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Por que a Primeira Guerra Mundial está no coração de ‘Senhor dos Anéis’

 

John garth

John Garth, é autor do livro “Tolkien and the Great War” (considerada uma das melhores biografias do Tolkien com versão em mandarim e Italiano e terá lançamento em versões Francês, Alemã e Espanhol). John Garth é vencedor do Mythopoeic Society em 2004. Colaborador do Tolkien Studies e possuí diversos textos sobre Tolkien em periódicos e em  seu site: http://www.johngarth.co.uk e blog:http://johngarth.wordpress.com/

Fazem 60 anos desde a publicação do primeiro volume de O Senhor dos Anéis de J.R.R. Tolkien.Por que ele foi tão inspirado pela Grande Guerra e um grupo de amigos da escola?

A Guerra corre como ferro puro através dos ossos da Terra-média de Tolkien e ainda mais através de O Senhor dos Anéis, a obra-prima que viu a primeira luz há 60 anos atrás.

A Sociedade do Anel, o primeiro volume de três, foi publicado em 29 de Julho de 1954, uma data escolhida pela editora apenas por razões práticas. Ainda assim é uma curiosa coincidência, pois foi quase precisamente no 40º aniversário da eclosão da Primeira Guerra Mundial. Porque foi durante essa guerra que Tolkien criou primeiro a Terra-média.

Por volta dos anos de 1914-1918 e depois, ele usou sua mitologia para examinar a mortalidade e a esperança da imortalidade, medo e coragem, amizade e perda, desespero e esperança inesperada. A entrelaçada relação entre a vida e a arte nestes anos é sutil e fascinante, mapeada em meu livro bibiográfico Tolkien and the Great War [Tolkien e a Grande Guerra, ainda não publicado no Brasil]. Desde que foi publicado, é agora amplamente aceito que a Grande Guerra continuou a ressoar através do trabalho de Tolkien, incluindo o escuro e desesperador clímax em O Hobbit, adaptado para o cinema na última parte da trilogia de Peter Jackson (o trailer de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos foi lançado para os fãs famintos ontem).

Hoje, ciente o bastante à luz desses aniversários, eu estou colocando os toques finais em uma palestra sobre uma das figuras-chave na vida de Tolkien, seu colega de escola Robert Quilter Gilson. A história de Gilson vale a pena ser ouvida porque ele próprio escreveu uma fascinante e profunda série de cartas para casa vindas dos campos de treinamento do exército e trincheiras de 1914-1916.

Eu tive a sorte de localizar os parentes de Gilson, quando estava pesquisando para o meu livro Tolkien and Great War, e me foram mostradas essas cartas. Elas lançam uma luz valiosa sobre a primeira “Sociedade” de Tolkien.

Esta foi uma panelinha ou clube semi-segredo que ele e Gilson haviam formado com  outros em sua escola, uma atividade bem comum para garotos da era pré-guerra e em uma escola inspiradora como a deles. Era um círculo de adolescentes excepcionalmente brilhantes que se deleitavam igualmente em inteligência e na cultura. Os membros faziam chá no escritório da biblioteca escolar – uma atividade ilícita – e também se reuniam nas salas de chá de uma loja de departamentos chamada Barrow. Portanto, eles se chamavam de Tea Club and Barrovian Society (Clube do chá e Sociedade Barroviana), um nome misturando o conforto hobbitesco e a grandeza (embora aqui seja grandeza simulada) de uma forma tolkieniana. Eles abreviaram para T.C.B.S.

Os T.C.B.S. iniciaram com comodidade em 1911, mas foram lançados na escuridão de 1914. A eclosão da guerra atraiu os membros do núcleo em um vínculo muito forte, provocou-os para uma vida brilhante, fez-lhes bem conscientes de que a morte pode estar logo na esquina. Eles sonhavam em fazer arte que pudesse criar um mundo melhor, e para Tolkien uma reunião dos T.C.B.S em dezembro daquele ano  foi seguido por “encontrar uma voz para todos os tipos de coisas reprimidas e uma tremenda abertura de tudo” – o começo da Terra-média.

Um membro da T.C.B.S, Geoffrey Bache Smith, enfrentando uma perigosa e desesperadora noite de patrulha nas trincheiras no inicio de 1916, teve a oportunidade de escrever uma despedida para Tolkien, instigando-o a publicar. Eu jamais poderia ler isso sem estar movido por sua generosidade, seu amor e sua visão:

“Eu sou um admirador selvagem e de todo o coração, e minha consolação principal é que, se eu for aniquilado essa noite – Estou de folga dos serviços por poucos minutos – ainda restará um membro da grande T.C.B.S. para expressar o que eu sonhei e o que todos nós acordamos. Pois a morte de um dos seus membros não pode, estou certo, dissolver a T.C.B.S… Sim, publicar …. Estou certo que vocês são escolhidos, como Saul entre os Filhos de Israel. Apressa-te, antes de sair desta orgia de morte e crueldade … Que Deus te abençoe, meu querido John Ronald, e que você possa dizer as coisas que eu tentei dizer muito depois de eu não estar lá para dizê-las, se tal for minha sina. “

Smith sobreviveu a noite de patrulha, e encontrou Tolkien novamente na orla da Batalha de Somme, naquele verão. Mas naquela vez Gilson foi morto, assassinado quando liderava seus homens através do campo sem homens no primeiro dia da batalha – apenas mais um entre os 20.000 soldados britânicos mortos naquele dia calamitoso.  O próprio Smith sobreviveu por cinco meses na batalha, apenas para ser fatalmente atingido por uma explosão de uma granada perdida enquanto organizava um jogo de futebol a quatro milhas da linha de frente.

O Senhor dos Anéis primeira edição

O Senhor dos Anéis primeira edição

Tolkien depois escreveu sobre O Senhor dos Anéis: “Pessoalmente, eu não acho que qualquer guerra… tivesse qualquer influência sobre o enredo ou o seu desenvolvimento.” Contudo, seu prefácio para o livro faz clara referência à experiência da Primeira Guerra Mundial e as mortes de Smith e Gilson, como se quisesse dizer aos críticos: essa foi minha guerra, e é onde deve se procurar por uma influência de origem. Sua objeção real era o tipo de leitura que busca mapear pontos do enredo com os acontecimentos históricos reais, e eu concordo que seria fútil e redutivo tentar identificar, por exemplo, cada um dos quatro heróis hobbit com os quatro membros do T.C.B.S. No entanto, é liso como uma estaca de chuço que sua própria memória da T.C.B.S. está espalhada por todo o fronte de batalha, separados uns dos outros em seu pior calvário, infunde seu relato de Frodo, Sam, Merry e Pippin, como cada um toma o seu caminho através do medo e perigo.

Na Segunda Guerra Mundial, Michael e Christopher, filhos de Tolkien, prestaram o serviço militar, por sua vez. Seu pai foi obrigado a sentar-se à margem, sem poder para proteger, mas desesperado para dar conforto e ensinamento que tinha ganhado de suas próprias experiências na juventude. Suas cartas para eles mostram como sua situação trouxe sua própria vivência de volta. Ele conta a Christopher, em treinamento como piloto de caça e oprimido pela vida militar: “Mantenha sua Hobbiteza no coração, e pense em todas as histórias como se estivesse assim nelas. Você está dentro de uma grande história!”.

Ele estava trabalhando em O Senhor dos Anéis na época dessa carta. Então a escuridão de 1939-1945 combinada com as lembranças de 1914-1918 deu ao livro seu coração e poder duradouro.

E logo depois da carta para Christopher, Tolkien colocou a mesma ideia sobre histórias na boca de Sam Gamgee, quando estava próximo a Mordor, ele falou com Frodo sobre o antigo conto de Eärendil, o marinheiro estelar. É significante, eu acho, que Eärendil foi o primeiro personagem de Tolkien inventado para sua mitologia da Terra-média, em um poema de Setembro de 1914, que desencadeou todo o esforço criativo ao longo da vida.

Sam disse: “Mas é uma longa história, é claro, e passa da alegria para a tristeza e além dela — e a Silmaril foi adiante e chegou a Eärendil. E veja, Senhor, eu nunca tinha pensado nisso antes! Nós temos — o Senhor tem um pouco da luz dele naquela estrela de cristal que a Senhora lhe deu! Veja só, pensando assim, estamos ainda na mesma história! Ela está continuando. Será que as grandes histórias nunca terminam?”

Para Tolkien, o conto em que havia mergulhado em 1914 nunca terminou.

© John Garth 

Artigo publicado originalmente 29 de Julho de 2014 em (http://www.thedailybeast.com/articles/2014/07/29/why-world-war-one-is-at-the-heart-of-lord-of-the-rings.html). A publicação e tradução foi autorizada pelo autor do artigo John Garth. Tradução de Henrique Gurgel e Eduardo Stark.

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