Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Contos do Bardo por Sandro França – Parte 09

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média. Você pode ver as partes anteriores clicando nos links:

 

Parte 01 -A Floresta das trevas

Parte 02 – Caminho pelo Rio

Parte 03 – Rio Abaixo

Parte 04 -Cativo

Parte 05 – Ainda há esperança

Parte 06 – Sonhos

Parte 07 -Baruk khazad! Khazad Ai-Mênu!

 Parte 08 – Para as colinas de Ferro

_____________________________________________________________________________________________________

PARTE 9 – FILHOS DE MAHAL

 

Chovia naquela manhã. Fina era a chuva, muito suave, mas suficiente para aumentar ainda mais a sensação de frio nas Colinas. As Colinas de Ferro ficavam no nordeste da Terra-Média, e sua localização por si só já emprestava ao lugar temperaturas mais baixas. Em dias de chuva, porém, tudo ficava ainda mais frio. Durante a noite, havia geado, e a vegetação rasteira ainda encontrava-se semioculta por uma camada de gelo. Na estrada feita pelos anões que levava do ancoradouro até o portão principal das colinas, o gelo, somado à água que caia com a chuva, tornou tudo muito escorregadio. Um ou dois anões que corriam da chuva, chegando às colinas para tratar de seus próprios assuntos, acabaram escorregando, embora não tivessem caído. Praguejaram alguma coisa em sua próprio língua, e adentraram o lugar rapidamente, em busca de calor e conforto. Nuvens pesadas avançavam lentamente no firmamento, como gigantescos barcos navegando nos ares. Tudo ainda estava um pouco escuro, como se a manhã tivesse acabado de começar, mas já era por volta da oitava hora daquele dia.

O céu estava cinzento, assim como cinzentos eram os olhos daquele homem, parado como estava abaixo do portão principal das Colinas, contemplando o horizonte, pensativo e sereno. Nas mãos tinha um pedaço de papel, e um lápis. Vez ou outra, levava o olhar ao papel, rabiscando desenhos, escrevendo rapidamente algumas palavras, mas logo voltava a contemplar o horizonte e assim ficava por muito tempo, como quem espera algo aparecer, ou procura algo que perdeu. Anárion estava na verdade recordando suas aventuras, todas elas até ali. Desde o dia que saiu de sua terra natal, andou por muitos lugares e sempre fez registro de tudo que lhe chamava a atenção, seja em textos, seja em desenhos. Mas durante o duro cativeiro nas terra dos Easterlings, suas anotações haviam se perdido. Agora ele relembrava tudo com esforço, enquanto contemplava o longe, e parecia ter visões de tudo que havia vivido. Por algumas horas esteve assim, quase imóvel. Seus olhos pareciam ter visões de tudo, e ele escrevia, e desenhava.

Naquela noite um evento especial os aguardava. A convite de Dáin II, senhor das Colinas de Ferro, Gildede, seu filho Gildron, e seus convidados, iriam jantar com o mesmo. Destes, apenas Rasgul não iria estar presente. Os médicos dos anões conseguiram abrir a sua boca, mas cirurgia não era a mais especial das artes deles, então a recuperação seria demorada, e dolorosa. Praticamente apenas com comida muito pastosa ele vinha se alimentando, e não saia ou fazia esforços, para que o mais rapidamente possível se recuperasse da operação. Dessa forma, coube ao jovem Bardo representar os convidados diante do senhor das Colinas, na companhia dos outros dois anões, anfitriões de sua estada.

Quando a hora do jantar chegou, partiram os três. Os anões devidamente vestidos em sua própria moda, usando cintos dourados sobre túnicas ricamente adornadas. O Bardo vestiu-se da melhor forma possível, embora dispusesse de poucas peças, e caminhava cortês ao lado de seus amigos. Nos Palácios de Náin, como era conhecido o lugar onde vivia o soberano, foram escoltados por dois sentinelas anões, até o grande salão onde uma rica mesa estava posta ao centro. Outros anões tocavam instrumentos e cantavam seu gutural e envolvente canto. Havia lareiras, e tudo parecia muito pitoresco. O cheiro da comida impregnava o ambiente e era muito bom, prenúncio das iguarias que logo seriam provadas.

Naquela câmara rochosa, cinzelada em pedras escuras, sentado bem à frente, em uma longa mesa onde tantos senhores se sentaram, estava Dáin. Em sua face severa, podia-se perceber a bravura e a honra de altivos lordes, hoje lembrados somente em contos; no sorriso cordial, contudo havia uma grandeza somente sua, talvez a sabedoria dos anos que se acumulavam aos poucos. Vestido em trajes finos, veludo carmim e brocados de ouro às mangas e ao cinturão, trazia os cabelos trançados em longos cachos, e embora ainda escuros como o ferro das Colinas, podia-se contemplar o prateado da idade a lhe tingir faixas inteiras. Anéis cravejados de safiras, opalas, berilos e rubis, cintilavam de cada trança, fosse da basta cabeleira, ou dos bigodes e da gigantesca barba que pendia-lhe até abaixo do cinto, e anéis também fulgiam nos dedos todos feitos em joias raras; vários em ouro e outros tantos em prata. Quando os convidados foram anunciados, todos ficaram de pé, e o próprio Dáin saiu de seu acento, e veio receber os mesmos. Foi reverenciado e cumprimentou Gildron, como também seu pai Gildede. Por último, dirigiu-se a Anárion.

– Bem-vindo jovem senhor. Sou Dáin II, senhor das Colinas de Ferro e alegro-me com sua presença. Pela primeira vez em nossa história, um Filho do Sol adentra nossos salões. Espero que estes estejam à altura de tão raro convidado. – Prestou uma profunda reverência, à moda dos anões.

– Sou Anárion, filho de Galdor, nasci em Belfalas, província do Reino de Gondor. Longos caminhos e motivos me fizeram chegar até aqui. Sinto-me feliz por vossa hospitalidade, e pela ajuda na recente necessidade que passamos, pelas quais agradeço de coração. Estou honrado em ser o primeiro Edain a caminhar em seus salões. Espero estar à altura destes! – Curvou-se em profunda reverência logo após terminar sua saudação. Dáin sorriu de leve, e voltou a menear a cabeça, satisfeito com a mesura daquele forasteiro.

– Bem, vamos à mesa então, porque estou faminto e a comida, pelo cheiro, está muito boa. – Sorriu o senhor das Colinas, e caminhou em direção à mesa posta no centro no salão, juntamente com seus convidados.

Algo em torno de uma hora foi o tempo que durou a refeição, até que os anões empurraram seus pratos e afastaram as cadeiras. Aqui e ali cachimbos foram preparados e logo a maioria deles estava fumando. Anárion não estava entre estes, e apenas contemplava tudo com muita alegria e admiração, conversando de forma geral, com todos, mas muito mais prestando atenção neles. Num dado momento, Dáin levantou-se e todos fizeram o mesmo. Então ele convidou Gildron, Gildede e o jovem bardo a acompanharem-lhe a uma outra sala, onde agradável fogo crepitava na lareira. Acomodaram-se de maneira muito confortável. Ali a voz do senhor das Colinas se fez ouvir, grave e lenta, mas impregnada de significado e nobreza.

– Senhor Anárion, chamam-no de Bardo, e desde que ouvi pela primeiras vez ressoar em meus salões este nome, tenho me inquietado sobre o sentido do mesmo. Talvez outros já tenham lhe feito esta pergunta, mas exponho: por que lhe chamam assim jovem senhor? – Dáin estava sereno, e concentrado na conversa que ora iniciava.

Anárion sorriu cortês diante da pergunta do mestre anão. – Realmente, não és o primeiro a me perguntar isso nobre mestre anão, mas longe de mim faltar ao empenho na resposta. Grande é o meu débito para convosco, e dentre todos os possíveis pedidos que vieres a me fazer, este com certeza será o menos pesaroso. Sou admirador de histórias, e das tradições. Meu corpo foi moldado para as batalhas, mas minha mente, para as canções, os poemas, e a leitura. Em minhas viagens, tomo notas das coisas que vejo, e sobre tais, faço poemas e cânticos, cantando lugares e histórias em verso e prosa. Assim, sou conhecido como um Bardo.

Dáin ponderou sobre o que o Bardo havia lhe falado, e comentou: – Humm! Sobre lugares e histórias você diz fazer canções e poemas; mas e sobre os povos da Terra-Média, é grande o vosso conhecimento?

Anárion percebeu a profundidade da pergunta de Dáin, e alegrou-se ante a possibilidade de aprender com aquele nobre senhor dos anões. Escolheu as palavras com cuidado, e respondeu conforme entendeu correto: – Sobre os homens aprendi nos palácios de meu pai, durante toda a minha infância e adolescência. Em nossas bibliotecas estendi esse conhecimento. Lá também aprendi sobre os Eldar, embora pouco; mas tal conhecimento foi aprofundado após os dias que passei na corte de Thranduil, Rei dos Elfos Silvestres na Floresta das Trevas. Sobre os seus, tenho aprendido nesses dias em que estivesse convosco; mas muito me honraria se pudesse receber diretamente de vós, nobre mestre anão, cristalino conhecimento sobre vosso povo, julgando ser o mesmo profundo e grave como as raízes das poderosas montanhas.

Anárion meneou a cabeça, e a julgar pela respiração profunda de Dáin e o sorriso em seu rosto, ele havia acertado na escolha de suas palavras, pois conhecia a antiga rivalidade dentre elfos e anões, e sabia que não passaria despercebido a Dáin o fato dele ter comentado o que aprendeu com os elfos. Certamente Dáin não iria comportar-se de maneira inferior; pelo contrário, a partir daquele momento faria de tudo para ensinar sobre os anões a Anárion, de maneira a superar os elfos na transmissão de conhecimento.

– De histórias você gosta, jovem senhor, e nisso somos parecidos. Desde que era criança, meu pai sempre me contou sobre muitas coisas, mas a mais preferida de minhas histórias, e que tem relação direta com todo o meu povo, é sobre os Filhos de Mahal. Já ouviu ela antes? – Dáin acomodou-se melhor em sua poltrona, e parecia mais velho, nobre e profundo.

– Mahal… não mestre Dáin, eu jamais ouvi algo sobre esta história. Mesmo o nome me é desconhecido, tenho de reconhecer. – Anárion, que havia seduzido Dáin quando explorou a rivalidade entre elfos e anões, agora era seduzido pelo senhor das Colinas de Ferro em pronta resposta. Duas mentes interessantes, juntas, compartilhando conhecimento.

– Os Filhos do Sol esqueceram os Pilares do Mundo, jovem senhor; mas nós não. Ao que parece, os Orelhas Pontudas também não. Eles reverenciam Elbereth, a Senhora das Estrelas sob as quais eles dizem ter nascido. Nós reverenciamos Mahal, nosso pai, criador das montanhas profundas e eternas, o maior de todos os mestres em nossas artes em todo o mundo, de cuja mente vem todo o nosso conhecimento. Nos Salões Eternos ele criou nosso povo. Fez os Sete Pais dos Anões, cuja linhagem mais importante e nobre, é a de Durin. Este é o nome que nós usamos para o mais velho dos Sete Pais. – À menção do nome Durin, Gildron e Gildede arregalaram mais os olhos, e começaram a prestar mais atenção, enquanto Anárion era lentamente envolvido pela história.

– A história que quero lhe contar, é sobre minha própria linhagem. Durin I, viveu por muito, muito tempo, e ficou conhecido como o Imortal. Acreditamos que ele renasceu, enviado dos Salões do Descanso de volta para o mundo. Assim outros vieram com o seu nome em nossa linhagem. Muitos séculos se passaram no mundo naqueles tempos, e eis que chegamos na época em que houve guerra entre o Senhor da Terra Negra, e os elfos de Eregion. Khazad-Dûm, que outros chamam de Minas de Moria, era o mais poderoso e esplendoroso de todos os reinos anões. Nada se equiparava à beleza, majestade e nobreza de lá. Durin VI era o Senhor dos Anões naquele tempo. Nosso povo escavou fundo em busca de Mithril, e acabou despertando uma criatura horrenda, feita de chamas e sombras. Era um Balrog do primeiro Senhor do Escuro, que havia escapado da fúria dos Pilares e se escondido nas profundezas das montanhas.  A Ruína de Durin é como o chamamos, pois Durin VI foi morto por ele, e algum tempo depois também o seu herdeiro, Náin I. Então acabaram-se a glória e o esplendor de Khazad-Dûm, e nosso povo fugiu de lá, pois nenhuma arte que conhecêssemos era suficiente contra o poder da Ruína de Durin, e muitos dos melhores mestres de nosso povo tombaram nas infrutíferas lutas contra ele. – Dáin respirou profundamente, como quem lembra com pesar de dias passados. Após uma breve pausa, continuou.

Morgoth's_Balrog (1)

– A maioria dos nossos que conseguiram escapar de Moria, seguiram para o nordeste, sob a liderança de Thráin I, filho de Náin I. Chegaram a Erebor, a Montanha Solitária. Lá Thráin I começou alguns trabalhos e se tornou Rei-sob-a-Montanha. Seu herdeiro era Thorin I, porém este não ficou em Erebor, e rumou para o distante norte, penetrando nas Montanhas Cinzentas. Essas montanhas eram riquíssimas e nunca haviam sido exploradas, então para lá rumou a maior parte do povo de Durin.

– Mas uma outra força, motivada sabe-se lá por quem, estava fadada a nos enfrentar. Uma relação antiga, que parece remontar à primavera de meu povo, quando o mar não havia avançado tanto e podia-se caminhar nas terras além das Montanhas Azuis. – Fez uma pausa, e parecia perdido em pensamentos distantes, como quem rememora fatos antigos, há muito esquecidos. Sussurrou depois, apenas: – Dragões!

Gildron e seu pai apertaram as mãos sobre o punho da poltrona, e pareciam alarmados, como se estas criaturas pudessem chegar a qualquer momento e invadir aquela câmara rochosa. Um temor profundo causava essas criaturas nos anões. Não pelo medo de os enfrentarem, mas pelos males causados em tantos anos, e pela triste história de Erebor, conhecida por muitos. Anárion olhou Dáin com seriedade. – Dragões?

– Sim jovem senhor…dragões. Haviam dragões nas terras mais ao norte das Montanhas Cinzentas. Haviam se tornado fortes novamente, e abriram guerra contra nosso povo, saqueando nossas minas. Dáin I e seu segundo filho, Frór, tombaram diante dos portões de seus palácios, vitimados por um Dragão-Frio. O povo de Durin abandonou aquele lugar, e uma parte deles, liderados pelo terceiro filho de Dáin I, cujo nome era Grór, rumaram para cá, e habitaram as Colinas de Ferro. O restante do povo, liderador por Thrór, que era herdeiro de Dáin I, juntamente com o seu tio, Borin, regressaram para Erebor. Seguiram-se anos de muita prosperidade, não apenas para Erebor, mas também para os povos vizinhos. Em especial os homens do norte, que viviam na cidade de Vale, aos pés da Montanha Solitária. Um intenso comércio ocorria entre os homens e os anões. Minério, armas, armaduras, e outros objetos de extrema beleza e singularidade eram comercializados. Vale era uma rica cidade, e em Erebor havia banquetes e músicas nos salões. – Os profundos olhos de Dáin brilharam por trás das espessas sobrancelhas, mas novamente uma sombra recaiu sobre seu semblante.

– Então começou novamente… uma sombra pairou sobre a Montanha Solitária, e os corações de todos passaram a estar pesarosos. As canções já não eram suficientes para alegrar. Até que… – fez novamente uma pausa, e agiu como quem sente uma antiga dor! – Até que ele veio. Smaug, o Terrível, o maior de todos os dragões, o Dourado, veio do norte e desceu em chamavas sobre o Reino de Thrór. Vale foi arruinada, e os sobreviventes fugiram deixando a cidade em ruínas, entregue a seus fantasmas. Smaug caiu em fúria sobre Erebor, e suas labaredas infernais lambiam a montanha. Em pouco tempo ele destruiu todo o reino, e juntou todo o ouro possível que encontrou, deitando-se sobre ele no Grande Salão. Muitos de nosso povo caíram nas labaredas de Smaug, mas ainda assim, a maioria conseguiu escapar. Por fim saíram o rei Thrór e seu herdeiro, Thráin II. Eles rumaram para o sul com seus familiares, numa peregrinação sem destino, acompanhados por outros parentes e seguidores fiéis. Isto, jovem senhor, é a maior das tristezas de nosso povo, superada apenas pela queda de Khazad-Dûm diante da Ruína de Durin.

– Uma história honrada e triste, mestre Dáin. Lamento pelos acontecidos. Vejo que, assim como a história de meu próprio povo, também os anões carregam suas dores e lamentações, e perderam muito do quede melhor tinham, tanto em vidas, como em posses. – Anárion meneou a cabeça um pouco, como quem presta uma condolência pela dor alheia.

– Deveras… mas outras coisas lamentáveis aconteceram após, de sorte que o destino da linhagem de Durin parece estar intimamente ligado ao destino de Erebor, e de Khazad-Dûm. Pois Thrór, anos depois e já bastante idoso, pobre e desesperado, partiu na companhia de um servo, de nome Nár, relegando a seu herdeiro a liderança dos remanescentes de Erebor. Thráin pensou que o pai poderia estar pensando em voltar para Erebor, mas o mesmo negou, afirmando que a vingança contra Smaug, ele passava a seus descendentes. Partiram os dois, Thrór e Nár, da Terra Parda, onde o povo estava morando há alguns anos, e rumando para o norte, passaram pela Passo do Chifre Vermelho, e adentraram Azanulbizar, onde muito tempo antes Durin I, o Imortal, havia feito sua morada após ter despertado. Os dois encontraram então os Portões de Moria abertos, e Thrór, louco em seu desespero, adentrou sozinho o antigo reino, como um rei que regressa do exílio.

Anárion projetou o corpo um pouco à frente. – Mas após tantos anos, que criaturas poderiam estar habitando os salões de Moria? Sem falar na própria Ruína de Durin, como chamam. – Gildron e seu pai a tudo acompanhavam, visivelmente emocionados, embora não chorassem. Doloroso era para eles relembrar essas passagens da honrada e majestosa, porém também triste, história dos Naugrins.

– Orcs mestre Anárion… orcs é o que Thrór encontrou após alguns dias lá dentro, enquanto Nár aguardava fora. Orcs agora empestavam os grandes salões de Moria e perante o senhor destes Thrór foi levado. Sua cabeça foi decepada, seu corpo atirado em partes para servir de comida para os corvos negros. Na testa de Thrór foi escrito em runa de nosso povo o nome do senhor dos orcs: Azog, o Profano. A cabeça do rei foi atirada para Nár, que fugiu sob a permissão dos orcs, servindo assim como um mensageiro. Regressou ele até Thráin, e por longos dias o povo de Durin chorou a brutal morte de seu antigo senhor. Mas a cada hora de choro, crescia no coração deles o desejo de vingança contra Azog. Thráin enviou mensagens sobre o acontecido para o norte, o oeste e o leste, e após três anos, um poderoso exército anão estava reunido, como dificilmente voltará a acontecer em outro tempo. Somados ao povo de Durin, vieram tropas das Casas de outros Pais. Partiram então os anões, e de Gundabad ao Rio de Lis, contra os orcs eles batalharam, e prevaleceram, embora com muitas perdas, pois os embates eram vorazes de um e de outro lado. Em cada caverna os anões procuravam por Azog, até que o restante dos orcs enfurnaram-se em Moria. – Aqui Dáin levantou-se, e seu semblante erra terrível, pois ele mesmo estivera presente nestes combates, e falava com propriedade, com a firmeza de quem desceu aço sobre o inimigo, e na pele sentiu seu sangue.

– Quando os anões chegaram diante dos portões de Moria, trovejaram num clamor que rebombou nas profundezas das montanhas. Então Azog liberou a reserva de seu exército, que havia guardado para alguma necessidade, e milhares daquelas criaturas vis desceram sobre os anões em fúria. Assim começou a batalha de Azanulbizar, da qual nosso povo ainda hoje chora quando se lembra. A batalha foi intensa por muito tempo, e nosso povo avançava, e regredia. Thráin teve o seu ataque contra-golpeado com muita força e teve de se refugiar num bosque próximo. Seu filho, Thorin II teve o seu escudo partido. Usando então seu machado, arrancou um galho de carvalho, e passou a usar essa madeira como escudo contra os golpes dos inimigos. Daí veio o fato dele ser conhecido como Thorin Escudo-de-Carvalho. A batalha seguiu, até que os exércitos de Náin, bravos guerreiros das Colinas de Ferro, viraram o jogo. Passo a passo, chegando depois com força total, avançaram derrotando os inimigos, protegidos em suas malhas metálicas, empunhando suas picaretas. Então o próprio Náin, filho de Grór, parou diante do portão de Moria e gritou por Azog, desafiando-o a sair e o enfrentar. O Profano veio. Um enorme orc, embora não menos ágil, com uma grande cabeça protegida com um capacete de ferro, e com ele, outros assemelhados. Insano foi o combate. Azog insultou Náin, e eles duelaram. E Náin, traído pelo cansaço e cego de ira, caiu após errar um golpe diante de Azog, que golpeou seu pescoço. Sua malha metálica impediu que sua cabeça fosse cortada, mas o pescoço quebrou com a força do golpe e ele tombou. Assim morreu Náin, filho de Grór, Senhor das Colinas de Ferro… assim se foi o meu pai…! Azog bradou dos portões com um rugido feroz, mas o grito morreu em sua garganta, quando viu que todo o seu exército havia caído, ou fugia ensandecido e que os anões, mesmo a muito custo, haviam prevalecido. – Dáin parou diante da lareira, e respirou profundamente enquanto observava o fogo, de costas para os convidados. Anárion apenas o observava, em silencio, meditando em tudo o que ele havia lhe contado até então. Nesse momento, Gildede levantou-se.

– Se me permite, meu senhor, continuarei a história, pois jovem eu fui naqueles dias, e era um dos tantos de nosso povo que vergava malha metálica, e brandia uma picareta. Aturdidos vimos nosso senhor Náin cair diante da fúria de Azog. Ficamos cegos de ira, mas um entre nós superou a todos. Pois, vendo que Azog intentava entrar novamente em Moria, pelo portão de onde viera momentos antes, uma vez que tinha percebido que a batalha estava perdida e tentava com isso fugir dos vencedores, partiu aquele jovem anão em desabalada carreira, e como o raio que fende as rochas nos altos picos das montanhas, destilou toda a sua ira contra Azog, e nas escadarias do portão, ele o matou. Decepou então a grande cabeça do orc, e a ergueu com a destra para mostrar ao seu povo, tendo na mão esquerda o objeto que usara para dar vazão à sua ira: um poderoso machado vermelho. – Os olhos de Anárion foram atraídos para um objeto preso à parede, acima da lareira diante da qual Dáin estava parado. Só então compreendeu tudo, e seu rosto denunciou a típica expressão dos que apresentam-se diante de grandes heróis, pois ali na rocha estava pregado um Poderoso Machado Vermelho. Dáin era filho de Náin, e havia matado Azog.

Gildron levantou-se e prestou uma profunda reverência ao Senhor das Colinas de Ferro. Anárion ficou de pé, e procedeu da mesma forma. Gildede observando a cena, bradou: – Salve Dáin II, Vingador do Povo de Durin!

Dáin sorriu diante do brado de Gildede, e sobre seu ombro repousou uma das mãos enquanto observada os outros dois convidados. – Vingador de meu pai, eu diria. Um dos que, como você, ajudou Thráin a vingar a insolência feita ao seu pai Thrór; mas o maior revés que o povo de Durin sofreu concentra-se nas figuras de Smaug, e do Balrog de Moria. Enquanto eles caminharem, nenhum de nós poderá vergar este título, e penso que não será pela mão de um anão que um dia eles perecerão. – Não era próprio dos anões terem o dom da previsão, mas em muitos aspectos Dáin era diferenciado, e sempre pairou sobre ele essa impressão. Ele continuou.

– Thráin II e Thorin II, Escudo-de-Carvalho, voltaram para as Terras Pardas, e de lá, migraram algum tempo depois para as Montanhas Azuis, onde hoje possuem um reduto e certa prosperidade. Eu liderei os remanescentes do povo das Colinas de Ferro de volta pra casa. Não comemoramos aquela vitória, pois pesadas e irreparáveis foram as perdas sofridas. Apenas menos da metade dos que foram àquela guerra, voltaram salvos ou com esperanças de cura. Hoje, Smaug ainda está assentado sobre seu trono de ouro em Erebor, embora ninguém o tenha visto ou ouvido em quase cem anos. Thráin partiu numa estranha jornada alguns anos depois, na companhia de Balin e Dwalin, filhos de Fundin. Os irmãos regressaram a Thorin II e contaram a história de como Thráin sumiu numa noite, na Floresta das Trevas, e nunca mais foi visto. Assim Thorin II é agora o senhor do povo de Durin, e esta jovem Anárion, até agora, é a nossa história. Espero que o tenha engrandecido, pois apenas com muita dor eu a conto, apesar da passagem dos anos.

 

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather