Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

As diretrizes do Tolkien para traduzir a palavra “ORC”

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

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Antes de ler esse artigo é importante que se tenha lido o artigo anterior que está AQUI. Sem essa leitura prévia a sua noção do texto pode ser comprometida.

Renovo  o agradecimento pelo o auxilio e a colaboração dos tolkienistas Oronzo Cilli, Carl F. Hostetter, Henk Brassien, Jared Lobdell David Giraudeau, Paulo Pereira, Ryszard Derdzinski, Edouard Kloczko, Audrey Morelle, Vicent Ferré e Daniel Lauzon. O presente texto foi abrilhantado com as informações prestadas por esses grandes estudiosos das obras do Tolkien e possibilitou que se tornasse mais completo do que inicialmente era pretendido. Agradeço em especial a todos os seguidores e amigos do site Tolkien Brasil. Todo esse esforço e dedicação é para nós que somos fãs e queremos ver as obras do Tolkien em nosso país apresentadas da melhor forma possível.

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Antes de analisar as diretrizes quanto à tradução da palavra “Orc”, é interessante verificar os fatos históricos e documentos que apresentam a opinião do professor Tolkien sobre traduções de seus livros. Entender as ideias do autor sobre isso possibilita também compreender melhor como se deve proceder na escolha das palavras para a tradução.

Quando Tolkien iniciou seus primeiros escritos sobre o Legendarium, o seu conjunto de lendas e mitos, havia a pretensão de se realizar um grande trabalho que pudesse ser comparável às mitologias gregas, nórdicas e outras. O resultado disso seria uma mitologia criada e dedicada à Inglaterra. Para isso, Tolkien usou diversos elementos do folclore Inglês, e também buscou elementos nas culturas e povos setentrionais (noroeste da Europa). As obras tinham uma relação linguística e cultural com o país em que o próprio autor residia. E dessa forma, seus escritos são formados com um núcleo Inglês.

Inicialmente, o Tolkien previa a possibilidade de que seus livros pudessem ser traduzidos para outras línguas. De fato, ele acreditava que as obras não iriam alcançar um grande sucesso a ponto de diversas editoras estrangeiras terem interesse publicar versões nos seus idiomas próprios. Mas logo que veio o sucesso de O Senhor dos Anéis, publicado em três volumes, entre 1954 e 1955, as editoras estrangeiras começaram o processo de negociação sobre tradução da obra máxima do Tolkien.

Contudo, o que parecia algo interessante, se tornou para o professor de Oxford um verdadeiro tormento, pois os primeiros tradutores pareciam não entender os significados das palavras daquele mundo e realizavam traduções que eram muito distantes do que o autor pretendia. Tolkien se preocupava com os detalhes de sua obra e não seria diferente com as traduções dela. Ele considerava a primeira tradução sueca de O Hobbit, de 1947, como algo que não deveria se repetir, pois o tradutor tomou liberdades demais a ponto de mudar até mesmo a nomenclatura “Hobbit” para “Hompen”.

No entanto, em 1956 estavam sendo negociados os preparativos para outras traduções, pelo departamento da editora, e Tolkien enviou uma carta informando sobre o que achava dessa possibilidade. Nesse escrito podemos verificar a preocupação do autor e sua visão restritiva:

É claro, desejo que os senhores prossigam com seus esforços com respeito a edições estrangeiras…..Contudo, é compreensível que um autor, enquanto ainda vivo, sinta uma profunda e imediata preocupação pela tradução. E este autor, infelizmente, também é um linguista profissional, um Don pedante, que possui ligações e amizades amplamente pessoais com os principais estudiosos de inglês do continente…..A tradução de O Senhor dos Anéis mostrar-se-á uma tarefa formidável, e não vejo como pode ser realizada satisfatoriamente sem a assistência do autor*. Por “assistência” não quero dizer interferência, é claro, apesar de que a oportunidade de considerar amostras seria desejável. Meu conhecimento linguístico raramente se estende, além da descoberta de liberdades e erros óbvios, à crítica das precisões que seriam exigidas. Porém, há muitas dificuldades especiais neste texto. Para mencionar uma: há várias palavras que não serão encontradas nos dicionários ou que requerem um conhecimento do inglês mais antigo. Em pontos como esses, e em outros que inevitavelmente surgiriam, o autor seria a mais satisfatória, e a mais rápida, fonte de informação. Essa assistência estou preparado para fornecer, imediatamente, se eu for consultado.  Gostaria de evitar uma repetição de minha experiência com a tradução sueca de O Hobbit. Descobri que essa tradução tomou liberdades injustificadas com o texto e com outros detalhes, sem consulta ou aprovação; ela também foi desfavoravelmente criticada no geral por um especialista sueco, familiarizado com o original, a quem a enviei. Tenho em conta o texto (em todos seus detalhes) de O Senhor dos Anéis com muito mais ciúme. Alterações, grandes ou pequenas, rearranjos ou resumos deste texto não serão aprovados por mim — a não ser que provenham de mim mesmo ou de consulta direta. Espero sinceramente que essa minha preocupação seja levada em consideração. (TOLKIEN. Carta de 3 de abril de 1956, para a Allen & Unwin)[1]

Nota-se uma inquietação flamejante do autor em relação à tradução de seus livros. Para Tolkien havia a necessidade de que ele tivesse uma participação maior, sendo consultado diretamente. Tudo isso para evitar que existissem traduções que fossem inadequadas.

Ainda sobre o mesmo tema, Tolkien ressaltou que em princípio, ou seja, antes de qualquer coisa, as editoras estrangeiras deveriam evitar traduções de nomenclaturas (nomes dos personagens, nomes próprios, nomes em línguas inventadas pelo autor etc). Essa foi uma medida radical adotada pelo Tolkien para que se evitassem atitudes inapropriadas por parte dos tradutores. Foi assim que em carta para seu editor em 1956 disse o seguinte:

Em princípio, oponho-me de toda maneira tão fortemente quanto possível à “tradução” da nomenclatura (mesmo por uma pessoa competente). Pergunto-me por que um tradutor deva considerar-se requisitado ou no direito de fazer qualquer coisa semelhante. O fato de este ser um mundo “imaginário” não lhe dá qualquer direito de remodelá-lo de acordo com seu gosto, mesmo que ele pudesse em poucos meses criar uma nova estrutura coerente que levei anos para desenvolver. Presumo que se eu tivesse apresentado os Hobbits falando italiano, russo, chinês, ou o que queira, ele teria deixado os nomes em paz. Ou que eu tivesse pretendido que “o Condado” fosse algum Loamshire fictício da Inglaterra real. Mesmo assim, na verdade, em um país e período imaginários, como estes, coerentemente criados, a nomenclatura é um elemento mais importante do que em um romance “histórico”. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[2]

Após apresentar suas considerações, Tolkien esclarece o que poderia ser feito em relação a nomenclatura. Basicamente ele entendia que ao invés dos nomes serem traduzidos, poderia ser incluído um glossário que apresentasse os significados dos termos. Assim, haveria a preservação do original e evitaria existir intervenções dos tradutores:

Tenho certeza de que o procedimento correto (assim como para a editora e o tradutor o mais econômico?) é deixar os mapas e a nomenclatura em paz o tanto quanto possível, porém substituir alguns dos Apêndices menos desejados por um glossário de nomes (com significados, mas sem refs.). Eu poderia fornecer um para tradução. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[3]

O tema parecia ser muito importante para o Tolkien, a ponto de deixá-lo muito emotivo e até mesmo irritado com a situação. Como ele mesmo diz nessa mesma carta de 1956: “Não sou linguista, mas sei algo sobre nomenclatura, e estudei-a especialmente, e estou realmente muito furioso”[4].

E em um ponto final na questão, Tolkien diz que não iria admitir que se repetissem as experiências anteriores com a tradução do nome Hobbit e ressalta também que esse era um nome daquele mundo e que deveria permanecer como se escrevia, assim como a palavra Orc também, não importando se soariam bem aos leitores holandeses:

Que agora eu possa dizer de uma vez que não tolerarei qualquer remendagem similar com a nomenclatura pessoal. Nem com o nome/palavra Hobbit. Não admitirei mais qualquer Hompen (no qual não fui consultado), nem qualquer Hobbel ou sei lá o que. Elfos, Anões, Trolls, sim: estes são meros equivalentes modernos dos termos corretos. Mas hobbit (e orc) são daquele mundo e devem permanecer, quer soem holandeses ou não….. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[5]

Quanto às palavras “Hobbit” e “Orc”, por serem palavras inseridas dentro do próprio mundo, com um significado e contexto próprios, não poderiam ser passíveis de tradução e nem mesmo adaptação para a língua estrangeira.

Por todo o exposto, pode-se observar que Tolkien tinha uma preocupação bastante alta com a nomenclatura de seu mundo e como seria o tratamento delas nas traduções. As negociações prosseguiram, mas Tolkien ainda mantinha a mesma ideia de que as nomenclaturas não deveriam ser traduzidas. Assim, em carta de 24 de novembro de 1956 ele disse:

Eu ainda acho a tradução da nomenclatura um erro primário, indicativo de uma atitude errada; e eu não fui capaz de tratar desse ponto, não acho que eu deva ter mais sucesso em outros pontos. (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1032)[6]

Alguns anos mais tarde, em resposta a uma possível tradutora polonesa, em 11 de setembro de 1959, Tolkien escreveu para Alina Dadlez, e novamente apresentou suas ideias de que não deveria haver mudanças ou o minimo possível de intervenção na nomenclatura do livro.

Como um princípio geral para a orientação da [Sra. Skibniewska], minha preferência é, o quanto possível, pelo mínimo de tradução ou alteração de qualquer nome. Como ela percebeu, este é um livro em Inglês e seu jeito Inglês não deve ser erradicado. O fato de os Hobbits realmente falarem uma antiga língua própria é, naturalmente, uma afirmação pseudo-histórica que se torna necessária pela natureza da narrativa… Minha opinião é que os nomes das pessoas devem ser todos deixados como estão. Eu preferiria que os nomes dos lugares fossem deixados intactos também, incluindo Shire. A maneira apropriada de tratar isso eu acho é por uma lista daqueles que têm um significado em inglês a ser dado no final, com comentário ou explicação em polonês. Eu acho que um método ou procedimento adequado seria o que foi seguido nas versões holandesa e sueca, com a Sra. Skibniewska fazendo uma lista de todos os nomes no livro que ela acha difícil ou que ela possa, por qualquer razão, desejar alterar ou traduzir. Ficarei então muito feliz em anotar esta lista e criticá-la. (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1036-1037).[7]

A persistência do Tolkien em preservar suas obras parece ser evidenciada. Os livros tem essa característica inglesa própria e por mais que as traduções adaptem as nomenclaturas, o livro ainda permanecerá com o aspecto inglês. Esse estilo próprio não deveria ser erradicado, segundo o autor.

Mas apesar dessa oposição, os tradutores continuaram a fazer traduções que não agradavam ao Tolkien. Por exemplo, em 1962, a tradução portuguesa de O Hobbit pela editora Livraria Civilização, traduziu o termo para “O Gnomo”, dentre outros livros pela Europa que ou adaptavam a palavra ou traduziam para uma criatura folclórica inadequada.

E nos anos seguintes novas propostas de tradução surgiram. Até que Tolkien decidiu escrever um guia para orientar os trabalhos dos tradutores dinamarqueses e alemães. Isso iria lhe poupar tempo de analisar cada caso e seriam diretrizes mais claras do que deveria ser feito. Assim, em 12 de dezembro de 1966, ele escreveu para Alina Dadlez:

Quando estava lendo os exemplares da tradução alemã proposta, comecei a preparar uma lista de nomes anotados baseada no índice: indicando os nomes que deveriam ser deixados inalterados e dando informações do significado e origem daqueles que era desejável transformar no idioma da tradução, juntamente com alguns conselhos preliminares sobre como proceder. Espero que em breve conclua isso e possa enviar uma cópia ou cópias para o uso dos tradutores… (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1037)[8]

Em 2 de janeiro de 1967 o guia estava praticamente terminado e em carta Tolkien respondeu ao Otto B. Lindhardt, editor dinamarquês que tinha interesse em publicar O Senhor dos Anéis: “recentemente me dediquei a fazer e quase terminei um comentário sobre os nomes desta história, com explicações e sugestões para o uso de um tradutor, tendo especialmente em mente dinamarquês e alemão” (SCULL. HAMMOND. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, 2005, p.751).[9].

Diante disso, surge o questionamento se Tolkien teria mudado sua posição de inalterabilidade das nomenclaturas para algo que fosse permitido por completo. De fato, com o tempo o professor Tolkien percebeu que o seu princípio poderia ser flexibilizado para que as traduções pudessem ser compreendidas pelo leitor de cada país, porém, isso não quer dizer que fosse concedida uma total liberdade aos tradutores. Na verdade a criação de um guia demonstra que o autor não fornecia tanta abertura para a tradução e gostaria que suas diretrizes fossem seguidas.

A criação de um guia de nomenclatura significa mais ainda uma atitude do autor em preservar sua obra e evitar que tradutores tivessem liberdades criativas indevidas sobre a obra. Tolkien indica os nomes que não gostaria que fossem traduzidos ou alterados e também elenca aqueles que podem ser traduzidos. Mas a regra geral aplicada a grande maioria dos nomes é pela impossibilidade de alteração ou tradução.

Diversas cópias desses comentários sobre as nomenclaturas foram feitas e enviadas pela editora britânica aos tradutores de diversos países, embora o documento fosse dedicado primeiramente aos tradutores dinamarqueses e alemães. O guia foi organizado posteriormente e publicado pela primeira vez com edição de Christopher Tolkien, como título “Guide to the Names in The Lord of the Rings” (Guia dos nomes em O Senhor dos Anéis) no livro A Tolkien Compass, em 1975. Posteriormente, Christina Scull e Wayne Hammond editaram a partir do texto datilografado e republicaram com o título “Nomenclature of The Lord of the Rings” (Nomenclatura de O Senhor dos Anéis) no livro “The Lord of the Rings: A Reader’s Companion” em 2006.

Para entender as diretrizes do Tolkien para os tradutores é relevante analisar esse documento e explicitar suas principais regras. A seguir serão analisados os principais tópicos necessários para se entender o tema, e posteriormente sobre a palavra Orc.

 

2.1. Os preceitos basilares para a tradução da nomenclatura

Na tradução de um texto são feitos vários procedimentos relativos à linguagem. É preciso entender o significado das palavras, refletir sobre o seu contexto, verificar as similaridades, comparar as línguas, observar os aspectos formais, as fontes do texto e outros meios de adequar as palavras. É por isso que a tradução, em regra, é um processo de escolha de termos adequados. Contudo, essa opção não é totalmente livre como seria em uma criação individual. O tradutor está limitado aos sentidos e contextos que o autor na língua original pretendia transmitir.

Em Tolkien isso parece ser ainda mais restrito, pois além de estar no limite da própria tradução, deve-se também observar toda a camada imaginária que o autor criou. As palavras precisam ser observadas não apenas no contexto dos idiomas de origem e de destino, mas também dentro do próprio mundo imaginário. Em especial as nomenclaturas, devem ser analisadas com as estruturas de línguas em nosso mundo e também dentro dos idiomas do Legendarium. 

Foi devido a essa complexidade que Tolkien se preocupava com as traduções, a ponto de inicialmente vetar qualquer tradução das nomenclaturas. Posteriormente, ele decidiu que seria melhor instruir os tradutores quanto às principais palavras que poderiam ser versadas para outro idioma.

Existem vários livros e periódicos que contêm escritos do Tolkien que trazem informações importantes sobre o mundo imaginário. Mas para saber as regras basilares para a tradução das nomenclaturas do Legendarium é importante observar duas fontes principais:

  1. O Apêncice F do livro O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei: Nesse texto, Tolkien explica sobre as línguas faladas pelos diversos seres que participam de suas histórias. Além disso, com uma perspectiva do mundo interno, é explicado como Tolkien realizou a tradução do Livro Vermelho do Marco Ocidental, escrito originalmente em idioma Westron, para o Inglês moderno.
  2. Nomenclature of The Lord of the Rings” (Nomenclatura de O Senhor dos Anéis) no livro “The Lord of the Rings: A Reader’s Companion” em 2006. Ou também publicado com o título “Guide to the Names in The Lord of the Rings” (Guia dos Nomes em O Senhor dos Anéis) no livro A Tolkien Compass, em 1975. Esse texto incluiu uma apresentação breve com as regras gerais e em seguida uma lista dividida em três partes. A primeira trata dos nomes de personagens e criaturas, enquanto que a segunda parte trata sobre os lugares e a terceira sobre os nomes de coisas.

É a partir dessas duas fontes principais que se formam os preceitos ou diretrizes gerais que estão dispostos a seguir. Certamente existem outros pontos sobre tradução, porém esses são os mais significativos para que se possa entender o processo de tradução da palavra “Orc” e “Goblin”, que será especificamente analisado em tópico posterior.

Como se trata de um guia e não propriamente de uma imposição do autor em relação aos tradutores, é adequado chamar os postulados dados por Tolkien de “preceitos” ou “diretriz” e não de “regras”, uma vez que esta implica em um significado mais específico de obrigação e sanção em caso de violação. Pode-se dizer que Tolkien escreveu recomendações para se traduzir, que se ignoradas teriam o efeito de desagradar profundamente o autor.

1º Preceito: Nomes não listados devem permanecer inteiramente sem modificações

No Apêncice F, em O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei, Tolkien explica como o processo de tradução ficcional ocorreu. Ele fornece detalhes de que o Livro Vermelho do Marco Ocidental foi escrito na mesma língua falada pelos Hobbits. A ideia inicial é que, dentro do âmbito ficcional, Tolkien é um tradutor que encontrou os manuscritos que estavam em uma língua chamada Westron. Porém, esse idioma fazia parte de um mundo onde também existiam outras línguas de povos diferentes. Isso proporcionaria ao leitor uma maior sensação de realidade e até mesmo de estética linguística.

Ao apresentar a matéria do Livro Vermelho como história para ser lida por pessoas da atualidade, a totalidade do ambiente linguístico foi traduzida, até onde isso era possível, em termos de nossos tempos. Apenas os idiomas alheios à Língua Comum foram mantidos em suas formas originais, mas essas aparecem principalmente em antropônimos e topônimos. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 425).[10]

Com base nessa ideia, Tolkien diz que as várias palavras que eram próprias das línguas do mundo secundário deveriam ser mantidas sem tradução. Enquanto que a língua inglesa representaria a língua Westron. Ao pensar em outra língua de tradução a diretriz então tomou a seguinte forma:

Todos os nomes que não estão na lista a seguir devem ser deixados inteiramente inalterados em qualquer idioma usado na tradução, exceto as flexões –s e -es que devem ser adaptadas de acordo com a gramática do idioma. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751)[11]

A primeira diretriz é que todos os nomes que não estiverem listados no guia devem ser deixados inteiramente sem nenhuma alteração para qualquer língua que fosse feita a tradução. Portanto, essa regra foi estabelecida para que se evitasse a tradução ou modificação dos nomes em línguas criadas pelo Tolkien. Em regra, as palavras que estivessem em Quenya, Sindarin, Khuzdul etc, deveriam permanecer como no original. Além disso, o autor pretendia evitar qualquer modificação na maioria dos nomes próprios dos personagens.

Assim, a lista que está no guia não contempla todos os nomes da obra, mas somente aquelas principais que o autor entende que merecem uma atenção por parte dos tradutores, podendo traduzir ou não, conforme sua diretriz para cada palavra.

Os exemplos de nomes que não estão na lista e que se aplicam a essa regra são múltiplos, incluindo nomenclatura de personagens, criaturas, objetos e lugares. Por exemplo: Thangorodrim, Morgoth, Silmarilli, Orthanc, Fingolfin, Argonath, Beorn, Thorin, Gandalf, Bilbo, Gondor, Minas Tirith, Mordor, Osgiliath, Aragorn, Frodo… etc.

 

2º Preceito: Salvo exceção, nomes em Língua Comum (Westron) são traduzidos para o Inglês moderno conforme seu significado

De acordo com a ficção tolkieniana, o Westron era a língua falada pelos protagonistas de O Hobbit e O Senhor dos Anéis. Dessa forma, muitos nomes de personagens, objetos e lugares estavam nesse idioma. Além disso, os Hobbits e humanos da Terra-média anotaram suas histórias na Terceira e início da Quarta Era do Sol, narrando como foram suas batalhas contra as forças malignas. Esses manuscritos estavam também na Língua Comum. Passados milhares de anos, o professor Tolkien encontrou esses textos e iniciou o trabalho de traduzir para o Inglês moderno. Assim, ele afirmou que “A Língua Comum, como linguagem dos hobbits e de suas narrativas, foi inevitavelmente vertida para o nosso idioma [Inglês]” (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 426).

Também traduzi todos os nomes em westron de acordo com seus significados. Quando, neste livro, aparecem nomes ou títulos em nossa língua, trata-se de uma indicação de que nomes na Língua Comum estavam em uso na época, além ou em vez daqueles em outras línguas (normalmente élficas). (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 426)[12]

A escolha foi por traduzir as palavras do Westron de acordo com o significado e não com alguma alteração fonética ou adequação da palavra ao Inglês moderno. Fazendo assim, Tolkien dava o indicativo das palavras que estavam sendo usadas na época, pelos hobbits e humanos.

Essa escolha de tradução ficcional tem um apelo no mundo externo, na medida em que Tolkien era um estudioso de línguas e isso resultou em muitos aspectos nas suas obras. Não é surpresa que as línguas têm um papel fundamental para todo o entendimento do legendarium. Sobre o processo de tradução ficcional, Tolkien explica em sua carta para Naomi Mitchison:

… sou um filólogo, e muito embora eu quisesse ser mais preciso em outros aspectos e características culturais, isso não está dentro da minha capacidade. De qualquer forma, o “idioma” é o mais importante, pois a história tem de ser contada e o diálogo conduzido em um idioma; mas o inglês não pode ter sido o idioma de povo algum naquela época. O que de fato fiz foi igualar o Westron, ou a muito difundida Língua Comum da Terceira Era, com o inglês; e traduzir tudo, incluindo nomes como O Condado, que estivesse no Westron em termos ingleses, com alguma diferenciação de estilo para representar diferenças dialetais. Idiomas bastante estranhos à L[íngua].C[omum]. foram deixados em paz. Exceto por alguns fragmentos na Língua Negra de Mordor, e por alguns nomes e um grito de guerra na Língua Anã, esses são quase que inteiramente Élficos (Eldarin). (TOLKIEN. Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954)

Para dar uma maior sensação de realidade, e assim maior proximidade com o leitor, Tolkien preferiu não deixar todas as nomenclaturas em Westron na sua forma original. Ao invés disso, ele traduziu aqueles que estavam nessa língua e também equiparou os nomes que estavam em idiomas mais antigos dentro daquele mundo. Com isso ele pretendia produzir um efeito aos leitores ingleses que estivessem seguindo a jornada junto com os hobbits e que no meio do caminho encontravam outros povos com línguas diferentes, porém que tivessem uma remota similaridade. Foi pensando nessa noção de choque cultural ou contraste entre línguas remotamente aparentadas que o Tolkien estabeleceu esse sistema em suas obras, como ele atesta em seus escritos:

Pareceu-me que a apresentação de todos os nomes nas formas originais obscureceria uma característica essencial da época, tal como era percebida pelos hobbits (cujo ponto de vista procurei principalmente manter): o contraste entre uma língua difundida, tão comum e habitual para eles como a nossa para nós, e os restos vivos de idiomas muito mais antigos e veneráveis. Todos os nomes, se fossem meramente transcritos, pareceriam igualmente remotos aos leitores modernos: por exemplo, se o nome élfico Imladris referir-se a Valfenda como Imladris seria como se hoje se falasse de Winchester como Camelot, exceto que a identidade era certa, ao passo que em Valfenda vivia ainda um senhor de renome muito mais antigo do que seria Artur, se ainda fosse em nossos dias rei em Winchester. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 427)[13]

Com isso, Tolkien não pretendia que seus livros se distanciassem demais do entendimento do leitor. Tendo essa ideia em mente, o autor substituiu as línguas antigas com parentesco ao Westron de outros lugares para aquelas antigas do tronco linguístico germânico. Como exemplo, a língua de Rohan foi colocada como o Inglês Antigo, ou a língua do norte próximo a Montanha Solitária que foi substituída pelo idioma nórdico. Como exemplo de uso dessa língua, no livro O Hobbit, parte dos nomes dos personagens são de origem nórdica, embora anglicizados, como Gandalfr, Durinn, Dvalinn, Eikinsjaldi, Jarknasteinn, Beorn, Bard, Smaug. Muitos foram retirados dos manuscritos antigos Voluspa e Gylfaginning.

Entretanto, os idiomas que tinham relação com o Westron ofereceram um problema especial. Transformei-os em formas de falas relacionadas com o inglês. Posto que os Rohirrim são representados como recém-chegados do Norte, e usuários de um arcaico idioma Humano relativamente intocado pela influência do Eldarin, transformei seus nomes em formas similares (mas não idênticas) às do inglês antigo. O idioma de Valle e do Lago Comprido seria representado, caso aparecesse, como mais ou menos escandinavo em caráter; mas é representado apenas por alguns nomes, especialmente os dos Anões que vieram daquela região. Estes são todos nomes Anões em nórdico antigo. (TOLKIEN. Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954)[14]

Outras línguas europeias que tivessem alguma relação com o Inglês moderno também foram utilizadas para substituir aqueles idiomas relacionados ao Westron. Por exemplo, a língua antiga dos homens de Bri e dos Grados é representada por elementos da língua celta. Enquanto que a antiga língua dos homens de Rhovanion está substituída pelo Gótico.

O sistema linguístico construído pelo Tolkien demonstra o quanto sua obra tem características próprias daquela região, mesmo que seja uma obra ficcional e traduzida para outro idioma, essas palavras ainda permanecem como indicio desse vínculo.

Com base nessas informações, podem-se verificar no quadro, as línguas de nosso mundo e as línguas que estão no Livro Vermelho do Marco Ocidental. O Inglês moderno ocupa a mesma posição do Westron e por isso se torna central no sistema apresentado, sendo ela um referencial e ponto de partida para se comparar com os outros idiomas mais arcaicos.

  Línguas no mundo Interno Tradução por Tolkien
 

Westron

Língua Comum

(Westron)

Inglês Moderno

(Língua franca)

Língua do Condado Inglês Moderno
 

 

Línguas relativas ao

Westron

Língua de Valle (Dale) Nórdico Antigo (Anões)
Língua de Rohan Inglês Antigo
Língua antiga de Rhovanion Gótico
Língua antiga de Bri Celta
Outros idiomas Quenya, Sindarin,

Khuzdul…

Manter nomes no original

Por todo o exposto, deve-se assumir que para Tolkien havia uma relação entre os idiomas de cada povo e os efeitos linguísticos disso deveriam ser reproduzidos também em sua tradução para o inglês, formando um sistema inteiro entre as línguas faladas por povos diferentes e a língua falada pelos protagonistas. Foi pensando dessa forma que sua obra se tornou ainda mais complexa dentro desse âmbito linguístico.

 

orcs em hobbit

 

 

3º Preceito: O nome em Inglês moderno, que representa a Língua Comum (Westron), deve ser traduzido para a Língua da tradução conforme seu significado.

Observando o que foi exposto no tópico anterior, é importante apresentar a diretriz dada por Tolkien em seu guia para tradutores: “Os nomes que são dados em Inglês moderno representam nomes na Língua Comum, muitas vezes, mas nem sempre, sendo traduções de nomes antigos em outros idiomas, especialmente Sindarin (élfico-cinzento)”. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751).[15]

É com base nisso que se forma o preceito geral para os tradutores, em que o Inglês moderno seria o mesmo que o idioma para o qual o livro seria traduzido. E dessa forma, o que estivesse em Westron deveria ser também traduzido para a língua moderna.

Como exemplo, a palavra Weathertop, palavra inglesa que representa a Língua Comum. Ela então deve ser traduzida para a língua de destino. Ou seja, ficcionalmente existia uma palavra em Westron que Tolkien traduziu para o Inglês moderno como “Weathertop”. Nesse caso, como a língua inglesa é a tradução da palavra em Westron, à língua da tradução também deve traduzir a mesma palavra, substituindo a língua inglesa. Porém, não se pode adaptar foneticamente essa palavra á língua de tradução, mas sim observar o seu significado. Nota-se “Weathertop” é uma junção de duas palavras inglesas “Weather” (tempo, temporal, clima) e “Top” (topo, cume, alto, ápice). Em Portugal a palavra “Weathertop” foi traduzida como “Cume do Tempo” e no Brasil como “Topo do Vento”.

Em se tratando das diretrizes da tradução do Livro Vermelho, Tolkien divide em dois grandes grupos as línguas em sua obra. Aquelas em Língua Comum (Westron) que foi traduzido em sua maior parte e aquelas que são línguas diferentes que não foram traduzidas. Dessa forma, os nomes foram traduzidos de acordo com o significado das palavras do Westron para o Inglês, observando o uso das palavras naquele período.

A língua da tradução agora substitui o inglês como o equivalente da Língua Comum; os nomes em inglês devem, portanto, ser traduzidos para o outro idioma de acordo com seu significado (o mais próximo possível). (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751)[16]

Ao deixar em itálico a última frase “de acordo com seu significado”, Tolkien deixou evidenciado que a tradução deveria ter o seu sentido correspondente o mais próximo possível. Até nesse momento ele parece se preocupar com a fidelidade em relação ao original. Nisso reside o papel do tradutor de observar quais as palavras na língua de tradução são equivalentes, ou seja, tem acepção às palavras em inglês.

O fato de mencionar que o inglês moderno deve ser traduzido para outra língua, impede que as nomenclaturas em línguas diferentes sejam traduzidas. Aquelas línguas setentrionais escolhidas pelo Tolkien para produzir um efeito linguístico de relação entre o inglês moderno (como westron) e outras línguas, permanecem sem tradução. (conforme apontado no quadro no tópico anterior). Dessa forma, as características inglesas ou europeias setentrionais do livro acabam se mantendo justamente por não ocorrer essas adaptações ou traduções.

Língua Comum

(Westron)

Significado na Língua da tradução (Português)
Outras línguas Manter no original

Certamente a escolha de palavras antigas dentro do contexto das histórias, como recursos para a fala dos personagens, parece ser razoável em uma tradução que procure fidelidade. Porém, em se tratando de nomenclatura, o autor deixou evidente as suas considerações no sentido de que apenas as palavras em Inglês moderno deveriam ser traduzidas, conforme o significado do termo e não adaptações fonéticas.

2.2. A tradução dos nomes dos seres do mundo imaginário

Ao decidir criar um conjunto de histórias que formam um imaginário de mitologias, lendas e contos de fadas, o professor Tolkien também criou línguas diferentes e para cada uma delas os povos e raças com toda sua complexidade baseada na realidade. As criaturas e seres que ativamente participaram dessas histórias tinham, portanto, sua própria cultura e idioma.

Porém, dentro da ideia ficcional de que ele seria um tradutor do Livro Vermelho do Marco Ocidental, foi necessário traduzir ou dar nome a esses seres com algo que soasse familiar aos leitores de língua inglesa. Para Tolkien, o leitor inglês poderia não se acostumar com vários nomes que não fossem conhecidos e isso poderia afastar a sensação de realidade e de conexão com as histórias.

Foi nessa ideia que o professor de Oxford escolheu nomes de seres já conhecidos nas histórias tradicionais da Europa e os utilizou para denominar as criaturas de seu mundo. Mas os seres das mitologias e folclore da Europa não se adequavam em sua representação integral nas histórias. Com base nisso Tolkien afirmou que:

Tenho dificuldade em encontrar nomes ingleses para criaturas mitológicas com outros nomes, uma vez que as pessoas não “aceitariam” uma série de nomes Élficos, e prefiro que elas aceitem minhas criaturas lendárias mesmo com as falsas associações da “tradução” do que não as aceitem de modo algum. (TOLKIEN. Carta para Robert Murray, SJ. em 4 de novembro de 1954).[17]

E nesse mesmo sentido, aponta essa dificuldade de adequar especificamente os nomes na língua inglesa: “Minha dificuldade é de que, uma vez que tentei apresentar uma espécie de legendarium e história de uma “época esquecida”, todos os termos específicos estavam em uma língua estrangeira, e não existem equivalentes precisos em inglês” (TOLKIEN. Carta para Hugh Brogan, 18 de setembro de 1954)[18]

As características dos seres folclóricos da Europa não se encaixavam perfeitamente nas raças que estavam na Terra-média. Mas como se tratam de palavras que representam a tradução em seu significado, Tolkien usou os nomes daqueles seres que pudessem ser lembrados, mesmo que o sentido não fosse totalmente compatível. Dessa forma ele afirmou que “elfo, gnomo, goblin e anão são apenas traduções aproximadas dos nomes em Élfico Antigo para seres de raças e funções não exatamente iguais”. (The Observer, 20 de fevereiro de 1938)[19]

É interessante observar que esses nomes escolhidos figuravam como traduções para os seres de seu mundo imaginário. Porém, existiam aqueles nomes que não poderiam ser traduzidos, eram nomes próprios daquele mundo. Foi nesse sentido que ele chegou a proibir os tradutores holandeses de traduzir os termos “Hobbit” e “Orc”. Conforme Tolkien afirmou em carta para seu editor: “Elfos, Anões, Trolls, sim: estes são meros equivalentes modernos dos termos corretos. Mas hobbit (e orc) são daquele mundo e devem permanecer, quer soem holandeses ou não(TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).

Assim, pode-se verificar que existem dois tipos de nomes para os seres da Terra-média. Os primeiros que são traduções com base no significado das palavras, muito embora não muito precisos. E a segunda categoria de nomes dos seres é aquela não seria passível de tradução por opção do autor.

 

a) Nomes traduzidos pelo sentido:

A primeira etapa em tradução de nomes foi procurar na mitologia e folclore europeu, especialmente naqueles povos de origem germânica ou setentrional, criaturas que tivessem alguma semelhança com os seres de seu mundo. Assim, a tradução dos termos foi feita de acordo com o sentido aproximado. Porém, Tolkien encontrou dificuldades em escolher quais desses seres do folclore europeu poderiam representar aqueles que estavam em suas histórias.

Com base em informações fornecidas pelo próprio Tolkien, através de cartas, entrevistas e livros, pode-se formar o seguinte quadro relativo a palavras que devem ser traduzidas pelo sentido para o Inglês moderno (e por consequência para a língua da tradução):

  Língua Interna Inglês Português
 

 

Nomes traduzidos pelo

Sentido

Quendë (Q) Elf Elfo
Narag (W) Dwarf Anão
Torog (S) Troll Troll
Orc (R)

Orca /Orka (W)

Orch (S)

Urco/Orco (Q)

 

Goblin

 

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A seguir será demonstrado que, embora o autor tenha escolhido os nomes a partir do que encontrou nas línguas e contos tradicionais, ele se ressentia com suas escolhas por não serem realmente ajustadas.

Os primeiros seres que foram desenvolvidos foram os Quendi. Um povo antigo, belo e imortal. Para nomeá-los, Tolkien buscou na mitologia nórdica um nome de uma criatura que pudesse ser compatível. Foi assim que escolheu o nome “Elf”, que em Português é o mesmo que “Elfo”. Os Elfos são os seres mais complexos do Legendarium. Por suas próprias características e desenvolvimento nas histórias, em especial nas primeiras eras, esses seres tem uma importância central: “Elfos [Elven] é uma palavra inglesa, mas a natureza e a história dos povos assim chamados em meus livros têm pouco ou nada a ver com as tradições europeias sobre elfos ou fadas”. (TOLKIEN. Carta para Mrs. L. M. Cutts, 26 de outubro de 1958)[20].

“Elfos” é uma tradução, talvez agora não muito adequada, mas originalmente boa o suficiente, de Quendi. Eles são representados como uma raça similar em aparência (e ainda mais no passado distante) aos Homens e, em dias antigos, da mesma estatura. Não entrarei aqui em suas diferenças dos Homens! Mas suponho que os Quendi nestas histórias sejam de fato muito pouco relacionados aos Elfos e Fadas da Europa; e se eu fosse pressionado a racionalizar, eu diria que eles representam realmente Homens com faculdades estéticas e criativas aprimoradas em grande medida, maior beleza e vida mais longa, e nobreza (TOLKIEN. Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954).[21]

Assim, os Elfos nos contos tradicionais populares não são os mesmos Elfos que o Tolkien apresenta em suas histórias. Usando essa palavra ele apenas tentou dar uma tradução com um sentido remotamente similar aos seres de seu mundo. Enquanto o termo “Elfo” não se adéqua completamente em seu sentido, os outros seres também permanecem com essa imprecisão de conceitos. O lamento do Tolkien parece ter se aprofundado com relação ao uso de “Elfos” tendo em vista a carga de elementos que a cultura popular já havia associado em relação ao nome. Foi por isso que Tolkien afirmou o seguinte:

Agora lamento profundamente ter usado Elfos, embora esta seja uma palavra em ancestralidade e significado original suficientemente adequada. Porém, a desastrosa depreciação dessa palavra, na qual Shakespeare desempenhou um papel imperdoável, realmente a sobrecarregou com tons lamentáveis, que são muitos para se superar. (TOLKIEN. Carta para Hugh Brogan, 18 de Setembro de 1954)[22]

Essa dificuldade em escolha dos nomes também ocorre com os Anões, pois também não são completamente idênticos aos seres dentro do mundo imaginário. Tolkien faz essa diferenciação em uma carta para Robert Murray:

Até mesmo os anões não são realmente “dwarfs” (Zwerge, dweorgas, dvergar) germânicos, e os chamo de “dwarves” para salientar isso. Eles não são naturalmente maus, não são necessariamente hostis e não são uma espécie de povo-verme gerado nas pedras, mas uma variedade de criaturas racionais encarnadas. (TOLKIEN. Carta para Robert Murray, SJ. 4 de novembro de 1954).[23]

Os Trolls também eram seres do mundo imaginário que eram chamados de Torog, na língua dos elfos Sindarin[24]. Foi das histórias tradicionais escandinavas que Tolkien buscou o nome Troll para essas criaturas.

Quanto a tradução para os Orcs, Tolkien escolheu as criaturas do folclore europeu “Goblins”, sobretudo com aspectos inspirados nas obras de George Macdonald. Porém, assim como não sentia a adequação dos nomes aos seres em relação aos elfos e anões, ele preferiu a palavra “Orc” para nomear esses seres. Essa escolha será analisada em outro tópico posterior.

O que se pode notar é que os nomes escolhidos para os seres da Terra-média não eram completamente iguais àqueles seres do folclore e mitologia. As características desses seres no mundo do Tolkien parecem ser complexas e aplicáveis a uma narrativa heróica. Contudo, mantendo a coerência do seu sistema de traduções, o autor optou por escolher as palavras de acordo com o seu sentido, o mais próximo possível.

 

b) Nomes inalteráveis

Como visto, existem os nomes dos seres que são traduzidos conforme o seu significado. E assim foram nomeados conforme os seres do folclore e mitologia, mas que permanecem com sentido próprio dentro do mundo imaginário. Existem também aqueles nomes, que permanecem com significado próprio, e que não são objeto de tradução. Isso implica em uma conexão da palavra ao próprio mundo e por isso não seria traduzível para outra língua. Porém, a mesma incompatibilidade de características ocorrida na tradução pelo sentido também se verifica.

Como exemplo, temos a palavra “Ent” que Tolkien tomou emprestado de uma língua existente em nosso mundo, mas que em seu mundo imaginário é a representação da língua de Rohan. Tal palavra vem do Inglês Antigo “Ent”, que significa gigante. Mas que dentro da ideia de tradutor ficcional foi utilizada como uma língua interna. “Ent era a forma de seu nome na língua de Rohan”. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 423).

Ent também é uma antiga palavra inglesa (um gigante); mas os Ents do meu mundo são, suponho, uma “criatura” inteiramente original – tanto quanto se pode dizer de qualquer trabalho humano. Se você preferir, eles são uma forma ‘mitológica’ retirada do meu amor pelas árvores ao longo da vida, talvez com alguma influência remota do Phantastes de George MacDonald (um trabalho que eu realmente não gosto muito), e certamente uma forte reviravolta dada pela minha profunda decepção com Macbeth de Shakespeare… (TOLKIEN. Carta para Mrs. L. M. Cutts, 26 de outubro de 1958).[25]

As características principais dos Ents são parte do processo criativo do autor que se vinculam ao próprio nome escolhido e por isso não traduzível. O fato de não ter as mesmas características não impede de ser adotado esse nome. De fato, Tolkien preferiu que “Ent” não fosse traduzido ou alterado pelos tradutores, tendo em vista que se trata de uma palavra em Inglês Antigo, que por sua vez representa a língua dos homens de Rohan. O guia escrito pelo Tolkien aos tradutores deixa essa ideia bem clara:

Ent. Manter assim, sozinho ou em compostos, como Entwives. Supõe-se que seja um nome na língua do Vale do Anduin, incluindo Rohan, para essas criaturas. Na verdade, é uma palavra do Inglês Antigo para “gigante”, que é correto, portanto, de acordo com o sistema atribuído à Rohan, mas os Ents desse conto não estão em forma ou características derivadas da mitologia Germânica. Entings “filhos dos Ents” (II 78) também devem permanecer inalterados, exceto no final plural. O nome élfico-cinzento (Sindarin) era Onodrim (II 45). (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.756-757).[26]

Pelo exposto, é possível se verificar no guia para os tradutores, escrito por Tolkien, que as palavras que são do Inglês Antigo, em sua maioria, não são passíveis de alteração e nem tradução. Como exemplo, a palavra “Scatha”, cuja diretriz prescrita no guia aos tradutores diz o seguinte: “Esta é do Inglês Antigo (injuria, inimigo, ladrão) e assim é da língua de Rohan e deve ser deixado inalterado” (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.762) [27].

Outro exemplo é a palavra “Firien” “Um nome de Rohan representando uma palavra antiga (Inglês Antigo ‘firgen’, pronunciado ‘firien’) para ‘montanha’. Compare com “Halifirien” ‘monte santo’. Como pertencente à língua de Rohan, o ‘firien’ deveria ser mantido”. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.770)[28]. O mesmo ocorre com a palavra “Folde” “Um nome de Rohan, permanecer inalterado” (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.770). [29], uma vez que essa palavra é do Inglês Antigo ‘folde’ (fold em nórdico antigo) que significa “terra, região, país”.

O quadro abaixo fornece os exemplos vistos acima, para maior clareza da ideia do autor. A língua de Rohan é representada pelo Inglês Antigo e a vontade do autor é que tais nomes não fossem traduzidos ou alterados pelos tradutores:

  Língua

de Rohan

Inglês

Antigo

Inglês Português
Nomes inalteráveis pelo autor

 

Ent (R) Ent (R) Ent Ent
Orc (R) Orc (R) Orc Orc
Scatha (R) Scatha (R) Scatha Scatha
Firien (R) Firien (R) Firien Firien

 

Se for considerado o que consta no Apêndice F de O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei, a palavra “Orc” pertence ao conjunto da língua de Rohan. “Orc é a forma do nome que as demais raças usavam para esse povo imundo, tal como na língua de Rohan. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 423). Além disso, a palavra “Orc” vem do Inglês Antigo que significa “demônio, monstro”. Assim, tal palavra poderia ser colocada no mesmo grupo dos nomes que são inalteráveis para as traduções. Contudo, a questão não é ponto pacífico, pois posteriormente o Tolkien considerou que a palavra “Orc” seria uma palavra em Westron e assim passível de tradução. É por isso que essa palavra exige uma análise mais específica.

2.3. As diretrizes específicas para traduzir “Orc”

Pelo exposto nos tópicos anteriores, a palavra Orc apresenta dupla possibilidade de diretriz quanto à tradução. Se observar a ideia de que se trata de uma palavra em Língua Comum, deveria ser traduzida de acordo com o seu significado. Contudo, se levar em consideração que a palavra Orc é vinda do Inglês antigo e, portanto, representativa da língua de Rohan, deveria permanecer inalterada. Para entender especificamente qual o caminho apresentado por Tolkien se faz necessário uma retrospectiva dos seus pronunciamentos sobre a natureza e tradução da palavra Orc.

No Apêndice F, em O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei, que foi originalmente publicado em 1955, Tolkien considerava a palavra “Orc” como sendo da língua de Rohan. “Orc é a forma do nome que as demais raças usavam para esse povo imundo, tal como na língua de Rohan”. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 423).

Mais tarde, tratando sobre a possibilidade de traduções, Tolkien mencionou que a palavra “Orc”, assim como “hobbit” não deveriam ser modificadas em sua grafia e não deveriam ser traduzidas, pois eram assim palavras inalteráveis por serem do mundo imaginário: “Elfos, Anões, Trolls, sim: estes são meros equivalentes modernos dos termos corretos. Mas hobbit (e orc) são daquele mundo e devem permanecer, quer soem holandeses ou não”. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[30]

Na primeira edição de O Hobbit não existia um prefácio, porém, diante do questionamento dos leitores buscando entender melhor a obra, Tolkien acabou incluindo nas edições de O Hobbit de 1965 em diante e assim consta o seguinte trecho:

Orc não é uma palavra inglesa. Ocorre em um ou dois lugares, mas é geralmente traduzida como goblin (ou hobgoblin no caso das espécies maiores). Orc é a forma hobbit do nome dado naquele tempo a essas criaturas e não tem nenhuma relação com orc, ork, que se aplicam a animais marinhos aparentados com o golfinho. (TOLKIEN, The Hobbit, p.5) [31]

Assim, para Tolkien “Orc” não é uma palavra do Inglês e, pertence, portanto ao seu mundo imaginário. A palavra é na verdade um empréstimo para que representasse, na sonoridade, as palavras em línguas élficas e o Westron. Sendo assim, ela poderia ser traduzida em seu significado para o inglês moderno como sendo o “Goblin”, porém não tendo uma relação propriamente de compatibilidade total.

A palavra usada na tradução de Q [uenya] urko, S [indarin] orch, é Orc. Mas isso é por causa da semelhança da antiga palavra inglesa orc, “espírito maligno ou bogey”, às palavras élficas. Não há, possivelmente, nenhuma conexão entre eles. A palavra inglesa é geralmente suposta ser derivada do latim Orcus. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)[32]

Verifica-se que não se trata apenas de uma palavra na Língua de Rohan, mas de uma representação de outros termos que tem o mesmo significado. Como dito anteriormente, Tolkien optou por usar a grafia “Orc” para representar na sonoridade o conjunto de palavras que eram dadas para as criaturas malignas na Terra-média. Esse conjunto de palavras eram “Orka” (Westron), “Orch” (Sindarin), “Urco” ou “Orco” (Quenya) e “Orc” na língua de Rohan, representativa pelo Inglês Antigo. Contudo, Tendo em vista aspectos gramaticais, Tolkien mudou de ideia quanto a grafia da palavra. Conforme pode ser lido abaixo, em trecho escrito pelo autor por volta de 1960:

Esta grafia [Orc] foi tirada do Inglês Antigo. A palavra parecia, por si só, bastante adequada às criaturas que eu tinha em mente. Mas o Inglês Antigo orc em significado – até onde se sabe – não é adequado. Também a grafia da qual, em situação linguística mais organizada, deve ter sido uma forma da Língua Comum de uma palavra ou grupo de palavras similares deveria ser ork. Conquanto apenas por causa das dificuldades de grafia no inglês moderno: um adjetivo orc + ish se torna necessário, e orcish não serviria. Em qualquer publicação futura usarei ork. (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)[33]

De fato, Tolkien passou a usar a grafia “Ork” em seus escritos mais recentes, isso pode ser verificado no livro “As Aventuras de Tom Bombadil” e alguns ensaios publicados no livro “The Peoples of Middle-earth”. A preferência do Tolkien pela grafia “Ork”, se dá pelo motivo de se evitar a forma “Orcish”, que poderia ser pronunciado o “C” com som de “S” ao invés de som de “K” em Inglês. Tanto é que Tolkien usou a forma adjetiva “Orkish”. Porém, posteriormente Tolkien optou por não mais adotar essa mudança de grafia e permaneceu com a forma já usada “Orc”, como será visto a seguir.

A diretriz mais objetiva e recente sobre a palavra Orc e sua tradução foi colocada justamente no guia para os tradutores dinamarqueses e alemães, em 1967. Nesse documento, Tolkien apresenta suas ideias sobre a palavra “orc” e como ela deveria ser traduzida para as línguas germânicas, para o qual o guia se destinava:

Orc. Este é o suposto nome na Língua Comum dessas criaturas naquela época. Portanto, de acordo com o sistema deve ser traduzido para o inglês, ou a língua da tradução. Foi traduzido como “goblin” em O Hobbit, exceto em um lugar; mas esta palavra, e outras palavras de sentido similar em outras línguas europeias (até onde eu sei), não são realmente adequadas. O orc em O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, embora certamente feito em parte de características tradicionais, não é realmente comparável em suposta origem, funções e relação aos Elfos. Em qualquer caso orc me pareceu, e parece, no som um bom nome para essas criaturas. Deveria ser mantido. Deveria ser escrito ork (como na tradução holandesa) em uma língua germânica, mas eu usei a grafia orc em tantos lugares que eu hesitei em mudá-lo no texto em inglês, embora o adjetivo seja necessariamente escrito orkish. A forma élfica-cinzenta é orch, plural yrch. Eu originalmente peguei a palavra do inglês antigo orc [Beowulf 112 orc-nass e a glosa orc = pyrs (‘ogre’), heldeofol (‘diabo do inferno’)]. Não se deve supor que isso esteja ligado com o Inglês moderno orc, ork, um nome aplicado a vários animais marinhos da ordem dos golfinhos. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)

O enunciado acima merece uma atenção aprimorada, pois é o trecho mais específico que se pode encontrar do próprio autor dizendo como se deve traduzir a palavra, especialmente em relação aos falantes de línguas germânicas. Os detalhes podem direcionar a tradução para uma melhor fidelidade ao que o autor pretendia.

Orc. Este é o suposto nome na Língua Comum dessas criaturas naquela época. Portanto, de acordo com o sistema deve ser traduzido para o inglês, ou a língua da tradução. Foi traduzido como “goblin” em O Hobbit, exceto em um lugar; mas esta palavra, e outras palavras de sentido similar em outras línguas europeias (até onde eu sei), não são realmente adequadas. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761)[34]

Primeiramente, Tolkien define que a palavra “Orc” poderia ser um nome na Língua Comum (Westron). Mantendo a regra geral vista anteriormente, esse nome deveria ser traduzido para o Inglês moderno, consequentemente para a língua da tradução. Por ser uma tradução pelo significado, Tolkien procurou no folclore europeu, especialmente Inglês, uma criatura que tivesse as mesmas características, assim como aconteceu com os “Quendi” que foram chamados de Elfos, “Narag” de Anão e “Torog” de Troll. Foi assim que Tolkien traduziu “Orc” como sendo “Goblin”. Mas essa palavra não tem o mesmo significado correspondente aos seres de seu mundo, uma vez que são criaturas típicas das histórias de George Macdonald e contos populares. Igual situação de incompatibilidade de significados se verifica no folclore de outros países. Os Goblins são comparados aos duendes, trasgos (Espanha e Portugal), cluricaun e leprechaum (Irlanda), brownies (escócia), nisse (Dinamarca), lutin ou gobelin (frança), tomte (Suécia). Nenhum desses seres se encaixa perfeitamente às mesmas características das criaturas do mundo do Tolkien.

Então, tendo em vista a impossibilidade de uma tradução pelo significado aproximado, Tolkien decide abandonar essa diretriz geral e indica que a palavra deveria permanecer sem tradução pelo significado. Isso pode ser visto na parte seguinte do mesmo texto:

O orc em O Senhor dos Anéis e O Silmarillion, embora certamente feito em parte de características tradicionais, não é realmente comparável em suposta origem, funções e relação aos Elfos. Seja como for, orc me pareceu, e parece, no som um bom nome para essas criaturas. Deveria ser mantido. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)[35]

Como dito acima, no processo de tradução da palavra “Quendë”, Tolkien procurou seres dentro das mitologias que pudessem ser representantes deles. Foi assim que encontrou os “Elfos” nas histórias germânicas antigas. Segundo Tolkien o termo Elfo “é uma palavra em ancestralidade e significado original suficientemente adequada”. (TOLKIEN. Carta para Hugh Brogan, 18 de Setembro de 1954).[36] Porém, mesmo assim, Tolkien sentia certo remorso quanto ao seu uso, tendo em vista a questão de seu significado. O mesmo ocorre com os anões e outros seres, como foi examinado anteriormente.

Com a palavra “Orc” a situação é diferente, pois o sentido é ainda mais distante que a palavra Elfo. Ao buscar o termo para representar os seres malignos de suas histórias, Tolkien encontrou “Orc” em Inglês Antigo, que tinha suas origens em histórias mitológicas e folclóricas, porém não são adequados na sua origem como os elfos. O uso da palavra foi “por causa de sua adequação fonética” (TOLKIEN, Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954, p.)[37] Assim, o som da palavra pareceu ser interessante para representar essas criaturas e sua grafia foi encontrada justamente no Inglês Antigo. O “Orc” era um tipo de demônio das mitologias antigas, como visto no capítulo anterior, enquanto que as criaturas de Tolkien não eram do tipo demoníaco, mas apenas criaturas malignas.

Assim como “Elfos” e “Anões” não eram nomes totalmente apropriados para representar suas criaturas em significado, o mesmo ocorria com a palavra “Orc”, que por sua vez se manteve por sua adequação fonética. Contudo, mesmo não sendo um significado aproximado, Tolkien decide que a palavra deveria permanecer na obra original com a grafia inglesa.

Em seguida, Tolkien discute como a escrita da palavra Orc deve ser colocada nas obras traduzidas para línguas germânicas. As diretrizes são específicas para os tradutores dinamarqueses e alemães:

Deveria ser escrito ork (como na tradução holandesa) em uma língua germânica, mas eu usei a grafia orc em tantos lugares que eu hesitei em mudá-lo no texto em inglês, embora o adjetivo seja necessariamente escrito orkish. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 762)[38]

Como visto acima, alguns anos após a publicação de O Senhor dos Anéis, por volta de 1960, Tolkien encontrou-se em um dilema sobre a correta grafia da palavra. Segundo ele “…deveria ser ork. Conquanto apenas por causa das dificuldades de grafia no inglês moderno:” (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)[39] Tolkien se preocupava com os aspectos ortográficos que iria implicar tal escolha, sobretudo o adjetivo “orkish” que seria a forma certa e não “orcish”.

Em 1965, dois anos antes da escrita do guia para tradutores, Tolkien teve a possibilidade de alterar a grafia de Orc para Ork durante a revisão de O Senhor dos Anéis, mas não fez a modificação, haja vista que, como apontado no guia para os tradutores, o autor percebeu que isso não seria mais conveniente. Ele usou muitas vezes a grafia Orc e a palavra já havia se enraizado por mais de dez anos desde a publicação de O Senhor dos Anéis. Há para Tolkien uma preocupação com a decorrência dessa alteração, especialmente em relação ao público e ao que já havia sido estabelecido.

Tolkien diz que as línguas germânicas deveriam escrever “Ork”, e dá como exemplo a escolha feita na tradução holandesa. A primeira tradução de O Senhor dos Anéis foi justamente em língua holandesa, publicada em 1956 e 1957, com tradução de Max Schuchart. Dentro do contexto do processo de tradução holandesa é que se encontra a carta do Tolkien em que ele diz que as palavras Hobbit e Orc deveriam permanecer inalteradas. Ele aponta que não gostou de alterações feitas anteriormente com a palavra Hobbit, como espécies de adaptações:

Que agora eu possa dizer de uma vez que não tolerarei qualquer remendagem similar com a nomenclatura pessoal. Nem com o nome/palavra Hobbit. Não admitirei mais qualquer Hompen (no qual não fui consultado), nem qualquer Hobbel ou sei lá o que. Elfos, Anões, Trolls, sim: estes são meros equivalentes modernos dos termos corretos. Mas hobbit (e orc) são daquele mundo e devem permanecer, quer soem holandeses ou não. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).[40]

Após essa carta objetiva e sincera, foi criada uma lista de nomes fornecida pelo tradutor holandês, para que Tolkien pudesse analisar e eles chegaram a um consenso sobre vários pontos. A palavra “Ork” foi uma escolha resolvida, tendo em vista que entre as línguas germânicas essa era a palavra que representava justamente o ser comparável ao “Orc” no folclore europeu. Além disso, a grafia “Ork” não iria causar estranheza sonora aos povos de línguas germânicas. Pelo duplo encaixe da palavra é que foi aceita. A seguir, pode ser visto o conceito de Ork e sua equivalência ao Orco ou Orc, presentes no folclore europeu:

Ork. Variações: Hymir, Il Orco, Lorge, Norge, Norglein, Norkele, Orco, Orge. No folclore tirolês do sul, Ork é um anão bem-humorado ou um espírito doméstico, mas em histórias muito antigas ele era descrito como sendo um demônio antropófago (devorador de homens). É possível que Ork tenha sido uma vez o deus romano do submundo Orcus. (BANE, Theresa, Encyclopedia of Beasts and Monsters in Myth, Legend and Folklore, p.248)[41]

Assim, Tolkien saiu da completa impossibilidade de tradução ou alteração da grafia da palavra (“quer soem holandeses ou não”) para a escolha de uma palavra que já existia naquela língua, com algum vinculo dos contos tradicionais ou cuja grafia não fugisse dessa conexão sonora, tal como a palavra Orc no Inglês Antigo. A palavra então passou a ser passível de tradução, deixando de ser apenas uma palavra na língua de Rohan intraduzível, pois agora passou a ser também uma palavra em Westron.

O processo de escolha de palavra é um misto de elementos, assim, Tolkien chega a afirmar que “A escolha dos equivalentes foi direcionada em parte por significado (onde é discernível nos nomes originais), em parte pelo tom geral, e em parte pelo comprimento e estilo fonético”. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).[42]

Então “Ork” se torna compatível tanto em sua sonoridade semelhante a “Orc” e também no significado externo e por isso foi adotada nas traduções alemãs e dinamarquesas. A tradução holandesa foi aceita para publicação e ganhou o título “In De Ban van de Ring”, sendo publicado o primeiro volume em 1956 e os dois restantes em 1957. A tradução foi premiada e o Tolkien possuía exemplares em sua residência.

Importante ressaltar a diferenciação das traduções feitas na época em que o Tolkien estava vivo. A tradução sueca de 1959 a 1961, não foi aceita por J.R.R. Tolkien. Nela o tradutor Âke Ohlmarks tomou liberdades que não foram agradáveis e por isso o próprio autor informou do seu desgosto em cartas. Nessa tradução a palavra “Orc” foi adaptada em grafia que correspondesse ao som para a língua sueca, ou seja, uma adaptação fonética escrita “Orcher” (pl. Orchernas). Porém, anos mais tarde, em 2004, foi feita uma nova tradução para esse idioma por Erik Anderssons. Nessa versão recente o tradutor decidiu usar “Ork”, tal como Tolkien havia mencionado no guia para os tradutores, que seria o ideal para as línguas germânicas. Enquanto a tradução polonesa, de 1961 a 1963, seguiu as mesmas diretrizes do Tolkien ditas acima. A tradutora Maria Skibniewka, que se correspondeu com Tolkien ao longo do processo de tradução, optou por “Ork” e manteve “Goblin” inalterado.

A escolha das palavras pela equivalência se deu por parte das línguas de raiz indo-européia. Pois elas tinham palavras que estavam vinculadas mitológica e linguisticamente. A primeira tradução italiana, publicada em 1967 a 1970,  optou por escolher a palavra “Orco”, que carrega o mesmo significado de Orc no Inglês Antigo e Ork nas línguas germânicas. A tradutora Vittoria Alliata di Villa Franca se correspondia com o próprio Tolkien, através das editoras e ele chegou a dizer que essa havia sido a melhor tradução já realizada até então. Vittoria Alliata teve acesso aos textos fornecidos pelo Tolkien e especialmente o Guia de nomenclaturas, ao qual ela seguiu fielmente e com concordância do próprio Tolkien. Além disso, o professor Tolkien sabia falar italiano e até já tinha visitado a Itália por duas vezes. Tolkien recebeu os volumes italianos assim que foram publicados e não há relato posterior de que ele tenha se desagradado com essa versão.

Da mesma forma, a primeira tradução francesa de O Senhor dos Anéis, optou pelo mesmo critério de escolha pela equivalência, usando a palavra medieval francesa “Orque”. E posteriormente, a tradução Espanhola seguiu a mesma diretriz e optou por “Orco”. No capítulo seguinte haverá uma abordagem mais específica da tradução italiana, espanhola e francesa e o processo de escolha de palavras de acordo com as diretrizes do Tolkien.

Enquanto nas línguas de raiz indo-europeia optou-se por palavras que fossem equivalentes em som e significado, as línguas que fosse de outro ramo linguístico deveriam adotar uma adaptação fonética. Assim ocorreu nas traduções para o Finlandês, Coreano e Japonês. Essa ideia foi estabelecida pela dificuldade de encontrar equivalente em significado e, por isso optou-se por tentar preservar o som.

A forma élfica-cinzenta é orch, plural yrch. Eu originalmente peguei a palavra do inglês antigo orc [Beowulf 112 orc-nass e a glosa orc = pyrs (‘ogre’), heldeofol (‘diabo do inferno’)]. Não se deve supor que isso esteja ligado com o Inglês moderno orc, ork, um nome aplicado a vários animais marinhos da ordem dos golfinhos. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 762)[43]

Os nomes listados no guia para os tradutores estão em Inglês moderno. Enquanto que a palavra Orc tem relação com o Inglês Antigo e não relação com a palavra “Orc” no inglês moderno que significa uma “baleia assassina”. Em português a palavra nesse sentido seria traduzida como “Orca”,

O que se depreende do exposto é que Tolkien transita por pelo menos quatro formas de se traduzir a palavra Orc. Primeiramente pela tradução conforme o sentido da palavra, depois pela inalterabilidade total (nem de grafia e nem de som), em seguida pela tradução pela equivalência e por último pela adaptação fonética. É dentro desses processos de escolha que a tradução da palavra para o Português deve estar relacionada, especialmente com relação às línguas europeias e sua origem latina.

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A bibliografia será incluída ao final do último artigo dessa série sobre a palavra Orc e Goblin.

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NOTAS:

 

[1] Of course, I wish you to pursue your efforts with regard to foreign editions. …. It is however surely intelligible that an author, while still alive, should feel a deep and immediate concern in translation. And this one is, unfortunately, also a professional linguist, a pedantic don, who has wide personal connexions and friendships with the chief English scholars of the continent….. The translation of The Lord of the Rings will prove a formidable task, and I do not see how it can be performed satisfactorily without the assistance of the author. By ‘assistance’ I do not, of course, mean interference, though the opportunity to consider specimens would be desirable. My linguistic knowledge seldom extends, beyond the detection of obvious errors and liberties, to the criticism of the niceties that would be required. But there are many special difficulties in this text. To mention one: there are a number of words not to be found in the dictionaries, or which require a knowledge of older English. On points such as these, and others that would inevitably arise, the author would be the most satisfactory, and the quickest, source of information. That assistance I am prepared to give, promptly, if I am consulted.I wish to avoid a repetition of my experience with the Swedish translation of The Hobbit. I discovered that this had taken unwarranted liberties with the text and other details, without consultation or approval; it was also unfavourably criticized in general by a Swedish expert, familiar with the original, to whom I submitted it. I regard the text (in all its details) of The Lord of the Rings far more jealously. No alterations, major or minor, re-arrangements, or abridgements of this text will be approved by me – unless they proceed from myself or from direct consultation. I earnestly hope that this concern of mine will be taken account of.

[2] In principle I object as strongly as is possible to the ‘translation’ of the nomenclature at all (even by a competent person). I wonder why a translator should think himself called on or entitled to do any such thing. That this is an ‘imaginary’ world does not give him any right to remodel it according to his fancy, even if he could in a few months create a new coherent structure which it took me years to work out. I presume that if I had presented the Hobbits as speaking Italian, Russian, Chinese, or what you will, he would have left the names alone. Or, if I had pretended that ‘the Shire’ was some fictitious Loamshire of actual England. Yet actually in an imaginary country and period, as this one, coherently made, the nomenclature is a more important element than in an ‘historical’ novel. (TOLKIEN. Carta de 3 de abril de 1956, para a Allen & Unwin)

[3] I am sure the correct (as well as for publisher and translator the more economical?) way is to leave the maps and nomenclature alone as far as possible, but to substitute for some of the least-wanted Appendices a glossary of names (with meanings but no refs.). I could supply one for translation.

[4] I am no linguist, but I do know something about nomenclature, and have specially studied it, and I am actually very angry indeed

[5] May I say now at once that I will not tolerate any similar tinkering with the personal nomenclature. Nor with the name/word Hobbit. I will not have any more Hompen (in which I was not consulted), nor any Hobbel or what not. Elves, Dwarfs/ves, Trolls, yes: they are mere modern equivalents of the correct terms. But hobbit (and orc) are of that world, and they must stay, whether they sound Dutch or not.

[6] I still think the ‘translation of the nomenclature a primary blunder, indicative of a wrong attitude; and as I was not able to carry that point, I do not suppose I should be more successful in other points, (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1032)

[7] As a general principle for [Mrs Skibniewska’s] guidance, my preference is for as little translation or alteration of any names as possible. As she perceives, this is an English book and its Englishry should not be eradicated. That the Hobbits actually spoke an ancient language of their own is of course a pseudo-historical assertion made necessary by the nature of the narrative…. My own view is that the names of persons should all be left as they stand. I should prefer that the names of places were  left untouched also, including Shire.The proper way of treating these I think is for a list of those that have a meaning in English to be given at the end, with glosses or explanation in Polish. I think a suitable method or procedure would be that which was followed in the Dutch and Swedish versions, with Mrs. Skibniewska making a list of all the names in the book which she finds difficult or which she might for any reason wish to alter or translate. I will then be very happy to annotate this list and criticize it. (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1036-1037).

[8] When I was reading the specimens of the proposed German translation, I began to prepare an annotated name list based on the index: indicating those names that were to be left unchanged and giving information of the meaning and origin of those that it was desirable to render into the language of translation, together with some tentative advice on how to proceed. I hope soon to complete this and be able to send you a copy or copies for the use of translators. (SCULL. HAMMOND. Reader’s Guide. p. 1037)

[9] I have therefore recently been engaged in making, and have nearly completed, a commentary on the names in this story, with explanations and suggestions for the use of a translator, having especially in mind Danish and German. (SCULL. HAMMOND. The Lord of the Rings, A Reader’s Companion, 2005, p.751)

[10] In presenting the matter of the Red Book, as a history for people of today to read, the whole of the linguistic setting has been translated as far as possible into terms of our own times. Only the languages alien to the Common Speech have been left in their original form; but these appear mainly in the names of persons and places. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 425)

[11] All names not in the following list should be left entirely unchanged in any language used in translation, except that inflexional –s, –es should be rendered according to the grammar of the language. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751)

[12] I have also translated all Westron names according to their senses. When English names or titles appear in this book it is an indication that names in the Common Speech were current at the time, beside, or instead of, those in alien (usually Elvish) languages. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 426)

[13] It seemed to me that to present all the names in their original forms would obscure an essential feature of the times as perceived by the Hobbits (whose point of view I was mainly concerned to preserve): the contrast between a wide-spread language, to them as ordinary and habitual as English is to us, and the living remains of far older and more reverend tongues. All names if merely transcribed would seem to modern readers equally remote: for instance, if the Elvish name Imladris and the Westron translation Karningul had both been left unchanged. But to refer to Rivendell as Imladris was as if one now was to speak of Winchester as Camelot, except that the identity was certain, while in Rivendell there still dwelt a lord of renown far older than Arthur would be, were he still king at Winchester today. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 427)

[14] Languages, however, that were related to the Westron presented a special problem. I turned them into forms of speech related to English. Since the Rohirrim are represented as recent comers out of the North, and users of an archaic Mannish language relatively untouched by the influence of Eldarin, I have turned their names into forms like (but not identical with) Old English. The language of Dale and the Long Lake would, if it appeared, be represented as more or less Scandinavian in character; but it is only represented by a few names, especially those of the Dwarves that came from that region. These are all Old Norse Dwarf-names. (TOLKIEN. Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954).

[15] Names that are given in modern English therefore represent names in the Common Speech, often but not always being translations of older names in other languages, especially Sindarin (Grey-elven).(TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751).

[16] The language of translation now replaces English as the equivalent of the Common Speech; the names in English form should therefore be translated into the other language according to their meaning (as closely as possible). (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.751).

[17] I am under the difficulty of finding English names for mythological creatures with other names, since people would not ‘take’ a string of Elvish names, and I would rather they took my legendary creatures even with the false associations of the ‘translation’ than not at all. (TOLKIEN. Carta para Robert Murray, SJ. em 4 de novembro de 1954).

[18] My difficulty has been that, since I have tried to present a kind of legendary and history of a ‘forgotten epoch’, all the specific terms were in a foreign language, and no precise equivalents exist in English….. (TOLKIEN. Carta para Hugh Brogan, 18 de setembro de 1954).

[19] in any case, elf, gnome, goblin, dwarf are only approximate translations of the Old Elvish names for beings of not quite the same kinds and functions. (The Observer, 20 February 1938).

[20] Elves is an English word, but the nature and history of the peoples so-called in my books has little or nothing to do with the European traditions about Elves or Fairies. (TOLKIEN. Carta para Mrs. L. M. Cutts, 26 de outubro de 1958)

[21] ‘Elves’ is a translation, not perhaps now very suitable, but originally good enough, of Quendi. They are represented as a race similar in appearance (and more so the further back) to Men, and in former days of the same stature. I will not here go into their differences from Men ! But I suppose that the Quendi are in fact in these histories very little akin to the Elves and Fairies of Europe; and if I were pressed to rationalize, I should say that they represent really Men with greatly enhanced aesthetic and creative faculties, greater beauty and longer life, and nobility – the Elder Children, doomed to fade before the Followers (Men), and to live ultimately only by the thin line of their blood that was mingled with that of Men, among whom it was the only real claim to ‘nobility’. (TOLKIEN. Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954)

[22] I now deeply regret having used Elves, though this is a word in ancestry and original meaning suitable enough. But the disastrous debasement of this word, in which Shakespeare played an unforgiveable pan, has really overloaded it with regrettable tones, which are too much to overcome. (TOLKIEN.Carta para Hugh Brogan, 18 de Setembro de 1954)

[23] Even the dwarfs are not really Germanic ‘dwarfs’ (Zwerge, dweorgas, dvergar), and I call them ‘dwarves’ to mark that. They are not naturally evil, not necessarily hostile, and not a kind of maggot-folk bred in stone; but a variety of incarnate rational creature. (TOLKIEN. Carta para Robert Murray, SJ. 4 de novembro de 1954).

[24] Troll foi usado para traduzir o sindarin Torog. (TOLKIEN. O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, p. 424)

[25] Ent is also an ancient English word (for a giant); but the Ents of my world are I suppose an entirely original ‘creatures’ — so far as that can be said of any human work. If you like, they are a ‘mythological’ form taken by my lifelong love of trees, with perhaps some remote influence from George MacDonald’s Phantastes (a work I do not actually much like), and certainly a strong [twist?] given by my deep disappointment with Shakespeare’s Macbeth…

[26] Ent. Retain this, alone or in compounds, such as Entwives. It is supposed to be a name in the language of the Vale of Anduin, including Rohan, for these creatures. It is actually an Old English word for ‘giant’, which is thus right according to the system attributed to Rohan, but the Ents of this tale are not in form or character derived from Germanic mythology. Entings ‘children of Ents’ (II 78) should also be unchanged except in the plural ending. The Grey-elven (Sindarin) name was Onodrim (II 45). (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.756-757).

[27] Scatha. This is Old English (injurer, enemy, robber) and so is from the language of Rohan and should be left unchanged. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.762)

[28] Firien. A Rohan name representing an old word (Old English firgen, pronounced firien) for ‘mountain’. Compare Halifirien ‘holy mount’. As belonging to the language of Rohan, firien should be retained. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p.770).

[29] Folde. A Rohan name, to remain unaltered. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the ringns, p.770).

[30] May I say now at once that I will not tolerate any similar tinkering with the personal nomenclature. Nor with the name/word Hobbit. I will not have any more Hompen (in which I was not consulted), nor any Hobbel or what not. Elves, Dwarfs/ves, Trolls, yes: they are mere modern equivalents of the correct terms. But hobbit (and orc) are of that world, and they must stay, whether they sound Dutch or not. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).

[31] Orc is not an English word. It occurs in one or two places but is usually translated goblin (or hobgoblin for the larger kinds). Orc is the hobbits’ form of the name given at that time to these creatures, and it is not connected at all with orc, ork, applied to sea-animals of dolphin-kind. (TOLKIEN, The Hobbit, p.5)

[32] The word used in translation of Q[uenya] urko, S[indarin] orch, is Orc. But that is because of the similarity of the ancient English word orc, ‘evil spirit or bogey’, to the Elvish words. There is possibly no connexion between them. The English word is now generally supposed to be derived from Latin Orcus. (TOLKIEN. The War of the Jewels, p. 391)

[33] This spelling was taken from Old English. The word seemed, in itself, very suitable to the creatures that I had in mind. But the Old English orc in meaning – so far as that is known – is not suitable. Also the spelling of what, in the later more organized linguistic situation, must have been a Common Speech form of a word or group of similar words should be ork. If only because of spelling difficulties in modern English: an adjective orc + ish becomes necessary, and orcish will not do. In any future publication I shall use ork. (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)

[34] Orc. This is supposed to be the Common Speech name of these creatures at that time; it should therefore according to the system be translated into English, or the language of translation. It was translated ‘goblin’ in The Hobbit, except in one place; but this word, and other words of similar sense in other European languages (as far as I know), are not really suitable. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761)

[35] The orc in The Lord of the Rings and The Silmarillion, though of course partly made out of traditional features, is not really comparable in supposed origin, functions, and relation to the Elves. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)

[36] this is a word in ancestry and original meaning suitable enough. (TOLKIEN.Carta para Hugh Brogan, 18 de Setembro de 1954)

[37] because of its phonetic suitability’ (TOLKIEN, Carta para Naomi Mitchison, 25 de abril de 1954).

[38] In any case orc seemed to me, and seems, in sound a good name for these creatures. It should be retained. It should be spelt ork (so the Dutch translation) in a Germanic language, but I had used the spelling orc in so many places that I have hesitated to change it in the English text, though the adjective is necessarily spelt orkish. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 761-762)

[39] …should be ork. If only because of spelling difficulties in modern English: an adjective orc + ish becomes necessary, and orcish will not do. In any future publication I shall use ork. (TOLKIEN. Morgoth’s Ring, p.422)

[40] May I say now at once that I will not tolerate any similar tinkering with the personal nomenclature. Nor with the name/word Hobbit. I will not have any more Hompen (in which I was not consulted), nor any Hobbel or what not. Elves, Dwarfs/ves, Trolls, yes: they are mere modern equivalents of the correct terms. But hobbit (and orc) are of that world, and they must stay, whether they sound Dutch or not. (TOLKIEN. Carta para Rayner Unwin de 3 de julho de 1956).

[41] Ork. Variations: Hymir, Il Orco, Lorge, Norge, Norglein, Norkele, Orco, Orge. In South Tyrolean folklore, Ork is a good natured Dwarf or House-spirit but in very old tales he was described as being an anthropophagous (man-eating) devil; it is possible Ork may haveat one time been the Roman god of the underworld Orcus.(BANE, Theresa, Encyclopedia of Beasts and Monsters in Myth, Legend and Folklore, p.248).

[42] The choice of equivalents has been directed partly by meaning (where this is discernible in the original names), partly by general tone, and partly by length and phonetic style. (TOLKIEN.The People of Middle-earth p.46-48).

[43] I originally took the word from Old English orc [Beowulf 112 orc-nass and the gloss orc = pyrs (‘ogre’), heldeofol (‘hell-devil’)]. This is supposed not to be connected with modern English orc, ork, a name applied to various sea-beasts of the dolphin order. (TOLKIEN. Nomenclature of the lord of the rings, p. 762)

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2 comentários

  1. Jerlys Depizzol Ferreira /

    Gostei do artigo.
    Há alguma forma de nós, fãs de Tolkien, apresentarmos à H&C nosso descontentamento com as traduções “orques” e “Gobelins”?
    Solicitarmos fidelidade ao material original e às vontades do próprio Tolkien?

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