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Os Grandes Contos da Primeira Era do Sol

Bilbo Bolseiro e o Livro Vermelho

 

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by Eduardo Stark

Ao ter a ideia de criar uma mitologia e seu mundo secundário, Tolkien percebeu que não poderia escrever todos os detalhes possíveis de uma realidade alternativa, pois seria uma tarefa humanamente impossível. Então a forma mais coerente foi criar camadas na história e utilizar a técnica da Narrativa em Abismo com relação à Autoria Ficcional.

Nessa “nova” mitologia o autor escreveria os principais acontecimentos e deixaria em aberto todo o restante. Assim, ele “Desenvolveria alguns dos grandes contos na sua plenitude e deixaria muitos apenas no projeto e esboçados.” (Carta 131, para Milton Waldman, 1951).

Na Carta 115, para Katherine Farrer, possivelmente data de 15 de junho de 1948, Tolkien elenca as principais lendas de sua mitologia, extraídas por Pengolod, e informa que ainda estariam incompletas ou desatualizadas naquele momento. E aponta que eram três grandes contos: “A Queda de Gondolin”, “A Balada de Beren e Lúthien (em verso)” e “Os Filhos de Húrin”.

Contudo, infelizmente Tolkien não finalizou essas narrativas como talvez gostaria. Uma série de circuntâncias de sua vida o afastaram do processo de acabementos dos textos. Esses três contos seriam, como afirma Christopher Tolkien, considerados “obras suficientemente completas, que não demandavam um conhecimento do grande corpo de lendas conhecido como Silmarillion”.[1] Seriam histórias que poderiam ser lidas separadamente e não haver um grande prejuízo para o entendimento do leitor, embora o conhecimento do mundo em que elas estão inceridas pudesse ser explicado rapidamente em um prefácio ou introdução.

No Legendarium de Tolkien esses Grandes Contos seriam parte da tradição dos Homens em Númenor e que passou aos reinos de seus descendentes na Terra-média. Lembrando disso Tolkien escreveu um pequeno texto em que trata sobre quais seriam esses contos:

Os três Grandes Contos devem ser Numenoreanos, e derivados de material preservado em Gondor. Eles faziam parte do Atanatarion (ou o Legendarium dos Pais dos Homens). ?Sindarin Nern in Edenedairr (ou In Adanath). São eles: (1) Narn Beren ion Barahir também chamado Narn e-Dinúviel (O Conto de Rouxinol) (2) Narn e-mbar Hador contendo (a) Narn i Chin Hurin (ou Narn e-‘Rach Morgoth, O Conto da Maldição de Morgoth); e (b) Narn en Êl (ou Narn e-Dant Gondolin ar Orthad en Êl)[2]” (Morgoth’s Ring, p. 373).[3]

Tentando encaixar esses contos dentro de uma possível publicação, Tolkien termina o trecho com uma questão “Não deveriam ser colocados como Apêndices do Silmarillion?[4] Nessa fase de sua escrita o autor diferenciava os Grandes Contos daqueles menores. Sendo apresentados os relatos mais suscintos no Quenta Silmarillion e os três Grandes Contos como material complementar.

Reforçando essa ideia de que os textos desses Grandes Contos eram parte da tradição númenoriana e não propriamente dos Elfos, Tolkien riscou a palavra “Noldor” e anotou “Númenor” em substitutição, no ponto em que mencionava a autoria da balada de Beren e Lúthien  como sendo a “a mais longa das canções de [Noldor] Númenor sobre o mundo antigo[5]

Ao comentar sobre os “nomes verdeiros” usados nas histórias e canções, na nota 17 em “The Shibboleth of Fëanor”, Christopher Tolkien afirma  que o Silmarillion não é uma obra dos elfos propriamente, mas uma compilação, provavelmente feita em Númenor. Ele comenta a dificuldade que existiu com o passar dos anos em manter os nomes originais entre os humanos. Contudo os “nomes verdadeiros não foram esquecidos pelos escribas e mestres das tradições ou os poetas, e eles podem ser frequentemente apresentados sem comentários[6] É nesse ponto que é feita a nota 17 conforme a seguir:

Como se vê em O Silmarillion. Este não é um título ou obra Eldarin. É uma compilação, provavelmente feita em Númenor, que inclui (em prosa) os quatro grandes contos ou baladas dos heróis dos Atani, dos quais “Os Filhos de Húrin” provavelmente foi composto em Beleriand na Primeira Era, mas necessariamente é precedido por um conto de Fëanor e sua criação das Silmarils. No entanto, todos são obras “Humanas”.[7]

No Silmarillion editado por Christopher Tolkien os Grandes Contos são colocados em prosa e mais reduzidos, correspondendo aos capítulos XIX ao XXIV. No comentário ele diz existir quatro grandes contos, ao invés de três, como Tolkien havia mencionado, pois considera a história de Eärendil como uma história independente da Queda de Gondolin e sendo um desfexo do Quenta Silmarillion.

Os rascunhos de Tolkien dos Grandes Contos foram publicados nos livros da série História da Terra-média com comentários feitos por Christopher Tolkien. Porém o material foi publicado em sua forma bruta, sem os arranjos necessários para formar histórias independentes como pretendia Tolkien.

Em 2007 foi publicado “Os Filhos de Húrin” editado por Christopher Tolkien e contém o material em prosa das histórias de Túrin Turambar posto de uma forma organizada para ter o conto completo.

Outro material relacionado aos Grandes Contos foi publicado em 2017 no livro “Beren e Lúthien”. Contudo, diferentemente de Os Filhos de Húrin, Christopher Tolkien não editou os textos em um material direto em uma história única. Nesse livro são apresentados trechos de diversos rascunhos em verso e prosa em ordem.

Até o momento, o conto de “A Queda de Gondolin” não foi publicado como um livro independente, embora o rascunho tenha sido publicado no segundo volume da série História da Terra-média, The Book of Lost Tales, part 2.

 

Capa de “Beren and Lúthien”, arte de Alan Lee.

O Livro Vermelho e os Grandes Contos

Em o Senhor dos Anéis os Hobbits escreveram suas histórias relacionados a Guerra do Anel. Em Valfenda, o hobbit Bilbo Bolseiro teve acesso aos manuscritos das tradições antigas dos elfos e númenorianos. E assim realizou as “Traduções do Èlfico”, cujo conteúdo é provavelmente O Silmarillion e os Grandes Contos.

Os Grandes Contos foram encontrados por Bilbo em Quenya, considerada a língua nobre entre os elfos da Terra-média. Os sábios e escribas de Númenor preservavam essa língua como se fosse o latim na Europa medieval. E assim, embora esses manuscritos estivessem na língua dos elfos não foram por eles escritos.

Aliado a isso, a única cópia do Livro Vermelho do Marco Ocidental que contém as “Traduções do Élfico” feitas por Bilbo Bolseiro é a preservada pelos homens de Gondor, em especial o estudioso Findegil, que realizou correções no livro e acrescentou novos relatos. Dessa forma, o Livro Vermelho do Marco Ocidental, tem sua tradição mesclada com os registros dos homens de Gondor e os Grandes Contos se mantiveram como parte da tradição dos homens.

O Livro Vermelho

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NOTAS:

[1]  Os Filhos de Húrin, p.12.

[2]  Traduzido como “Conto da Queda de Gondolin e ascensão da Estrela”.

[3] “The three Great Tales must be Numenorean, and derived from matter preserved in Gondor. They were part of the  Atanatarion (or the Legendarium of the Fathers of Men). ?Sindarin Nern in Edenedair (or In Adanath). They are (1) Narn Beren ion Barahir also called Narn e-Dinúviel (Tale of the Nightingale)  (2) Narn e-mbar Hador containing (a) Narn i Chin Hurin (or Narn e-‘Rach Morgoth Tale of the Curse of  Morgoth); and (b) Narn en Êl (or Narn e-Dant Gondolin ar Orthad en Êl)” (Morgoth’s Ring, p. 373).

[4] “Should not these be given as Appendices to the Silmarillion?” (Morgoth’s Ring, p.373).

[5] The War of the Jewels, p.243.

[6] “The true names were not however forgotten by the scribes and loremasters or the poets, and they might often be introduced without comment”. (The People of Middle-earth, p. 340).

[7] “As is seen in The Silmarillion. This is not an Eldarin title or work. It is a compilation, probably made in Numenor, which includes(in prose) the four great tales or lays of the heroes of the Atani,of which ‘The Children of Hurin’ was probably composed already in Beleriand in the First Age, but necessarily is preceded by an account of Fëanor and his making of the Silmarils. All however are ‘Mannish’ works”. (The People of Middle-earth, p. 357).

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