Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

As origens da palavra “Orc”

Orcs no filme de O Senhor dos Anéis

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

O presente texto é parte de uma série de artigos que tratará sobre as palavras Orc e Goblin. A editora HarperCollins Brasil está traduzindo os novos livros do Tolkien e com isso decidiram trocar a palavra Orc por Orque e Goblin foi substituído por Gobelim. O site Tolkien Brasil não irá adotar tais mudanças que se demonstram inadequadas por fatores diversos que serão expostos nos próximos textos.

Primeiramente gostaria de agradecer o auxilio e a colaboração dos tolkienistas Oronzo Cilli, Carl F. Hostetter, Henk Brassien, Jared Lobdell David Giraudeau, Paulo Pereira, Edouard Kloczko, Audrey Morelle, Vicent Ferré e Daniel Lauzon. O presente texto foi abrilhantado com as informações prestadas por esses grandes estudiosos das obras do Tolkien e possibilitou que se tornasse mais completo do que inicialmente era pretendido.

Agradeço em especial a todos os seguidores e amigos do site Tolkien Brasil. Todo esse esforço e dedicação é para nós que somos fãs e queremos ver as obras do Tolkien em nosso país apresentadas da melhor forma possível.

Introdução

Em 2018 a Harper Collins Brasil se tornou a nova editora das obras de J.R.R. Tolkien. Com isso a esperança foi renovada para novas publicações em Português. O novo modelo apresentado pela editora de inicio encantou os leitores que há muito tempo não viam tamanho empenho pela qualidade estética nas obras de seu autor favorito.

É notável o valor da editora Harper Collins Brasil em buscar acolhimento dos leitores e conferir melhor resposta aos seus anseios. Foi nesse sentido que fãs do Tolkien foram contratados para trabalhar nas traduções dos livros. Uma iniciativa louvável, pois os leitores entusiastas são justamente aqueles que se preocupam com detalhes que, normalmente, um grande público não daria a mesma atenção. Porém, divergências sobre a tradução vão sempre existir em se tratando de uma obra complexa como a de J.R.R. Tolkien. E cabe a todos os entusiastas se unirem para dirimir as dúvidas e tratar sobre os temas controversos da melhor forma possível. Além disso, a boa conduta nos ensina que os dirigentes devem escutar seu público e não tentar impor algo que não parece ser interessante, conforme será demonstrado a seguir.

Dessa forma, o presente texto visa apresentar considerações sobre uma das mudanças realizadas na tradução das obras do Tolkien no Brasil. Que foi basicamente substituir a palavra “Orc” por “Orque” e também “Goblin” por “Gobelim”. Ao que parece, não se discute uma tradução propriamente, posto que as palavras foram substituídas do seu original por seus equivalentes em Francês ou foram palavras criadas pelos tradutores, como será analisado adiante. Então, o que está sendo considerado a seguir é a escolha dessa substituição (ou espécie de empréstimo linguístico) e também as ideias de tradução sobre a palavra Orc e Goblin.

Importante dizer que várias decisões sobre como seriam as traduções foram sendo tomadas com a finalidade de organizar uma padronização dos livros. Muitas dessas decisões foram acertadas. Portanto, não se trata aqui de menosprezar o árduo trabalho dos tradutores, tão pouco julgar sua boa-fé como fãs. A intenção é demonstrar outras possibilidades e levantar o debate sobre o tema, que seria tão caro ao próprio Tolkien.

Preliminarmente, é salutar apontar a importância do debate. Poderia parecer algo trivial e digno apenas de pessoas com muita disposição tratar sobre a escolha de palavras para uma tradução de livros de fantasia. Certamente o questionamento é importante para um número reduzido de pessoas, dentro da esfera global. Mas isso não é empecilho para a análise. A discussão sobre palavras é para Tolkien algo altamente relevante. Primeiro pelo fato disso ser objeto de seu trabalho, como professor e estudioso das línguas antigas, e também por questão de se pretender manter a fidelidade ao original da obra.

Quando tratava sobre as primeiras traduções de seus livros, o professor Tolkien se preocupava com o que os seus tradutores faziam com relação aos nomes dos personagens e os lugares. Em carta para Rayner Unwin, datada de 3 de julho de 1956, Tolkien afirmou o seguinte sobre a nomenclatura ser traduzida de uma forma equivocada: “A questão é importante (para mim); tem me incomodado e irritado muito, e me dado uma boa quantidade de trabalho desnecessário em uma época assaz inadequada…..” Foi diante da discordância da atuação dos tradutores, que o próprio Tolkien, anos mais tarde, escreveu um guia de como as nomenclaturas dos livros deveriam ser traduzidas. Nesse guia são apresentadas diversas regras que os tradutores deveriam ter como base para suas decisões.

Portanto, a questão levantada não apenas seria interessante para a análise pelo próprio Tolkien, mas também por seus leitores que, de algum modo, também admiram os aspectos linguísticos de suas obras. Adentra-se no debate da fidelidade da tradução em relação ao original, do que seria algo aceito por Tolkien e o que os fãs teriam a dizer a respeito do tema.

Primeiramente serão feitas análises em relação à etimologia e significado da palavra “Orc”. Nas obras de Tolkien existe um mundo interno (o mundo secundário, o mundo imaginário) e o mundo externo (o mundo primário, nosso mundo real). Sendo assim, é feita análise nesses dois âmbitos, demonstrando a complexidade da questão.

Em se tratando de tradução é importante verificar as diretrizes gerais que o próprio autor deixou em seus manuscritos, cartas e textos. Além disso, em seguida é feita uma análise específica sobre o que Tolkien declarou sobre a tradução da palavra Orc. E são apresentados comentários sobre a questão da grafia da palavra, tendo em vista a opinião do Tolkien a respeito de como se deveria escrever.

Em uma terceira parte são analisadas as traduções anteriores da palavra “Orc” nas línguas: português, italiano, espanhol e o francês. Essa análise comparativa serve para elucidar o tema e verificar as experiências anteriores dos tradutores de línguas neolatinas.

Na quarta parte é tratado especificamente sobre os Goblins. Como são encarados no folclore britânico e como o Tolkien compreendia essa palavra dentro do mundo interno. Em seguida, será feita uma análise da palavra e como ela foi traduzida em outros idiomas de origem latina, semelhantes ao Português.

 

CAPÍTULO I – ETIMOLOGIA EXTERNA E INTERNA DE “ORC”

 

O professor e escritor J.R.R. Tolkien (1892-1973) iniciou um projeto ambicioso em 1914: escrever um conjunto de mitologias, lendas e contos de fada que ecoassem semelhança com outras mitologias de vários povos antigos, e que fosse uma espécie de homenagem dedicada à Inglaterra. O autor estabeleceu como parâmetro de suas histórias a própria realidade, em um processo de imitação do real transportada para o imaginário. Com isso ele utilizou várias técnicas literárias que pudesse proporcionar o efeito de realismo, que trouxesse a sensação de imersão nas histórias.

Dentro do processo criativo, o autor utilizou a técnica “Story within a Story” (história dentro de uma história), também chamada Mise em Abyme. Nesse recurso literário existe a figura do autor ficcional, um personagem que faz parte daquele universo, mas que ao mesmo tempo é autor das mesmas histórias que testemunhou ou que anotou os seus relatos.

Ao escrever suas obras Tolkien não apenas narrou as histórias com o ponto de vista do autor, como a maioria dos romances, no chamado narrador onipresente e onisciente. O que ele pretendia era que cada uma de suas histórias fossem também manuscritos ou registros daquele período dentro do próprio mundo. Portanto, é necessário entender que no mundo interno, o próprio Tolkien é considerado como sendo o tradutor dos manuscritos derivados do Livro Vermelho do Marco Ocidental. Esse livro ficcional seria resultado de séculos de anotações de registros das principais lendas e mitos ocorridos na Terra-média. Além disso, o Livro estava escrito, em sua maior parte, na Língua Comum (Westron) que era falada no tempo do final da Terceira Era e início da Quarta Era do Sol.

Nesse sentido, existem dois grandes planos para se entender as obras e sua autoria: O Mundo Primário e o Mundo Secundário. O Mundo primário é o nosso mundo e nossa realidade, onde evidentemente o autor dos livros é apenas J.R.R. Tolkien. Enquanto que no Mundo Secundário, as histórias narradas teriam seus próprios autores ficcionais. Assim, o professor Tolkien se coloca como um estudioso que encontrou registros históricos em línguas diferentes e que seria um tradutor para o Inglês Moderno. Isso é demonstrado, por exemplo, no frontispício de O Senhor dos Anéis, que informa ser o livro uma tradução de J.R.R. Tolkien a partir dos manuscritos do Livro Vermelho do Marco Ocidental. Conforme pode ser lido a seguir: “O Senhor dos Anéis traduzido do Livro Vermelho do Marco Ocidental por John Reuel Tolkien. Aqui está contada a história da Guerra do Anel e do Retorno do Rei conforme vista pelos hobbits.” Dessa forma, tanto O Hobbit quanto O Senhor dos Anéis, são relatos dos próprios protagonistas das histórias.

  • Mundo Primário (Tolkien como autor real):R.R. Tolkien autor dos textos de O Hobbit, O Senhor dos Anéis, O Silmarillion, Os Filhos de Húrin, Beren e Lúthien, A Queda de Gondolin e outros textos sobre o Legendarium não publicados durante sua vida. Postumamente os principais rascunhos foram publicados com edição de Christopher Tolkien.
  • Mundo Secundário (Tolkien como tradutor): O Silmarillion, Os Filhos de Húrin, Beren e Lúthien, A Queda de Gondolin e outros textos são traduções e complementos feitos por Bilbo Bolseiro a partir dos manuscritos e relatos antigos. Esses foram juntados com os relatos do próprio Bilbo e o Frodo Bolseiro e outros hobbits e que depois foi copiado por humanos (O Hobbit e O Senhor dos Anéis). O livro fonte das cópias ficou conhecido como o Livro Vermelho do Marco Ocidental. Que por sua vez foi traduzido do Westron (Língua Comum) para o Inglês Moderno por J.R.R. Tolkien na Sexta ou Sétima Era do Sol.

A complexidade das obras de J.R.R. Tolkien se revela na medida em que o seu mundo secundário tem como parâmetro o próprio mundo real.  Isso faz com que o processo criativo seja bastante específico e detalhado, sobretudo no âmbito linguístico. Em seu mundo existem várias criaturas, com diversos povos e culturas diversas. Sendo assim, também existem diversas línguas fictícias que foram projetadas para aquele mundo pelo autor. É aí que surgem os elfos, criaturas especiais e belas que tinham suas próprias línguas desenvolvidas pelo autor (Quenya e Sindarin) e muitas outras. Nas obras do Tolkien as palavras ganham relevância própria. Uma única palavra tem toda sua explicação etimológica e toda a repercussão linguística dentro do seu mundo.

Os Orcs eram os malignos inimigos dos Elfos, Anões e Humanos. Assim como os outros povos, também tinham sua cultura, ainda que corrupta e degradante. Mas o professor Tolkien também se deu o trabalho de escrever elementos sobre esse povo.  Especificamente, sobre a palavra “Orc” foi dado um tratamento especial pelo autor, na medida em que há diversos textos sobre essa palavra. Existe até mesmo um rascunho feito pelo Tolkien, com várias páginas, que trata exclusivamente da etimologia da palavra Orc dentro do mundo imaginário.

Em uma carta, Tolkien expressou que “Orc” tem duas etimologias. A primeira relacionada ao seu mundo imaginário e a segunda como fonte para a obra a partir do mundo real. Assim ele explica a origem da palavra Orc para sua leitora Gene Wolfe, em 7 de novembro de 1966:  “A etimologia das palavras e nomes em minha história tem dois lados: (1) sua etimologia dentro da história; e (2) as fontes das quais eu, como autor, as obtive.” (TOLKIEN. Carta para Gene Wolfe, 7 de novembro de 1966, in WOLFE, The Best Introduction to the Mountains).[1] Assim, para se compreender o significado da palavra Orc é necessário realizar um estudo dentro desses dois âmbitos. Como a palavra está posta em nossa realidade e como está dentro daquele complexo mundo imaginário. A seguir serão feitas essas análises.

Representação do Orco

1.1  Análise Externa: origem e significado da palavra “Orc”

A verdadeira origem da palavra “Orc” é complicada de ser alcançada, tendo em vista a falta de documentos precisos e divergências entre os próprios estudiosos das línguas. Contudo, existem possibilidades traçadas que parecem ser as mais razoáveis e aceitas.

Consultando o Oxford English Dictionary há dois significados para a palavra “Orc”. O primeiro traz o conceito de que seria “qualquer uma das várias criaturas marinhas ferozes. Em uso posterior: um grande cetáceo, esp. a baleia assassina, Orcinus Orca.”[2]. Esse primeiro significado de Orc, como criatura marinha, não é relevante para o presente estudo, tendo em vista que Tolkien afirmou não ser ali a origem da palavra utilizada em seus livros. No prefácio de O Hobbit, o autor diz que Orc “…não tem nenhuma relação com orc, ork, que se aplicam a animais marinhos aparentados com o golfinho”.[3]

Eu originalmente peguei a palavra do inglês antigo orc [Beowulf 112 orc-nass e a glosa orc = pyrs (‘ogre’), heldeofol (‘diabo do inferno’)]. Não se deve supor que isso esteja ligado com o Inglês moderno orc, ork, [orca] um nome aplicado a vários animais marinhos da ordem dos golfinhos. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)[4]

Então, o que é relevante de ser observado é o segundo conceito dado pelo dicionário. Segundo o OED, a palavra Orc tem o significado de “Um monstro devorador; um ogro; especificamente um membro de uma raça imaginária de criaturas subumanas, pequenas e humanas em forma, mas com características ogras e agressivas, personagens malévolos[5]

A possível origem dessa palavra “Orc” estaria relacionada ao latim “Orcus”, porém, o professor Tolkien duvidava dessa origem e nos anos 1966 e 1968 começou examinar o assunto com atenção, percebendo se tratar de um tema complexo:

Orc eu retirei do anglo-saxão, uma palavra que significa demônio, geralmente supõe-se ser derivada do latim Orcus – Inferno. Mas duvido disso, contudo o assunto é muito complexo para ser exposto aqui. (TOLKIEN. Carta para Gene Wolfe, 7 de novembro de 1966, in WOLFE, The Best Introduction to the Mountains).[6]

Orc não é uma “invenção”, mas um empréstimo do Inglês Antigo orc “demônio”. Supõe-se que é derivado do latim Orcus, que Blake sem dúvida conhecia. E também é suposto não estar ligado a orc o nome de um animal marítimo. Mas eu recentemente investiguei orc e achei o assunto complexo. (TOLKIEN. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, p.25)[7]

A tabela a seguir elenca os três significados, contendo as grafias de cada língua. Ressaltando que Orque (Francês) e Orc (Inglês) tendo o significado de “demônio” foram usadas apenas no período medieval. Nas línguas modernas Orque (Francês) e Orc (Inglês) são usadas para nomear uma espécie de monstro marítimo, ou baleia assassina. Enquanto que a palavra “Orco” se manteve como uma criatura folclórica no Espanhol e Italiano modernos, mas também comportou outro significado como sendo “inferno”.

A origem de Orcus está conectada com a religião etrusca ou romana antiga. Em alguns afrescos nos túmulos etruscos era retratado como um gigante peludo e barbado, confundido até mesmo com os gigantes ciclopes. Entre os etruscos, o destino de cada falecido poderia ser conduzido pelo Orco a um mundo de sofrimento, sem luz e esperança, povoado por criaturas demoníacas. Assim, os Romanos relacionavam Orcus com outros deuses como Plutão, Hades e Dis Pater, que são os deuses da morte.

O nome Orcus além de ser associado com um deus da morte, também chegou a ser relacionado ao próprio local que a alma se destinava como forma de punição divina, no caso, Orcus também tinha o mesmo significado de inferno ou submundo. Pode-se supor que a origem da palavra latina vem do grego antigo Órkos, que era um deus que punia pessoas que quebravam juramentos. De fato, é obscuro as origens dessa palavra, a ponto do próprio Tolkien achar muito complexa uma análise etimológica.

Com ascensão do cristianismo nos últimos séculos da Idade Antiga, Orcus foi considerado como um demônio e os cultos rurais foram abandonados. Porém, a palavra se manteve em uso em relação aos contos populares que eram transmitidos oralmente. Deixando de ser cultuado como um deus, Orcus passou a ser encarado como um ser sobrenatural em forma humanoide que tinha aspectos selvagens e que devorava pessoas.

Na Idade Média, enquanto em alguns lugares Orcus se tornou uma criatura, em outros ele manteve apenas o significado de submundo ou inferno. Com o passar dos anos, não apenas as histórias foram sendo narradas e transmitidas, mas também as palavras conectadas e assim variavam seus termos e contos, conforme a região e língua. Na região da Itália se tornou “Orco”, contendo o significado de “demônio, monstro” e também de “inferno, submundo”.

Enquanto que na região da Espanha também se manteve a palavra “Orco”, com seu duplo significado. Na região britânica da Idade Média, surgiu a palavra “orc” em Anglo-saxão, e em Francês medieval “Orque” ou “Orke”, ambos significando as criaturas monstruosas e não tendo relação como sendo o submundo. O Inglês moderno e o Francês moderno não mais utilizaram essas palavras para identificar a criatura folclórica, mas permaneceu com o mesmo sentido que “orca”.

A palavra em latim “Orcus” parece ter relação com “Orca”, que é uma “baleia assassina”, “monstro marinho”. As línguas neolatinas Espanhol, Italiano, Português e Catalão mantiveram esse sentido e adotaram a grafia “Orca”. Porém, no francês moderno se escreve “Orque”, não tendo relação com as palavras em francês medieval “Orque/Orke”, que significavam um demônio. O mesmo ocorreu com a palavra em Inglês “Orc”, que em Anglo Saxão significava demônio, mas em sua forma moderna é apenas o monstro marítimo.

O quadro abaixo mostra como os conceitos da palavra foram empregados em latim e como estão relacionados nas línguas modernas neolatinas e o Inglês:

 Línguas Demônio Inferno Baleia assassina
Latim Orcus (Orci) Orcus (Orci) Orca (s)
Espanhol Orco /huerco (s) Orco (s) Orca (s)
Italiano Orco (s) Orco (s) Orca (s)
Português (Brasil) —- Orco (s) Orca (s)
Galego —- Orco (s) Candorca (s)
Catalão —- Orco (s) Orca (s)
Francês * —– Orque (s)
Inglês * —– Orc (s)

* Em Francês e em Inglês as palavras foram usadas nesse sentido apenas no período Medieval. Na forma de línguas modernas, Francês e Inglês, essas palavras tem o significado de Baleia Assassina.

O livro “The Ring of Words” trata de várias palavras que foram criadas ou desenvolvidas pelo Tolkien e que foram incorporadas no dicionário da língua inglesa de Oxford. Nesse livro os autores demonstram uma breve explicação da etimologia da palavra Orc e como foi usada no dicionário em mais de dois sentidos.

A palavra do Inglês Antigo “orc” aparece em Beowulf na composição “orcneas”, que se refere a espíritos malignos ou cadáveres ambulantes: “eotenas ond ylfe ond orcneas” (gigantes e elfos e demônios). Provavelmente vem do latim clássico “Orcus”, o nome do deus do submundo, mas é tão raramente atestado na literatura do Inglês Antigo que podemos deduzir pouco sobre como entrou no inglês, até se tornar associado de palavras nativas Germânicas, como eotenas e ylfe. (Não é a mesma palavra que “orc” significando ‘um cetáceo ou monstro marinho’, do Latim “orca”, que o OED Online separa como orc n.1). (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of Words, p.174-175)[8]

Uma vez que as histórias sobre “orc” (em suas diversas formas em cada língua) foram se tornando parte do folclore europeu, elas sobreviveram por transmissão oral. Até que os primeiros escritores anotaram os contos sobre a tal criatura entre os séculos XII a XVII.

As histórias sobre seres monstruosos eram frequentes por toda a Europa. Entre os britânicos existe os relatos de Geoffrey de Monmouth, autor da “Historia regum Britanniae” (A História dos Reis da Bretanha), ou também conhecida “De gestis Britonum” (Sobre os feitos dos Bretões), que narra a história dos reis britânicos desde sua origem mais remota. Segundo esses escritos, datados de 1136, as ilhas britânicas eram chamadas de Albion e era dominada por gigantes. Foi então que Brutus, fugindo da cidade de Troia destruída pelos gregos, decidiu habitar a ilha e derrotar os gigantes, logo em seguida fundando a cidade Troia Nova, que muito tempo depois seria a cidade de Londres. As lendas anotadas por Monnmouth se tornaram conhecidas e foi responsável por apresentar a lenda do Rei Arthur. Dentro desse complexo de lendas é que estavam inseridas as criaturas que devoravam pessoas.

Entre os anos de 1130 a 1190, foi escrito em Francês Antigo o romance de cavalaria arturiana “Perceval ou Le Conte du Graal” (Percival, o Conto do Graal), atribuído a Chrétien de Troyes, que contem os seguintes versos:

Et s’est escrit que il ert ancore
que toz li reaumes de Logres,
qui jadis fu la terre as ogres,
ert destruite par cele lance.
E está escrito que virá novamente
por todas as regiões de Logres,
conhecido como a terra dos ogres,
e destruí-los com aquela lança.

A palavra “logres” é usada dentro das lendas arturianas para nomear o território britânico. E aqui se destacou que era a terra dos “ogres”, justamente o que Monmouth colocou como sendo os primeiros habitantes daquele território, antes da chegada dos humanos liderados por Brutus. Nota-se que desde essa época a língua francesa começou a misturar com a língua inglesa quanto a palavra Ogre, em virtude da disseminação das histórias e lendas arturianas.

Dentro da tradição italiana, a palavra “Orco” aparece nas obras de Jacomo Tolomei (1290), Fazio degli Uberti e Ristoro Canigiani (1363), em que é descrito como uma espécie de bicho que come crianças (bicho-papão). Os contos e histórias de cavalaria passaram a tratar os Orcos como monstros que os heróis deveriam enfrentar. No poema “Orlando Innamorato” (1483) de Matteo Maria Boiardo, Orco é descrito como uma criatura horrível com aparência semelhante a um javali que devora pessoas. Em 1516 foi publicado “Orlando Furioso” de Ludovico Ariosto, que teve influências do poema de Boiardo, por isso também incluiu o Orco como uma criatura maligna que se alimenta de carne humana. Na obra de Ariosto também está presente “Orca”, que tem outro sentido, de monstro marinho. Orlando Furioso foi traduzido para o inglês pela primeira vez por Sir John Harington e publicado em 1591.

O escritor italiano renascentista Giovanni Francesco Straparola (1440–1557) é considerado o primeiro europeu a registrar o que se conhece atualmente como “Contos de fada” ou “Contos Maravilhosos”. Foi assim que se registrou Orco como sendo parte do folclore italiano. Seguindo o mesmo caminho, Giambattista Basile escreveu seus livros registrando contos populares, a região italiana em que ele habitava era dominada pela Espanha, com isso discute-se a possível influência nas palavras que usou nos textos ou se apenas colocou o próprio dialeto local. Fato é que Basile usou a palavra “huorco” (Ou ‘huerco’, ‘uerco’), que era a forma napolitana para “Orco”, para descrever uma criatura grande humanoide que vivia em florestas escuras e que poderia ser maligna (capturando ou devorando humanos) ou até mesmo pacifica, dependendo do conto. As histórias mais conhecidas de Basile que tratam dessa criatura são “Peruonto” e “Lo Cuento dell’uerco” (O Conto do Orco), ambos presentes no livro Pentamerone (O Conto dos Contos) de 1634 e 1638.

Enquanto que no italiano a palavra manteve o sentido de monstro ou demônio folclórico, em Inglês a palavra “Orc” (com sentido de demônio) do Inglês Antigo parece não ter sobrevivido no Inglês Médio e tão pouco no Inglês Moderno.

A palavra só tem algum tipo de alcance quando é novamente citada no século XVII, porém com um sentido diferente do Orc do Anglo Saxão. Em 1605 reaparece na tradução para o Inglês feita por Joshua Sylvester do livro Divine Weeks and Works (La Sepmaine; ou Création du monde) de autoria do francês Guillaume de Saluste Du Bartas. Por se tratar de uma tradução e não haver palavra correspondente foi mantido “Orque” do francês antigo, que tem o mesmo sentido de Orco no italiano: “Insatiate Orque, that euen at one repast, Almost all creatures in the World would waste”.  Em 1656, Samuel Holland escreveu um conto de fada chamado “Don Zara”, onde usou a palavra “Orke” que é uma criatura monstruosa com três cabeças, gerado por um demônio Incubus.“Who at one stroke didst pare away three heads from off the shoulders of an Orke, begotten by an Incubus.

Conforme consta no livro “The Ring of Words” o uso da palavra com o sentido de “demônio” foi usado no período medieval, mas que no século XVII passou a ser um empréstimo, caracterizando influências francesas e italianas:

Como o OED Online aponta (orc n.2), em razão de não existir evidência para a palavra em Inglês Médio ou no século XVI, é improvável que a palavra em Inglês Antigo orc tenha sobrevivido. É notável, então, que exatamente a mesma forma-palavra reaparece com um significado similar no inglês do século 17, surgindo primeiramente em 1605 na tradução de Sylvester do Divine Weeks and Works de Du Bartas. Aqui está provavelmente um empréstimo do italiano orco que significa “gigante devorador de homens, demônio, monstro”, que também vem do latim Orcus. Nos primeiros exemplos o Orque ou Orke é um monstro grotesco, capaz (em Sylvester) de devorar numerosas criaturas, ou (em Don Zara de Samuel Holland de 1656) tendo várias cabeças. Enquanto os orcs de Tolkien são feios e violentos, com insinuações de que comem carne humana, mas não sobrenatural, seu uso da palavra parece mais próximo conforme Sylvester e Holland do que da palavra do Inglês Antigo que era seu estímulo. (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of Words, p. 175)[9]

Mais de cinquenta anos após a publicação de Samuel Holland, o escritor Charles Perrault anotou os contos populares franceses, onde a palavra “Ogre” foi usada no mesmo sentido que o “Uerco” ou “Orco” de Basile. E foi a partir da influência de Perrault e das traduções para o inglês de suas obras, especialmente o livro Histoires ou conte du temps passé (1697), que a palavra “Ogre” foi introduzida no vocabulário inglês. Sobre essa palavra e seu histórico, a Encyclopedia Britannica de 1911 apresenta o seguinte verbete:

OGRE [aportuguesado OGRO], o nome em contos de fada e folclore de um gigante monstruoso maligno que vive de carne humana. A palavra é francesa e ocorre primeiro em “Histoires ou conte du temps passe” (1697) de Charles Perrault. O primeiro uso inglês está na tradução de uma versão francesa das Mil e Uma Noites em 1713, onde se escreve hogre. Tentativas foram feitas para conectar a palavra com Ugri, o nome racial dos magiares ou húngaros, mas é geralmente aceito que foi adaptado para o francês a partir do Espanhol Antigo huerco, huergo, uergo, cognato com o italiano orco, ou seja, Orcus, o deus latino dos mortos e das regiões infernais (ver PLUTO), que no folclore românico tornou-se um demônio da floresta. (Encyclopedia Britannica, 1911)[10]

A partir dos contos de fada de Charles Perrault a palavra “Ogre” foi popularizada pelas traduções por toda Europa, tanto que no Português foi adotada como “Ogro”. Especialmente com o empenho dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, no século XIX, em buscar registros ou coletar os contos populares e lendas é que se percebeu que as histórias envolvendo Ogros eram comuns em vários países europeus e de diferentes línguas. Em seus dois volumes do Kinder-und Hausmärchen, (1812 e 1815) os irmãos Grimm apresentam os contos contendo personagens Ogros e fundamentam suas raízes na tradição oral popular. A partir dos trabalhos de filologia de Jacob Grimm e de seu sucesso naquele período vários estudiosos foram influenciados a buscarem em seus países os contos populares. Foi assim que no Reino Unido as pesquisas sobre o folclore se desenvolveram a ponto de diversos livros serem publicados.

No século 19, os orcs estavam aparecendo em companhia de monstros do folclore germânico e, em Hereward the Wake (1865), Charles Kingsley elenca dragões, gigantes e orcs[11] como se todos fossem criaturas igualmente familiares de fábula. Por essa data, parece provável que, com a ascensão dos estudos anglo-saxônicos, os escritores tivessem tomado conhecimento da palavra do Inglês Antigo. (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of Words, p. 175)[12]

Foi a partir dos estudos sobre os contos populares que as criaturas folclóricas foram se tornando mais conhecidas entre intelectuais e passando agora a ganhar novas roupagens dentro da literatura. Começaram a surgir no final do século XIX livros de ficção ou romance que apresentavam elementos da cultura local misturados a tramas de aventuras e até mesmo horror.

Orc de William Blake

Em 1793 foi publicado o livro “America a Prophecy” pelo ilustrador e poeta inglês William Blake, como parte das Profecias Continentais. Nesse livro contem poemas e em um deles a palavra “Orc” é usada com o sentido de ser um personagem, uma forma de espírito revolucionário, uma personificação das colônias americanas que se rebelam contra o Rei da Inglaterra. Nessa história o Anjo de Albion acredita que Orc é o anticristo, enquanto que o Orc acredita que o Rei da Inglaterra é que seria. Evidenciado está que a palavra tem a mesma grafia, porém o sentido é dissociado de suas origens folclóricas ou etimológicas, sendo uma invenção de William Blake.

Importante ressaltar o questionamento sobre William Blake ter usado “orc” e ser uma possível fonte para Tolkien. Em 29 de dezembro de 1968, Tolkien escreveu uma carta para responder a um leitor que havia identificado a palavra “Orc” em um livro de William Blake. Tolkien disse que de acordo com uma nota em um de seus diários, data de 21 de fevereiro de 1919, ele estava lendo partes do livro das profecias de Blake:

… que eu nunca tinha visto antes, e descobri, para meu espanto, várias semelhanças de nomenclatura (embora não necessariamente na função), por exemplo: Tiriel, Vala, Orc. Seja qual for a explicação dessas semelhanças – poucos: a maioria dos nomes inventados de Blake são tão estranhos para mim quanto sua “mitologia” – talvez, eles não são “proféticos” por parte de Blake, nem por qualquer imitação de minha parte: sua mente (tanto quanto que eu tenha tentado entendê-lo) e arte ou concepção de Arte, não tenho nenhuma atração. É provável que os nomes inventados mostrem semelhanças aleatórias entre escritores familiarizados com a nomenclatura grega, latina e, especialmente, hebraica. No meu trabalho, Orc não é uma “invenção”, mas um empréstimo do Inglês Antigo orc “demônio”. Supõe-se que é derivado do latim Orcus, que Blake sem dúvida conhecia. E também é suposto não estar ligado a orc o nome de um animal marítimo. Mas eu recentemente investiguei orc e achei o assunto complexo. (TOLKIEN. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, p.25)[13]

Então, embora tenha sido uma surpresa perceber que William Blake também havia usado a mesma palavra, Tolkien deixa claro que o sentido é diferente. De fato, a palavra não foi inventada pelo próprio Tolkien, como ele havia feito em suas línguas élficas. Ele se valeu de uma palavra existente para dar nome a criaturas de seu mundo secundário. Mas não se importou com o significado da palavra em nosso mundo propriamente, a preocupação do Tolkien foi a sonoridade adaptada do mundo secundário para o primário (que será analisado no próximo tópico).

Por todo o exposto, a palavra Orc tem diversos significados e relações ao longo de séculos. O que fica evidente é que teve suas origens relacionadas a temas repulsivos como a morte, inferno e demônio. O seu significado foi moldado por vários povos, chegando às ilhas britânicas com o significado de um demônio, mas que foi empregado assim apenas no Anglo Saxão. Na língua inglesa moderna Orc é uma baleia assassina.

Foi com Tolkien que o conceito de Orc como uma figura humanoide e monstruosa das histórias de ficção foi retomado. Sua fonte foi o próprio Anglo-saxão, porém o Orc do Inglês antigo não é o mesmo que as figuras do seu mundo imaginário. Como será analisado adiante, trata-se de criaturas diferentes, cujo vinculo está na adequação fonética da palavra e não no seu significado propriamente.

 

orcs em hobbit

1.2. Análise Interna: origem e significado da palavra “Orc”

A análise etimológica da palavra Orc em nosso mundo foi realizada no tópico anterior. Mas Tolkien foi o responsável por reintroduzir, com um novo sentido, a palavra Orc no vocabulário Inglês. Enquanto que no Anglo-saxão havia o sentido de “demônio” ou “monstro”, no Inglês moderno tem o significado do animal marinho “orca”, uma espécie de baleia. Contudo, no mundo do Tolkien o sentido de “Orc” é diferenciado, pois são criaturas malignas que são inimigas dos personagens protagonistas.

O professor Tolkien também se preocupou em criar a etimologia da palavra Orc, com sua mudança fonética e conceitual ao longo do tempo dentro do próprio mundo imaginário. Portanto, é interessante saber qual a origem da palavra “Orc” para que se possa entender melhor o que ela significa na Terra-média.

Os elfos foram um dos primeiros seres criados por Eru com uma incrível capacidade linguística que se espalhou por toda a Terra-média. Portanto, é natural que as primeiras línguas complexas surgissem desse povo e que fossem uma influencia para outros. Dessa forma, a palavra “Orc” tem suas origens com os elfos desde os mais remotos tempos, quando não existiam registros.

Estes nomes, derivados por várias rotas das línguas élficas Quenya, Sindarin, Nandorin e, sem dúvida, os dialetos Avarin, foram distantes e extensos, e parece ter sido a fonte dos nomes para os Orcs na maioria das línguas dos Dias Antigos e nas eras iniciais de que há qualquer registro. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)[14]

No livro The War of the Jewels (A Guerra das Jóias) existe a versão do manuscrito intitulado “Quendi and Eldar”, escrito entre os anos de 1959 a 1960, onde consta o Apêndice C (Elvish names for the Orcs) que apresenta as anotações do Tolkien sobre a palavra Orc dentro do complexo de línguas dos elfos do mundo imaginário. Aqui o professor de Oxford explica as raízes linguísticas da palavra Orc e apresenta comparativos entre as diversas línguas daquele mundo.

Por essas formas e pelo terror que inspiraram o elemento usado principalmente na língua antiga dos Elfos parece ter sido *RUKU. Em todas as línguas Eldarin (e, diz-se, no Avarin também) existem muitos derivados deste radical, tendo formas antigas tais como: ruk-, rauk-, uruk-, urk (u), runk-, rukut/s, além do tronco reforçado gruk-, e o elaborado guruk-, ñguruk. Já em PQ essa palavra deve ter sido formada a qual tinha no CE a forma *rauku ou *rauko. Isso foi aplicado a maior e mais terrível das formas inimigas. Mas as antigas também eram as formas uruk, urku/o e o adjetivo urkā “horrível”. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 389-390)[15]

A partir de uma raiz se formam as palavras em diversas línguas. Assim, existe todo um complexo de termos que devem ser verificadas e comparadas. O quadro abaixo elenca as palavras em diversas línguas do mundo imaginário. Não se trata de algo definitivo, pois é uma compilação esquematizada a partir dos textos mais recentes escritos pelo Tolkien. Por isso serve apenas para ter uma noção do desenvolvimento e como foi usada em diversas línguas, especialmente quanto a sua origem. As línguas que carecem de termos foram omitidas na listagem.

Raiz RUK ou *RUKU

[forma terrível e o medo que causa]

  grauk rauk- uruk-, urk (u), urk (u),
Eldarin

Comum

*grauku

[uma terrível criatura que impõe medo]

*raukō 
[demônio]
*urku/urkō / uruku

[bogey, Orc]

*urkā
[horrível]
Sindarin [grauko] > [grauk] > [graug]

[terrível criatura]

[rauko] > [rauk] > [raug]

[demônio]

orch (pl. yrch)

[Orc]

orch (pl.yrch)

[Orc]

Quenya Exílico  

? ? ? ? ?

Rauco

[demônio]

urco

(pl.urqui)

[bogey, orc]

orco

(pl. orqui ou orcor)

[Orc]

 

? ? ? ? ?

Quenya

Vanyarin

 

 

? ? ? ? ?

 

? ? ? ? ?

urco (pl. urqui)

[bogey]

 

? ? ? ? ?

Nandorin ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? urc (pl. ūriʃ)

[Orc]

? ? ? ? ?
Língua

Negra

? ? ? ? ? ? ? ? ? ? uruk
[Orc grande]
? ? ? ? ?
Adunaico ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? Uruk

[Orc]

? ? ? ? ?
Avarin ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? (Influenciou os anões) ? ? ? ? ?
Khuzdul ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? rukhs (pl.Rakhäs)

[Orc]

? ? ? ? ?
Westron ? ? ? ? ? ? ? ? ? ? orca/orka
[Orc]
? ? ? ? ?

De todas as línguas relativas à palavra Orc aquela que apresenta mais detalhes é o Sindarin. Há nessas línguas um vocabulário mais extenso e até um histórico linguístico mais sólido.  Pode-se até mesmo verificar um desenvolvimento das palavras, como a palavra Grauko que com o passar dos anos a vogal final foi desaparecendo dando lugar a Grauk que por sua vez se tornou Graug. Semelhante evolução ou variação também ocorreu com a palavra Rauko.

No que tange a relação entre Quenya e Sindarin é interessante notar que a presença dos Orcs foi primeiramente notada pelos elfos que viviam na Terra-média e por isso está na língua Sindarin a mais tempo do que no Quenya. De fato, a palavra “urko” em Quenya tinha o significado de coisas que assombravam os Elfos. Tolkien coloca como significado que possivelmente seria relacionado o “bogey”, uma assombração ou algo que assusta. Os Noldor que saíram de Aman e foram para a Terra-média passaram a usar urco (pl. urqui) como nome Orc. Por influência do Sindarin, surgiu no Quenya orco (pl. orqui) como significando alternativo de Orc. Sobre o tema Tolkien apresenta maiores detalhes:

Em Quenya encontramos o substantivo urko, pl. urqui, derivando como mostra a forma plural de *urku ou *uruku. Em Sindarin é encontrado o correspondente urug; mas há em uso frequente a forma orch, que deve ser derivada de *urko ou do adjetivo *urka. Na tradição do Reino Abençoado o Q urko raramente ocorre naturalmente, exceto nos contos dos dias antigos e da Marcha, e então é vago em significado, referindo-se a qualquer coisa que causou medo aos Elfos, qualquer forma ou sombra duvidosa, ou criatura rondando. Em Sindarin, o urug tem um uso similar. Pode, de fato, ser traduzido como “bogey”. Mas a forma orch parece ter sido aplicada aos orcs, assim que apareceram; e Orch, pl. Yrch, classe-plural Orchoth permaneceu o nome regular para essas criaturas em Sindarin posterior. O parentesco, embora não a equivalência precisa, de S orch a Q urko, urqui foi reconhecido, e no Quenya Exílico urko foi comumente usado para traduzir S orch, embora também seja encontrada com frequência uma forma mostrando a influência do sindarin, orko, pl. orkor e orqui. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 389-390) [16]

Tolkien demonstra que os elfos tinham um vocabulário rico para tratar sobre os seus inimigos. Além das palavras mais usadas que são derivadas da raiz *RUK ou RUKU, existem outras palavras que são compostas em Sindarin e que também dão nome aos Orcs, como é o exemplo de Glam, Glamhoth e Glamog.

Os Eldar tinham muitos outros nomes para os Orcs, mas a maioria deles eram “kennings” [Nota do T: uma expressão composta em Inglês Antigo e Nórdico Antigo com sentido metafórico], termos descritivos de uso ocasional. Um deles, no entanto, foi usado com frequência no Sindarin: com mais assiduidade do que Orchoth, o nome geral dos Orcs como uma raça que aparece nos Anais era Glamhoth. Glam significava ‘din, tumulto, o grito confuso e o berro das bestas’, de modo que Glamhoth na origem significava mais ou menos ‘a Horda Gritante’, com referência ao horrível clamor dos Orcs em batalha ou quando em perseguição – eles podiam ser furtivos o suficiente na necessidade. Mas Glamhoth tornou-se tão firmemente associado com Orcs que o Glam sozinho poderia ser usado para qualquer conjunto de Orcs, e uma forma singular foi feita a partir dele, glamog. (Compare o nome da espada Glamdring). (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)[17]

A língua dos Orcs também teve sua relação com as antigas línguas élficas. A Língua Negra foi desenvolvida por Sauron para que todas as criaturas que o obedeciam pudessem falar como idioma comum. Então, a Língua Negra pode ser considerada uma distorção feita a partir das línguas élficas antigas. Isso se assemelha a ideia de uma das hipóteses de origem dos Orcs, que diz serem eles elfos corrompidos por Morgoth nos primórdios do tempo.

Os próprios Orcs adotaram-no, pois os encantava o fato de se referir ao terror e à detestação. A palavra uruk que ocorre na Língua Negra, concebida (diz-se) por Sauron para servir como língua franca para seus súditos, provavelmente foi emprestada por ele a partir das línguas élficas dos tempos antigos. Referia-se, no entanto, especialmente aos Orcs treinados e disciplinados dos regimentos de Mordor. As raças menores parecem ter sido chamadas de snaga. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)[18]

Em O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, Tolkien apresentou rápidas considerações sobre a palavra Orc, apresentando as mesmas informações vistas acima:

Em Sindarin era orch. Sem dúvida a palavra uruk na Língua Negra era aparentada com essa, apesar de normalmente ser aplicada apenas aos grandes orcs soldados procedentes de Mordor e Isengard naquela época. As espécies menores eram chamadas, especialmente pelos uruk-hai, snaga,“escravo”. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 423)

O fato de os elfos serem grandes inimigos mortais dos Orcs fez com que outros povos que viviam na Terra-média os buscassem como auxiliares na batalha contra Morgoth. Os Anões se tornaram também inimigos dessa raça de malignos, porém os elfos só acreditavam que fossem seus aliados pelo fato de que os Orcs odiavam os anões. Nos primeiros anos é possível verificar uma aliança entre os elfos e anões a ponto de ocorrer influências linguísticas. Nota-se que há a possibilidade da palavra Rukhs na língua dos anões, ser derivada da língua dos elfos Avarin.

Os Anões alegaram ter encontrado e lutado contra os Orcs muito antes dos Eldar em Beleriand estarem cientes deles. Foi de fato a óbvia detestação dos orcs e a disposição deles em ajudar em qualquer guerra contra eles, que convenceu os Eldar de que os anões não eram criaturas de Morgoth. No entanto, o nome Anão para Orcs, Rukhs, pl. Rakhäs, parece mostrar afinidade com os nomes élficos, e possivelmente foi derivado do Avarin. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)[19]

Além dessa aparente aliança entre elfos e anões para combater os orcs, os grupos de humanos que viajaram para o leste acabaram encontrando com os elfos e dessa relação ocorreram influências linguísticas. As três casas dos humanos que lutaram em auxilio aos elfos foram chamadas de Edain e após uma série de batalhas, ganharam o domínio de uma ilha que ficou conhecida como Númenor. Havia uma intensa relação entre os humanos numenorianos e os elfos. A ponto de ser valorizado o estudo do Quenya como língua erudita e havia relações entre os viajantes do mar e os elfos.

Com o passar do tempo a língua foi se modificando e formou-se a língua Adunaico. Especificamente nessa língua, a palavra “Orc” é usada como “urku” ou “urkhu” e foi uma forte influência vinda dos elfos. Segundo Tolkien “A forma em Adunaico urku, urkhu pode ser direta do Quenya ou do Sindarin; e esta forma está subjacente às palavras para Orc nas línguas dos Homens do Noroeste na Segunda e Terceira Eras. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)[20]

Entre os humanos existem também aqueles que são considerados mais distantes de uma civilização mais complexa como a dos numenorianos. Esses são os chamados Druedain, um povo mais selvagem do que os homens de Gondor e Rohan, mas que também sofriam com os ataques das forças do mal. Eles também tinham sua própria forma de nomear os Orcs, tendo aparentemente uma influência antepassada dos elfos nessa palavra. Como Tolkien afirma: “A palavra para Orc na língua agora esquecida dos Druedain no reino de Gondor é registrada como sendo (? No plural) gorgûn. Isso é possivelmente derivado, em última instância, das palavras élficas”. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)[21]

Quanto aos hobbits e humanos da Terceira Era. Eles falavam a língua Westron, a língua comum. Por isso, Tolkien afirma que “Orc” é uma de nomenclatura usada no tempo do livro: “Orc, esse deve ser o nome usado no tempo do livro para o que chamaríamos de goblins”. (Carta 13 de novembro, 1961, para Mr. Barnetson).[22] Ou seja, dentro da época em que se passa as histórias no mundo ficcional esse tipo de criatura era conhecida como Orc. Os Hobbit se referiam a essas criaturas com esse nome: “Orc é a forma hobbit do nome dado naquele tempo a essas criaturas” (TOLKIEN. O Hobbit, p.5 )[23] E da mesma forma, os homens de Rohan usavam a mesma palavra “Orc é a forma do nome que as demais raças usavam para esse povo imundo, tal como na língua de Rohan” (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 423). Nota-se então que tanto Hobbits quanto humanos se referiam da mesma forma quanto aos Orcs. Isso pelo fato de que ambos falavam um mesmo idioma, embora existissem variações linguísticas. Portanto, Orc é uma palavra que pertence ao mundo imaginário. Essa língua é chamada de Westron ou Língua Comum, justamente a mesma em que foi escrito o Livro Vermelho do Marco Ocidental, o qual foi a fonte de tradução do Tolkien.

A palavra tem suas raízes nas línguas élficas, porém existe uma palavra em Westron que tem o mesmo significado, que é “Orka”. No periódico Parma Eldalamberon nº17, no texto “Words, Phrases and Passages in various tongues in The Lord of the Rings” consta o significado das palavras em que se pode ler o seguinte:

uruk: orc na forma da Fala Negra. [Orc é a adaptação da forma da palavra que ocorre em Westron, orka. As criaturas eram desconhecidas para os Eldar em Valinor; não há, portanto, nenhum nome verdadeiro em quenya para eles. A palavra Sindarin foi orch, pl. yrch, ou plural genérico orchoth “a horda-Orc”, veja abaixo: I 359, 402; adaptado em Quenya como orco.] (TOLKIEN. Word, Phrases and Passages… Parma Eldalambero nº 17, p. 47).[24]

A língua Westron tem suas origens no Adunaico, que usava a palavra “Uruk” para se referir aos Orcs. Então, possivelmente “Orka” seja derivada daquela língua mais antiga, que por sua vez teve seu empréstimo entre os elfos mais antigos. Assim, ao que parece não há uma relação imediata entre “Orka” e as palavras “Orch” ou “Orco”, pois essas tiveram diferentes históricos, porém contém uma origem em comum anterior ao Adunaico.

Por todo o exposto, nota-se que a palavra está intimamente vinculada com a própria história de seu mundo. Por isso, ela pertence ao próprio mundo, com suas características, fonética, significado e consequências linguísticas próprias.

A Adequação fonética e os Orcs de Tolkien

“Orc” é uma adaptação fonética, ou seja, uma palavra que tem um som parecido com o produzido pela palavra original do mundo imaginário. Assim, o termo foi escolhido por ter um som parecido com Orka em Westron ou Orch em Sindarin. É dentro desse processo de escolha que as criaturas foram nomeadas. Pela adequação da palavra “Orc” ao que seria o som produzido pelos elfos e na língua comum.

Quanto a relação da palavra e seu significado com o mundo real, “Orc” no Inglês não tem relação de significado com às línguas élficas. Ou seja, “Orc” não é o mesmo que Orco ou Orch em seu sentido, pois ela só foi escolhida por causa de sua adequação fonética. Dessa forma, os Orcs de Tolkien não são os mesmos do folclore europeu. Conforme Tolkien disse “em lugar algum se afirma claramente que os Orcs sejam de alguma origem em particular[25]. O sentido da palavra do Inglês Antigo não se adéqua com os orcs que Tolkien tinha em mente: “Nos tempos antigos eram fortes e terríveis como demônios. No entanto, não eram de espécie demoníaca”. (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p. 109)[26]. Não há uma conexão necessária entre a palavra do mundo do Tolkien e alguma tradição oral ou literária do nosso mundo real.

A palavra usada na tradução de Q [uenya] urko, S [indarin] orch, é Orc. Mas isso é por causa da semelhança da antiga palavra inglesa orc, “espírito maligno ou bogey”, às palavras élficas. Não há, possivelmente, nenhuma conexão entre eles. A palavra inglesa é geralmente suposta ser derivada do latim Orcus. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)[27]

O que o Tolkien realizou foi se valer da adequação fonética da palavra e assim utilizar em suas histórias. Tolkien afirma claramente que “a palavra, no que me diz respeito, na verdade é derivada da palavra em inglês antigo orc “demônio”, mas somente por causa de sua adequação fonética” (TOLKIEN, Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954, p.)[28] Existe, portanto, o sentido de Orc no Inglês Antigo, tomado como inspiração fonética.

Tolkien se importou com o som produzido e não com seu sentido próprio. Enquanto que no mundo interno (seu mundo imaginário) o conceito de Orc remete a outro sentido. A complexidade do processo criativo de Tolkien passa também por uma análise das consequências da escolha de “Orc” dentro do mundo imaginário. Com isso surgem diversas implicações linguísticas e toda uma cadeia de palavras com sentidos próprios naquele universo.

De fato, a sonoridade das palavras, o seu som e jeito de se transmitir oralmente eram fatores importantes para Tolkien. Segundo ele “O prazer básico nos elementos fonéticos de uma linguagem e no estilo de seus padrões, e então em uma dimensão superior, o prazer na associação dessas formas de palavras com significados, é de importância fundamental” (TOLKIEN. The Monsters and the Critics, p. 190)[29].

Quando estava analisando a ideia de tradução dos nomes das línguas de seu mundo para o Inglês, Tolkien tratou sobre os nomes de alguns personagens Hobbits e observou que eles deveriam ser adaptados ao inglês e se conformar com as tradições próprias da europa:

Pareceu-me que, uma vez embarcados na tradução, até mesmo no diálogo, os nomes desse tipo seriam mais bem representados se baseando na riqueza semelhante de nomes que encontramos ou poderíamos encontrar em nossas próprias tradições, em celta, franca, latina e grega, e outras fontes. Esse método implica, é claro, uma alteração de longo alcance das formas fonéticas reais de tais nomes dados; mas não me parece mais ilegítimo do que alterar Rasputa para Hornblower, ou mesmo traduzir o diálogo do Livro Vermelho para o inglês, pelo que naturalmente o seu verdadeiro som é alterado e muitos dos seus pontos verbais são obscurecidos. De qualquer forma, fiz a “tradução” com algum cuidado. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).[30]

Há um processo de conformar as palavras ao estilo europeu e evitar estranheza por parte dos leitores. Então, ocorreu um processo de adaptação das palavras e não uma tradução propriamente, observando o sentido das palavras não seria facilmente transportadsa ou estava ausente de significado. Por exemplo, a palavra em westron “Ban” foi adaptado como “Sam”, enquanto que a palavra em westron “Bilba” se tornou “Bilbo” , “Bunga” se tornou “Bungo”, “Bolgra” se tornou “Bolger”, “Bophan” se tornou “Boffin”.

Assim, Tolkien chega a afiamr que “A escolha dos equivalentes foi direcionada em parte por significado (onde é discernível nos nomes originais), em parte pelo tom geral, e em parte pelo comprimento e estilo fonético”. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).[31]

Algo semelhante ocorreu com a palavra “Orc”. Seu significado poderia lembrar a palavra em seu sentido do Anglo-saxão, mas também tem em parte a busca de uma adequação fonética. Ou seja, a palavra é uma mistura de significados, sons e estilo que poderiam representar aqueles seres no mundo imaginário do Tolkien.

Línguas da Terra-média Adaptação/Tradução
Orch (S)   Orc ou Ork
Urko/Orco (Q)
Orca/Orka (W)
Orc (R)

 

Dessa forma, assim como os mencionados nomes dos Hobbits, em se tratando da palavra Orc, um fenômeno parecido pode ser observado. O processo de tradução passa em parte pelo significado (Orc em anglo-saxão era uma criatura demoníaca) e também pelo estilo fonético (Orc tem semelhança com as palavras nas línguas faladas na Terra-média). Por todo o exposto, a palavra Orc apresenta uma complexidade que envolve diversos fatores no mundo interno e externo, e que por isso levanta grande possibilidades de análises entre os estudiosos das obras de J.R.R. Tolkien.

 

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Essa é a primeira parte de uma série de artigos sobre a palavra ORC. A bibliografia utilizada será colocada no final do último artigo.

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NOTAS:

[1] The etymology of words and names in my story has two sides: (1) their etymology within the story; and (2) the sources from which I, as an author, derive them. I expect you mean the latter. Orc I derived from Anglo-Saxon, a word meaning demon, usually supposed to be derived from the Latin Orcus — Hell. But I doubt this, though the matter is too involved to set out here. (TOLKIEN. Carta para Gene Wolfe, 7 de novembro de 1966, in WOLFE, The Best Introduction to the Mountains)

[2] any of various ferocious sea creatures. In later use: a large cetacean, esp. the killer whale, Orcinus orca.

[3] and it is not connected at all with orc, ork, applied to sea-animals of dolphin-kind. (Tolkien, The Hobbit)

[4] I originally took the word from Old English orc [Beowulf 112 orc-nass and the gloss orc = pyrs (‘ogre’), heldeofol (‘hell-devil’)]. This is supposed not to be connected with modern English orc, ork, a name applied to various sea-beasts of the dolphin order. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)

[5] A devouring monster; an ogre; spec. a member of an imaginary race of subhuman creatures, small and human-like in form but having ogreish features and warlike, malevolent characters.

[6] Orc I derived from Anglo-Saxon, a word meaning demon, usually supposed to be derived from the Latin Orcus — Hell. But I doubt this, though the matter is too involved to set out here. (TOLKIEN. Carta para Gene Wolfe, 7 de novembro de 1966, in WOLFE, The Best Introduction to the Mountains)

[7] Orc is not an ‘invention’ but a borrowing from Old English orc ‘demon’. This is supposed to be derived from Latin Orcus, which Blake no doubt knew. And is also supposed to be unconnected with orc the name of a maritime animal. But I recently investigated orc, and find the matter complex. (TOLKIEN. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, p.25)

[8] The Old English word orc appears in Beowulf in the compound orcneas, which refers to evil spirits or walking corpses: eotenas ond ylfe ond orcneas (giants and elves and demons). It probably comes from the classical Latin Orcus, the name of the god of the under­world, but is so rarely attested in Old English literature that we can deduce little about how it got into English, to become the com­panion of such native Germanic words as eotenas and ylfe. (It is not the same word as orc meaning ‘a cetacean or sea-monster’, from Latin orca, which OED Online separates out as orc n.1) (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of words, p.174-175)

[9] As OED Online points out (orc n.2), because there is no evidence for the word in Middle English or in the 16th century, it is unlikely that the Old English word orc survived. It is notable, then, that exactly the same word-form reappears with a similar meaning in 17th-century English, surfacing first in Sylvester’s 1605 translation of Du Bartas’s Divine Weeks and Works. Here it is probably a borrow­ing of Italian orco meaning ‘man-eating giant, demon, monster’, which also comes from Latin Orcus. In the earliest examples the Orque or Orke is a grotesque monster, able (in Sylvester) to devour numbers of creatures, or (in Samuel Holland’s Don Zara of 1656) having several heads. Since Tolkien’s orcs are ugly and violent, with hints that they eat human flesh, but not supernatural, his use of the word seems closer to that of Sylvester and Holland than to the Old English word which was his stimulus. (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of Words, p.175)

[10] OGRE, the name in fairy tales and folk-lore of a malignant monstrous giant who lives on human flesh. The word is French, and occurs first in Charles Perrault’s Histoires ou conte du temps passé (1697). The first English use is in the translation of a French version of the Arabian Nights in 1713, where it is spelled hogre. Attempts have been made to connect the word with Ugri, the racial name of the Magyars or Hungarians, but it is generally accepted that it was adapted into French from the O. Span. huercohuergouergo, cognate with Ital. orcoi.e.Orcus, the Latin god of the dead and the infernal regions (see Pluto), who in Romance folk-lore became a man-eating demon of the woods. (Encyclopedia Britannica, 1911)

[11] But beyond, things unspeakable, – dragons, giants, rocs, orcs, witch-whales, griffins, chimeras, satyrs, enchanters, Paynims, Saracen Emirs and Sultans, Kaisers of Constantinople, Kaisers of Ind and of Cathay, and beyond them again of lands as yet unknown.” (KINGSLEY, Charles. Hereward the Wake p.71).

[12] By the 19th century, orcs were appearing in company with monsters of Germanic folklore, and in Hereward the Wake (1865) Charles Kingsley lists dragons, giants, and orcs as if all were equally familiar creatures of fable. By this date it seems likely that, with the rise of Anglo-Saxon studies, writers had become aware of the Old English word. (GILLIVER, MARSHALL, WEINWE, The Ring of Words, p.175)

[13] which I had never seen before, and discovered to my astonishment several similarities of nomenclature (though not necessarily in function) e.g. Tiriel, Vala, Orc. Whatever explanation of these similarities – few: most of Blake’s invented names are as alien to me as his ‘mythology’ – may be, they are not ‘prophetic’ on Blake’s part, nor due to any imitation on my part: his mind (as far as I have attempted to understand it) and art or conception of Art, have no attraction for me at all. Invented names are likely to show chance similarities between writers familiar with Greek, Latin, and especially Hebrew nomenclature. In my work Orc is not an ‘invention’ but a borrowing from Old English orc ‘demon’. This is supposed to be derived from Latin Orcus, which Blake no doubt knew. And is also supposed to be unconnected with orc the name of a maritime animal. But I recently investigated orc, and find the matter complex. (TOLKIEN. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, p.25)

[14] These names, derived by various routes from the Elvish tongues, from Quenya, Sindarin, Nandorin, and no doubt Avarin dialects, went far and wide, and seem to have been the source of the names for the Orcs in most of the languages of the Elder Days and the early ages of which there is any record. . (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)

[15] For these shapes and the terror that they inspired the element chiefly used in the ancient tongue of the Elves appears to have been *RUKU. In all the Eldarin tongues (and, it is said, in the Avarin also) there are many derivatives of this stem, having such ancient forms as: ruk-, rauk-, uruk-, urk(u), runk-, rukut/s, besides the strengthened stem gruk-, and the elaborated guruk-,ñguruk. Already in PQ that word must have been formed which had in CE the form *rauku or *rauko. This was applied to the larger and more terrible of the enemy shapes. But ancient were also the forms uruk, urku/o, and the adjectival urkā ‘horrible’. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 389-390)

[16] In Quenya we meet the noun urko, pl. urqui, deriving as the plural form shows from *urku or *uruku. In Sindarin is found the corresponding urug; but there is in frequent use the form orch, which must be derived from *urko or the adjectival *urka.In the lore of the Blessed Realm the Q urko naturally seldom occurs, except in tales of the ancient days and the March, and then is vague in meaning, referring to anything that caused fear to the Elves, any dubious shape or shadow, or prowling creature. In Sindarin urug has a similar use. It might indeed be translated ‘bogey’. But the form orch seems at once to have been applied to the Orcs, as soon as they appeared; and Orch, pl. Yrch, class-plural Orchoth remained the regular name for these creatures in Sindarin afterwards. The kinship, though not precise equivalence, of S orch to Q urko, urqui was recognized, and in Exilic Quenya urko was commonly used to translate S orch, though a form showing the influence of Sindarin, orko, pl. orkor and orqui, is also often found. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 389-390)

[17] The Eldar had many other names for the Orcs, but most of these were ‘kennings’, descriptive terms of occasional use. One was, however, in frequent use in Sindarin: more often than Orchoth the general name for Orcs as a race that appears in the Annals was Glamhoth. Giant meant ‘din, uproar, the confused yelling and bellowing of beasts’, so that Glamhoth in origin meant more or less ‘the Yelling-horde’, with reference to the horrible clamour of the Orcs in battle or when in pursuit – they could be stealthy enough at need. But Glamhoth became so firmly associated with Orcs that Glam alone could be used of any body of Orcs, and a singular form was made from it, glamog. (Compare the name of the sword Glamdring.). (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)

[18] The Orcs themselves adopted it, for the fact that it referred to terror and detestation delighted them. The word uruk that occurs in the Black Speech, devised (it is said) by Sauron to serve as a lingua franca for his subjects, was probably borrowed by him from the Elvish tongues of earlier times. It referred, however, specially to the trained and disciplined Orcs of the regiments of Mordor. Lesser breeds seem to have been called snaga. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)

[19] The Dwarves claimed to have met and fought the Orcs long before the Eldar in Beleriand were aware of them. It was indeed their obvious detestation of the Orcs, and their willingness to assist in any war against them, that convinced the Eldar that the Dwarves were no creatures of Morgoth. Nonetheless the Dwarvish name for Orcs, Rukhs, pl. Rakhäs, seems to show affinity to the Elvish names, and was possibly ultimately derived from Avarin. (TOLKIEN.T he War of the Jewels, p. 390)

[20] The form in Adunaic urku, urkhu may be direct from Quenya or Sindarin; and this form underlies the words for Orc in the languages of Men of the North-West in the Second and Third Ages. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 390)

[21] The word for Orc in the now forgotten tongue of the Druedain in the realm of Gondor is recorded as being (? in the plural) gorgûn. This is possibly derived ultimately from the Elvish words. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)

[22] As for Orc, that is supposed to be the name used in the time of the book for what we would call goblins. (Carta 13 de novembro, 1961, para Mr. Barnetson).

[23] Orc is the hobbits’ form of the name given at that time to these creatures. (Tolkien, The Hobbit, p.5),

[24] uruk: Black Speech form of orc. [Orc is adaptation of the form of the word occurring in Westron, orka. The creatures were unknown to the Eldar in Valinor; there is therefore no genuine Quenya name for them. The Sindarin word was orch, pl. yrch, or generic plural orchoth “the Orc-horde,” see below: I 359, 402; adapted in Quenya as orco.] (TOLKIEN. Parma Eldalambero 17, p. 47).

[25] TOLKIEN, Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954, p.

[26] : ‘In days of old they were strong and fell as demons. Yet they were not of demon kind’ (Morgoth’s Ring, p. 109)

[27] The word used in translation of Q[uenya] urko, S[indarin] orch, is Orc. But that is because of the similarity of the ancient English word orc, ‘evil spirit or bogey’, to the Elvish words. There is possibly no connexion between them. The English word is now generally supposed to be derived from Latin Orcus. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)

[28] ‘the word is as far as I am concerned actually derived from Old English orc “demon”, but only because of its phonetic suitability’

[29] ‘‘the basic pleasure in the phonetic elements of a language and in the style of their patterns, and then in a higher dimension, pleasure in the association of these word-forms with meanings, is of fundamental importance.’’ (TOLKIEN. The Monsters and the Critics, p.190).

[30] It seemed to me that, once embarked on translation, even of dialogue, names of this sort would be best represented by drawing on the similar wealth of names that we find or could find in our own traditions, in Celtic, Frankish, Latin and Greek and other sources.This method entails, of course, far-reaching alteration  of the actual phonetic forms of such given-names; but I do not feel it more illegitimate than altering Raspūta to Hornblower, or indeed than translating the dialogue of the Red Book into English, whereby naturally its true sound is changed and many of its verbal points are obscured. I have, in any case, done the ‘translation’ with some care. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).

[31] The choice of equivalents has been directed partly by meaning (where this is discernible in the original names), partly by general tone, and partly by length and phonetic style. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).

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14 comentários

  1. Marcos Loures /

    Este texto então não defende a tradução para o português como “orque”? Afinal,o próprio Tolkien traduziu orch para o inglês “orc” pela semelhança fonética e aproximação de significado. Orque seria então a tradução fonética de orch para o português, não?

    • Leonardo Faber /

      Ele fez um grande estudo e apanhado sobre a origem da palavra “Orc” em várias línguas, seja em nosso mundo, seja no Mundo Secundário de Tolkien.

      Mas sim, Orque seria o aportuguesamento de Orc, uma espécie de adaptação que o Professor autorizou a fazer

      • Eduardo /

        Não, Tolkien não autorizou a fazer tal adaptação. E Orque é uma palavra em francês, não em Português.

  2. Thyago /

    Sinceramente, qdo fiquei sabendo qba Harper Collins havia adquirido os direitos, fiquei apreensivo, pois eu já havia tido em mãos um livro do Lovecraft q não gostei da tradução e de um Sherlock Holmes q nada me agradou. Torci para estar errado, mas esse tipo de notícia sobre a tradução só me faz ter saudades da Martins Fontes, onde a única tradução realmente polêmica era no nome do cavalo de Gandalf

  3. Augusto /

    Muito bom!

  4. Vítor /

    Trabalho monstruoso este presente no artigo. Nível de pesquisa, dedicação e interesse por Tolkien absurdos! Parabéns! Gosto bastante de etimologia presente na obra de Tolkien, inclusive costumo acessar páginas como tolkien gateway para obter mais informações, mas se aprende uma coisa aqui e outra ali, jamais imaginei que fosse ler um texto completo e com tantas referências que tratassem somente da palavra Orc. Mais uma vez, parabéns pelo esforço e dedicação.

  5. Earendel /

    Muito obrigado pela pesquisa e pela clareza. Trabalho de mestre, sem dúvidas. Muitas fontes, muito cuidado.
    Aguardo ansiosamente o artigo sobre Goblin.

  6. Devia ter uma maneira de mandar esse texto pra editora afim de evitar próximas traduções falhas.

    • Leonardo Faber /

      Foi um artigo muito bom Franci, mas defendo o Conselho da HarperCollins Brasil e o trabalho que estão fazendo.

      O Professor, ao ter acesso ao Livro Vermelho, traduziu o Westron para o Inglês, e usou a palavra Orc do Inglês Antigo para se referir às criaturas chamadas em Sindarin Yrch (plural de Orch), que em Westron são chamadas também de Orcs (ou Orka em alguns casos).

      Ao se deparar com as traduções de suas obras para outras línguas, Tolkien escreveu um guia para que os tradutores executassem um trabalho adequado. E parte desse guia dizia que todo o trabalho devia ser traduzido para a língua nativa do país – exceto os termos, palavras e trechos em línguas Élficas, etc.

      Já que Orc é uma palavra em Inglês – palavra essa, volto a dizer, escolhida do Inglês Antigo pelo Professor devido a sonoridade e adequação – por que não traduzi-la ou adapta-la, já que o próprio Tolkien deu autorização para tanto?

  7. Jerlys /

    Como podemos fazer para cobrar da editora mais fidelidade a obra original?
    Eu sinceramente não compro livro da editora se vier com essas medas de palavra orque e Gobelim

    • Michael /

      Eu também não compro com essa tradução ridícula. Orque? Gobelim? Faça-me o favor, brasileiro não é tão burro assim como eles pensam! ainda mais fãs do Tolkien.

  8. Estou embasbacado com sua pesquisa e dedicação. Parabéns!

  9. Nossa…Parabéns pelo texto tanto no cuidado com as informações como pela profundidade das mesmas. O ponto principal aqui, explicito no início do texto, é exatamente esse: valorizar o debate que a todos e todas engrandece.

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  1. As diretrizes do Tolkien para traduzir a palavra “ORC” - Tolkien Brasil | Tolkien Brasil - […] de ler esse artigo é importante que se tenha lido o artigo anterior que está AQUI. Sem essa leitura…

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