dos Anéis aos 13 anos e fiquei fascinado. Desde então me dediquei em conhecer outras obras suas conforme eram publicadas na Espanha. Com apenas 20 anos, comecei a organizar a Sociedade Tolkien Espanhola e, desse modo, tornei-me seu primeiro presidente. Isso aconteceu no início dos anos noventa. Desde então até agora me dediquei mais a viajar pelos lugares “Tolkienianos” e a tentar dar minha pequena contribuição na área de pesquisa sobre este autor e suas influências.[1]

Algumas coisas parecem ser coincidência ou acontecerem naturalmente, parece ter sido o caso do início dos trabalhos de Ferrández. Questionamos “Como foi o início da investigação da vida do Padre Francis Morgan?” e o autor respondeu o seguinte:

Preparando uma viagem para a Inglaterra em 2004, descobri no site do Birmingham Oratory um artigo sobre ele que mencionava seu segundo sobrenome: Osborne. Este sobrenome é o de uma marca muito importante de bebidas e muito popular na Espanha (seu logotipo, um touro, é de fato um ícone informal da Espanha). Entrei em contato com essa empresa para saber se eles sabiam alguma coisa sobre o padre Francis e o presidente me respondeu pessoalmente: “quem quer saber sobre meu tio Curro”. Eles não sabiam nada sobre seu relacionamento com Tolkien. Então eu descobri que eram duas pessoas em uma, uma na Inglaterra e uma na Espanha e esses mundos estavam vinculados um ao outro. Eu também descobri importantes precedentes culturais em sua família com certa semelhança com as ideias de Tolkien e, apesar de tudo, achei que era uma história que valeria a pena ser contada.[2]

Com esses detalhes podemos entender como Tolkien se tornou um apreciador de bebidas, por influência do Padre Francis Morgan, vindo de uma família de especialistas e empreendedores na área. A companhia Osbourne foi fundada na Espanha em 1772, pelo Inglês Thomas Osborne Mann, e é a segunda empresa mais antiga ainda ativa naquele país e uma das mais antigas do mundo (sendo a 94ª posição no ranking mundial). A empresa se dedica a produzir vinho e outras bebidas alcoólicas e mais recentemente água mineral. O símbolo da empresa é bem conhecido na Espanha por ter relação com a cultura local ao touro. O atual diretor da empresa é Tomás Osborne Gamero-Civico, desde 1996. A conexão familiar do Padre Francis Morgan com essa empresa é que ele era neto do fundador inglês Thomas Osborne Mann. A empresa passou de geração em geração e na época em que o Padre Francis Morgan estava vivo predominou a direção da empresa Tomás Osborne Guezala, o conde de Osborne.

Antes de qualquer coisa tentei fazer com que se conheça seu trabalho como o tutor de Tolkien de forma justa. A maioria das pessoas conhecem apenas a história de como ele agiu diante do caso de amor de Tolkien (que, em qualquer caso, deve ser avaliado de acordo com os parâmetros do tempo e de acordo com o benefício obtido por Tolkien ao adiar seu relacionamento e entrar em Oxford). Mas, além disso, sua influência pessoal também foi notada no Tolkien adulto (como conta Priscilla Tolkien no livro) e a influência intelectual é extremamente importante, tanto como transmissor das ideias do Cardeal Newman quanto do complicado período de mudanças na Igreja Católica durante os anos de formação de Tolkien, bem como sua própria herança intelectual.[3]

Sobre como se deu as pesquisas e todo o trabalho em torno da obra o autor José Ferrández nos conta o seguinte:

A investigação inicial durou aproximadamente um par de anos (considerando que é uma dedicação em meio período). Assim, escrevi uma versão inicial que eu apresentei a um famoso prêmio de biografia na Espanha e estava entre os finalistas. Sem nunca parar de pesquisar, em 2013 foi publicada uma primeira edição em espanhol e agora, com mais dados, é publicada a segunda edição em espanhol e a primeira em inglês. Por essa razão, pode-se dizer que, por trás de alguns dados, há mais de dez anos de pesquisa. Em relação à dificuldade, fico com uma ideia que aparece na introdução do livro. Foi como compor um quebra-cabeça de peças distribuídas entre o Reino Unido e a Espanha em uma viagem no tempo.[4]

Como se trata de um livro sobre a vida de um padre, certamente será enfatizado aspectos teológicos e religiosos. Diante disso, o autor expressa sua opinião a respeito da fé católica de J.R.R. Tolkien e como ele se comportou como tal em sua vida e obra:

O catolicismo em Tolkien tem algumas características únicas. Antes de tudo, ele era um católico muito iluminado e educado. Seu conhecimento de teologia era muito alto, pois não poderia ser inferior a alguém que passou sua infância e juventude no lugar de maior erudição sobre o catolicismo no Reino Unido. No entanto, Tolkien não era um apologista ou um moralista. Ele não pregou nem tentou concentrar-se em ninguém e, por exemplo, em seus livros não há desejo moralizante que resultaria do uso da alegoria (que ele rejeitou). Para citar os referentes de Tolkien a respeito de sua concepção do catolicismo, o livro fala sobre duas figuras, como o Cardeal Newman e o Papa Pio X, muito importantes em sua visão teológica e também teleológica[5].

O mencionado Cardeal Newman tem grande importância na história do Catolicismo britânico. Aquela região de ilhas havia se tornado em sua maioria protestante, graças a cisão realizada pelo Rei Henrique VIII em relação a Igreja Católica, no século XVI. Desde então os católicos se tornaram uma minoria marginalizada. Até que o Cardeal Henry Newman, que era da Igreja Anglicana, se tornou católico e com isso promoveu uma série de conversões e fortalecimento dos católicos na região. Foi graças a esse empenho de Newman que o catolicismo chegou a Tolkien. Sobre a relação do tutor de Tolkien e o Cardeal Newman, o Ferrández diz o seguinte:

Morgan foi provavelmente uma das pessoas com o relacionamento mais pessoal com Newman que pode ser encontrado. Ele o conhecia quando criança quando estudou na Escola do Oratório (na qual Newman era a principal autoridade). Então, quando ele voltou para se juntar à Comunidade do Oratório, primeiro como noviço e depois como padre, ele tinha uma relação próxima com o cardeal até a sua morte. Na verdade, ele foi seu secretário pessoal por um tempo e veio visitar o Papa em seu nome. Evidentemente, para Morgan, foi uma influência fundamental. De sua parte, Tolkien é também uma referência importante sem dúvida.[6]

Atualmente o Cardeal Newman passa por um processo de Canonização no Vaticano (processo católico para nomear um católico como Santo da Igreja). Foi comprovado um milagre realizado e está em estudo um segundo desde 2016. O Cardeal Newman foi beatificado pelo papa Bento XVI.

Em se tratando de Espanha e o período em que Tolkien e Padre Francis Morgan viveram, a Guerra Civil Espanhola foi um momento importante. Acerca do tema Ferrández informa que o Padre Francis Morgan não chegou a se aproximar dos fatos ocorridos por ter falecido antes e não teve contato com os seus antecedentes.

O padre Francis não estava na Espanha naquela época porque morreu antes do início da guerra. Na verdade, ele não viajou para a Espanha durante os anos anteriores ao início da guerra devido aos problemas derivados de sua idade. Esse período foi muito convulsivo na Espanha (não apenas na guerra, mas também nos anos anteriores) e Tolkien simpatizou com os movimentos católicos espanhóis (em grande parte pelo contato com Newman). Também Roy Campbell simpatizou com os católicos espanhóis (daí a admiração mútua com Tolkien), embora nunca tenha participado de nenhuma batalha na guerra espanhola e seu papel tenha sido o de propagandista.[7]

A mãe de Tolkien, Mabel Suffield, se tornou muito próxima do Padre Francis Morgan a ponto de confiar a ele a vida de seus dois filhos. Porém, ainda há poucos elementos sobre a mãe do Tolkien e as razões de seu processo de conversão ao catolicismo em 1900. Novas pesquisas estão sendo feitas nesse sentido e foi perguntado se o livro trata de novas informações sobre isso, o autor respondeu o seguinte: “Em relação à Mabel, não encontraremos grandes novidades ou novos dados surpreendentes. No entanto, o contexto do Oratório é mais definido e talvez possamos entender por que ele se mudou para perto dessa paróquia e porque queria que seus filhos estivessem ligados a ele”.[8]

Além do contato com o Padre Francis Morgan propriamente, Tolkien viveu em um ambiente católico e chegou a transmitir isso aos seus filhos. O mais velho dos cinco filhos se tornou o Padre John Francis. Perguntado sobre essa relação dos filhos do Tolkien e o Padre Francis Morgan, Ferrández disse o seguinte:

Tolkien e seu irmão atuaram como coroinhas no Oratório de Birmingham, o que não é extraordinário, dado o relacionamento próximo deles. Em relação ao padre John, ele conheceu Morgan e na verdade era o representante da família Tolkien em seu funeral, embora certamente a influência da educação e do ambiente que ele recebeu em sua própria casa fosse maior do que a que ele poderia exercer o Padre Francis. De qualquer forma, o segundo sobrenome do padre Johm era Francis (e é oficial de seu batismo de fato).[9]

O livro que será lançado conterá novas informações, fotos inéditas e dados sobre a vida do Padre Francis e sua repercussão na vida de Tolkien. No final da entrevista o autor apresenta a seguinte mensagem aos leitores de Tolkien do Brasil:

Espero que os amigos brasileiros estejam interessados nesse trabalho, que Junto a outras obrass recentes tenta destacar a importância das influências de Tolkien para além do mundo anglo-saxão e reconstruir sua vida através da coleta de novos dados que tem aparecido e que podem até contradizer as biografias canônicas de Tolkien, como a de Carpenter. Muito Obrigado.[10]

Muitas informações são acrescentadas no livro de Ferrández que está disponível em forma de ebook e será lançado no próximo mês em versão física (5 de junho de 2018), em inglês e em espanhol. A versão em Italiano será lançada ao final do ano.

José Manuel Ferrandez, autor do livro sobre Padre Francis Morgan

 

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