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Descoberta! Quatro maçons na família de J.R.R.Tolkien

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

A maçonaria está envolta com histórias de revoluções e mistérios. Figuraram como membros de suas lojas (locais onde os maçons se reúnem) diversas personalidades famosas, como exemplo Voltaire, Diderot, Goethe, Beethoven, Mozart, Victor Hugo, Montesquieu, Benjamin Franklin, George Washington, Mark Twain, Oscar Wilde, Charles Dickens, Arthur Conan Doyle, Charles Chaplin e tantos outros. No Brasil são conhecidos Dom Pedro I, José Bonifácio, Rui Barbosa, Deodoro da Fonseca, Luiz Gonzaga, Tancredo Neves e outros.

Em 26 de abril de 2018, foi publicado pelo blog Tolkniety as informações de que quatro membros da família Tolkien eram maçons, dentre eles o bisavô, um tio e talvez o avô do autor de O Senhor dos Anéis.

A informação é relevante para entender um pouco mais sobre as circunstâncias que levaram Mabel Tolkien e seus dois filhos J.R.R. Tolkien e Hilary Tolkien a serem negligenciados a ponto da jovem viúva morrer sozinha e isolada.

A seguir serão fornecidos mais detalhes sobre essa pesquisa realizada, bem como informações sobre a relação da Igreja Católica e a maçonaria, já que Tolkien era católico. Não será feito juízo de valor sobre essa relação, nem mesmo temas de teoria da conspiração, pois implicaria em um artigo mais extenso. Foram apresentados documentos sobre o tema e ao final alguns argumentos relacionados ao Tolkien e sua família.

 

A Igreja Católica e a Maçonaria

As informações sobre a verdadeira origem da maçonaria no mundo são incertas. Existem diversas teorias e argumentos sobre quando a primeira loja foi criada. Mas em se tratando de instituição mais antiga e ainda existente até os dias atuais, destaca-se a United Grand Lodge of England (Grande Loja Unida da Inglaterra), que tem atualmente mais de quinhentos mil membros pelo mundo. Foi fundada em 24 de junho de 1717 a partir da união de quatro lojas que se encontraram na taverna Goose & Gridiron em Londres.

Não demorou muito para que as lojas pelo mundo se organizassem e tivessem relações políticas diversas. O que originou os primeiros conflitos de interesses, ideologias e religião. Diante disso, em 28 de Abril de 1738, o Papa Clemente XII proibiu que os católicos se associassem a maçonaria, por meio da bula “In eminenti apostolatus specula”.

IN EMINENTI APOSTOLATUS SPECULA, sobre as Sociedades Secretas.

CLEMENTE, bispo, servo dos servos de Deus a todos os fiéis, Saudações e Bênçãos Apostólicas.

1.Tendo-nos colocado a Divina Providência, apesar de nossa indignidade, na cátedra mais elevada do Apostolado, para vigiar sem cessar pela segurança do rebanho que nos tem sido confiado, temos dedicado todos os nossos cuidados, no que a ajuda do alto nos tem permitido, e toda a nossa aplicação tem sido para opor ao vicio e erro uma barreira que detenha seu progresso, para conservar especialmente a integridade da religião ortodoxa [refere-se o Papa à Igreja Católica Romana], e para afastar do Universo católico nestes tempos tão difíceis, tudo o que puder ser para eles motivo de perturbação.

2.Demos conta, e o rumor público não nos permitiu duvidar, que foram formadas, e que se afirmavam dia após dia, centros, reuniões, agrupamentos, agregações ou conventículos, que sob o nome de “Liberi Muratori” ou “Franco-mações” ou sob outra denominação equivalente, segundo a diversidade de línguas, nas quais eram admitidas indiferentemente pessoas de todas as religiões, e de todas as seitas, que com a aparência exterior de uma natural probidade, que ali se exige e se cumpre, estabeleceram certas leis, certos estatutos que as ligam entre si, e que, em particular, os obrigam às penas mais graves, em virtude do juramento sobre as santas Escrituras, a guardar um segredo inviolável sobre tudo o que sucede em suas assembleias.

3.Mas como tal é a natureza humana do crime que se atraiçoa a si mesmo, e que as mesmas preocupações que toma para ocultar-se o descobrem pelo escândalo que não pôde conter, esta sociedade e suas assembleias chegaram a fazer-se tão suspeitas aos fieis, que todo o homem de bem as considera hoje como um sinal pouco equívoco de perversão para qualquer um que as adopte. Se não fizessem nada de mau não sentiriam esse ódio à luz.

4.Por conseguinte, desde há muito tempo, estas sociedades têm sido sabiamente proscritas por numerosos príncipes em seus Estados, já que consideraram a esta classe de gente como inimigos da segurança pública.

5.Depois de uma madura reflexão, sobre os grandes males que se originam habitualmente dessas associações, sempre prejudiciais para a tranquilidade do Estado e a saúde das almas, e que, por esta causa, não podem estar de acordo com as leis civis e canónicas, instruídos por outra parte, pela própria palavra de Deus, que em qualidade de servidor prudente e fiel, elegido para governar o rebanho do Senhor, devemos estar continuamente em guarda contra as gentes desta espécie, por medo a que, a exemplo dos ladrões, assaltem nossas casas, como acontece com as raposas que se lançam sobre a vinha e semeiam por todo o lado a desolação, ou seja, o temor a que seduzam as gentes simples e firam secretamente com suas flechas os corações dos simples e dos inocentes.

6.Finalmente, querendo deter os avanços desta previsão, e proibir uma via que daria lugar a deixar-se ir impunemente a muitas iniquidades, e por outras várias razões de nós conhecidas, e que são igualmente justas e razoáveis; depois de ter deliberado com nossos veneráveis irmãos os Cardeais da santa Igreja romana, e por conselho seu, assim como por nossa própria iniciativa e conhecimento certo, e em toda a plenitude de nossa potência apostólica, resolvemos condenar e proibir, tal como condenamos e proibimos, os sobreditos centros, reuniões, agrupamentos, agregações ou conventículos de Liberi Muratori ou Franco-mações ou qualquer que seja o nome com que se designem, por esta nossa presente Constituição, válida para a perpetuidade.

7.Por tudo o referido, proibimos muito expressamente e em virtude da santa obediência, a todos os fieis, sejam laicos ou clérigos, seculares ou regulares, compreendidos aqueles que devem ser muito especialmente nomeados, de qualquer estado, grau, condição, dignidade ou preeminência que desfrutem, quaisquer que fossem, que entrem por qualquer causa e sob pretexto algum em tais centros, reuniões, agrupamentos, agregações ou conventículos antes mencionados, nem favorecer seu progresso, recebe-los ou oculta-los em sua casa, nem tampouco associar-se aos mesmos, nem assistir, nem facilitar suas assembleias, nem presta-lhes ajuda ou favores em público ou em privado, nem operar directa ou indirectamente por si mesmo ou por outra pessoa, nem exortar, induzir nem comprometer-se com ninguém para fazer adoptar nestas sociedades, assistir a elas nem prestar-lhes nenhuma classe de ajuda ou fomentá-las; lhes ordenamos pelo contrário, absterem-se completamente destas associações ou assembleias, sob a pena de excomunhão, na que incorrerão os infractores que mencionamos pelo simples factos e sem outra declaração; de cuja excomunhão não poderão ser absolvidos mais que por nós ou por o Soberano Pontífice então reinante, que não seja em “articulo mortis”. Queremos ademais e ordenamos que os bispos, prelados, superiores, e o clero ordinário, assim como os inquisidores, procedam contra os infractores de qualquer grau, condição, ordem, dignidade ou preeminência; trabalhem para redimi-los e castigá-los com as penas que mereçam a título de pessoas veementemente suspeitas de heresia.

8.A este efeito, damos a todos e a cada um deles o poder para persegui-los e castiga-los segundo os caminhos do direito, recorrendo, se assim for necessário, ao Braço secular.

9.Queremos também que as cópias da presente Constituição tenham a mesma força que a original, desde o momento que sejam legalizadas ante notário público, e com o selo de uma pessoa constituída em dignidade eclesiástica.

10.Contudo, ninguém deve ser demasiado temerário para atrever-se a atacar ou a contradizer a presente declaração, condenação, defesa e proibição. Se alguém levasse sua ousadia até este ponto, já sabe que incorrerá na cólera de Deus todo-poderoso e dos bem-aventurados apóstolos Pedro e Paulo.

Dado em Roma, na igreja de Santa Maria maior, no ano de 1738 depois da Encarnação de Jesus Cristo, nas 4 calendas de maio. O ano VIII do nosso pontificado.

Clemente XII Papa

Desde o documento do Papa Clemente XII, a lista de documentos da Igreja Católica que proíbem os seus fiéis de serem membros de loja maçônica se tornou vasta. Abaixo está uma lista dos principais documentos publicados por papas (o que exclui as diversas cartas e documentos dos bispos e padres) que proíbem a maçonaria na Igreja Católica em várias ocasiões e organizada em ordem cronológica:

1738: Clemente XII, In eminenti apostolatus

1751: Bento XIV, Providas Romanorum.

1821: Pio VII, Ecclesiam a Jesu Christo.

1825: Leão XII, Quo graviora.

1829: Pio VIII, Traditi humilitati.

1830: Pio VIII, Litteris altero.

1832: Gregório XVI, Mirari vos.

1846: Pio IX, Qui pluribus.

1849: Pio IX, Quibus quantisque malis.

1864: Pio IX, Quanta cura.

1865: Pio IX, Multiplices inter.

1869: Pio IX, Apostolicae Sedis moderationi.

1873: Pio IX, Etsi multa.

1882: Leão XIII, Etsi Nos.

1884: Leão XIII, Humanum genus.

1887: Leão XIII, Officio sanctissimo.

1890: Leão XIII, Dall’alto dell’Apostolico Seggio.

1892: Leão XIII, Custodi di quella fede.

1892: Leão XIII, Inimica vis

1894: Leão XIII, Praeclara gratulationis publicae.

1902: Leão XIII, Annum ingressi.

O Papa Leão XIII foi um forte combatente da maçonaria, tendo feito diversos documentos sobre o tema (como visto na lista acima). Ocorreu até mesmo sua atuação no Brasil, pois durante o período imperial havia muitos padres maçons. Alguns bispos advertiram esses padres da proibição clara do papa em relação a filiação maçônica, porém causou um importante conflito conhecido historicamente como a “Questão Religiosa”. O principal bispo contra a maçonaria foi Dom Vital, bispo de Olinda, que na época foi preso por autoridades imperiais e tempo depois foi solto e acolhido em Roma pelo papa Pio IX. O desgaste entre o imperador Dom Pedro II e a Igreja Católica é apontado como sendo um dos fatores da queda do regime monárquico.

Quando a lei canônica foi codificada no conhecido “Código Canônico de 1917”, as proibições existentes foram mantidas, especialmente no Can. 2335. O católico não pode ser maçom, sob pena de excomunhão:

“Can. 2335: Filiação com Maçonaria ou Sociedades similares. Aqueles que se associam a seita Maçônica ou outras sociedades do mesmo tipo, que tratam contra a Igreja ou contra as legitimas autoridades civis, incorre ipso facto em excomunhão simplesmente reservado à Santa Sé.

Após o Concílio Vaticano II, um novo código canônico foi elaborado em 1983, que omitiu a menção específica à maçonaria, e não mais coloca a pena de excomunhão, apenas o interdito (não receber a comunhão na missa).

Can. 1374: Aquele que se filia a associação que trama contra a Igreja deve ser punido com a penalidade justa, aquele que promove ou participa em tal associação deve ser punido com um interdito.

O último documento oficial de referência é a Declaração sobre a maçonaria, de 26 de Novembro de 1983, assinado pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal Joseph Ratzinger, que se tornou depois o Papa Bento XVI. O texto afirma que “permanece imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”.

Assim, analisando os vários documentos da Igreja Católica, João Evangelista Martins Terra chega a conclusão que “a dupla fidelidade, à Igreja e à maçonaria, ou a dupla moralidade, a cristã e a filantropia maçônica, é impossível para o católico” (Maçonaria e Igreja Católica.p108).

Atualmente a maçonaria e a Igreja Católica, especialmente no Brasil, parecem estar em boas relações institucionais, embora doutrinariamente a divergência ainda permaneça. E embora a proibição do Católico de ser um maçon também ainda exista, muitos pertencem a lojas e frequentam as missas ao domingo.

 

Os Tolkiens e a maçonaria

A maçonaria se tornou forte entre a nobreza inglesa e muitos pertenceram a lojas. Começando pelo príncipe Augustus Frederick, Duque de Sussex que liderou a Grande Loja Unida da Inglaterra no início do século XIX.

Mesmo diante dos conflitos da Igreja Católica com os maçons, no final do século XIX parecia não haver uma forte proibição da Igreja Anglicana em relação aos maçons. Isso por que o próprio sucessor da casa imperial era o grão mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra. Albert Edward, Príncipe de Wales liderou a maçonaria inglesa entre os anos de 1874 até 1901, ano em que se tornou o Rei da Inglaterra Edward VII, governando o império britânico até 1910. Certamente grande parte de seus aliados políticos também pertenciam ao grupo. Aliás, o fato de o descendente real ser um maçom certamente levou muitos de seus súditos a ingressarem na maçonaria, provavelmente deva ter sido o caso de alguns dos Tolkiens da época.

O tolkienista Ryszard Derdzinski descobriu, através de documentos liberados pelo site Ancestry, que pelo menos quatro membros da família Tolkien do final do século XIX eram maçons: Henry Tolkien, John Benjamin Tolkien, Frank Neville Tolkien e um outro Tolkien com o primeiro nome incerto.

Henry Tolkien (1814–1885), tio-avô de J. R. R. Tolkien, irmão de seu avô, John Benjamin Tolkien (1807–1896). Ele era um empresário do ramo da música e tinha sua loja na 28 King William Street, Londres. Ele foi iniciado na Grande Loja Unida da Inglaterra com 41 anos de idade em 1 de agosto de 1855. Ele era um membro da Lodge of Confidence (No. 193) em Londres até 1860. Esta Loja foi estabelecida em 1790 e nomeada em 1820. Em 1790 a loja se encontrava em Dolphin, Red Lion Street, em Holborn, Londres. A loja mudou-se para muitas estalagens e tavernas de Londres (nos tempos de Henry Tolkien era o Hotel Anderton, Fleet Street, Londres, Inglaterra), mas agora se encontra no Freemasons’ Hall, na Great Queen Street, em Londres.[1]

 

Henry Tolkien

 

Registro de maçom Henry Tolkien, 1855–1860

 

Como visto, Henry Tolkien era um empresário do ramo da música e sua fama se estendeu por todo o mundo, chegando até mesmo ao Brasil.  No período do Império de Dom Pedro II, havia uma relação comercial intensa com a Inglaterra e muitos objetos de valor eram transacionados. Os pianos Tolkien ficaram conhecidos por sua alta qualidade e podem ser encontrados sendo leiloados nos jornais do império da época.  Há uma menção ao nome de Henry Tolkien no Jornal do Commercio de 22 de março de 1859, informando que estava sendo leiloado um piano feito por ele. Entre a elite brasileira era comum se tornarem membros de lojas maçônicas, um exemplo evidente era o próprio José Bonifácio, Rui Barbosa e o Barão de Mauá. Veja mais informações sobre essas informações AQUI.

 

John Benjamin Tolkien (1845–1883), meio tio de J. R. R. Tolkien, meio irmão de Arthur Tolkien. Ele era um empresário do ramo da música em Birmingham, afinador, repórter de jornal e compositor. De 21 de março de 1871 (quando ele foi iniciado) até 1881 ele foi membro (Senior Warden) da Lodge of Perseverance (No.573) em Halesowen, Worcester (nos tempos de John Benjamin Tolkien era no Shenstone Hotel em Halesowen). [2]

Registro de maçom de John Benjamin Tolkien, 1771–1881

Frank Neville Tolkien (1884-1966), engenheiro de Castleton, filho de Henry Alfred Tolkien, neto de Septimus Tolkien, irmão mais novo do avô de J. R. R. Tolkien. Então, Frank Neville Tolkien era primo distante de J. R. R. Tolkien. Sua data de iniciação foi em 26 de fevereiro de 1908. Ele era um membro da Loja St. Martin’s em Castleton (No. 2320), que tinha seu lugar na Church Inn, Castleton, perto de Manchester, Lancashire. Ele renunciou em No. 2320 em novembro de 1912, mas se juntou a outra “Lodge of Coronation” (No. 3479) em Blackburn. Frank Neville Tolkien pertenceu a ela até pelo menos 1921 e frequentou o Masonic Hall em Blackburn, Lancashire.[3]

Frank Neville Tolkien, maçom 1908–1912

 

O avô de J.R.R. Tolkien foi um maçon?

O pesquisador Ryszard Derdzinski não encontrou informações diretas sobre o avô de Tolkien, mas há fortes indícios de que ele também fosse um maçon. Como aponta:

Tolkien desconhecido – nós o conhecemos em The Freemason’s Chronicle, v. 43-44, 1896, p. 72, que registra a presença de um Tolkien junto com vários outros Irmãos no dia esportivo do Hertford County College. É bem possível que tenha sido o pai de Arthur Reuel Tolkien, John Benjamin Tolkien, porque o dia esportivo aconteceu no sábado, dia 25 de julho.[4]

E ainda ampliando a discussão sobre a possibilidade do avô de Tolkien ser um maçom:

Encontrei uma informação interessante em The Freemason’s Chronicle (17 de abril de 1875, p. 247). Sugere que John Benjamin Tolkien, o pai de Arthur Tolkien e o avô de J.R.R.Tolkien, da Music Warehouse em 87 New Street, Birmingham publicou a música de seu filho (“Brother John Tolkien S.W. 573”) intitulada “United Ever – New Masonic Song” dedicado a M. W. Grande Mestre Provincial de Warwickshire e Worcestershire. Como podemos ver, a família do pai de J. R. R. Tolkien era maçonicamente inclinada (o avô do professor tinha um irmão e filho maçom!).[5]

Registro do informe em que menciona a música “United Ever – New Masonic Song” pelos tolkiens.

 

Certamente novos estudos devem ser feitos em relação a comprovação de que o avô do Tolkien fosse um maçon, porém as evidências são bem contundentes, tendo em vista que um de seus filhos (meio-tio do Tolkien) e o seu irmão eram membros de lojas maçônicas. E é algo comum entre os maçons compartilhar as ideias e participação entre as famílias.

 

Mabel Suffield (Tolkien) e sua relação com os Tolkiens maçons

 

A informação de que os antepassados de Tolkien eram maçons parece ser interessante para juntar o quebra cabeça da época que a mãe de Tolkien ainda estava viva. Como visto acima, no final do século XIX ocorreu uma série de atritos entre a maçonaria e a Igreja Católica. Mabel viveu justamente no momento em que o Papa Leão XIII atuava contra a maçonaria em todo o mundo e os conflitos eram constantes.

Mabel Suffield, que acrescentou o nome Tolkien do seu marido Arthur Tolkien, por volta de 1900 se converteu ao catolicismo e junto com ela seus dois filhos J.R.R. Tolkien e Hilary Tolkien. A consequência disso foi grave. Nenhum dos lados da família desejava acolher abertamente os dois meninos e a viúva. Ser Católico no final do século XIX era se tornar uma minoria religiosa e discriminada.

Dessa forma, Mabel Tolkien nadava contra a corrente ideológica e religiosa de sua época. Havia se convertido ao catolicismo em um país cuja maioria era protestante (Anglicano) e em 1901 assumia o trono da Inglaterra o Rei Edward VII, que foi até então grão mestre maçom da Grande Loja Unida da Inglaterra.

A descoberta referida pode colocar mais um ponto de entendimento sobre os reais motivos do abandono familiar da mãe de Tolkien. Diversas hipóteses surgem diante disso. As divergências entre maçonaria e Igreja Católica na época podem ter influenciado ainda mais na decisão dos Tolkiens em evitar aproximar-se dos pequenos John e Hilary. Ou mesmo, a própria Mabel Tolkien poderia ter se afastado mais dos Tolkiens, tendo em vista a excomunhão da Igreja Católica em relação aos maçons.

Além disso, a aproximação de Mabel Tolkien com o Padre Francis Morgan pode ter relação com esses fatores. O clérigo era membro da Companhia de Jesus, que era um braço forte da Igreja Católica contra a maçonaria da época. Diante das dificuldades, e do abandono dos familiares, Mabel acabou falecendo quase que isolada. Coube ao Padre Francis Morgan se tornar o tutor dos dois meninos Tolkien.

Dessa forma, as possíveis respostas em relação ao tema podem ser assim colocadas, de forma resumida:

  1. O fato dos Tolkiens terem membros maçons pode ter contribuído ainda mais com o isolamento de Mabel e seus filhos em relação a eles. Tendo em vista a época de atritos entre a Igreja Católica e a maçonaria.
  2. A iniciativa de distanciamento pode ter partido da própria Mabel Tolkien, observando a proibição da Igreja na época e a excomunhão dos maçons.
  3. O Padre Francis Morgan pode ter tido alguma relação em instruir Mabel Tolkien sobre o tema. Ele era um Padre Jesuíta, o que na época representava quase que um inimigo natural da maçonaria.
  4. Outra hipótese é a de que Mabel não chegou a se quer saber dessa participação dos Tolkiens com a maçonaria. Tendo em vista que a vinculação a essa instituição era bem mais reservada do que é atualmente, pode ser que ela não chegou a saber disso.

O tema pode levantar ainda mais possibilidades e que precisa ser melhor investigado. Talvez novos documentos, cartas ou registros possam trazer maiores informações. O que se sabe até o momento é que a escolha de Mabel Tolkien em ser católica foi um fator determinante para seu isolamento familiar. Os motivos até então foram religiosos, tendo em vista que seus parentes os Suffields e os parentes de seu marido os Tolkiens, ambos eram fortemente protestantes.

Embora não seja o objeto do presente artigo, é sempre bom ressaltar que J.R.R. Tolkien não foi um maçom e não teve a intenção de se juntar a nenhum grupo do tipo. Ele era um católico tradicional, o que implica em uma forte oposição a ideias contrárias a Igreja. Como visto acima, foi e ainda é proibido ao católico ser membro da maçonaria. Contudo, certamente se for descoberto algo novo e que revela essa nova perspectiva da vida de Tolkien será explorado em outro artigo.

É importante ressaltar que Tolkien teve pouco contato com seu avô, o que impossibilitou uma influência no sentido de se tornar um membro de loja.  Tolkien foi criado por sua mãe na infância e na juventude pelo Padre Francis Morgan, que foi o seu tutor após a morte de Mabel Tolkien.

Segundo o próprio Tolkien: “devo mormente ser grato por ter sido criado (desde que eu tinha oito anos) em uma Fé que me nutriu e ensinou todo o pouco que sei; e isso devo â minha mãe, que se apegou à sua religião e morreu jovem, em grande parte devido às dificuldades da pobreza resultante de tal ato.” (TOLKIEN. As Cartas de J.R.R. Tolkien, 2006)

Certamente Tolkien teve muitos colegas e amigos que eram professores de Oxford e que foram membros de lojas maçônicas ou de sociedades secretas. Um deles é o conhecido Charles Williams, que chegou a frequentar organizações como a Ordem da Golden Down. Porém, Williams era mais próximo de C.S. Lewis, e o que se sabe é que Tolkien não gostava muito e pouco conversava com Charles Williams, embora não o tratasse com desdenho.

Sugestões ou comentários que vinculam às obras de Tolkien a maçonaria são, em geral, meramente especulativos ou mesmo confundem as fontes judaico-cristãs usadas para a obra de O Senhor dos Anéis com fontes maçônicas, que em princípio tiveram também entre suas fontes a religião cristã.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

DERDZINSKI, Ryszard. Four Freemasons in J.R.R. Tolkien’s Family: http://tolkniety.blogspot.com.br/2018/04/four-freemasons-in-jrr-tolkiens-family.html Publicado em: 26 de abril de 2018. Acessado em: 26 de abril de 2018.

MARTINS TERRA, João Evangelista. Maçonaria e Igreja Católica. Editora Santuário, Aparecida, 1996.

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NOTAS:

[1] Henry Tolkien (1814–1885), great-uncle of J. R. R. Tolkien, brother of his grandfather, John Benjamin Tolkien (1807–1896). He was a music dealer and he had his shop at 28 King William Street, London. He was initiated to the United Grand Lodge of England in the age of 41 on 1 August 1855. He was a member of the Lodge of Confidence (No. 193) in London till 1860. This Lodge was established in 1790 and named in 1820. In 1790 the lodge met at the Dolphin, Red Lion Street, Holborn, London. The lodge moved to many inns and taverns around London (in the times of Henry Tolkien it was Anderton’s Hotel, Fleet Street, London, England) but it now meets at Freemasons’ Hall, Great Queen Street, London.

[2] John Benjamin Tolkien (1845–1883), J. R. R. Tolkien’s half-uncle, half-brother of Arthur Tolkien. He was a music dealer in Birmingham, a tuner, a newspaper reporter and a composer. From 21 March 1871 (when he was initiated) to 1881 he was a member (Senior Warden) of the Lodge of Perseverance (No. 573) in Halesowen, Worcester (in the times of John Benjamin Tolkien it was in the Shenstone Hotel in Halesowen).

[3] Frank Neville Tolkien (1884–1966), an engineer from Castleton, son of Henry Alfred Tolkien, grandson of Septimus Tolkien who was J. R. R. Tolkien’s grandfather’s younger brother. So Frank Neville Tolkien was J. R. R. Tolkiens distant cousin. His date of initiation was 26 February 1908. He was a member of St Martin’s Lodge in Castleton (No. 2320) which had its place at Church Inn, Castleton, near Manchester, Lancashire. He resigned in No. 2320 in November 1912 but joined another Lodge of Coronation (No. 3479) in Blackburn. Frank Neville Tolkien belonged to it until at least 1921 and he attended Masonic Hall in Blackburn, Lancashire.

[4] Unknown Tolkien – we know him from The Freemason’s Chronicle, v. 43-44, 1896, p. 72 which records the presence of a Tolkien along with several other Brothers at the sports day of Hertford County College. It is quite possible that it was Arthur Reuel Tolkien’s father, John Benjamin Tolkien because the sports day took place on Saturday 25th July.

[5] I have found an interesting information in The Freemason’s Chronicle (17 April 1875, p. 247). It suggests that John Benjamin Tolkien, J.R.R. Tolkien’s grandfather (Arthur Tolkien’s father) from Music Warehouse at 87 New Street, Birmingham published his son’s (“Brother John Tolkien S.W. 573”) “United Ever – New Masonic Song” dedicated to M. W. Provincial Grand Masters of Warwickshire and Worcestershire. As we can see the family of J. R. R. Tolkien’s father was Freemason-inclined (Professor’s grandfather had a Freemason brother and son!).

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