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A divergência entre J.R.R. Tolkien e Hilaire Belloc

Elmo Anglo saxão

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

 

Joseph Hilaire Pierre René Belloc, mais conhecido como Hilaire Belloc (1870-1953) é o tipo de escritor que em seu tempo foi considerado e visado por muitos, mas que o tempo não o favoreceu e foi sendo negligenciado e quase esquecido das grandes projeções midiáticas e acadêmicas. Seu nome está intimamente relacionado ao grande escritor G. K. Chesterton. Ambos eram amigos e tinham diversos pontos em comum e ideias que defendiam em especial uma terceira via da economia conhecida como “distributivismo”, como uma alternativa ao capitalismo e ao socialismo. Dentre os fundamentos do Distributivismo estão os ensinamentos dos Papas Leão XIII e Pio XI.

Belloc foi um dos prolíficos escritores na Inglaterra no final do século XX, tendo publicado mais de 150 livros e livretos. Mas também é conhecido por suas diversas profissões como filósofo, orador, poeta, marinheiro, satirista, soldado e político ativista. Além disso, Belloc era católico e graças ao seu auxilio Chesterton se converteu do anglicanismo para o catolicismo por volta de 1922.

Diversos escritos de Belloc tratam sobre história e religião. Não mediu esforços em mostrar as imprudências realizadas durante a Revolução Francesa e suas consequências no mundo contemporâneo. Bem como, escreveu diversos textos para jornais e periódicos sobre a Idade Média.

Belloc era membro do Partido Liberal e se tornou membro do parlamento pelo Salford South. Ele defendia com convicção sua liberdade religiosa até mesmo em sua época de discursos parlamentares. Certa vez, por exemplo, foi questionado se ele era um “papista” (termo pejorativo usado na Inglaterra para aqueles que são católicos). Em resposta, Belloc retirou do seu bolso um rosário e disse: “Sir, sempre que possível eu frequento a Missa todos os dias e me ajoelho e recito com essas contas todas as noites. Se isso te ofende, então eu rezo a Deus que me poupe da indignidade de representá-lo no Parlamento.” [1] A multidão o aplaudiu e Belloc ganhou a eleição. Não foi por outra razão que H.G. Wells certa vez disse sobre Belloc: “Debater com o Sr. Belloc é como discutir com uma tempestade de granizo”.[2]

 

Hilaire Belloc, sua longa barba, seu cachimbo e chapeú. Lembra algum personagem de Tolkien?

 

E qual a conexão de Belloc com J.R.R. Tolkien? Sabemos que Tolkien admirava Chesterton, sendo um leitor contumaz e colecionador de suas obras (veja mais nesse artigo sobre Chesterton e Tolkien clicando AQUI). Da mesma forma, o mesmo pode ser dito em relação a Hilaire Belloc. Segundo Priscilla Tolkien, a filha do autor do Hobbit, seu pai era “aprofundado nos trabalhos de Chesterton e Hilaire Belloc[3]

Alguns estudiosos Tolkienistas atribuem ao Condado o mesmo sistema econômico desenvolvido por Belloc e Chesterton. Entretanto, não há declaração do autor do Hobbit sobre uma possível influência nesse sentido. Até o momento, enquanto novos elementos não surgirem, esse comparativo merece maiores exames e debates.

Na década de 20 do século XX, Oxford estava repleta de grandes mentes. Pessoas que se destacariam em seus campos de atuação de forma tão profunda que se tornariam referências fundamentais para a geração posterior. Além disso, havia intercâmbios, palestras e eventos que buscavam complementar os estudos com intelectuais vindos de toda parte do mundo.

Foi em um desses eventos em Oxford que admiráveis intelectuais estavam sentados na mesma sala: J.R.R. Tolkien, Pe.Ronald Knox, Pe.Martin D’Arcy e Hilaire Belloc.

Ronald Knox (1888-1957) foi um padre católico, escritor de histórias de detetive, e tradutor da Bíblia para o Inglês e o livro A Imitação de Cristo, dentre outros trabalhos com a rádio BBC. Knox era clérigo da Igreja Anglicana e sua conversão à fé católica foi influenciada em parte por G. K. Chesterton, antes mesmo de o próprio Chesterton se tornar católico. Quando Chesterton se converteu em 1922, foi o próprio Knox que influenciou o Chesterton.

Martin Cyril D’Arcy (1888-1976) foi um padre jesuíta católico, importante filósofo e teólogo. Foi amigo de W.H. Auden e Dorothy L.Sayers (ambos amigos e correspondentes de Tolkien). Padre Martin foi autor do livro “The Mind and the Heart of Love” publicado por T.S. Eliot em 1945. D’Arcy foi conhecido na Inglaterra como um dos maiores intelectuais católicos a partir de 1930 até sua morte.

Bernard Shaw, Hilaire Belloc e G.K. Chesterton

Nesse evento, Hilaire Belloc havia sido convidado por Pe.Ronald Knox (que era capelão da Universidade)  para dar uma palestra aos católicos da Universidade de Oxford. Enquanto Belloc falava, sentado diante de Tolkien estava o jesuíta Martin D’Arcy, que registrou o momento em suas memórias:

Em sua palestra, Belloc apresentou um de seus temas favoritos: que os anglo-saxões eram totalmente sem importância na história da Inglaterra. Então, estava presente naquela ocasião um homem que provavelmente era a maior autoridade do mundo em assuntos anglo-saxões e era o professor de história anglo-saxã na época. Atualmente ele é professor de Literatura Inglesa em Oxford. O nome do homem é Tolkien, e ele era um católico muito bom… Bem, Tolkien discordou profundamente de Belloc sobre a questão dos anglo-saxões. Ele estava sentado bem na minha frente e eu o vi se contorcendo quando Belloc vinha com algumas de suas observações mais extremas. Então, durante o intervalo, eu disse a ele: “Oh, Tolkien, agora você tem sua chance. É melhor você enfrentá-lo.” Ele olhou para mim e disse: “Gracious me! Você acha que eu enfrentaria Belloc a menos que eu tivesse todo o meu caso cuidadosamente preparado?” Ele sabia que Belloc sempre tiraria algum fato da manga que o desconcertaria! Então, esse foi um tremendo tributo provavelmente da maior autoridade do mundo naquela época em particular.[4]

Não demorou muito para Tolkien preparar sua resposta ao que Belloc disse. Em 22 de janeiro de 1928, Tolkien leu um artigo chamado “The Chill Barbarians of the North” (Os Gélidos Bárbaros do Norte), em uma reunião da Newman Society em Oxford. Esse artigo ainda é inédito e seu conteúdo ainda desconhecido do grande público. O jornal católico The Tablet apresentou o seguinte registro em 7 de abril de 1928:

O Sr. Tolkien, recém-nomeado professor de anglo-saxão, criticou as opiniões associadas a Belloc e sustentou que a cultura do Norte era tão real quanto o Latim, e que, no que se refere à observação de terras estrangeiras, os romanos eram estúpidos e sem imaginação. Sem dúvida, o fato é que o Norte e o Sul se combinaram para formar nossa civilização; mas sempre pareceu ao escritor que nossa inspiração literária tenha sido Grega, além de nosso próprio sentimento do norte e o encanto com a natureza selvagem que é a antítese do espírito grego ou latino.[5]

Esse é um típico de “duelo” intelectual que surgia naquela época, do qual os verdadeiros ganhadores eram aqueles que conseguiam ver mentes brilhantes em pleno funcionamento. Mesmo tendo semelhanças muito evidentes, como a forte defesa católica e a apreciação pela escrita, Belloc e Tolkien tinham essa diferença de ver a importância dos anglo-saxões.

É interessante a afirmação do Tolkien de que a inspiração literária inglesa tenha sido em boa parte Grega. Ele mesmo utilizou diversos elementos das mitologias gregas em suas histórias, em especial O Silmarillion. O próprio legendarium Tolkieniano é como a combinação do norte e sul que formou a civilização, uma espécie de fusão de diversas mitologias e lendas Grega, Romana, Germânica, Anglo-Saxã e outras.

Após esse incidente, certamente Tolkien não diminuiu a apreciação pelas obras de Belloc. A prova disso é que em 22 de outubro de 1945 Tolkien presenteou seu filho Michael com dois livros de Belloc: Characters of the Reformation (1936) e The Crisis of Our Civilization (1937).

No Brasil existem poucos livros traduzidos de Hilaire Belloc. Os mais conhecidos e recentes são “O Estado Servil” (2017) com tradução de Fausto Machado Tiemann pela editora Danúbio, “As Grandes Heresias” (2009) com tradução de Antônio Emílio Angueth de Araújo pela editora Permanência, e o livro “Como aconteceu a reforma” (2017) com tradução de Luíza Monteiro de Castro Dutra Araújo pela editora Cristo Rei.

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NOTAS:

[1] “Sir, so far as possible I hear Mass each day and I go to my knees and tell these beads each night. If that offends you, then I pray God may spare me the indignity of representing you in Parliament.”

[2] Debating Mr. Belloc is like arguing with a hailstorm.

[3] The J.R.R. Tolkien Companion & Guide, II, Wayne G. Hammond, Christina Scull, p.32

[4] In his talk Belloc came out with one of his pet themes: that the Anglo-Saxons were utterly unimportant in the history of England. Now, there was present on this occasion a man who was probably the greatest authority in the world on Anglo-Saxon subjects and was the professor of Anglo-Saxon history [sic] at the time. He is presently professor of English Literature at Oxford. The man’s name is Tolkien, and he was a very good Catholic …. Well, Tolkien disagreed profoundly with Belloc on the question of the Anglo-Saxons. He was sitting just in front of me, and I saw him writhing as Belloc came out with some of his more extreme remarks. So during the interval, I said to him, ‘Oh, Tolkien, now you’ve got your chance. You’d better tackle him.’ He looked at me and said, ‘Gracious me! Do you think I would tackle Belloc unless I had my whole case very carefully prepared?’ He knew Belloc would always pull some fact out of his sleeve which would disconcert you! Now, that was a tremendous tribute from probably the greatest authority in the world at the time on that particular subject. (Martin C. D’Arcy, Laughter and the Love of Friends: Reminiscences of the Distinguished English Priest and Philosopher, Westminster, Maryland: Christian Classics, 1991, pp. 112-113.)

[5] Mr. Tolkien, the newly appointed Professor of Anglo-Saxon, criticized the views associated with Mr. Belloc and maintained that the Northern culture was quite as real as the Latin, and that so far as observation of foreign lands was concerned the Romans were stupid and devoid of imagination. No doubt, the fact is that North and South have combined to form our civilization; but it has ever seemed to the writer that our literary inspiration has been Greek, apart from our own Northern sentiment and delight in wild nature which is the antithesis of either the Greek or Latin spirit. (The Tablet, University Notes, p. 467).

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Um comentário

  1. Marcos Levi /

    Excelente, que mundo era essa! Uma parte substancial da mitologia do nosso mundo nascia e não era só isso, debates entre as mentes mais brilhantes do século XX. O livro “Como aconteceu a reforma” infelizmente não saiu e nem data p sair!

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