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A importância da tradição oral na criação do Legendarium

 

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by Eduardo Stark

Ao pensar em criar uma mitologia que pudesse ser dedicada para a Inglaterra, Tolkien entendeu que a realidade deveria ser a fonte para o mundo imaginário. Ele pretendia que suas histórias tivessem profundidade e características que possibilitassem uma noção de autenticidade ou de que se poderia considerar crível. Regras que fossem aplicadas dentro de seu próprio universo, com uma lógica interna e não apenas histórias inventadas sem critério algum.

Sendo assim, um dos aspectos de nossa realidade que o autor buscou observar é a tradição oral na formação da mitologia. A tradição oral é tão antiga quanto o ser humano, já que antes da invenção da escrita, as informações eram passadas de geração em geração através da palavra falada. E até mesmo hoje muitas pessoas pelo mundo usam a tradição oral para transmitir seu conhecimento e informações.

Nesse sentido, observando as peculiaridades das mitologias em geral nota-se que foram precedidas de séculos de tradição oral. Ou seja, as mitologias não foram escritas assim que foram desenvolvidas, elas passaram por um processo de disseminação e de herança cultural de uma geração para a outra, até que em um determinado momento tomou a forma escrita.

A esse respeito George Laurence Gomme analisa a relação da tradição oral e o material escrito das histórias:

A narrativa tradicional, o mito, o conto popular ou a lenda, não dependem do texto em que aparecem pela primeira vez. Esse texto, tal como o temos, não foi escrito por autoria contemporânea ou quase contemporânea. Antes de se tornar um documento escrito, vivia há muito tempo como tradição oral. Em alguns casos, o próprio documento escrito tem séculos de idade, o registro de algum cronista ou escritor antigo que não fez o registro por causa da tradição. Em outros casos, o documento escrito é bastante moderno, o registro de um declarado amante da tradição. (GOMME, p.125-126)[1]

Assim, a tradição oral nada mais é que uma forma de comunicação humana em que as ideias são transmitidas oralmente de uma geração para a outra. Dentro dela estão incluídas as baladas, os cantos, as histórias em prosa ou verso etc. Dessa forma, pode ser transmitida a história, literatura ou leis e outros conhecimentos através de gerações sem um sistema escrito ou registro paralelo a ele.

Em um primeiro momento, não parece ser razoável dizer que existe uma tradição oral em uma obra escrita de ficção de um autor. Mas em se tratando de uma mitologia simulada o elemento oral também pode ser levado em consideração, desde que haja um conjunto de justificações internas do mundo fictício.

Em várias oportunidades em seus escritos Tolkien deixa claro que existe todo um pano de fundo para as próprias histórias. Elas não são simplesmente de sua autoria, existe a noção da história da história. Ou seja, uma história de como aquelas aventuras foram registradas ao longo de tradições e registros passados de geração para geração. Assim, isso daria maior credibilidade a mitologia inventada, sendo ela semelhante às mitologias que se conhece atualmente.

A origem dos Contos de Fadas

Para entender a noção do Tolkien sobre o assunto é necessário analisar uma parte de seu ensaio “Sobre Contos de Fadas” tratando sobre as origens dessas histórias. No rascunho desse ensaio ele reconhece que “Os Contos de Fadas foram, certamente, feito por e preservado oralmente por adultos, e até mesmo no tempo do sentimento da “Era de Ouro” eles foram escritos por adultos” (On Fairy Stories, p.284)[2].

O autor deixa claro que é muito complicado definir uma real origem dos contos de fadas (em sentido amplo que incluiria mitologias). Ele apresenta três elementos que devem ser analisados, como pode ser lido no seguinte trecho:

É evidente que os contos de fadas (em sentido mais amplo ou mais restrito) são de fato muito antigos. Coisas semelhantes aparecem em registros muito primevos e são encontradas universalmente, onde quer que exista linguagem. Portanto, estamos obviamente diante de uma variante do problema encontrado pela arqueologia ou pela filologia comparativa: o debate entre evolução (ou antes, invenção) independente dos semelhantes, herança de um ancestral comum, e difusão, em várias épocas, de um ou mais centros. (Sobre Contos de Fadas, p.20).

Em síntese, esses tópicos ou etapas de construção das histórias podem ser resumidos da seguinte forma:

a) Invenção Independente: Leva-se em conta um inventor, um criador de histórias. É o mais misterioso por ser complicado de se definir quem criou ou como surgiu um mito, sem que ele tenha sido baseado em alguma história anterior. É o elemento mais importante e fundamental por que os outros dois se voltam a ele.

b) Difusão: é o empréstimo no espaço. Uma história remete o problema da origem a outro lugar. As histórias são contadas e espalhadas para lugares diferentes. Como exemplo, uma lenda contada entre os Germânicos passou aos Ingleses. No centro da difusão há um lugar onde antigamente viveu um inventor.

c) Herança: é o empréstimo no tempo. A transmissão de geração para geração do que foi sendo contado. Nesse ponto é que se encontra a tradição oral, embora também esteja relacionada a difusão. Se voltar no tempo se chegará ao inventor ancestral.

Tolkien não se sente capaz de desvendar completamente esses três tópicos. Seria uma tarefa complexa e sem possibilidade de ter um resultado, pois a origem dos contos de fada estaria ligada a história da humanidade e talvez até mais complexa do que ela. Questionar sobre a origem dos Contos de Fadas seria o mesmo que procurar saber como surgiu a linguagem humana. É nesse sentido que ele afirma:

A história dos contos de fadas provavelmente é mais complexa que a história física da raça humana, e tão complexa quanto a história da linguagem humana. As três coisas – invenção independente, herança e difusão – evidentemente tiveram seu papel na produção da intrincada teia da História. Desemaranhá-la está agora além de qualquer habilidade que não seja a dos elfos. (Sobre Contos de Fadas, p.20).

Ao fazer referência aos elfos nesse ponto Tolkien provavelmente estaria pensando em sua própria mitologia, em que os elfos têm um vasto conhecimento sobre as origens do mundo. Contudo, mesmo sendo seres especiais, na nota de rodapé dessa parte Tolkien deixa claro que não seriam capazes de desvendar tudo, mas apenas um fio em meio a uma imagem definida por muitos fios. Ou seja, lidar com os elfos poderia proporcionar maior esclarecimento a cerca de uma palavra, um verso, algo muito pequeno em meio a uma vastidão da linguagem.

Somando a essas ideias, Tolkien afirma que os Contos de Fadas não se formam com uma estrutura fechada e que não se modifica. Segundo ele as modificações vão sendo feitas com o passar do tempo e se torna complicado separar sua origem, pois existem variantes e que mesmo os elementos antigos podem ser retirados ou substituídos sem problema. É nesse ponto que a tradição oral tem o seu papel de relevância. É com a transmissão oral que as lendas vão sendo acrescidas de elementos novos ou modificações das histórias.

De maneira nenhuma os contos de fadas são matrizes rochosas das quais os fósseis só podem ser arrancados por geólogos peritos. Os elementos antigos podem ser extraídos, ou esquecidos e descartados, ou substituídos por outros ingredientes, com a maior facilidade, tal como mostrará qualquer comparação de uma história com suas variantes próximas. As coisas que existem nelas devem ter sido mantidas (ou inseridas), muitas vezes, porque os narradores orais, instintiva ou conscientemente, sentiram sua “significância” literária. (Sobre Contos de Fadas, p.31).

Essa flexibilidade dos contos de fadas em relação a suas fontes torna complicado definir uma origem real, não sendo possível realizar algo como se fosse uma pesquisa histórica. A oralidade tornou as histórias parte da cultura a tal ponto que os elementos mais antigos da história podem ser esquecidos, pois o que perdura são o que se considerou relevante na tradição oral, acrescidos de acordo com o sentimento de relevância.

Capa de A História de Kullervo

A transmissão oral do Kalevala e as ideias de Tolkien

A tradição oral está presente na maioria das mitologias e até mesmo nas religiões atuais. E como Tolkien estudava ambos, além de ser um professor que lidava com línguas, certamente o tema não foi ignorado por ele ao ter suas primeiras criações relacionadas ao seu legendarium. Dentre as mitologias que ele estudou e gostou está a finlandesa, que merece uma rápida análise quanto a ideia de oralidade.

A fascinação de Tolkien pelo épico nacional finlandês, o Kalevala, criado pelo folclorista Elias Lönnrot, é bem conhecida. Tal obra exerceu forte influência no autor do Senhor dos Anéis a ponto dele declarar que o épico foi um dos fatores que contribuiu para a ideia de criar sua própria mitologia dedicada ao seu país.

No período em que era um estudante graduando de Oxford, Tolkien realizou uma série de análises do Kalevala e isso o levou a ter a ideia de escrever sua mitologia. Conforme declarou “o início do legendarium, do qual a Trilogia é parte (a conclusão), foi uma tentativa de reorganizar algumas partes do Kalevala, em especial o conto de Kullervo, o infeliz, em uma forma de minha própria autoria”. (Carta 163, para W.H. Auden, em 7 de junho de 1955).

Alguns de seus principais trabalhos sobre o épico finlandês foram reunidos e publicados no livro A História de Kullervo em 2015. Nesse livro Tolkien expressa suas considerações sobre a tradição oral na mitologia: “Ao longo de outros sete séc[ulos], as baladas continuaram sendo transmitidas oralmente, a despeito da Suécia e da Rússia. Só foram escritas depois que Elias Lönnrot fez uma seleção delas, em 1835”. (TOLKIEN, A História de Kullervo, p.75).

Elias Lönnrot desenvolveu um papel de preservação das antigas canções do povo Finlandês. Buscando consolida-las e formar um conjunto escrito das principais lendas populares. Confirmando isso, no prefácio do Kalevala, o próprio Lönnrot informa sobre a tradição oral finlandesa “esses poemas se tornaram as memórias específicas mais antigas sobreviventes para o povo finlandês e a língua finlandesa, e uma vez que existem, alguém é designado para organizar-las com todos os cuidados e diligências possíveis” (LÖNNROT, p.374)[3]

E para deixar essa noção de oralidade e de matéria folclórica dos antepassados, nos primeiros versos do Kalevala o próprio Elias Lönnrot enuncia que: [4]

Vieram estas cantigas,
Foram lendas aprendidas
Do cinto de Vainamoinen,

Sob a forja de Ilmarinen,
Da espada de Lemminkainen,
Da besta de Joukahainen,
Da confim terra do Norte,
Do campos da Kalevala.

Meu paizinho mas cantava,
Gravando a pega de uma acha;
M’nha mãezinha as ensinava,
Rodando o fio no fuso,
Enquanto eu no chão, criança,
Rebolava aos seus joelhos,

Pobre barbicha-de-leite,
Pequeno boca-de-peixe.

Posto isso, é importante ressaltar que o texto escrito é sempre mais pobre intelectualmente do que a tradição oral, já que nem tudo pode ser escrito. O que existe nos manuscritos são muitas vezes sínteses das várias lendas e mitos do povo. Dessa forma o Kalevala não é a fonte única para a mitologia finlandesa, mas uma fonte escrita em paralelo a fonte oral que pode ser modificada, conforme Tolkien explica:

É interessante observar, no entanto, que esse cantar de baladas ainda prossegue e que essas baladas, cristalizadas para nós por acaso, sofrem e ainda poderão sofrer inúmeras variações. O Kalevala também não contém toda a lit[eratura] de baladas da Finlândia, nem todas as baladas coletadas pelo próprio Lönnrot, que reuniu todas em uma publicação denominada “Kanteletar” ou “Filha da Harpa”. O Kalevala só é diferente pelo fato de ter certa sequência lógica e, portanto, ser mais legível. Abrange a maior parte da mitologia finlandesa, desde a gênese da Terra e do Firmamento até a part[ida] de Väinämöinen. (TOLKIEN, A História de Kullervo, p.75)

Essa característica também é presente em outras mitologias que foram escritas em determinadas partes. A mitologia grega, por exemplo, tem como escritos fontes a Ilíada e a Odisséia, atribuídas a o Homero. Mas esses livros não são os únicos escritos e nem mesmo a fonte das histórias, durante muitos anos a tradição oral foi praticada em paralelo com a escrita, já que a maioria da população era iletrada.

Em uma mitologia simulada pelo autor o elemento da oralidade seria difícil de ser introduzido. Isso por que as histórias partem de um único autor e não de uma tradição oral do povo. Mas foi pensando nisso que Tolkien provavelmente tentou trazer a ideia de um grande compilador de suas histórias.

Assim como na mitologia finlandesa existiu um grande compilador de tradições orais, Elias Lönnrot, na mitologia Tolkieniana também deveria existir alguém que registrasse as diversas lendas da Terra-média, que foram sendo passadas ao longo das eras.

Assim, em uma mitologia “simulada” pelo autor deveria haver não só os textos em prosa, mas um conjunto de registros de baladas, músicas, versos, lendas, folclore, mitos e tantas outras formas de se contar histórias em um mundo onde o encanto e o mistério ainda eram presentes em essência.

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NOTAS:

[1] The traditional narrative, the myth, the folk-tale or the legend, is not dependent upon the text in which it appears for the first time. That text, as we have it, was not written down by contemporary or nearly contemporary authority. Before it had become a written document it had lived long as oral tradition. In some cases the written document is itself centuries old, the record of some early chronicler or some early writer who did not make the record for tradition’s sake. In other cases the written document is quite modem, the record of a professed lover of tradition. (GOMME, George Laurence, Folklore as an historical science. p.125-126).

[2] “Fairy-stories were, of course, made by and orally preserved by adults, and even in the age of ‘Golden Age’ sentiment they are written by adults.” (On Fairy Stories, p.284).

[3] “these poems are coming to be the oldest specific memories surviving for the Finnish people and the Finnish language as long as these exist at all, one is called upon to arrange them with all possible care and diligence” (The Kalevala: Or, Poems of the Kaleva District editado por Elias Lönnrot, Translated by Francis Peabody Magoun, Jr. Harvard University Press, 1963.p.374).

[4]  LÖNNROT, Elias. Kalevala, trad. Orlando Moreira, Épica, 2016, p.27.

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