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Padre Robert Murray, o jesuíta que auxiliou Tolkien em O Senhor dos Anéis

Robert Murray

Comunicamos o falecimento do Padre Robert Murray, jesuíta amigo pessoal de J.R.R. Tolkien, que contribuiu com a critica e revisão de O Senhor dos Anéis. Ele morreu pacificamente em 24 de abril de 2018 na comunidade Corpus Christi Jesuit em Boscombe, após uma breve enfermidade. Ele tinha 92 anos de idade, e foi jesuíta por 68 anos. Segue o obituário publicado originalmente pelo site “Jesuits in Britain” (www.jesuit.org.uk):

Robert nasceu em Peking (hoje Beijing), China, em 8 de junho de 1925, onde seus pais estavam trabalhando como missionários leigos protestantes. Neto de Sir James Murray (o fundador do Oxford English Dictionary), sua mãe morreu quando ele tinha cinco anos de idade, e seu pai se casou novamente. Depois que a família retornou à Inglaterra em 1934, ele foi educado no Eltham College e depois na Taunton School depois que o Colégio se mudou para lá em 1939. No final da Segunda Guerra Mundial, ele estudou persa por um ano na Escola de Estudos Orientais e Africanos. (SOAS), com vista ao serviço de guerra, mas depois passou a tomar uma licenciatura em Greats em Oxford, durante o qual ele foi recebido na Igreja Católica Romana. Esta conversão também é em parte devido à sua amizade com a família Tolkien. Robert tinha a responsabilidade de revisar rascunhos e manuscritos dados a ele por J.R. Tolkien de O Senhor dos Anéis. Ele entrou na Sociedade em 1949 em Roehampton e fez seus primeiros votos dois anos depois. Seguindo os estudos usuais de filosofia e teologia em Heythrop em Oxfordshire, e depois ensinando no St Ignatius College em Stamford Hill, Robert foi ordenado em 1959. Após seu quarto ano de teologia e Terceira provação[1] em Münster, Alemanha, ele obteve um doutorado em patrística. e teologia bíblica na Gregoriana em Roma, especializando em siríaco. Então, em 1963, voltou a lecionar em Heythrop, onde passaria o resto de sua vida profissional. Ele foi um dos que se mudou para Londres em 1970 para restabelecer o Colégio como parte da Universidade de Londres. Ele foi editor do Heythrop Journal de 1971-1983. Robert era capaz de ler 12 idiomas, incluindo aramaico, hebraico, siríaco e persa. Em 1971, ele deu duas palestras na Romênia a convite do Patriarca Ortodoxo, e em 1984, depois de um seminário em Hong Kong, ele pôde visitar a China continental pela primeira vez em mais de 50 anos. Ele foi premiado com um Senior Research Fellowship por Heythrop em 1993, e um honorário Doutorado em Letras em 2004. Em 1992, seu livro The Cosmic Covenant: Biblical Themes of Justice, Peace and the Integrity of Creation (O Pacto Cósmico: Temas Bíblicos de Justiça, Paz e Integridade da Criação) foi publicado, e em 1999, Robert se aposentou de Heythrop, mas continuou como escritor e como membro do Serviço Jesuíta da China. Em 2004, seu livro “Symbols of Church and Kingdom: a study in Early Syriac tradition” (Símbolos da Igreja e do Reino: um estudo na tradição síria primitiva) foi publicado. Ele se mudou para Boscombe em 2010, onde viveu até a sua morte. Que ele descanse em paz.[2]

Padre Robert Murray foi um amigo pessoal do Tolkien desde 1944, quando foi apresentado pela tia de Tolkien. Nessa época Murray era estudante de graduação na Corpus Christi College em Oxford. Em abril de 1945 Tolkien apresentou o Padre Douglas Carter para Robert Murray. E no ano seguinte Murray se juntou a Igreja Católica, devido em parte a sua relação com a família Tolkien. Em 1949, após a graduação Murray se juntou a Companhia de Jesus e foi ordenado em 1959.

Pe. Robert Murray

Robert Murray foi um dos poucos privilegiados que leram os originais de O Senhor dos Anéis antes de sua publicação e apresentou comentários e criticas para Tolkien, especialmente sobre questões teológicas na obra. Murray escreveu que o livro lhe deixara com uma forte sensação de “uma compatibilidade positiva com a ordem da Graça”, e comparou a imagem de Galadriel em relação a Virgem Maria. Um trecho da resposta do Tolkien está na Carta 142, em 2 de dezembro de 1953, onde o autor diz o seguinte:

“O Senhor dos Anéis obviamente é uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconscientemente no início, mas conscientemente na revisão. É por isso que não introduzi, ou suprimi, praticamente todas as referências a qualquer coisa como “religião”, a cultos ou práticas, no mundo imaginário. Pois o elemento religioso é absorvido na história e no simbolismo.Contudo, está expresso de modo muito desajeitado e soa mais presunçoso do que percebo. Pois, na realidade, planejei muito pouco conscientemente; e devo mormente ser grato por ter sido criado (desde que eu tinha oito anos) em uma Fé que me nutriu e ensinou todo o pouco que sei; e isso devo â minha mãe, que se apegou à sua religião e morreu jovem, em grande parte devido às dificuldades da pobreza resultante de tal ato.” (TOLKIEN. As Cartas de J.R.R. Tolkien, 2006)

O Padre Robert Murray comentando a respeito desse trecho da carta de Tolkien disse o seguinte: “A esse testemunho eu acrescento o meu próprio, foi a atração exercida inconscientemente por Ronald Tolkien e sua família que, sob Deus, mais me atraíram para a Igreja Católica em 1946. De muitas conversas conheço a profundidade da fé de Ronald e do sofrimento espiritual pelo qual ele passou”.[3]

Além da carta mencionada acima outras duas foram publicadas. A carta 156 em 4 de novembro de 1954, que trata sobre os magos de O Senhor dos Anéis e a Carta 209, em 4 de maio de 1958, que pede ao Tolkien que trate sobre a palavra “Sagrado” nas línguas Indo-Europeias.

Tendo sido ordenado padre em 31 de julho, em 1 de agosto de 1959 Robert Murray teve sua primeira Missa na St. Aloysius Church em Oxford.  Murray lembrou que Tolkien e seu filho Christopher Tolkien estavam presentes naquele dia, e que o professor estava “em plena vestimenta acadêmica, excitantemente tornando-o desajeitado como um menino”.[4]

A amizade dos Tolkiens com Murray durou ao longo dos anos, até os últimos dias de sua vida. Em agosto de 1973 chegou a almoçar com Tolkien, que no mês seguinte veio a falecer, em 2 de setembro. Em 6 de setembro de 1973, uma Missa Requiem foi realizada para Tolkien na Igreja de St. Anthony of Padua em Headington, Oxford. As orações e leituras foram escolhidas pelo seu filho John, que realizou a missa com a ajuda de Robert Murray e o pároco, Monsenhor Doran. Em 15 de setembro de 1973, foi publicado o obituário de Tolkien no jornal The Tablet, com autoria de Robert Murray.

Após o falecimento de Tolkien. Robert Murray contribuiu com diversas entrevistas sobre Tolkien e colaborou com Humphrey Carpenter na elaboração da biografia autorizada do autor do Hobbit.

Pe. Robert Murray aos 90 anos de idade

 

REFERÊNCIAS:

Hammond, Wayne G. and Scull, Christina, The J.R.R. Tolkien Companion and Guide: Chronology, HarperCollins, 2006.

 TOLKIEN. As Cartas de J.R.R. Tolkien, Arte e Letra, 2006.

Robert Murray S.J.  Disponível em: https://www.jesuit.org.uk/profile/robert-murray-sj Acessado em 27 de Abril de 2018.

MURRAY, Robert. A tribute to Tolkien, The Tablet, 15 de Setembro de 1973.

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NOTAS:

[1] Terceira provação (Tertianship) é a etapa final da formação de um membro da Companhia de Jesus. O padre provincial geralmente convida o jesuíta para iniciar a terceira provação alguns anos após a conclusão de seus estudos, para os irmãos, ou de sua ordenação presbiteral, para os padres. É um tempo de vivência mais intensa da espiritualidade da ordem e de seu estilo de vida. É como um noviciado na maturidade da vida religiosa. Neste período o religioso pratica novamente os trinta dias dos exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola. Esta etapa é acompanhada por um jesuíta maduro denominado instrutor da terceira provação.Após esta experiência há a incorporação definitiva do religioso na Companhia de Jesus por meio dos votos públicos e solenes, chamados na Companhia de últimos votos.

[2] Robert was born in Peking (now Beijing), China, on 8th June 1925, where his parents were working as Protestant lay missionaries. The grandson of Sir James Murray (the founder of the Oxford English Dictionary), his mother died when he was five years old, and his father re-married. After the family returned to England in 1934 he was educated at Eltham College and then at Taunton School after the College was evacuated there in 1939. Towards the end of the Second World War he studied Persian for a year at the School of Oriental and African Studies (SOAS) with a view to war service, but then went on to take a degree in Greats in Oxford, during which time he was received into the Roman Catholic church. This conversion is said to also be partly due to his friendship with the Tolkien family. Robert had the responsibility of proofreading drafts and manuscripts given to him by J.R.R Tolkein of The Lord of the Rings.He entered the Society in 1949 at Roehampton, and took his First Vows two year later.Following the usual studies of philosophy and theology at Heythrop in Oxfordshire, and then teaching at St Ignatius College in Stamford Hill, Robert was ordained in 1959. After his fourth year of theology, and tertianship in Munster, Germany, he gained a doctorate in patristic and biblical theology at the Gregorian in Rome, specialising in Syriac. Then in 1963 he returned to teach at Heythrop, where he was to spend the rest of his working life. He was one of those who moved to London in 1970 to re-establish the College as part of the University of London. He was editor of the Heythrop Journal from 1971-1983.Robert was able to read 12 languages, including Aramaic, Hebrew, Syriac and Persian. In 1971 he gave two lectures in Romania at the invitation of the Orthodox Patriarch, and in 1984, after a seminar in Hong Kong, he was able to re-visit mainland China for the first time in over 50 years. He was awarded a Senior Research Fellowship by Heythrop in 1993, and an honorary Doctorate of Letters in 2004.In 1992 his book The Cosmic Covenant: Biblical Themes of Justice, Peace and the Integrity of Creation was published, and In 1999 Robert retired from Heythrop, but continued as a writer and as a member of the Jesuit China Service. In 2004 his book “Symbols of Church and Kingdom: a study in Early Syriac tradition” was published. He moved to Boscombe in 2010, where he lived until his death.May he rest in peace.

[3] “To this testimony I add my own, that it was the attraction unconsciously exercised by Ronald Tolkien and his family which, under God, did most to draw me to the Catholic Church in 1946. From many conversations I know the depth of Ronald’s faith and of the spiritual suffering through which it sustained him”. (THE TABLET, A tribute to Tolkien, 15 de Setembro de 1973).

[4] “in full academic dress, excitement making him clumsy as a small boy” THE TABLET, A tribute to Tolkien, 15 de Setembro de 1973.

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