Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Análise de “Orc” nas traduções neolatinas

Orcs de John Howe

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

 

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Essa é a terceira parte de uma série de artigos que analisa a palavra “Orc” e como ela pode ser traduzida de acordo com as diretrizes do Tolkien. A primeira parte trata sobre a origem da palavra veja AQUI e a segunda parte sobre o que Tolkien disse sobre como a palavra poderia ser traduzida veja AQUI.

Renovo  o agradecimento pelo o auxilio e a colaboração dos tolkienistas e tradutores Oronzo Cilli, Carl F. Hostetter, Henk Brassien, Jared Lobdell David Giraudeau, Paulo Pereira, Ryszard Derdzinski, Edouard Kloczko, Audrey Morelle, Vicent Ferré, Daniel Lauzon, Vittoria Alliata di Vilafranca. O presente texto foi abrilhantado com as informações prestadas por esses grandes estudiosos das obras do Tolkien e possibilitou que se tornasse mais completo do que inicialmente era pretendido. 

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Como dito anteriormente, o empenho em traduzir as obras de um autor como Tolkien implica em uma série de decisões que são pouco exploradas em outros livros estrangeiros. O mundo imaginário, em que se passa as aventuras de O Senhor dos Anéis, tem diversas peculiariedades que repercutem na própria forma de escrita do autor. O fato de serem obras que envolvem diversos aspectos em si mesmo e o que o Tolkien pretendia imprimir em sua obra apresenta um verdadeiro caldo cultural peculiar. É por isso que, nesse processo, é uma tarefa impossível manter a fidelidade plena em relação ao original.

As características culturais, linguísticas e históricas são fontes essenciais para se entender as obras e ainda mais para se traduzir os livros. Foi tratando sobre a tradução de O Senhor dos Anéis e sobre as noções apresentadas pelo Tolkien que o estudioso Alan Turner escreveu o ensaio onde explicou os principais pontos do assunto e afirmou o seguinte:

O Senhor dos Anéis contém um vasto potencial de significado para aqueles que desejam estudá-lo de perto, e esse potencial pode não ser inteiramente sem efeito para aqueles cuja principal preocupação é a história. Em uma situação ideal, o leitor de uma tradução seria capaz de descobrir tantos níveis quanto o leitor do texto-fonte. Em termos concretos, isso significaria que toda a rede de relações linguísticas e seu significado literário estabelecido pelo dispositivo da pseudotranslação seriam acessíveis ao leitor sensível na língua-alvo. Mas uma replicação 100% precisa dessa rede é impossível, porque a estrutura é baseada em inglês, e cada idioma ocupa uma posição única dentro da família de idiomas relacionados, que não pode ser replicada com precisão em nenhuma outra língua-alvo, assim como a nomenclatura da Inglaterra está unicamente ligada à topografia e à história cultural da Inglaterra e não pode ser mapeada precisamente em nenhum outro local. Mais uma vez, a solução de cada tradutor depende do tempo e do local. (TURNER. Tolkien in Translation, p. 27-28)[1]

Entender a cultura, a língua e a história da Inglaterra pode contribuir para elucidar aspectos essências das obras. Porém, existe um vinculo com seu país que é único e inalterável, mesmo quando vertido o livro para outra língua. Cabe ao tradutor adaptar o máximo que puder e deixar livre aquilo que não foi possível ser compreendido de forma clara no idioma da tradução. Tendo em vista essa dificuldade inicial em se traduzir seria  interessante observar quais as diretrizes apresentadas pelo próprio autor. Uma vez que isso fosse feito, outro passo importante é verificar como os tradutores, especialmente das línguas neolatinas, agiram diante de palavras complexas como “Orc”.

A tradução pelo sentido foi a primeira ideia do Tolkien, especialmente no período entre 1930 a 1937. Para Tolkien “Orc” era um nome típico de seu mundo e por isso deveria ser traduzido de acordo com o seu significado para um ser folclórico ou mitológico. Foi por isso que escolheu a palavra “Goblin” para substituir “Orc” no livro O Hobbit. Porém, Tolkien observou que no âmbito europeu não era possível encontrar seres que fossem totalmente compatíveis em significado. Foi assim que passou a adotar a ideia de que a palavra Orc não deveria ser traduzida, em época entre 1954 a 1956, Tolkien desenvolveu a ideia de que por ser uma palavra própria do mundo, na língua de Rohan ou Westron, não seria traduzível para outros idiomas.

Quando as primeiras traduções para línguas europeias foram sendo realizadas, Tolkien apresentou a solução de que o termo Orc deveria ser traduzido conforme a sua equivalência nas línguas Indo-europeias. Haveria o vínculo da escrita, fonética e mitologia na palavra. Assim, Tolkien chega a afirmar que “A escolha dos equivalentes foi direcionada em parte por significado (onde é discernível nos nomes originais), em parte pelo tom geral, e em parte pelo comprimento e estilo fonético”. (TOLKIEN. The People of Middle-earth p.46-48).[2] Portanto, na tradução verificando a equivalência se observa tanto o som da palavra quanto seu significado na língua a ser traduzida. Para Tolkien era preciso ter elementos fonéticos que fossem interessantes em cada língua, porém não deveriam ser dessassociados de seus significados. Havia uma conexão entre essas duas características que o fascinava. Foi assim que disse: “O prazer básico nos elementos fonéticos de uma linguagem e no estilo de seus padrões, e então em uma dimensão superior, o prazer na associação dessas formas de palavras com significados, é de importância fundamental” (TOLKIEN. The Monsters and the Critics, p. 190)[3]. Essa forma de pensar foi utilizada nas principais traduções de O Senhor dos Anéis durante a época em que o Tolkien esteve vivo.

E por último, para aquelas línguas que não tivessem uma ligação histórica-cultural com a palavra “Orc” (em seu sentido indo-europeu) poderiam realizar a adaptação fonética para que não soasse de forma estranha aos leitores. A adaptação se justifica, portanto, pela máxima proximidade do som da palavra, visto que não existe palavra equivalente em significado, e que represente também o mesmo som.

Deve ser ressaltado que, no âmbito de línguas Indo-européias, adotou-se a tradução pela equivalência e não adaptação fonética. O exemplo claro disso é que no Guia para tradutores Tolkien indicou a palavra “Ork” para línguas germânicas, que tem o mesmo significado que “Orco” em Italiano e Espanhol e também “Orc” do Inglês Antigo. Ao realizar a primeira tradução para o sueco, o tradutor Ake Ohlmarks, oprtou pela adaptação fonética pura, sem nenhum significado na sua língua, escrevendo “Orcher” (pl. Orchernas), o que não agradou ao Tolkien, pois haveria a necessidade de se ter também um sentido da palavra, ainda que remoto e distante da semelhança com o Orc de seu mundo.

Assim, observando as principais traduções realizadas por editoras europeias e de outros países pelo mundo e as formas de pensar do próprio Tolkien ao longo do tempo, pode ser compilada a seguinte tabela, onde estão as principais informações de como foi traduzido a palavra “Orc”: 

Especificamente entre as línguas de origem Indo-européias, existem aquelas de raíz latina e que formam um tronco linguístico, as chamadas línguas Neolatinas. Existe um vínculo cultural entre as palavras de escolha para as traduções, além do próprio som da palavra. Nesse misto de sentido e sonoridade é que se processa a escolha das palavras para traduzir. As raízes linguísticas estão ligadas pelas línguas anteriores, em especial o latim e o grego, que deram origem a palavra Orco e no Inglês Antigo Orc.

Pela tabela abaixo pode ser visto que nas principais traduções há uma manutenção da grafia “Orc” com apenas a inclusão da vogal “O” ao final. Ocorre uma adaptação da palavra ao idioma da tradução, como exemplo “Elf” que se tornou “Elfo”. Porém, existe também o vínculo de significado, visto que “Orco” tem a mesma origem ou apresenta a mesma raiz e significado que a palavra “Orc” do Inglês Antigo. Enquanto que as línguas que inicialmente não têm essa palavra com tal significado simplesmente se absteram em adaptar ou traduzir a palavra, permaneceram com a mesma grafia constante no original “Orc”. No Brasil três formas foram adotadas Orco (editora Artenova e o tradutor William Lagos), Orque (editora HarpercollinsBrasil em 2018) e Orc (todas as demais traduções).

 

Línguas Demônio Inferno Baleia assassina Tradução Orc de Tolkien
Espanhol Orco /huerco (s) Orco (s) Orca (s) Orco (s)
Italiano Orco (s) Orco (s) Orca (s) Orco (Orchi)
Asturiano Orco (s) Orco (s) Orca (s) Orco (s)
Português (Brasil) —- Orco (s) Orca (s) Orc**
Português

(Portugal)

—- Orco (s) Orca (s) Orc (s)
Catalão —- Orco (s) Orca (s) Orc (s)
Francês * —– Orque (s) Orque (s)
Inglês * —– Orc (s) Orc (s)

 

O significado de “Orc” como sendo um ser marítimo ou baleia assassina não deveria ser considerado, mas foi incluído pelo fato de que no Inglês e Francês moderno são escritos da mesma forma quando usada no período medieval. “Orque” em Francês e “Orc” em Inglês são palavras que em seu significado moderno são apenas a Baleia Assassina, enquanto que na idade média carregavam o mesmo significado de “demônio” presente nas línguas espanhol e italiano. Foi dessa fonte medieval que o Tolkien se valeu da palavra para as criaturas de seu mundo, da mesma forma os tradutores franceses usaram a palavra apresentada na idade média.

É interessante entender como os tradutores trataram dessa palavra, especialmente aqueles que atuaram com o auxílio do Tolkien. Assim, os comentários a seguir foram realizados com base em comentários dos próprios tradutores e as melhores fontes apresentadas. Com isso, poderá ser entendido o processo de escolha das palavras conforme a intenção do Tolkien.

Sobre a tradução para o Italiano

A primeira tradução de O Senhor dos Anéis, para a língua Italiana, foi publicada em 1967, fruto do trabalho de Vittoria Alliata de Villafranca, naquela época uma jovem de 16 anos. Mesmo com tão pouca idade, a tradução foi considerada pelo Tolkien como sendo a mais interessante já realizada até então.

O próprio Tolkien conhecia a Itália, tendo realizado uma visita em agosto de 1955, junto com sua filha Priscilla. Naquele mesmo ano, em carta para Faith Tolkien (Carta 167) ele disse que “Continuo apaixonado pelo italiano e sinto-me bastante desolado sem uma oportunidade para tentar falá-lo!”. Algum tempo depois dessa visita, as negociações para a primeira tradução italiana começaram a se organizar.

Orcs por Alan Lee

 

A editora italiana que adquiriu os direitos autorais começou realizando uma pré-seleção de tradutores. Nessa oportunidade, o trabalho da jovem Vittoria Alliata de VillaFranca foi reconhecido. Essa foi a primeira tradução, após as edições germânicas (dinamarquesa, sueca, alemã e holandesa) que usou como base o guia para tradutores escritos pelo próprio Tolkien. Foi assim que a tradutora decidiu realizar sua tradução nesses moldes. Em entrevista, Vittoria Alliata esclareceu como traduziu as nomenclaturas dos livros do Tolkien:

Para a tradução de nomes próprios, Tolkien havia preparado um glossário que ele deu aos seus tradutores, onde ele explicava o significado e a origem de cada nome com a minúcia de um glotólogo e dava orientações precisas sobre o tipo de tradução a ser adotado. O objetivo era sempre aquela familiaridade com os eventos, que tinham que ser experimentados como se a Terra-média fosse um antigo território italiano. Neste Tolkien se refere à grande tradição dos contos de fadas, que permanecem os mesmos de Esopo à La Fontaine, assumindo apenas diferentes conotações “regionais”. Portanto, se um nome tivesse que parecer exótico, adotei etimologias gregas, ou até mesmo árabes; se tinha que ser familiar ou evocativo, etimologias latinas ou italianas: sempre, contudo, origens italianas plausíveis. O mesmo acontecia com o tom e o ritmo das rimas infantis que não tinham pretensões poéticas, mas às vezes goliardicas, às vezes mágicas ou folclóricas, e para as quais Tolkien me agradou particularmente. Nada tinha que permanecer em inglês pela vontade precisa do autor, e eu de fato traduzi, por exemplo, “Sackville-Baggins” para “Borsi-Sacconi”, concordando com Tolkien. Foi Quirino Principe, editor da edição Rusconi, que decidiu usar o original em inglês para a maioria dos nomes. Eu certamente nunca ousaria assumir essa responsabilidade, especialmente depois da morte do autor. (MESSINA, Guido. Intervista a Vittoria Alliata di Villafranca)[4]

Ao terminar a tradução, o Tolkien considerou a melhor tradução já feita até então. Pelo fato de que a tradutora seguiu suas diretrizes e concordou com aqueles pontos mais críticos. Conforme Vittoria Alliata disse em entrevista: “De fato, quando completado ele comunicou a Ubaldini que considerava uma das melhores traduções. Deve ser dito que eu concordei com ele nos pontos mais críticos e que eu pedi para ele esclarecer quaisquer dúvidas, sempre através de Ubaldini”. (MESSINA, Guido. Intervista a Vittoria Alliata di Villafranca)[5]

A editora Astrolabio publicou a primeira parte do livro La Compagnia dell’Anello (“A Sociedade dos Anel”). Três anos depois a editora Rusconi adiquiriu os direitos e publicou toda a tradução, agora com revisão de Quirino Principe, um tradutor e critico musical. O editor não concordava com muitas escolhas feitas por Alliata, o que fez com que ele mantivesse muitos nomes no original em inglês. Além disso, Quirino retraduziu todos os poemas e apêndices, porém essas mudanças foram questionadas, visto que ele não leu o “Guia de nomes” escrito pelo Tolkien, como Alliata havia feito. Em 2003 a mesma tradução foi novamente editada, agora pela Sociedade Tolkien Espanhola, e foi republicado pela editora Bompiani.

Em se tratando da tradução de “Orc”, Vittoria Alliata havia optado pela palavra “Orchetti”, que é um diminutivo de “Orco”, uma criatura folclórica italiana. Segundo Alliata, a primeira sugestão para traduzir seria a palavra “Ogro”, porém, entendeu que não seria adequado em significado, tal como Tolkien havia mencionado.  Ela considerava o “Orco” como sendo uma criatura muito grande e por isso optou por colocar o diminutivo sendo “Orchetti”. Com a modificação feita na tradução, em 2003, a edição do Senhor dos Anéis passou a usar “Orco” para significar “Orc”, enquanto que “Orchetti” seria o mesmo que “Goblin”. Na tradução original de Vittoria Alliata “Goblin” permaneceu sem alterações.

Sobre a tradução francesa

Os tradutores franceses encontraram uma situação mais cômoda do que a italiana, pois eles tinham em mãos o Guia para tradutores, uma carta do Tolkien em que menciona a palavra “Orques” como sendo a tradução de “Orc” e o autor ainda estava vivo. Foi assim que em 1972 a 1973 foi publicada a primeira edição de O Senhor dos Anéis em língua francesa, com tradução de Francis Ledoux pela editora Christian Bourgois.

Ainda antes de ser publicado O Senhor dos Anéis, Naomi Mitchison estava lendo os dois primeiros volumes e teve muitas dúvidas. Entrando em contato com Tolkien, este a respondeu por carta em em 23 de abril de 1954. Nesse escrito o professor Tolkien tratava sobre vários pontos de sua obra e acabou indicando como uma possível tradução para a palavra “Yrch” em Sindarin, a palavra em francês “Orque”, como pode ser visto no trecho a seguir:

Os idiomas Eldarin fazem distinções em formas e usam entre um plural “partitivo” ou “particular” e o plural geral ou total. Assim, yrch “orcs, alguns orcs, des orques” ocorre em vol I pp. 359,402; os Orcs, como uma raça ou o todo de um grupo mencionado previamente, teria sido orchoth. (Carta para Naomi Mitchison, em 24 de abril de 1954).[6]

A palavra usada pelo Tolkien é “Orque” que vem do francês medieval, que tem sua origem remota no latim “Orcus”. Tem o mesmo significado que “Orc” no sentido de ser uma criatura folclórica, um tipo de demônio. Porém, da mesma forma que em “Orc”, esse significado foi abandonado e no francês moderno “Orque” significa apenas uma espécie de baleia assassina. Dessa forma, as palavras tiveram uma evolução semelhante em se tratando de significados e por isso a escolha para a tradução. Foi pensando nessa referencia da carta e nas diretrizes do Tolkien que foi feita a opção pelo tradutor francês. Sobre isso especialista Audrey Morelle escreveu um artigo sobre Orcs no site Tolkiendil, onde afirmou o seguinte:

“Orque” foi usado como a tradução francesa da palavra “Orc”.  De fato, não há certeza real sobre essa tradução: o único elemento no qual podemos confiar é uma carta na qual se vê a expressão “des orques”. Tolkien discute a forma plural genérica orchoth em Sindarin, ele então dá a tradução em inglês e no que parece ser francês. (CAMUS, MORELLE, tolkiendil.com)[7]

Observando as diretrizes do Tolkien e especialmente a ideia de “Orc” ser uma adaptação fonédita de “orka” em westron. Morelle justificou a escolha de “Orque” dizendo o seguinte: “Em Parma Eldalamberon nº 17, p . 47 , Tolkien nos diz que, do ponto de vista  internista, o termo orc é uma adaptação do Westron orka . Infelizmente, isso não nos ajuda a saber exatamente que forma usar. Então fizemos a escolha de usar a forma francesa “Orque“. (CAMUS, MORELLE, tolkiendil.com)[8]

De acordo com declaração feita pelo Tolkienista e linguista francês Edouard Kloczko, ao tradutor francês, além de se preocupar com o significado da palavra, também se preocupou com a pronuncia da palavra: “Muitas palavras em francês tendem a perder seu som consonantal no final. Dessa forma, “Orc” ou “Ork” poderia ser pronunciado de forma equivocada como “Or”. Com “Orque” esse erro não seria possível.”

Também tratando sobre o assunto, o tolkienista francês David Giraudeau afirmou o seguinte: “Orque com o final “-que” pode ser entendido junto com outras palavras francesas (como em “marque”, “laque”, “plaque”, “risque”, “manque”, etc.). Enquanto que “Gobelin” provavelmente veio da associação com a criatura folclórica francesa de mesmo nome”. Segundo Giraudeau “Em Português “Orc” (masc.e fem.) seria uma boa escolha

Dessa forma, a escolha de “Orque” se torna interessante e adequada por seu significado similar a “Orc” e pelo próprio som adequado aos franceses.

É interessante ressaltar, que para o Tolkien a língua francesa não estava na ordem de preferência das línguas românicas. Ele gostava muito do espanhol e em seguida o italiano. Embora conhecesse a língua, ele não gostava dela, conforme afirmou em carta de 1958:

Por exemplo, não gosto de francês e prefiro o espanhol ao italiano — mas a relação desses fatos com meu gosto por idiomas (que é obviamente um grande ingrediente em O Senhor dos Anéis) levaria muito tempo para ser elucidada e deixaria você gostando (ou não gostando) dos nomes e trechos de idiomas em meus livros, da mesma forma que antes. (Carta para Deborah Webster, em 25 de outubro de 1958)[9]

Nessa carta está demonstrado que Tolkien utilizava em grande parte o seu gosto linguístico no processo de escolha dos nomes e criação de línguas para o seu mundo. Assim, o gosto do Tolkien é um ponto importante de ser observado no processo de escolha dos nomes pelos tradutores.


Sobre as traduções para o Espanhol

Em fevereiro de 1967, o canadense Mr. Sands se ofereceu como tradutor de O Senhor dos Anéis para o Espanhol. E Tolkien respondeu o seguinte:

No que diz respeito ao seu projeto: uma boa tradução destes para o mercado espanhol, estou interessado. Eu tenho algum conhecimento da língua espanhola em ambos os lados do Atlântico e acho que, especialmente a variedade europeia, é extremamente atraente. (DROUT. J.R.R. Tolkien Encyclopedia: Scholarship and Critical Assessment, p.624)[10]

Dentre as várias línguas romanicas, que tiveram origem no latim, o espanhol era a mais apreciada pelo Tolkien. Conforme ele afirmou: O espanhol chegou em mim por acaso e me atraiu muito. E deu-me um grande prazer e ainda dá – muito mais do que qualquer outra língua românica. (TOLKIEN. The Monsters and the Critics and Other Essays, p. 191)[11] Depois dessa língua vem o italiano na sua ordem de preferência.

Entre os anos de 1977 a 1980 foi publicada a primeira edição de O Senhor dos Anéis em espanhol pela editora Minotauro. A tradução ficou a cargo de Luis Domènech (Francisco Porrúa) e Matilde Horne.

Quanto a tradução de “Orc” entre os falantes do espanhol, foi escolhida a palavra “Orco”. Observando que essa é a palavra derivada da criatura do folclore, assim como no italiano. Foi utlizada a tradução pela equivalência, onde a adaptação fonética e o significado são relevantes e estão incluídos dentro do mesmo aspecto que as demais palavras originárias do latim “Orcus”.

 

Orcs por Alan Lee

 

Sobre as traduções para o Português

A primeira tradução do Hobbit publicada em 1962 pela editora Livraria Civilização, com o título “O Gnomo” foi traduzida pelo casal Maria e Mario Braga. Nessa edição as palavras “Goblin” e “Orc” foram traduzidas como “Duende”, pela proximidade de significado.

Enquanto que as primeiras edições do Senhor dos Anéis publicadas em Português foram feitas pela editora Artenova entre os anos de 1974 a 1979. Os tradutores Antonio Ferreira da Rocha e Luiz Alberto Monjardim optaram traduzir ambos “Orc” e “Goblin” apenas com uma palavra “Orco”, sofrendo influência da edição espanhola.

Enquanto que em Portugal, nas edições publicadas pela editora Europa-América, com traduções de Fernanda Pinto Rodrigues, a palavra “Goblin”  foi substituída por “Gnomo”, enquanto que “Orc” permaneceu como o original “Orc”, seguindo a ideia de impossibilidade de tradução por ausência de significado correspondente. A tradutora optou por não escolher a palavra “Orco”, pois seu significado em Português é o mesmo que “inferno, hades” e não uma criatura folclórica, como ocorre no italiano ou espanhol.

Seguindo a mesma tendência, as traduções brasileiras, publicadas pela editora Martins Fontes, mantiveram os nomes como no original “Orc”, enquando que a palavra “Goblin” foi simplesmente substituída por “Orc”. É por isso que nas edições de O Hobbit dessa editora não se verifica a palavra “Goblin”.

Posteriormente, em 2008, a editora Selo Martins Fontes, publicou a edição biligue de As Aventuras de Tom Bombadil, onde consta a tradução dos poemas por William Lagos, que traduziu a palavra “Ork” por “Orco”. A tradução de Lagos tem como apelo a busca pelo sentido do poema e seu significado mais literal do que estético. Enquanto que na tradução do mesmo livro feita em Portugal em 1985, a palavra “Ork” foi traduzida como “Espírito”.

Em 2018, a editora Harper Collins Brasil apresentou a nova tradução de “Orc”, optando pela palavra francesa ou adaptação fonética “Orque”, para se distanciar das edições anteriores da Europa-américa e Martins Fontes.

Publicações Ano Orc Tradutores
Editora Livraria Civilização 1962 Duende (s) Mario e Maira Braga
Editora Artenova 1974-1979 Orco (s) Luiz A. Monjardim

Antonio Ferreira Rocha

Editora Europa-américa 1980-2018 Orc (s) Fernanda P. Rodrigues
As Aventuras de Tom Bombadil 1985 Espirito (s) Ersílio Cardoso
Editora Martins Fontes 1994-2018 Orc (s) Lenita Rimoli Esteves

Ronald Kyrmse

As Aventuras de Tom Bombadil 2008 Orco (s) William Lagos
Editora HarperCollins Brasil 2018 Orque (s) Ronald Kyrmse
Reinaldo José Lopes

Observando as traduções para o Português, percebe-se que há a tendência por não traduzir a palavra ou utilizar a palavra “Orco”. Enquanto que dois tradutores optaram pela tradução pelo significado. A tabela a seguir mostra, de forma simplificada, as informações colhidas relativas a palavra “Orc”.

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NOTAS:

[1] The Lord of the Rings contains a vast potential of significance for those who wish to study it closely, and this potential may not be entirely without effect for those whose chief concern is the story. In an ideal situation, the reader of a translation would be able to discover just as many levels as the reader of the source text. In concrete terms, that would mean that the whole network of linguistic relationships and their literary significance set up by the device of pseudotranslation would be accessible to the sensitive reader in the target language. But a 100% accurate replication of that network is impossible, because the structure is based on English, and each language holds a unique position within the family of related languages, which cannot be precisely replicated in any other target language, just as the nomenclature of England is uniquely linked to the topography and cultural history of England and cannot be mapped precisely onto any other location. Once again, each translator’s solution is dependent upon time and place. (TURNER. Tolkien in Translation, p. 27-28)

[2] The choice of equivalents has been directed partly by meaning (where this is discernible in the original names), partly by general tone, and partly by length and phonetic style. (TOLKIEN.The People of Middle-earth p.46-48).

[3] ‘‘the basic pleasure in the phonetic elements of a language and in the style of their patterns, and then in a higher dimension, pleasure in the association of these word-forms with meanings, is of fundamental importance.’’ (TOLKIEN. The Monsters and the Critics, p.190).

[4] Per la traduzione dei nomi propri Tolkien aveva preparato un glossario che consegnava ai suoi traduttori, dove spiegava con una minuziosità da glottologo il significato e l’origine di ogni singolo nome e dava precise direttive sul tipo di traduzione da adottare. Lo scopo era sempre quella familiarità con le vicende, che dovevano essere vissute come se la Terra di Mezzo fosse una antica contrada italiana. In questo Tolkien si riferiva alla grande tradizione delle favole, che rimangono uguali da Esopo a La Fontaine, assumendo solo diversi connotati “regionali”. Pertanto, se un nome doveva sembrare esotico, io adottavo etimologie greche, o addirittura arabe; se doveva essere familiare o evocativo, etimologie latine o italiane: sempre comunque origini italianamente plausibili. Lo stesso valeva per il tono e il ritmo delle filastrocche che non avevano pretese poetiche, ma talvolta goliardiche, talvolta magiche o folkloriche e per le quali Tolkien mi felicitò particolarmente. Nulla doveva restare in inglese per preciso volere dell’autore, ed io infatti tradussi per esempio, Sackville-Baggins in Borsi-Sacconi, concordandolo con Tolkien. Fu Quirino Principe, curatore dell’edizione Rusconi, a decidere di utilizzare l’originale inglese per gran parte dei nomi. Io certo non avrei mai osato assumermi tale responsabilità, specie dopo la morte dell’autore. (MESSINA, Guido. Intervista a Vittoria Alliata di Villafranca).

[5] Anzi, a lavoro completato comunicò ad Ubaldini che la considerava una delle migliori traduzioni realizzate. Va detto che concordavo con lui i punti più critici e che gli chiedevo di chiarire eventuali dubbi, sempre tramite Ubaldini. (MESSINA, Guido. Intervista a Vittoria Alliata di Villafranca)

[6] The Eldarin languages distinguish in forms and use between a ‘partitive’ or ‘particular’ plural, and the general or total plural. Thus yrch ‘orcs, some orcs, des orques‘ occurs in vol I pp. 359, 402; the Orcs as a race, or the whole of a group previously mentioned would have been orchoth.” (Carta para Naomi Mitchison, em 24 de abril de 1954)

[7] « Orque » a été utilisé comme traduction française du mot « Orc ». En fait, il n’existe pas de véritable certitude quant à cette traduction : le seul élément sur lequel on peut éventuellement s’appuyer est une lettre où l’on voit apparaître l’expression « des orques ». Tolkien discute la forme plurielle générique orchoth en sindarin, il donne alors la traduction en anglais et dans ce qui semble être du français. (CAMUS, MORELLE, tolkiendil.com)

[8] le Parma Eldalamberon n°17 p.47, Tolkien nous indique que du point de vue interniste, le terme orc est une adaptation du Westron orka. Mais cela ne nous aide malheureusement pas tout à fait à savoir quelle forme utiliser. Nous avons donc fait le choix d’utiliser la forme française « Orque ».(CAMUS, MORELLE, tolkiendil.com)

[9] For instance I dislike French, and prefer Spanish to Italian – but the relation of these facts to my taste in languages (which is obviously a large ingredient in The Lord of the Rings) would take a long time to unravel, and leave you liking (or disliking) the names and bits of language in my books, just as before. (Carta para Deborah Webster, em 25 de outubro de 1958).

[10] With regard to your project: a good translation of these for the Spanish market, I am interested. I have some acquaintance with the Spanish language on both sides of the Atlantic and I find it, especially the European variety, extremely attractive. (DROUT. J.R.R. Tolkien Encyclopedia: Scholarship and Critical Assessment, p.624).

[11] ‘‘Spanish came my way by chance and greatly attracted me. It gave me strong pleasure, and still does—far more than any other Romance language’’(TOLKIEN. The Monsters and the Critics and Other Essays, p. 191).

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