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Tradução comentada do Völuspá – do Islandês Antigo para o Português

Odin e a Volva

by Eduardo Stark

Tolkien foi um estudioso de culturas antigas que influenciaram e geram a Inglaterra. Dentre os estudos estava incluída a cultura dos nórdicos. Um dos vários manuscritos que influenciou Tolkien foi o Völuspá, de onde ele retirou os nomes dos anões de o Hobbit e o próprio Gandalf. No livro “A Lenda de Sigurd e Gudrun” que contém textos de J.R.R.Tolkien editados por Christopher Tolkien, em que há breves introduções ao estudos das mitologias antigas que auxiliaram Tolkien na sua criatividade.

O Völuspá traz em versos como o mundo foi criado e como terá seu fim com o Ragnarok, segundo uma visão mitológica nórdica. Abaixo segue uma tradução feita diretamente do nórdico antigo da primeira estrofe com comentários chaves sobre as palavras e termos utilizados.

Na tradução foram levados em consideração os todos os manuscritos antigos que contém o poema em suas várias formas, bem como as diferentes transcrições feitas por estudiosos da língua antiga. Além de ser observadas as traduções antecedentes em línguas latinas (espanhol, italiano e latim).

A apresentação do presente visa incentivar o estudo aprofundado do tema, tal como era feito pelo próprio Tolkien. Possivelmente novas traduções de versos do poema serão feitos, porém sem nenhum comprometimento maior além da apresentação no site.

 

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Vísa I

 

Hljóðs bið ek allar         helgar kindir,
meiri ok minni               mögu Heimdallar;
viltu at ek, Valföðr,       vel fyr telja
forn spjöll fira,               þau er fremst um man

 

Estrofe I [1]

 

Silêncio! Eu peço a todas       sagradas crianças,
maiores e menores,                 meninos de Heimdallr,
que eu vou, Valpadre,             devidamente recontar

arcaicos contos humanos        que eu melhor lembro.

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[1] Tradução alternativa: “Ouçam! Eu peço a todas as crianças sagradas; grandes e pequenas, filhos de Heimdallr. Que eu irei, Valfodur, narrar bem os feitos, velhos contos humanos, aqueles que primeiro recordo”.

 

COMENTÁRIOS:

 

Silêncio! Eu peço a todas/as sagradas crianças/maiores e menores

Nos primeiros versos é feito um pedido de silêncio e atenção para todos os seres presentes. Hljóðs bið ek allar. Essa é uma formula solene e imperiosa, pois logo mais serão narrados os feitos do passado e do futuro. Provavelmente essa mesma frase deva ter sido usado nas assembleias dos antigos islandeses. Ao mesmo tempo em que a personagem faz seu pedido imperativo a outros presentes, o próprio cantor ou poeta dos versos também clamava pela atenção de seus pares. Em outros poemas épicos a primeira palavra remete a ideia de “som” ou um pedido de atenção para que se escute o que será contado. É semelhante ao caso de “Hwæt” no poema Beowulf e parece ter alguma relação com a primeira palavra da Ilíada e da Odisséia de Homero. Uma alternativa de tradução seria “Por silêncio” combinando com o verbo seguinte para pedir silêncio.

Quem pede a atenção e decide contar as histórias é a chamada Volva (Vidente), que dá nome a obra “Voluspá” (A profecia da Vidente). Em Antigo Islandês “vǫlva ou “völva”, no plural “vǫlur” ou “völvur”, tem o significado de “Vidente”, “Profetiza” ou até mesmo “Bruxa” e “Sábia”. A palavra parece ter relação com “Volvo” em Latim, que significa “voltar, girar, tombar”. Porém tem sua origem relacionada com “Vǫlr” (Cajado) em Antigo Islandês. Em sua forma anglicizada é escrita como “Vala”, uma possível inspiração para os seres celestiais da mitologia de J.R.R. Tolkien. A palavra em si, tem a ideia de nomear uma categoria ou pessoa que tivesse relação com conhecimentos que os homens comuns não tinham acesso. Dessa forma, a palavra “Völva” é um substantivo e não um nome próprio. Através dos versos do Vôluspá é difícil ter informações precisas sobre a Völva. Os textos originais mudam da primeira para a terceira pessoa, com frequência, sendo esse um método comum na tradição épica germânica, que dificulta ainda mais a precisão, pois gera o questionamento se é a própria personagem que reconta a história ou se seria o autor dos versos. Mesmo quando se refere a si mesma a völva é bastante lacônica e levanta ainda mais questões. 

No contexto interno da obra, a Völva está diante de Odin e de outros seres reunidos. Definir quem seriam esses outros seres é algo que levanta debates entre os estudiosos dos versos. O Konungsbók não contém a palavra “Helgar”, que está presente apenas no Hauksbók e isso implica em diferentes traduções e interpretações. A palavra “Kindir” implica no significado de gênero, algo como “criaturas, raças, estirpes, classes”. Nota-se que a palavra em inglês moderno “kind” tem significado semelhante. O pedido de silêncio inicial estaria sendo direcionado a “todas as criaturas”, ou seja, de forma ampla a todos os seres gerados e criados, sendo eles pequenos ou grandes. Contudo, ao colocar a interpolação “helgar” do Hauksbók traz uma ideia de que seriam ali apenas os deuses (seres sagrados) e não as criaturas (seres comuns). Uma terceira hipótese está relacionada ao significado do verso seguinte “filhos de Heimdallr”, que seriam os seres humanos, uma vez que esse deus gerou três castas ou raças humanas. Dessa forma, o trecho pode ser traduzido de forma ampla, contemplando todos os seres existentes, de forma específica, incluindo apenas aqueles com aspecto divino ou mesmo que fossem considerados apenas os seres humanos.

meninos de Heimdallr

Os seres mencionados são considerados como sendo filhos de Heimdallr, aquele que ilumina o mundo, um deus Æsir, considerado o guardião de Asgard. No Edda em Verso, o deus Heimdallr é mencionado em seis poemas distinstos: “Völuspá”,“Grímnismál”, “Lokasenna”, “Þrymskviða”, “Rígsþula” e “Hrafnagaldr Óðins”. Enquanto que no Edda em Prosa, Heimdallr é citado nos livros “Gylfaginning”, “Skáldskaparmál”, e “Háttatal”. Também é atestado no “Heimskringla”.  Essa menção a Heimdallr no verso poderia implicar em afirmar que a Vidente estaria se direcionando aos seres humanos, pois Heimdallr é considerado como o criador de três castas dos humanos. No prefácio em prosa do Rígsþula é dito que Heimdallr tomou o nome de Rig, e gerou três castas de humanos. O Rígsþula é parte integrante do Codex Wormianus (AM 242 fol), manuscrito do século XIV. De acordo com Henry Adams Bellows (The Poetic Edda, p.203) possivelmente a anotação feita como prefácio no manuscrito do Rígsþula está incorreta, e o Rig seria na verdade Odin e não Heimdallr. Pois em Antigo Islandês a palavra para “Rei” é “ri” ou “rig.” e se entende que a tradição transferiu o nome “Rig” de Odin para Heimdallr. Observando que o prefácio em prosa foi adicionado por um compilador e escriba posterior que pretendia adequar o poema ao Völuspá, Rudolf Simek (Dictionary p. 264) e Finnur Jónsson (Altgermanische…, p. 243) defendem a mesma tese de Bellows. Contudo, esse pensamento parece ser minoritário entre os estudiosos e prevalece a ideia de que Heimdallr é um deus diferente de Odin, tal como já afirmava Peder Hansen Resen, em sua tradução para o Latim.

que eu vou, Valpadre,

A Vidente se direciona ao Valpadre para narrar os feitos. Valpadre, pai dos mortos, é um título do deus Odin, por ser a divindade daqueles que morrem em batalhas. As diversas traduções divergem se o nome seria traduzido. Louis-Félix Guynement de Keralio (p.12) erroneamente traduz o verso como “Je véus dire les stratagêmes du pere du carnage” e seguindo a tradição das versões francesas Xavier Marmier (p.8) coloca: “Je veux raconter les mystères du père suprême”. Essas edições francesas não apenas traduzem o substantivo próprio, como também mudam o sentido da frase dando a entender que será narrado os feitos do Valpadre e não para ele. A primeira tradução em espanhol feita a partir de edições francesas por D.A. de los Rios repete o mesmo equivoco:Quieres que cuente los prodigios obrados por El Padre de lós Mundos?”.A edição italiana de T. Cannizarro (p.40) traduziu o nome, porém apresenta o sentido correto da frase “ben ch’io narri tu vuoi, Padre dei Forti” A primeira tradução inglesa de Ebenezer Henderson (1819) colocou “Vol-father” e isso se manteve em traduções inglesas posteriores “Valfather”, “Valfothr” ouValfodure no alemãoWalvater”.Contudo, em uma tradução mais recente para o Inglês, Ursula Drogen traduziu o nome para “Sire of the Slain” na tentativa de manter a métrica aliterativa. Observando a tradução para o latim de Peder Hansen Resen “Valfödurs”, percebe-se que o nome deve ser mantido sem uma tradução completa.Assim, adotamos no mesmo sentido, em língua portuguesa: “Valpadre”.

devidamente recontar/arcaicos contos humanos/que eu melhor lembro.

A Volva pretende contar histórias que são antigas e que são humanas. Dessa forma, não se pode concluir que Odin não soubesse como se deu a criação. Mas que a Volva conta as histórias conforme os humanos haviam registrado ou conforme era oralmente disseminado. Alguns interpretam essa passagem como sendo o indicativo de que a Vidente seria uma humana, que conhece bem as tradições e lendas de seu povo e que irá recontar aquelas que lembra. O que se indica é que as histórias da cosmogonia nórdica são antigas e remontam a tempos longínquos.

Heimdallr, de Froelich

NOTAS DA TRADUÇÃO:

Hljóðs: substantivo, neutro, genitivo singular de “hljóð” (silêncio, audição).

Bið: verbo, 1º presente singular de “biðja” (pedir, rogar, implorar).

Ek: pronome (eu).

Allar: adjetivo, acusativo plural feminino de “allr” (tudo, todo, inteiro).

Helgar: adjetivo, declinação fraca acusativo plural feminino de “heilagr” (sagrado, santo, divino). Essa palavra está presente apenas no Hauksbók, e não está no Konungsbók.

Kindir: substantivo feminino, acusativo plural “kind” (prole, crianças, bebês, filhas, descendente). Para manter o equilíbrio entre as diversas interpretações optou-se por “crianças” na tradução.

Meiri: adjetivo comparativo, acusativo plural feminino de “meiri” (mais, grande, maior).

Ok: conjunção (e, mas, contudo). Também transcrito como “Oc”

Minni: adjetivo comparativo, acusativo plural feminino de “minni” (menos, pequeno, menor).

Mögu: substantivo masculino, acusativo plural de “mögr” (filho, menino). Por razões de métrica do poema optou-se por “meninos” na tradução.

Heimdallar: substantivo próprio, masculino, genitivo singular de “Heimdallr” (aquele que ilumina o mundo).

Vildo: verbo; 2º presente singular de “vilja” (Desejar, estar disposto, querer, vontade). Na transcrição de Guðni Jónsson está o termo “Viltu”.

At: conjunção (que).

Valföðr: substantivo próprio, masculino, nominativo singular de “Valföðr” (Valpadre, Pai dos mortos).

Vel: advérbio (bem, prontamente, facilmente). Percebe-se a semelhança com a palavra em inglês “Well”.

Fyrtelja: verbo, infinitivo de “fyrtelia” (recontar, recitar, contar) algumas transcrições, com base no Hauksbók, colocam a palavra “framtelja”, optamos pelo Konungsbók..Na transcrição de Guðni Jónsson “Fyrtelja” se divide em duas palavras separadas “Fyr”  e “telja”.

Forn: adjetivo, acusativo plural neutro de “forn” (antigo, velho).

Spioll: substantivo, neutro; acusativo plural de “spiall” (feitiço, palavra, contos).

Fira: substantivo masculino; genitivo plural de “frar” (Homens, pessoas).

Þau: demonstrativo usado como pronome, acusativo plural neutro de “sá” (que, o que, quem).

Er: pronome (eu). No Hauksbók transcrito como “Ek”. Foi mantido o que está no Konungsbók.

Fremst: adjetivo, acusativo plural neutro de superlativo de “frame” (padrão, excelente, mais, melhor).

Um: preposição (sobre, através, por toda parte; aproximadamente, de). Na transcrição de Guðni Jónsson essa palavra foi mudada para “of”. Optamos pelo que está originalmente no manuscrito.

Man: verbo, 1º presente singular de “muna” (lembrar, rememorar).

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