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Análise do prefácio de O Senhor dos Anéis – Parte 01

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Análise do prefácio de O Senhor dos Anéis – Parte 01

 

 by Eduardo Stark

 

Muitas pessoas deixam de ler o prefácio de O Senhor dos Anéis, pois observam que se trata de um livro longo e querem poupar tempo ou acreditam ser uma parte meramente editorial.

Contudo, o prefácio do Senhor dos Anéis apresenta elementos importantes para o leitor. Ele não é apenas uma apresentação da obra, mas serve como verdadeiro ponto de encontro entre o autor e e seu público, na medida em que ele mostra aspectos como interpretação, incorreções, pontos chaves, motivos e histórico do livro.

O presente artigo tem o objetivo de tentar esclarecer algumas informações que o professor colocou no prefácio, de modo que suas ideias sejam melhor compreendidas e aproveitadas amplamente pelo leitor.

A edição de O Senhor dos Anéis que a maioria das pessoas hoje em dia tem é uma reimpressão da segunda edição da obra. A primeira edição do Senhor dos Anéis foi publicada em 1954 (Sociedade do anel, Duas Torres) e 1955 (O Retorno do Rei), mas alguns anos depois foram revisados e publicados em uma segunda edição (1965-1966).

Assim, o livro sofreu um série de revisões e acréscimos, incluindo o conteúdo do prefácio, que também foi alterado.

O prefácio que vamos analisar é justamente dessa segunda edição. Percebe-se que Tolkien já havia colhido algumas experiências e as consequências do sucesso após a publicação da primeira edição, e assim o prefácio leva em consideração uma série de fatos que ocorreram ao longo da década de 50 e 60, em especial as críticas, comentários e publicações piratas de sua obra.

O prefácio é a parte do livro em que Tolkien apresenta suas visões sobre a própria obra, tentando rebater ideias que muitos diziam. Como exemplo, havia a ideia de que o Senhor dos Anéis seria uma alegoria da Segunda Guerra Mundial, sendo o UM anel na verdade a Bomba Atômica ou que a obra tivesse um significado oculto. Também é apresentado um breve esclarecimento do autor sobre o processo de elaboração e os motivos que o levaram a escrever a obra.

 

1.A origem do livro

 

 

Esta história cresceu conforme foi sendo contada, até se tornar uma história da Grande Guerra do Anel, incluindo muitas passagens da história ainda mais antiga que a precedeu.

 

Tolkien começou a escrever sua mitologia (seu universo secundário) entre os anos de 1914 a 1917, justamente em um período crítico no mundo, que enfrentava sua primeira guerra mundial. Porém, a maioria de seus textos ainda não passavam de rascunhos em cadernos ou projetos que revisava constantemente e nunca chegava a um ponto definitivo. Foi a partir dessa época que ele escreveu os textos que se encontram no “The Book of Lost Tales” (Volume I e II da série History of Middle Earth).

Com o tempo, esses escritos foram sendo modificados, até que se formaram no que hoje é conhecido como “O Silmarillion”, que narra as histórias da origem do mundo e eras anteriores ao Senhor dos Anéis e seus vários conflitos. No final do Silmarillion, Morgoth, o primeiro senhor do escuro, que durante eras lutou para dominar ou destruir a Terra-média e toda a criação foi finalmente derrotado. Mas o seu aprendiz Sauron, ainda permanecia na Terra Média e procurava a todo custo dominá-la.

Na tentativa de dominar os seres e estabelecer seu poder, Sauron criou um Anel mágico, que poderia utilizar para “todos dominar”. Em O Senhor dos Anéis é contada a história da Guerra do Anel, que se passa na Terceira Era da Terra-Média.

A Guerra do Anel, portanto, foi um conjunto de batalhas das forças dos povos livres (homens, elfos, anões, hobbits) contra as forças do mal (orcs, trolls, wargs etc) durante a Terceira Era. Após o fim da Guerra tem o inicio a  Era dos homens, e se encerra um ciclo da história desse mundo com a partida dos elfos para Valinor. 

Assim, o Senhor dos anéis está essencialmente conectado com os textos das eras anteriores, pois se passa cronologicamente em uma era posterior, e por isso inclui “muitas passagens da história ainda mais antiga” (Silmarillion).

 

O conto foi iniciado logo depois que o Hobbit foi escrito e antes de sua publicação, em 1937; mas não continuou nessa sequencia, pois eu queria primeiro completar e colocar em ordem a mitologia e as lendas dos Dias Antigos, que já vinham tomando forma havia alguns anos.

O Hobbit foi publicado em 21 de setembro de 1937, e foi logo considerado um sucesso, tendo uma resenha positiva em uma coluna no Times, além dos comentários de C.S.Lewis. A primeira impressão esgotou-se no natal do mesmo ano e foi feita uma segunda reimpressão. No ano seguinte a versão publicada nos Estados Unidos também obteve sucesso. O sucesso era visível a ponto do editor escrever a Tolkien dizendo “No ano que vem um grande público estará clamando para ouvir mais de você sobre Hobbits!”

Assim, com a publicação e o sucesso do Hobbit, o professor Tolkien pretendia agora consolidar e aperfeiçoar esses textos e formar uma história completa e coerente para que pudesse ser publicada em forma de livro. A esse conjunto de histórias ele deu o nome posteriormente de “Silmarillion”.

Assim, cerca de três meses após terminar de escrever o Hobbit, o professor Tolkien decidiu continuar sua história. Mas ele “queria primeiro completar e colocar em ordem a mitologia e as lendas dos Dias Antigos”. Ou seja, ele pretendia primeiro terminar de escrever O Silmarillion e depois complementar com uma história de sequencia ao Hobbit.

 

2.A importância das línguas

 

 

Quis fazer isso para minha própria satisfação, e tinha alguma esperança de que outras pessoas ficassem interessadas nesse trabalho, especialmente por ser ele fruto de uma inspiração primordialmente lingüística, e por ter sido iniciado a fim de fornecer o pano de fundo “histórico” necessário para as línguas élficas.

 

Como um estudiosos de línguas antigas, agradava ao Tolkien criar suas próprias línguas e posteriormente criar as histórias do seu mundo secundário. A inspiração das histórias parte primeiramente da criação da língua fictícia, para depois se formar os contos. Em uma entrevista ao New York Times, em 1967 Tolkien afirmou que “A invenção da linguagem é a base“, diz ele. “As histórias foram feitas para fornecer um mundo para a língua e não o contrário. Para mim, um nome vem primeiro e a história em seguida. Mas, é claro, uma obra como ‘O Senhor dos Anéis” foi editada e  somente muito da linguagem fora deixada pois eu pensei que seria tolerado pelos leitores. Eu agora descobri que muitos teriam gostado muito mais”.

Extraindo da Carta 297 (As Cartas de J.R.R.Tolkien, Arte & Letra, 2006) pode-se verificar as seguintes características ao processo de criação das línguas fictícias de Tolkien:

  1. Empreendimento particular: “realizado para proporcionar prazer a mim mesmo ao dar expressão à minha “estética” ou gosto linguístico pessoal e às suas oscilações”.
  2. Realizado antes de se formar a história: “Esse processo foi amplamente anterior à composição de lendas e “histórias” nas quais esses idiomas poderiam ser “realizados”.
  3. Possui apenas significado interno: “estes são relevantes unicamente para a ficção com a qual estão integrados”.
  4. Fonte externa apenas Sonora: fornece “unicamente a sequencia sonora (ou sugestões para o estímulo desta), e seu propósito na fonte é totalmente irrelevante.

A história do Silmarillion narra as principais lendas dos dias antigos do universo da Terra-Média, desde sua criação até o fim da terceira era. Na verdade o enfoque principal dessas histórias são os elfos e sua história como um povo que luta contra o maligno Morgoth e nesse processo é que verifica-se as mudanças e evoluções linguísticas dos elfos. De certo modo, O Silmarillion é a narração da história das línguas élficas, mostrando as ocasiões e os fatos relevantes em que se projetaram as variações e modificações das línguas.

 

3.O impulso inicial

 

Quando aqueles a quem pedi opinião e aconselhamento corrigiram alguma esperança por nenhuma esperança, eu voltei à seqüência, encorajado pelos leitores que solicitavam mais informações sobre os hobbits e suas aventuras.

 

Como visto, Tolkien decidiu terminar de escrever sobre as lendas dos dias antigos primeiramente por satisfação pessoal, e em segundo plano para aqueles que tivessem interesse no estudo das línguas criadas e nesses aspectos linguísticos da obra.

Assim, logo após a publicação do Hobbit, Tolkien apresentou ao seu editor manuscritos do Silmarillion. Ocorre que para o editor Stanley Unwin, essas histórias dos dias antigos não poderiam ser publicadas logo após o Hobbit, em 1937. Segundo o editor “O que necessitamos desesperadamente é de outro livro para reforçar nosso sucesso com O Hobbit, e, infelizmente, nenhum destes manuscritos (o poema e o próprio Silmarillion) satisfaz nossas necessidades plenamente. Ainda espero que o senhor se inspire a escrever outro livro sobre o Hobbit”.

Porém, Tolkien não conseguiria abandonar suas histórias mitológicas, chegando a dizer que “o Silmarillion e tudo o mais se recusaram a serem suprimidos”. E esse é um momento crucial para a formação do Senhor dos Anéis. Tolkien teve que iniciar um processo diferenciado de história, sendo uma parte da história de O Hobbit, mas que não abandonasse as histórias de O Silmarillion, então surgiria  O Senhor dos Anéis.

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4. O Senhor dos Anéis é continuação do Silmarillion

Mas a história foi levada irresistivelmente em direção ao mundo mais antigo e tornou-se, por assim dizer, um relato de seu fim e extinção, antes que o início e o meio tivessem sido contados.

O autor não conseguia controlar sua criatividade, a ponto que chegou afirmar que “As histórias tendem a descontrolar-se, e esta deu uma reviravolta não premeditada”. De fato, Tolkien não queria mais escrever histórias com um tom infantil como O Hobbit, mas sim continuar de forma direta a sua mitologia. Foi nessa momento que ele viu a oportunidade de apresentar uma sequencia para o Hobbit, mas ao mesmo tempo uma história séria e adulta seguindo os contos de seu mundo mitológico.

Assim, primeiramente estabeleceu que O Silmarillion, embora recusado pelo editor para publicação, seria considerado como elemento de base, de consulta para formar as novas histórias. Assim, as histórias do Silmarillion se situariam em uma época mais antiga, sendo o Hobbit e sua nova sequencia (Senhor dos Anéis) eras mais recentes do mesmo mundo, culminando com o fim de uma Era.

O Silmarillion foi então uma fonte primordial para o Senhor dos Anéis, porém ainda oculta para o grande público. De fato, apenas cinco pessoas haviam lido o Silmarillion (contando dois dos filhos de Tolkien, o leitor da editora, C.S.Lewis e outra pessoa).

Conforme escreveu “história foi levada irresistivelmente em direção ao mundo mais antigo”. O processo de elaboração do Senhor dos Anéis tomou como fonte O Silmarillion, o que tornou inevitável usar elementos do mundo em sua forma antiga.

Em 24 de Fevereiro de 1950, Tolkien escreveu para Stanley Unwin, informando sobre o Senhor dos Anéis e sua influência do Silmarillion. “Minha obra escapou do meu controle e produzi um monstro: um romance imensamente longo, complexo, um tanto amargo e muito aterrorizante, bastante inadequado para crianças (se é que é adequado para alguém); e ele não é realmente uma continuação para O Hobbit, mas para O Silmarillion” .(Carta 124).

Assim, como o próprio escritor ressaltou em carta, o Senhor dos Anéis é mais uma continuação do Silmarillion que o Hobbit propriamente, pois ele tem sua base e complemento essencial no Silmarillion, de forma que o Senhor dos Anéis é dependente desta obra. Ainda nesse mesmo argumento ressaltou na carta 124 “Sua sombra foi profunda nas partes finais de O Hobbit. Ele capturou O Senhor dos Anéis, de maneira que este tornou-se simplesmente sua continuação e finalização, exigindo o Silmarillion para ser completamente inteligível — sem muitas referências e explicações que o deixam confuso em um ou dois lugares”.

Foi por isso que Tolkien afirmou no prefácio que a história seria contada pelo final “antes que o início e o meio tivessem sido contados”. Ou seja, na verdade não haviam sido publicadas as histórias da Primeira Era (inicio), nem da segunda Era (meio), que se encontravam no Silmarillon, mas seriam contadas histórias da Terceira Era (fim).

 

 

 

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4 comentários

  1. João Paulo /

    Muito bom!

  2. Bruno Augusto Borba Baggins /

    excelente reportagem. amo muito acessar o tolkien brasil

  3. Wagner Stoffel /

    Excelente análise, muito esclarecedora!

  4. Excelente post. É muito bom ler e reler os prefácios dos livros do Tolkien. E depois dessa análise a gente lê com outros olhos hahahaha!

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