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Os Númenorianos e a preservação da tradição élfica


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by Eduardo Stark

Após grandes batalhas contra Morgoth e seus seguidores malignos, os homens descendentes dos Edain da Primeira Era se reuniram e foram viver na ilha de Elenna, que passou a ser chamada de Númenor. O povo que ali habitava eram os Númenorianos. Eles eram humanos que tinham uma aproximação com os elfos.

Essa aliança entre as raças não era decorrência apenas de uma admiração entre os povos. Além da luta em comum contra Morgoth, existe a ligação com a genealogia dos seus líderes. O primeiro rei dos númenorianos foi Elros, filho de Eärendil, cujos ascendentes foram grandes elfos e humanos que lutaram contra Morgoth.

A relação entre esses dois povos era tão intensa a ponto de os estudiosos númenorianos aprendessem as línguas antigas dos elfos, em especial o Quenya, que é considerado como um equivalente ao Latim para os elfos. E se tornou um costume dos Reis assumirem seus títulos nas formas do idioma Quenya, “visto que esse era o idioma mais nobre do mundo, e esse costume perdurou até os dias de Ar-Adû-nakhôr (Tar-Herunúmen)” (Contos Inacabados, p.247).

Durante muito tempo havia uma relação estreita entre humanos e os elfos de Tol Eressëa e da Terra-média, e com isso os númenorianos aprendiam muitas técnicas que aplicavam em sua ilha.[1] O vinculo cultural e linguístico proporcionou novos registros, livros e canções das histórias dos povos daquela época e de antigas eras.

O povo comum númenoriano permanecia com suas atividades cotidianas, enquanto que os eruditos preservavam as tradições e costumes. Conforme está escrito em O Silmarillion:

E os eruditos entre eles aprenderam também o alto-eldarin do Reino Abençoado, idioma no qual grande volume de prosa e verso foi preservado desde o início do mundo. E eles criavam cartas, pergaminhos e livros, neles escrevendo muitos textos de sabedoria e fantasia no apogeu de seu reino, do qual tudo agora está esquecido. (O Silmarillion, p.333)

Os Númenorianos eram considerados um grande povo, tendo momentos de grande prosperidade, mas que acabaram sucumbindo diante das provocações causadas por Sauron, servo de Morgoth. O resultado foi a destruição de sua ilha a quase extinção do seu povo. Os poucos homens que ainda se mantinham fiéis às tradições foram viver na Terra-média, onde formaram novos reinos.

Novamente em Contos Inacabados é mencionado que o conhecimento dos númenorianos foi quase perdido completamente após a Queda. A descrição da Ilha encontrada nesse livro foi um dos poucos registros sobreviventes.

O relato seguinte sobre a ilha de Númenor deriva de descrições e mapas simples que por muito tempo foram conservados nos arquivos dos Reis de Gondor. Representam na verdade apenas uma pequena parcela de tudo que foi escrito outrora, pois muitas histórias naturais e geografias foram compostas por homens eruditos em Númenor; mas estas, como quase tudo o mais das artes e ciências de Númenor em seu apogeu, desapareceram na Queda. (Contos Inacabados, p.185).

Fica evidenciada a tentativa de Tolkien de dar mais profundidade aos seus escritos. Ele busca apresentar razões pelos textos serem inacabados ou que existem poucas informações sobre determinados temas. Tudo isso tendo como base a própria realidade e os momentos que as civilizações perderam grande parte de seu conhecimento com a negligência ou destruição por completo.

A preservação da tradição e dos escritos antigos

 

A Queda de Númenor foi consequência do seu declínio que se tornava inevitável naquele povo. Pois mesmo durante o seu auge os estudos das tradições antigas não estavam sendo observados devidamente. Com o passar do tempo as relações diretas dos homens númenorianos com os elfos foram se perdendo e o interesse por estudos aprofundados dos laços entre os dois povos foi sendo abandonado. Os manuscritos foram sendo negligenciados e foram se perdendo com o tempo.

A destruição da Ilha e dos registros que lá se encontravam foi um certo adiantamento do que viria a acontecer em relação a preservação das tradições. Em Contos Inacabados, Tolkien deixa claro que existia negligência em relação aos manuscritos e registros:

Mesmo documentos como os que se conservaram em Gondor, ou em Imladris (onde foram depositados aos cuidados de Elrond os tesouros remanescentes dos reis númenorianos setentrionais), sofreram perdas e destruição por negligência. Pois, apesar de os sobreviventes na Terra-média “ansiarem”, como diziam, por Akallabêth, a Caída, e nunca deixarem de se considerar até certo ponto exilados, nem mesmo depois de longas eras, quando ficou claro que a Terra da Dádiva havia sido removida e que Númenor desaparecera para sempre, ainda assim todos, exceto uns poucos, consideravam o estudo do que restara de sua história como algo vão, que apenas gerava uma lamentação inútil.  (Contos Inacabados, p.185).

Na Terceira Era os escritos eram guardados em Imladris ou em Gondor. Contudo, nem mesmo assim eles foram preservados integralmente. Pois os homens que habitavam a Terra-média não davam tanta importância aos seus registros e isso acabou refletindo na sua não preservação para a posteridade, sobrando poucos escritos completos e muitos incompletos. Dessa forma, somente um registro sobreviveu em eras posteriores: “A história de Ar-Pharazôn e sua ímpia armada foi tudo o que permaneceu no conhecimento geral das eras seguintes”. (Contos Inacabados, p.185).

A Queda de Númenor by Ted Nasmith

 

Uma comparação da realidade com o imaginário

Essa ideia de uma civilização antiga prospera e que foi arruinada por uma força natural reflete um arquétipo das mitologias, com características que se enquadram na lenda de Atlântida, encontrada nos livros de Platão. Dessa lenda existem apenas relatos anotados em memórias de antigos e não se sabe se ela foi verdadeira ou apenas algo criado no imaginário dos gregos.

Também pode ser apontado como outra semelhança os vínculos culturais. Os númenorianos assimilam a cultura dos elfos, embora em um grau menor, tal como os Romanos fizeram com os Gregos. Além disso, o Império Romano atingiu grandes proporções em sua história e depois teve sua ruína. E apenas alguns poucos eruditos ainda preservavam a cultura românica através dos poucos pergaminhos e o Latim, tal como aconteceu com os númenorianos que vão para a Terra-média após a Queda.

Assim fica evidenciado o quanto a Terceira Era se assemelha ao período medieval. Nessa época da história ocidental os estudos das tradições, da história e das ciências eram reservados a poucos eruditos que preservavam os manuscritos antigos e a língua do Império Romano. A grande maioria dos homens se preocupavam com a luta contra inimigos ferozes e com a cultura popular local.

Outro momento histórico que pode ser comparado é a destruição da biblioteca de Alexandria. Em que quase todo o conhecimento do mundo antigo acumulado foi quase completamente destruído. A pulverização dos manuscritos dessa biblioteca trouxe um enorme prejuízo para a posteridade, que poderia saber ainda mais sobre o tempo antigo.

O papel dos Númenorianos na cosmogonia do mundo secundário

Após a publicação dos três volumes de Senhor dos Anéis em 1954 e 1955, Tolkien passou a se dedicar mais aos seus escritos relacionados ao Silmarillion. Diversas cartas de leitores chegavam com dúvidas que ele mesmo nunca havia pensado em uma resposta, algumas até demandariam muito tempo para serem respondidas de forma consistente e adequada.

Especialmente as hipotéticas contradições do mundo primário com o seu mundo secundário incomodavam o escritor.  Os questionamentos relacionados à ciência eram frequentes. Temas como a imortalidade, magia, geografia, biologia e outros. Tudo isso levou Tolkien a refletir com mais profundidade sobre suas obras, em especial os seus fundamentos filosóficos e teológicos.

Um ponto que fez o autor refletir seriamente foi se o seu mundo secundário tinha um planeta em forma plana. Nos primeiros escritos, relacionados a mitologia tolkieniana, a cosmogonia levava a uma noção de Terra Plana. Não havia sido criada a lenda da Queda de Númenor e a mitologia era mais simplificada nesse aspecto e mais fácil de ser organizada. Contudo, com o passar dos anos, Tolkien modificou seriamente as bases de sua mitologia. E grande parte do primeiro material de “O Livro dos Contos Perdidos” (The Book of Lost Tales) foi abandonado ou revisado substancialmente.

Dentro da ideia de que o mundo secundário seria um passado imaginário do mundo primário, a ideia da Terra Plana foi questionada, pois se cientificamente o mundo real não tem essa forma o mundo tolkieniano deveria se adequar a essa ideia ou explicar dentro de suas regras internas.

A contradição consiste na ideia de que se os elfos tiveram contato direto com os Ainur e esses narraram sobre a cosmogonia não poderia ser registrado algo diferente do que é a “verdade”. Ou seja, não haveria a possibilidade de ter algum erro aparente. E a ideia da Terra Plana seria um fato no mundo tolkieniano que conflitaria com a forma do mundo real.

Por volta de 1958 ou após esse ano, Tolkien escreveu sobre a ideia da Terra Plana e tentou justificar a ideia. Conforme Tolkien escreveu no seguinte trecho do livro “Morgoth’s Ring”:

Isso é decorrência das formas mais antigas da mitologia – quando ainda pretendia não ser mais do que outra mitologia primitiva, embora mais coerente e menos “selvagem”. Era, portanto, uma cosmogonia da “Terra Plana” (muito mais fácil de gerenciar de qualquer maneira): a questão de Númenor não havia sido planejada. Agora é claro para mim que, em qualquer caso, a Mitologia deve realmente ser um assunto “Humano”. (Os homens realmente só estão interessados ​​nos homens e nas ideias e visões dos homens.) Os altos Eldar que vivem e são tutorados pelos seres demiúrgicos deveriam saber, ou pelo menos seus escritores e Mestres das Tradições deveriam saber, a “verdade” (de acordo com sua medida de compreensão). O que temos no Silmarillion etc. são tradições (especialmente personalizadas e centradas em protagonistas, como Fëanor), transmitidas aos homens em Númenor e depois na Terra-média (Arnor e Gondor); mas já tão distante – da primeira associação dos Dúnedain e os Amigos dos Elfos com os Eldar em Beleriand – misturadas e confundidas com seus próprios mitos Humanos e ideias cósmicas. (Morgoth’s Ring, p.370)[2]

Dessa forma, a cosmogonia do mundo secundário no Silmarillion não corresponde ao que realmente deveria ter ocorrido, como uma realidade interna ou verdade. O fato dos registros antigos terem sido posteriormente anotados e misturados com as ideias de mundo dos númenorianos fez a concepção original do mundo ser alterada para a visão dos humanos.

Christopher Tolkien sintetiza a ideia central afirmando que: Os mitos astronômicos dos Dias Antigos não podem ser considerados como um registro das crenças tradicionais dos Eldar em qualquer forma pura, porque os Altos-elfos de Aman não podem ter sido tão ignorantes. E os elementos cosmológicos em O Silmarillion são essencialmente um registro de ideias mitológicas, de origem complexa, prevalecente entre os homens.” (Morgoth’s Ring, p.370-371).[3].

Assim, se existir alguma contradição com as noções cientificas humanas com aquelas apresentadas na cosmogonia do mundo secundário, elas seriam derivadas da impressão dos próprios homens que registraram aqueles mitos e não que fosse necessariamente um conflito lógico entre a realidade e o mundo imaginário. Em outra nota, tratando sobre o Sistema Solar e a forma de Arda, Tolkien escreveu nesse mesmo sentido:

As tradições aqui referidas vieram dos Eldar da Primeira Era, passando aos Elfos que nunca foram familiarizados diretamente com os Valar, e passando aos homens que receberam a ‘Sabedoria’ dos Elfos, mas que tinham lendas e mitos cosmogônicos e suposições astronômicas próprias. Não há nada neles, no entanto, que seriamente conflite com as presentes noções humanas do Sistema Solar, seu tamanho e posição em relação ao Universo.”(Morgoth’s Ring, p.374).[4].

Em outra oportunidade Tolkien novamente reafirma essa nova posição em relação a sua cosmogonia. O autor parecendo querer enfatizar essa nova visão em “um rabisco furioso a caneta esferográfica” escreveu o seguinte:

“Os mitos cosmogônicos são Númenoreanos, misturando contos Élficos com o mito humano e a imaginação. Uma nota deve dizer que os Sábios de Númenor registraram que a criação de estrelas não foi assim, nem do Sol e a Lua. Pois o Sol e as estrelas eram todos mais velhos do que Arda. Mas a colocação de Arda em meio a estrelas e sob a [“guarda”] do Sol foi devida a Manwë e Varda antes do assalto de Melkor.”.(Morgoth’s Ring, p.374).[5]

Com essas bases, o autor agora apresenta sua mitologia como uma mitologia escrita por humanos e não apenas uma mitologia dos elfos como anteriormente ele mesmo defendia. Trata-se de uma cosmogonia dos humanos sobre o que se considera ter sido preservado das tradições e relatos colhidos dos elfos e não puramente seus relatos diretos.

Essa ideia reforça ainda mais a escolha de Christopher Tolkien em eliminar boa parte dos elementos da autoria ficcional na edição de O Silmarillion. Uma vez que o autor se apresentava a ideia de que um humano Aelfwine, teria colhido os relatos diretamente dos elfos que teria encontrado em Tol Eressëa, o que tornaria as lendas de Arda com uma noção de “verdade” relatada por uma testemunha dos fatos, no caso Pengolodh.

 

O Silmarillion como registro dos antepassados dos númenorianos

A Queda de Númenor foi uma catástrofe também no sentido cultural. Pois eliminou quase que completamente todos os antigos documentos e registros. Conforme Tolkien afirma, que com essa Queda “a maioria do saber Númenóreano foi perdida, com exceção daquele que tratava da Primeira Era, porque conta como Númenor envolveu-se na política da Terra-média” (Carta 276, para Dick Plotz, 12 de setembro de 1965).

Os poucos relatos que foram escritos sobre esse povo foram registrados pelos númenorianos sobreviventes e preservados nos arquivos dos Reis de Gondor. O relato do Akallabêth, que narra a história da Queda de Númenor, foi escrito por Elendil e preservado em Gondor. (Contos Inacabados, p. 254).

A preservação dos relatos antigos em Imladris (Valfenda) e Gondor tem um ponto chave. Pois Elrond preservava os relatos antigos como legitimo herdeiro dos reis élficos e humanos que lutaram contra as forças de Morgoth nas primeiras eras. Enquanto que em Gondor estariam os Reis humanos descendentes diretos de Elros, que era irmão de Elrond. Para ambos era importante preservar as histórias dos grandes heróis de sua linhagem e é por isso que os relatos tratam justamente da história de humanos e elfos que se relacionaram.

A cosmogonia de Arda é mais númenoriana do que propriamente élfica e os relatos dos grandes feitos das eras antigas são os mesmos dos elfos e homens que foram os antepassados dos númenorianos. Dessa forma, qualquer comparação da realidade deve ser feita com os mesmos critérios que seriam feitos com outra mitologia antiga.

 

Númenor by Jamie whyte

 

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NOTAS:

[1] “…embora esse povo ainda usasse seu próprio idioma, seus reis e senhores conheciam e também falavam a língua élfica, que haviam aprendido nos tempos de sua aliança; e assim mantinham conversas com os eldar, tanto de Eressëa quanto das regiões acidentais da Terra-média”. (O Silmarillion, p.333).
[2] “This descends from the oldest forms of the mythology – when it was still intended to be no more than another primitive mythology, though more coherent and less ‘savage’. It was consequently a ‘Flat Earth’ cosmogony (much easier to manage anyway): the Matter of Númenor had not been devised. It is now clear to me that in any case the Mythology must actually be a ‘Mannish’ affair. (Men are really only interested in Men and in Men’s ideas and visions.) The High Eldar living and being tutored by the demiurgic beings must have known, or at least their writers and loremasters must have known, the ‘truth’ (according to their measure of understanding). What we have in  the Silmarillion etc. are traditions (especially personalized, and centred upon actors, such as Fëanor) handed on by Men in Númenor and later in Middle-earth (Arnor and Gondor); but  already far back – from the first association of the Dúnedain and Elf-friends with the Eldar in Beleriand – blended and  confused with their own Mannish myths and cosmic ideas”.(Morgoth’s Ring, p.370)
[3] “The astronomical myths of the Elder Days cannot be  regarded as a record of the traditional beliefs of the Eldar in any pure form, because the High-elves of Aman cannot have been thus ignorant; and the cosmological elements in The Silmarillion are essentially a record of mythological ideas, complex in origin, prevailing  among Men”.(Morgoth’s Ring, p.370-371).
[4] “The traditions here referred to have come down from the Eldar of the First Age, through Elves who never were directly acquainted with the Valar, and through Men who received ‘lore’ from the Elves, but who had myths and cosmogonic legends, and astronomical guesses, of their own. There is, however, nothing in them that seriously conflicts with present human notions of the Solar System, and its size and position relative to the Universe.” (Morgoth’s Ring, p.374).
[5] The cosmogonic myths are Numenorean, blending Elven-lore with human myth and imagination. A note should say that the Wise of Númenor recorded that the making of stars was not so, nor of Sun and Moon. For Sun and stars were all older than Arda. But the placing of Arda amidst stars and under the [?guard] of the Sun was due to Manwe and Varda before the assault of Melkor. ..(Morgoth’s Ring, p.374).

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