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Conclusões sobre a mudança de “Orc” para “Orque” pela editora Harper Collins Brasil

 

  by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

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Antes de ler esse artigo, é interessante que você tenha lido as partes iniciais sobre o tema. A sua compreensão poderá ser comprometida se não tiver aquelas informações prévias.

Veja a primeira parte AQUI, a segunda parte AQUI, a terceira parte AQUI.

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No início de 2018 a editora Harper Collins Brasil adquiriu os direitos autorais de tradução e publicação no Brasil e realizou a contratação de três encarregados das traduções: Reinaldo José Lopes, Ronald Kyrmse e Gabriel Oliva Blum. Antes mesmo da finalização dessas contratações, como administrador e fundador do site Tolkien Brasil, fui comunicado pelo Samuel Coto, editor responsável da Harper Collins Brasil. Naquela oportunidade apresentei elogios a todos os três nomes apresentados. Muito embora tenham cometido erros de traduções em livros anteriores, não há que se negar que são bons fãs do Tolkien. Nesse ambiente de empolgação e de entusiasmo com a nova editora o site Tolkien Brasil apoiou os empreendimentos das novas publicações. Também não se deve negar que a editora Harper Collins está promovendo uma grande evolução em se tratando de Tolkien no Brasil, deixando para trás as experiências ruins com a antiga editora Martins Fontes. Essa antiga editora não se atentava aos anseios dos fãs, especialmente quando estes apresentaram graves erros nas traduções das obras. Como exemplo, O Senhor dos Anéis pela editora Martins Fontes tem mais de 200 erros e omissões de parágrafos que nunca foram corrigidos.

Contudo, foi logo anunciado que os tradutores iriam modificar alguns nomes que estavam já utilizados na tradução anterior. Passaram a mudar a palavra “Orc” para “Orque”, “Goblin” passou a ser “Gobelim” e o plural “Anões” foi modificado para “Anãos”, dentre outras mudanças. Os tradutores alegavam que tais mudanças estavam de acordo com o que o Tolkien apresentou em seus escritos e que seguiam as diretrizes do autor.

Em 15 de setembro de 2018 ocorreu uma reunião online, via skype, em que participaram o Samuel Coto, editor responsável pela Harper Collins Brasil, e os tradutores Reinaldo José Lopes, Ronald Kyrmse e Gabriel Oliva Blum. E também os amigos Claudia e Alexander. Nesse oportunidade foi explicado as razões das mudanças.

As justificativas para as mudanças, especialmente para “Orque” e Gobelim”, não pareciam ser razoáveis e dentro do que o Tolkien direcionava. Iniciei uma pesquisa sobre o assunto e em 22 de setembro de 2018, decidi fazer uma pergunta no grupo do facebook do Tolkien Brasil para saber a impressão dos leitores sobre essas mudanças (Veja Aqui). Foram mais de 200 comentários, onde a maioria das pessoas reclamou das mudanças feitas. No mesmo dia, o tradutor do livro “A Queda de Gondolin”, Reinaldo José Lopes respondeu em um post sobre o tema, onde tentou esclarecer a mudança das palavras. (Veja Aqui). No dia seguinte, tendo em vista a grande controvérsia, foi necessário escrever outro post para esclarecer minha posição até então. Foi decidido que iria terminar de escrever o artigo que estava fazendo sobre o tema. (Veja Aqui).

Assim, nos últimos posts desse site analisamos a palavra “Orc” em vários pontos. Primeiramente sobre a origem da palavra no mundo real e no mundo imaginário do Tolkien, apresentando toda a complexidade da palavra e do uso que o Tolkien fez em suas obras. A segunda parte foi dedicada a apresentar as diversas diretrizes dadas pelo próprio Tolkien sobre como a palavra “Orc” deveria ser traduzida para outras línguas. A terceira parte consistiu em analisar as atividades dos tradutores do Tolkien em línguas neolatinas: Francês, Espanhol, Italiano e Português. Com isso foi feito um acréscimo de informações para todos os que pretendem conhecer melhor a complexidade das obras do Tolkien e como ele escolhia as palavras para seu mundo imaginário.

Agora passamos a tratar especificamente sobre a decisão da editora Harper Collins Brasil em mudar a palavra “Orc” para “Orque”.

 

 

“Empréstimo” do Francês?

 

Aquele que tem um conhecimento sobre a língua francesa ou que teve acesso aos livros do Tolkien nessa língua logo percebe que “Orque” e “Gobelin” são palavras usadas no francês. A palavra “Orque” em francês moderno é o mesmo que no português “Orca”, um tipo de baleia gigante. Enquanto que no francês medieval “Orque” tem o mesmo significado que um “demônio, monstro”. Foi observando a palavra em francês medieval que os tradutores daquele país usaram o termo na tradução. Já “Gobelin” em francês moderno é uma criatura folclórica ao estilo dos trasgos ou duendes. “Gobelin” em francês moderno também é um tipo de tapeçaria.

Se os tradutores optaram por escolher essas duas palavras do francês não realizaram uma tradução e sim uma substituição das palavras em inglês pelas francesas. De modo que não parece interessante substituir palavras estrangeiras quando poderia ser deixado o original. Seria o mesmo que traduzir “Ball” em Inglês por “Ballon” em francês, ao invés de se traduzir para o Português com a palavra “Bola”.

Além disso, vem o fato de que das línguas neolatinas (espanhol, italiano, português, francês etc), a língua francesa não era a preferida do Tolkien, era na verdade o espanhol e em seguida o italiano. De modo que, se fosse para escolher palavras vindas da mesma árvore linguística deveria ser escolhido alguma com maior proximidade ao Português e que fosse do agrado do Tolkien, o que seria então a língua espanhola e não a francesa.

Contudo, os tradutores alegaram que não realizaram tal “empréstimo”, embora seja uma incrível coincidência que são as mesmas palavras usadas no Francês para as mesmas criaturas no mundo do Tolkien. Fato é que os tradutores conheciam que essas palavras eram usadas no francês antes de realizarem a mudança. Mas segundo informado, eles realizaram uma adaptação fonética e não empréstimo linguístico. Dessa forma, é necessário analisar esse se essa ideia é válida dentro das diretrizes fornecidas pelo Tolkien.

Adaptação fonética?

 

Os tradutores dizem que o Tolkien pretendia que a palavra “Orc” fosse adaptada foneticamente. Então a pergunta que se deve fazer é se a palavra “Orc” pode ser adaptada foneticamente ou se deve ser traduzida pelo sentido. Em postagem do facebook de 22 de setembro de 2018, o tradutor Reinaldo José Lopes disse o seguinte:

De modo geral, Tolkien deixou bastante claro o que se podia ou devia traduzir da nomenclatura de seus livros e o que ele queria que ficasse intacto. Boa parte disso está no texto “Nomenclatura de O Senhor dos Anéis” ou “Guia Para os Nomes de O Senhor dos Anéis”, publicado em diferentes coletâneas. Os termos “Orc” e “goblin” fazem parte dessa categoria que admite tradução ou adaptação para a fonética da língua de tradução segundo o próprio Tolkien.

Ainda para embasar esse argumento, o tradutor disse o seguinte: “O próprio Tolkien usa a expressão francesa “des Orques” (alguns Orques) para se referir à essa espécie em suas cartas, outro sinal de que ele admitia esse tipo de adaptação fonética”.

Eis aqui o primeiro equívoco. O uso da palavra “Orque” pelo próprio Tolkien foi apenas para dar o significado a palavra em Sindarin “yrch” e não para dizer que tal palavra deveria ser adaptada foneticamente para traduções, muito menos disse que seria o caso de ser tal palavra uma adaptação fonética. Como visto anteriormente, “Orque” é uma palavra francesa que no período medieval tinha o mesmo significado de “Orco” ou “Orc”, referindo a um demônio ou monstro do folclore. No capítulo anterior é possível ver a análise que os tradutores fizeram sobre a palavra “Orque” e as razões de terem optado por essa palavra na tradução, a ideia foi a de buscar o sentido da palavra.

Em post do site Jovem Nerd, de 22 de outubro de 2018, Reinaldo José Lopes reiterou a atitude criadora como tradutor:

O tradutor explica que “orc” é uma palavra em inglês que surgiu na Idade Média, cujo significado original é a de “ser infernal, demônio ou monstro” e que Tolkien escolheu para se referir às criaturas que aparecem nas histórias da Terra-média. “Por ser um termo em inglês, ele tem que ser traduzido”, diz Lopes. “Porém, Tolkien ressalta que como sonoridade e como estilo, o som geral de ‘orc’ já está bom e esse som tem que ser mantido”, acrescenta. No caso de línguas germânicas, como é o caso do alemão ou o sueco, a grafia de “orc” foi substituída por “ork” para que a fonética da palavra fosse a mesma.[1]

De fato, Tolkien disse que o som de “orc” parecia agradável e foi por esse motivo que escolheu tal palavra. Porém, em nenhum momento o autor apresenta a ideia em seu guia de que todas as línguas de tradução deveriam realizar uma adaptação fonética para essa palavra. Pelo contrário, ele específica para as línguas germânicas, que se deu não apenas pelo som produzido, mas também pelo seu significado, uma vez que “Ork” também significa “Orc” ou “Orco”, o monstro do folclore, já mencionado.

O processo de escolha das palavras nas línguas indo-européias passou pela mistura de sonoridade e pelo significado. Assim, “Orque” em francês tem o mesmo significado que “Orco” no espanhol, que por sua vez tem o mesmo significado que “Ork”. Todas essas palavras tiveram a mesma origem comum no latim “Orcus”, conforme pode ser visto na tabela evidenciada no capítulo anterior. Como o Português é uma língua indo-européia, o critério que deveria ser utilizado é o mesmo das demais línguas desse ramo linguístico, ou seja, a tradução pela equivalência.

A adaptação fonética pura, sem um vínculo mínimo de significado original na língua de tradução, foi utilizada apenas em línguas que não fazem parte do ramo indo-europeu. Isso é devido ao fato de que na cultura desses países simplesmente não há influência, nesse ponto, do latim e das histórias em torno da palavra. Assim, em Finlandês ficou “Örkki”, em japonês オーク [Oku], em Coreano 오크 [Okeu], em Russo Орки [Orki}, e em Turco “Oklar”.

Deve ser ressaltado que no guia para tradutores escrito por Tolkien ele se destinava aos que falavam línguas germânicas, em especial o alemão e dinamarquês. Além disso, a proposta do Tolkien era que as palavras fossem traduzidas de acordo “com seu significado”. Não há possibilidade dada pelo Tolkien que as palavras fossem adaptadas fonéticamente. Especialmente as palavras de seu mundo, como é o caso de “Orc”, não sofreriam adaptação fonética por não existir tal diretriz, isso ocorreu em países de língua não indo-europeia por uma necessidade.

A inapropriada “criação de palavras”

 

Mesmo que a palavra escolhida “Orque” não seja retirada do francês, como dizem os tradutores, ocorre outro problema ainda maior. Segundo eles a palavra é uma construção linguística ou uma palavra criada. O problema dessa forma de pensamento é que afronta diretamente o que o próprio Tolkien pensava sobre os tradutores criadores de palavras. A citação abaixo demonstra a opinião de Tolkien a respeito de palavras que eram adaptadas foneticamente ou por intervenção do tradutor:

Em princípio, oponho-me de toda maneira tão fortemente quanto possível à “tradução” da nomenclatura (mesmo por uma pessoa competente). Pergunto-me por que um tradutor deva considerar-se requisitado ou no direito de fazer qualquer coisa semelhante. O fato de este ser um mundo “imaginário” não lhe dá qualquer direito de remodelá-lo de acordo com seu gosto, mesmo que ele pudesse em poucos meses criar uma nova estrutura coerente que levei anos para desenvolver. Presumo que se eu tivesse apresentado os Hobbits falando italiano, russo, chinês, ou o que queira, ele teria deixado os nomes em paz. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[2]

Está evidenciado que Tolkien se preocupava com o ato do tradutor criar palavras para a finalidade de “traduzir”. O comentário do tradutor brasileiro evidencia que foi criado um “sistema” ou remodelagem para formar as palavras. Na postagem do faceebook de 22 de setembro de 2018, Reinaldo José Lopes não esconde o fato de ter sido uma palavra criada:

A orientação geral de Tolkien era: se a palavra faz parte da língua inglesa corrente, ela pode ou até deve ser traduzida ou adaptada para a língua de tradução. Foi o padrão que seguimos no caso de “Orque”, “Gobelim” e “Trol” (com um L só). Imaginamos como seria se há séculos as palavras “orc” e goblin” fossem incorporadas ao português e sofressem a evolução fonética natural dentro da língua. “Orque” e “Gobelim” seriam resultados plausíveis desse processo. “Trol” perde o L duplo inexistente em português. É importante lembrar também que tanto orc quanto goblin são palavras, em última instância, de origem latina, e portanto não é absurdo adaptá-las à fonética do português.

O primeiro equívoco está em afirmar que “Orc” é uma palavra que está na língua inglesa corrente. Na verdade, Tolkien usou a palavra vinda do anglo-saxão (demônio, monstro) e não aquela do inglês moderno (baleia assassina). Contudo, a permissão de tradução viria pelo fato de ser uma palavra em língua westron, conforme está no guia para os tradutores.

Quando a “evolução fonética natural dentro da língua”. Não parece correto dizer que o resultado para o português seria “Orque”, tendo em vista que em espanhol e italiano, duas línguas muito parecidas com o Português, tiveram a palavra originalmente “Orcus” e essa evoluiu naturalmente para a palavra “Orco”.

Ainda no post do site Jovem Nerd, de 22 de outubro de 2018, Reinaldo José Lopes reiterou a atitude criadora como tradutor:

Nós fizemos exatamente um análogo disso para o português. Nós não temos naturalmente no português palavras terminadas em ‘c’ e num geral também não temos palavras terminadas em ‘k’, e, portanto, pensando nisso, nós colocamos uma grafia que tem um som parecido, que é o ‘q-u-e’, que é basicamente como uma pessoa pronunciaria o ‘c’ de ‘orc’. A ideia então, pensando que “orc” é uma palavra que veio do inglês antigo para o inglês moderno, nós então pensamos como essa palavra, que veio do inglês, seria escrita no português caso ela tivesse entrado na nossa língua em um período mais antigo, como isso modificaria ela? Faz sentido pensar que nós teríamos esse ‘q-u-e’, com o som mais atenuado, mais enfraquecido, seguindo a nossa tendência em botar vogal no final de tudo.[3]

Aqui o tradutor informa corretamente que a palavra veio do Inglês antigo. Porém, erra quando diz que ela veio “para o inglês moderno”. Como demonstrado no primeiro capítulo, a palavra “Orc” tem vários significados sendo que no Inglês antigo significava “demônio, monstro”. Tal palavra não foi utilizada no Inglês moderno, sendo que nessa língua corrente tem o significado de “baleia assassina” e não de “demônio, monstro”. O que o Tolkien fez foi buscar a palavra em seu significado antigo e utilizar com esse significado em suas obras, embora não fosse semelhante aos Orcs que pretendia, como analisado no segundo capítulo.

Outro problema da escolha de “Orque” foi ignorar a possibilidade de ser pronunciado a vogal “E” de diferentes formas. Afinal, o Brasil é um país continental e de diferentes sotaques e formas de pronunciar as palavras. “Orque” poderia ser pronunciado como “Orquê” ou “Orqué” ou ainda “Orquí”. O que seria diferente da palavra “Orc”, cujos leitores sabem a pronuncia e não ocorre confusão em decorrência dessa grafia vinda do Inglês.

 

Palavras consolidadas e modificação

 

Na metade dos anos 1960s, Tolkien reanalisou a palavra “Orc” e decidiu que deveria mudar a grafia para “Ork” devido a aspectos gramaticais. O Senhor dos Anéis já havia sido publicado em 1954 e 1955. Em 1967 ele abandonou a ideia de alteração, observando que já havia se passado mais de dez anos desde a publicação do livro e o fato de ter usado a palavra “Orc” tantas vezes. A palavra já havia se consolidado com esta escrita.

Deveria ser escrito ork (como na tradução holandesa) em uma língua germânica, mas eu usei a grafia orc em tantos lugares que hesitei em mudá-lo no texto em inglês, embora o adjetivo seja necessariamente escrito orkish. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 762)[4]

Como visto acima, alguns anos após a publicação de O Senhor dos Anéis, por volta de 1960, Tolkien encontrou-se em um dilema sobre a correta grafia da palavra. Segundo ele “…deveria ser ork. Conquanto apenas por causa das dificuldades de grafia no inglês moderno:” (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)[5] Tolkien se preocupava com os aspectos ortográficos que iria implicar tal escolha, sobretudo o adjetivo “orkish” que seria a forma certa e não “orcish”.

Então, em 1965, dois anos antes da escrita do guia para tradutores, Tolkien teve a possibilidade de alterar a grafia de Orc para Ork durante a revisão de O Senhor dos Anéis, mas não fez a modificação, haja vista que, como apontado no guia para os tradutores, o autor percebeu que isso não seria mais conveniente. Ele usou muitas vezes a grafia Orc e a palavra já havia se enraizado por mais de dez anos desde a publicação de O Senhor dos Anéis. Há para Tolkien uma preocupação com a decorrência dessa alteração, especialmente em relação ao público e ao que já havia sido estabelecido.

A primeira tradução do Senhor dos anéis feita em Portugal em 1981 usou a grafia original “Orc” e a segunda tradução brasileira (da editora Martins Fontes) optou também por usar “Orc” em 1994. Com os filmes do diretor Peter Jackson o nome se consolidou ainda mais entre os fãs. Agora em 2018, quase 25 anos depois a editora Harper Collins Brasil, que adquiriu os direitos das obras do Tolkien mudou a grafia para “Orque” e os tradutores alegam que seguem as diretrizes do Tolkien…

 

Qual seria o melhor caminho?

 

Inicialmente o caminho para escolha seria o mesmo que as traduções para o espanhol e italiano. Ambas utilizaram a palavra “Orco”, seja pelo significado “criatura monstruosa do folclore” ou pela modificação final da palavra como o exemplo “Elf” se tornou “Elfo”, logo “Orc” seria “Orco”. Porém, a palavra “Orco” não carrega o mesmo significado na língua portuguesa. Tal palavra tem apenas o sentido de “inferno, hades” na língua portuguesa. Assim, poderia haver um conflito de significados de palavras.

O professor Tolkien demonstra, através de suas cartas e escritos, ser um autor que buscava preservar sua obra e mante-lá próximo do que pretendia. Foi um dos fatores que o incomodava quando verificava traduções em que os tradutores tomavam liberdades criativas. Foi assim que ele criou justamente o guia para tradução, na possibilidade de fazer com que tivesse limitações a atuação criativa dos tradutores quanto a nomenclaturas.  Foi assim que em 1956, Tolkien disse que não gostaria que as palavras “Hobbit” e “Orc” fossem modificadas, por serem parte daquele mundo.

Assim, diante de uma possibilidade entre “palavra criada pelos tradutores” e uma palavra “Original do Tolkien”, certamente é preferível que se mantenha o original, ou seja, “Orc” ao invés de algo que não está consolidado e que carrega em si mesma uma decisão equivocada.

 

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NOTAS:

[1] https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/o-senhor-dos-aneis-mudancas-traducao-br/

[2] In principle I object as strongly as is possible to the ‘translation’ of the nomenclature at all (even by a competent person). I wonder why a translator should think himself called on or entitled to do any such thing. That this is an ‘imaginary’ world does not give him any right to remodel it according to his fancy, even if he could in a few months create a new coherent structure which it took me years to work out. I presume that if I had presented the Hobbits as speaking Italian, Russian, Chinese, or what you will, he would have left the names alone.(TOLKIEN. Carta de 3 de abril de 1956, para a Allen & Unwin)

[3] https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/o-senhor-dos-aneis-mudancas-traducao-br/

[4] In any case orc seemed to me, and seems, in sound a good name for these creatures. It should be retained. It should be spelt ork (so the Dutch translation) in a Germanic language, but I had used the spelling orc in so many places that I have hesitated to change it in the English text, though the adjective is necessarily spelt orkish. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)

[5] …should be ork. If only because of spelling difficulties in modern English: an adjective orc + ish becomes necessary, and orcish will not do. In any future publication I shall use ork. (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)

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2 comentários

  1. Jefferson Santos /

    Artigo impressionante! Sou um estudante de Letras e tradução, portanto estive acompanhando de perto as polêmicas sobre a nova tradução, e achei esta série de artigos a mais séria, comedida e menos ególatra do que outras publicadas por aí. Excelente trabalho

    • Pérsio /

      Não sei…existem palavras do mundo REAL, que foram aportuguesadas com bons resultados. “Sanduíche” veio de sandwich. “Xampu” veio de shampoo. E assim por diante. Talvez seja possível fazer o mesmo com os termos Orc e Goblin. O que eu não sei é se as escolhas da Harper Collins Brasil foram as melhores (Orque e Gobelin). Talvez fosse melhor deixar Orc e Goblin mesmo, como usamos sem traduzir “fast food”, “check in” e “Black Friday”, entre outras.

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