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Artigo: Rúmil de Valinor, o elfo sábio dos Noldor

by Eduardo Stark

 

Escrever sobre Tolkien é como estar diante de uma verdadeira aventura de palavras e significados.

Infelizmente o professor Tolkien não completou grande parte de seus manuscritos, devido a uma constante procrastinação de suas atividades como escritor e ainda o seu perfeccionismo incansável. Isso resultou em uma enorme variedade de manuscritos e textos digitados, mas todos incompletos ou com versões abandonadas.

Além das obras completas que conhecemos atualmente (O senhor dos anéis, O Hobbit, e as aventuras de Tom Bombadil), há outros textos póstumos do professor Tolkien que não poderiam ser descartados facilmente. Pensando nisso, Christopher Tolkien, como diretor dos direitos sobre as obras e escritos de seu pai, decidiu publicar ao longo das décadas de 70, 80 e 90  a maioria dos manuscritos e versões alternativas do mundo criado pelo professor de Oxford.

Muitas informações desses textos não se encontram unificadas, formando um texto sobre o tema. Assim, decidi fazer uma espécie de compilação dos escritos de Tolkien, trazendo informações sobre alguns personagens importantes naquele Universo incrível.

A ideia é construir um livro adicional, um complemento, aos textos que já temos publicados no Brasil. Porém, sempre com a ideia de que ninguém pode substituir o professor em sua criação, por isso trata-se apenas de uma reunião de dados encontrados nas publicações e somado com comentários lógicos relativos a história.

As referências são em grande parte retiradas dos livros da série History of Middle Earth, e foi dada atenção as versões mais tardias, aquelas mais recentes ou próximas ao que é considerado aceito como parte do universo de Tolkien.

As referências não foram colocadas abaixo em um índice, pois a sua numeração está sendo organizada para ficar no livro, assim como  outros detalhes do texto. Deve-se levar em consideração que essa não é a versão final e que haverá modificações ao longo do tempo até a sua finalização.

Assim, como uma espécie de “prévia”, apresento a vocês o que poderá ser um possível primeiro ou segundo capítulo de um possível livro sobre Tolkien.

 Espero que gostem e aguardo os comentários sobre o texto.

Eduardo Stark

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Rúmil de Valinor

 

1 As diferentes versões de Rúmil

2 A Etimologia do nome ‘Rúmil’

3 O nascimento de Rúmil

4. O conhecimento linguístico de Rúmil

5. Rúmil, amigo e aprendiz dos Valar

6  Sarati – O primeiro alfabeto élfico

6.1 Histórico das letras rumilianas

6.2 O Sistema alfabético de Rúmil

7 Os escritos de Rúmil

rúmil de Valinor

 

Introdução

 

O mais antigo estudioso das tradições, línguas e histórias de Arda é conhecido apenas como Rúmil, um elfo dos Noldor que vivia na cidade de Tirion, em Valinor. Há poucas informações sobre sua vida, apenas fragmentos e algumas rápidas passagens, que relatam algum fato em que estivesse envolvido.

A maior parte das informações sobre Rúmil estão dispersas nos livros da série The History of Middle Earth, sendo chamado de diversas maneiras: ‘Rúmil de Valinor’, ‘Rúmil de Tûn’, ‘Rúmil de Túna’, ‘O sábio de Kôr’, ‘O sábio de Tûn’, ‘O sábio ancião de Tirion’ e o ‘Elfo Sábio de Valinor’.

O que torna esse elfo relevante são as suas obras, e como elas foram utilizadas posteriormente por outros estudiosos. As referências mais claras e sólidas sobre isso estão no apêndice do terceiro livro do Senhor dos anéis, onde Rúmil é apontado como o criador da primeira forma de escrita dos elfos (3.69) e no Silmarillion, que também diz ser ele o criador do primeiro alfabeto de Arda e posteriormente Fëanor aperfeiçoou o seu trabalho em um novo alfabeto élfico (1.9).

Rúmil é conhecido também por ser autor de diversos escritos importantes, dentre eles o Ainulindalë (14.1). Além de ser reconhecido como um dos maiores Lambengolmor dos Noldor, pois foi contemporâneo de Fëanor, o fundador da escola dos Lambengolmor (15.24).

 

1. As diferentes versões de Rúmil

 

Formar uma história completa e coerente sobre Rúmil é uma tarefa complicada, pelo fato de que J.R.R.Tolkien apresentou versões diferentes de sua história.

Em uma versão da história, Rúmil seria um elfo Noldor de Valinor que seguiu Fëanor até a terra média e lá foi capturado e escravizado por Melkor, conseguindo fugir do cativeiro e passando a morar em Tol Eressëa, e lá vivia em um jardim, tendo encontrado o marinheiro Eriol e narrado as histórias antigas e a criação do mundo (5.2).

Mas a história de Eriol foi modificada completamente (mais de uma vez). Eriol passou a ser um marinheiro inglês chamado Ælfwine, que encontrou o elfo Pengolodh em Tol Eressëa. Rúmil se tornou apenas um elfo, autor do Ainulindalë, citado por Pengolodh quando este narrava a história da criação do mundo para Ælfwine (14.1).

Assim, segundo o entendimento de Christopher Tolkien partindo da ignorância de Rúmil sobre os eventos da Terra Média (não escreveu nada sobre as histórias ocorridas em Beleriand), parece claro que em uma concepção posterior ele nunca tenha deixado Valinor, pois ele era um dos elfos que retornaram a Valinor com Finrod (nome da versão anterior, que depois foi mudado para Finarfin), após ouvir o presságio de Mandos sobre a Ruína dos Noldor (8.6).

O pensamento de Christopher Tolkien é coerente, pois apresenta uma comparação das diferentes versões dos escritos dos Annals of Aman (ou Annals of Valinor), que reconta cada evento das histórias anteriores ao nascimento do Sol e da Lua.

Em uma primeira versão desses escritos há uma nota que diz ser Rúmil o autor desses Anais de Aman. Nessa versão é dito que a última passagem escrita por Rúmil é o evento em que os Noldor estavam saindo de Valinor sob o comando de Fëanor e ocorre o pronunciamento de Mandos sobre a Ruína dos Noldor, e em consequência disso há o retorno de Finrod (depois renomeado como Finarfin) para Valinor (8.6).

Em uma segunda versão está anotado que Rúmil havia escrito o documento nos dias antigos, mas que posteriormente foi ampliado por Pengolodh. Ou seja, ele havia apenas começado a escrever os relatos, que depois foram ampliados por outro (14.2).

Analisando esses pontos pode-se verificar duas hipóteses:

a)      Rúmil não seguiu Fëanor na viagem até a Terra Média, mas conseguiu registrar os relatos dos Noldor que haviam partido, mas que depois retornaram.

b)      Rúmil havia iniciado a viagem até a Terra Média, mas partiu com a companhia de Finarfin, quando escutou o pronunciamento de Mandos sobre a Ruína dos Noldor.

Está claro que Rúmil não deixou Valinor, pois os seus últimos escritos se encerram em momentos anteriores a chegada dos Noldor à Terra Média, mostrando que ele não teria informações posteriores ou mesmo se quer presenciado os fatos ocorridos em Beleriand.

Provavelmente Rúmil tinha uma proximidade com os Valar ou os Maiar, como é analisado a seguir, e talvez isso tenha sido a sua principal influência na decisão de permanecer em Valinor e não seguir para a o exílio na Terra média.


2. A Etimologia do nome ‘Rúmil’

 

O nome “Rúmil” não tem um significado definido concretamente nos livros, pois não se encontra em nenhum dicionário ou reunião de palavras élficas. Sabe-se que esse nome é uma palavra da língua Quenya, especialmente porque o personagem era um elfo dos Noldor (que adotavam o Quenya como língua).

Acredita-se que o nome Rúmil tenha alguma conexão com as palavras fornecidos no Gnomish Lexicon: e rûm  que significa ‘secreto, mistério’, ruim ‘secreto, misterioso’, rui ‘susurro’, ruitha ‘susurrar’. (5.11)

Assumindo que os nomes dados aos elfos sempre carregam alguma característica do personagem, ainda que de forma distante. Essas palavras informam que Rúmil poderia conhecer alguns dos mistérios de arda, por meio de algum contato com os Valar, daí uma ligação com o fato dele ter escrito o Ainulindalë e as principais histórias da formação do mundo.

Mas o nome Rúmil pode simplesmente não ter nenhum significado próprio, se for considerada a hipótese de que ele seja um dos elfos despertados em Cuiviénen. Poderia se aplicar o mesmo argumento para o significado dos nomes dos quatro líderes das hostes élfica.

Como se observa no livro The People of middle Earth, existiam poucos nomes dos elfos antigos registrados, os mais conhecidos são dos quatros líderes das hostes da grande jornada: Ingwe dos Vanyar, Finwë dos Noldor e os irmãos Elwë e Olwë dos Teleri. Não há certeza que esses nomes sequer tenham qualquer significado, ou que tenham alguma referência intencional com outro termo já existente do Eldarin primitivo, ou seja, eles devem ter se formado em um tempo anterior à própria história das línguas élficas (16.11).

 

3. O nascimento de Rúmil

 

Não há informações sobre a origem do elfo Rúmil, as poucas informações dizem que ele viveu em Valinor, na cidade dos elfos em Tirion e que era um Noldo. Assim, não se sabe quando ou onde nasceu Rúmil. A ausência dessas informações implica em interpretações diversas e a formulação das seguintes hipóteses:

a)      Que tenha sido um dos primeiros elfos que surgiram no lago Cuiviénen (ou nascendo nessa época ou despertando como um elfo sem pais). Por isso seria considerado e respeitado entre os elfos, por ser antigo e sábio. Ele teria acompanhado toda a evolução linguística desde sua forma primitiva até o Quenya falado em Valinor.

b)      Que ele tenha nascido na terra média, durante a viagem dos Noldor até Valinor (essa é a hipótese menos aceita, tendo em vista que a viagem dos Noldor para Valinor não foi muito demorada no tempo dos elfos, e as chances de ocorrer nascimentos durante a viagem eram mais difíceis de acontecer).

c)      Que tenha sido um dos primeiros a nascer em Valinor. Essa hipótese implicaria dizer que Rúmil teve um mestre, alguém que o ensinasse as línguas antigas dos elfos e suas tradições, ou que tenha aprendido com os seus parentes em Valinor.

A primeira hipótese se torna cativante, tendo em vista que Rúmil era conhecido como um Elfo instruído, ou Elfo Sábio de Valinor ‘Elfsage of Valinor(8.6) e ainda um Sábio Ancião de Tirion ‘Ancient Sage of Tirion’ (15.24). Observando que os elfos eram seres imortais, ser chamado de Sábio Ancião implicaria necessariamente dizer que ele seria um ser muito antigo para os padrões élficos, o que remete ao seu surgimento em Cuiviénen.

4. O conhecimento linguístico de Rúmil

Rúmil era conhecedor de muitas línguas e as estudava com profundidade. Foi chamado de o mais renomado dos mestres do saber linguístico (14.2). É dito até que ele conhecia todas as línguas faladas em Valinor e na terra média, sabendo das línguas negras dos orcs e outras criaturas malignas até as línguas dos animais (5.2). Mas essa informação encontra-se na narrativa em que Eriol encontra Rúmil, no jardim em Tol Eressëa (como visto esta passagem foi abandonada por Tolkien em escritos posteriores).

Assim, por um processo de exclusão, provavelmente Rúmil tenha aprendido diversas línguas em especial aquelas faladas pelos Elfos de Valinor: Quenya, Telerin, Eldarin Comum (Common Eldarin) e o Quendian Primitivo (Primitive Quendian).

Por ter uma proximidade com os Valar, provavelmente Rúmil tenha aprendido o Valarin, o que seria um privilégio, pois não era comum os Valar ou Maiar falarem com os elfos nessa língua, já que adotaram o Quenya como língua de comunicarem com os elfos de Valinor (15.1).

Como visto, assumindo que Rúmil tenha permanecido em Valinor, provavelmente ele tenha encontrado os elfos que chegaram do exílio nas eras posteriores e tenha aprendido com eles as línguas da terra média (Sindarin, Nandorin e outros idiomas) e também as línguas dos homens (Westron, Adunaico e outras).

Contudo, provavelmente Rúmil não tenha chegado a um conhecimento muito amplo sobre as línguas dos anões, já que os Lambengolmor de Valinor não chegaram a conhecer a língua de sinais dos anões, o iglishmêk, e enquanto estiveram em Aman estavam limitados ao estudo dos dialetos Eldarin e gestos, ampliado por alguma familiaridade com o idioma dos Valar (18.3).

Da mesma forma a língua Khuzdul teria sido pouco aprofundado por Rúmil, pois ela se manteve em segredo e poucos de outras raças aprenderam essa língua e a única forma que Rúmil poderia aprender essa língua seria com algum elfo que teve contado com os anões na terra média (3.70).

O conhecimento de Rúmil sobre línguas é evidenciado em um estudo escrito por ele sobre as origens das línguas e suas diversas ramificações, que posteriormente Pengolodh usou como fonte para o livro Lhammas (9.8). As ideias das formações e origens das línguas como se encontram no livro The Lost Road and other writings, foram abandonadas praticamente por inteiro por Tolkien, mas o documento Lhammas ainda permaneceu existente no universo, porém sem o conteúdo adequado às mudanças nas histórias.

 

5. Rúmil, amigo e aprendiz dos Valar

 

A maioria dos primeiros conhecimentos adquiridos pelos Noldor surgiram de um contato direto com os Valar, em especial Aulë, que era conhecido como o “Amigo dos Noldor”. É dele que vêm as tradições e os conhecimentos da Terra e de tudo o que ela contém, tanto dos que são estudiosos, quanto as técnicas dos artífices sobre madeira e o trabalho dos metais (1.4).

No ano valinoriano de 1179 (Era das árvores), Aulë e seu povo visitavam os elfos em Tirion e os Noldor aprenderam muitas coisas nessa época, se tornando o povo mais habilidoso dos elfos. Foi justamente nessa época que os pedreiros da casa de Finwë encontraram pedras preciosas em abundancia no solo de Aman e construíram com as pedras das montanhas torres para a cidade. Foi um momento de grande riqueza e prosperidade para o povo dos Noldor (14.2).

Dos ensinamentos de Aulë veio o amor pelo conhecimento e as ciências. E com esses aprendizados os Noldor se tornaram o povo mais habilidoso dos elfos e ampliaram o que haviam aprendido, desenvolvendo as artes, os artesanatos. (9.7)

 Está claro que Rúmil viveu nessa época, pois ele mesmo registrou esses eventos nos anais de aman e este foi justamente o mesmo ano em que criou o seu alfabeto (14.2). Tendo em vista os trabalhos por ele desenvolvidos, é evidenciado que ele teve contato direto com algum maia ou mesmo o próprio Aulë.

O contato com de Rúmil com o Aulë é evidenciado pelo fato que este Vala havia ensinado a escrita dos alfabetos aos Noldor (5.6) e posteriormente eles ampliaram os ensinamentos de Aulë e utilizaram em muitas formas em línguas e alfabetos (9.7).

O resultado dessa relação pode ser observado em algumas de suas obras: Ainulindalë, Anais de Aman, Lhamas, Ambarkanta, I Equessi Rúmilo. Todos esses textos remetem a uma necessária relação de Rúmil com os Valar ou algum dos Maiar, pois são conhecimentos que tratam justamente deles, e teriam como fontes primárias as conversas diretas e os aprendizados de Rúmil.

O Vala Aulë

O Vala Aulë

 

6. Sarati – O primeiro alfabeto Élfico

Segundo O Silmarillion, os Noldor foram os mais habilidosos em línguas e os primeiros seres que tiveram a ideia de registrar os sons em uma forma escrita.  Rúmil de Tirion foi o primeiro estudioso que conseguiu adequar sinais e registrar a fala e a música, alguns para serem gravados em metal ou em pedra, outros para serem desenhados com pincel ou pena (1.9).

Esse trabalho é chamado de ‘Tengwar de Rúmil’ (3.69) ou Letras Rumilianas, mas o nome mais técnico deste sistema de escrita é Sarati (letras), no singular sarat (letra), palavra que vem de “Sar” (depois modificada para Syar) que significa ‘marcar’, ‘pontuar’, ‘inciso ‘, ‘escrever’ (15.24).

Posteriormente Tolkien mudou o significado da palavra “Sar” para ‘pedra’, ‘pequena pedra’, como em Elessar ‘pedra élfica’ (3.22). Isso é interessante, pois as Sarati eram inicialmente gravadas em pedras e metais (1.9), o que remete também relação de amizade com Aulë, que ensinou os Noldor a trabalharem em pedras e metais (1.4).

O trabalho de Rúmil também é reconhecido como “O sistema alfabético Eldarin Universal” (17.3), já que é a primeira forma escrita dos elfos e ele se tornou a base para a formação do Tengwar e de aperfeiçoamentos linguísticos dos elfos.

 

6.1 Histórico das letras rumilianas

Está registrado nos anais de aman que no ano Valinoriano de 1179 (Era das árvores), Aulë e seu povo frequentemente visitavam os Noldor em Tirion. E dessa interação os Noldor aprenderam muitas coisas, dentre elas o conhecimento com o trabalho de metais e pedras. (14.2). Os elfos aprenderam também sobre línguas e, a seu próprio modo, muito acrescentaram aos ensinamentos recebidos, apreciando as línguas e textos (1.4).

Nesse período, Rúmil provavelmente deva ter estabelecido amizade com algum dos Maiar ou talvez o próprio Aulë. E dessa amizade o elfo de Tirion deva ter aprendido sobre as mais diversas artes e ciências, em especial sobre a confecção de joias, trabalho com metais, sobre a origem do mundo (daí a escrita do Ainulindalë ser de autoria de Rúmil) e sobre a língua dos Valar etc.

Nesse mesmo ano valinoriano de 1179, com base no conhecimento adquirido com os Ainur, Rúmil criou a primeira forma de escrita conhecida em Arda (14.2). Inicialmente utilizava para gravar nomes e escritos em pedras e metais, tentando adorná-las ou identificá-las, mas foram também escritas com pincéis e em papel (1.4).

Também nesse mesmo ano nasceu Fëanor, o filho mais velho de Finwë (14.2). Fëanor demonstrou ser um elfo muito habilidoso nas diversas artes que teve contato. Em linguística, mais tarde criou um novo alfabeto para os Elfos com base no que Rúmil já havia iniciado (3.69).

Com a fundação da escola dos Lambengolmor, Fëanor pretendia difundir o seu alfabeto entre os estudiosos daquela época. Assim O Alfabeto de Rúmil foi deixando de ser utilizado entre os Noldor que viviam em Valinor e o alfabeto de Fëanor passou a ser a principal forma de se escrever o Quenya (15.24).

A grande maioria dos Noldor que foram para o exílio não tinha conhecimento ou não utilizava o alfabeto rumiliano e os elfos sindar já possuíam a sua forma de escrita (as Cirth de Doriath), então se verifica que o Tengwar de Rúmil não era usado na Terra-Média (3.69).

Assim, por ser uma escrita desenvolvida e utilizada apenas em Valinor, esse sistema alfabético é conhecido também como “Alfabeto Valinoriano” (17.3). Provavelmente tenha permanecido na memória de alguns elfos Noldor antigos, mas posteriormente apenas aqueles que tiveram acesso aos documentos antigos conseguiram ter alguma noção da escrita de Rúmil.

O alfabeto de Rúmil foi também o primeiro criado por Tolkien para o seu mundo secundário, em 1919. Ao longo de sua juventude Tolkien mudou várias vezes o alfabeto rumiliano e usou em seus diários como forma de codificação. Ele é utilizado especialmente em palavras do Inglês moderno e médio, no antigo Qenya e na língua Goldogrin (Gnômico). Infelizmente não há uma forma definitiva e que seja compatível com o Quenya apresentado no Senhor dos Anéis (17.3).

 

6.2 O Sistema do alfabeto de Rúmil

O sistema de escrita de Rúmil é basicamente fonográfico, assim como o Tengwar de Fëanor. Cada letra representa uma consoante, enquanto as vogais são representadas por diacríticos (17.3).

O Diacrítico é um sinal gráfico que se coloca sobre, sob ou através de uma letra para alterar a sua realização fonética, isto é, o seu som. Assim uma sarat representa uma consoante e as vogais são representadas pelos diacríticos (no alfabeto de Fëanor são chamados de tehtar).

A opção de representar as vogais com o uso de diacríticos, ao invés de letras independentes, parte da ideia que os estudiosos das línguas assumiam que o papel das vogais era o de “dar cores” às consoantes, servindo como modificadores dos sons das consoantes (18.3).

Os sarati são normalmente escritos verticalmente, de cima para baixo, mas podem também ser escritos na horizontal, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda, ou como no estilo de escrita Bustrofédon, em que as linhas se alternam da esquerda para a direita, da direita para a esquerda (17.3).

Os elfos eram ambidestros, ou seja, escreviam com a mesma habilidade com ambas as mãos. Quando escreviam da direita para esquerda utilizavam a mão esquerda e quando escreviam da esquerda para direita, a mão direita, pois assim evitavam cobrir o que fora escrito por último (18.11). Por isso, eles não tinham muita dificuldade na escrita das sarati e as suas várias formas de se escrever.

Como exemplo do uso do alfabeto de Rúmil, pode-se ver a seguir o documento escrito por Tolkien por volta de junho de 1919, conhecido como O Fragmento da Prosa de Túrin (Túrin Prose Fragment), publicado no periódico Parma Eldalamberon nº 13.

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O fragmento usa o inglês como língua e narra uma passagem da história de Túrin Turambar, em que Thingol (aqui com o nome antigo de Tinwelint) acolhe em seu reino Túrin, por consideração ao seu pai húrin, e se dispõe a um tratamento como se fosse um segundo filho.

7. Os escritos de Rúmil

 

Rúmil ficou conhecido por ser autor de vários textos de grande relevância histórica do mundo de Arda. Eles são a base e o início para todo estudioso da formação do mundo e dos primeiros tempos desse universo.

A ele é atribuída a autoria dos seguintes textos:

a)      A escrita do Ainulindalë, que narra a origem do mundo e fala sobre os Ainur e os Maiar (14.1).

b)      Os Anais de Aman que narram fatos cronológicos desde a criação do mundo até a partida dos Noldor para a Terra Média (14.2).

c)      A escrita que originou o Lhamas, que descreve detalhes da linguística e das origens das diversas línguas de Arda (9.8).

d)      O texto Ambarkanta, que fala sobre a formação de arda e sua cosmologia (8.5).

e)      Os escritos I Equessi Rúmilo ‘os dizeres de Rúmil’ (15.25) que narra as histórias do dias antigos em Aman e os primeiros encontros dos elfos com os Valar.

O texto Valaquenta não tem uma autoria definida, mas tendo em vista que Rúmil escreveu o Ainulindalë, que tem conteúdo muito semelhante, pode se creditar a ele também a autoria do Valaquenta ou pelo menos afirmar que o autor desse texto sofreu uma grande influência de Rúmil.

 

livro antigo rúmil

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  • Kell_Bonassoli

    Que agradável surpresa. Tem uma e outra construção que pareceu meio redundante, nada que um bom editor não possa resolver, mas o trabalho de pesquisa e a organização deste “possível primeiro capítulo de um possível livro” estão de fato impecáveis. Parabéns.

    • Agradeço o comentário. Gostaria que fosse específica quando se refere a redundancia…. cite exemplos etc. Todo comentário pertinente é válido e espero que o trabalho agrade a trodos. Obrigado

      • Wagner Stoffel

        Segundo parágrafo do 5 e o primeiro do 6.1 contém redundância, mas o texto é excelente, já li todos os Cânones e nunca tinha reparado em Rumil! Voltarei a eles para consultar as referências, hehehe

      • Kell_Bonassoli

        São pequenos detalhes que de forma alguma desmerecem seu texto. Sua composição está ótima.
        O exemplo que o Wagner citou é um dos casos, temos também alguns errinhos de concordância e uso de “porém” e “mas” em começo de frase (fica melhor se você separar por vírgula e mantiver no mesmo período). Continue o excelente trabalho e fique tranquilo quanto a estes detalhes pois é coisa que um editor ou um bom revisor te orienta para o polimento final antes do lançamento. 🙂

      • Kell_Bonassoli

        Eu notei agora que alguns casos que vi como redundância são referências a obras diferentes que comprovam o mesmo fato. Acredito que uma composição gráfica com quadros de destaque para estas citações ladeando o texto principal possam deixá-lo mais objetivo e agradável ao leitor, mas isso é coisa pra se preocupar somente depois que você organizar e escrever tudo ^^.