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O Livro Dourado de Tavrobel

by Eduardo Stark

Nos primeiros escritos do Legendarium, especialmente os que estão reunidos nos dois primeiros volumes da série História da Terra-média, intitulados de O Livro dos Contos Perdidos, existem as primeiras formas de autoria ficcional. Esses textos, escritos entre 1916 a 1930, apresentam a ideia de que um Homem (Eriol, Ælfwine ou outros nomes) sairia em viagem marítima e teria chegado em uma ilha misteriosa onde ainda habitavam os elfos. Estes por sua vez acolheriam o viajante e narrariam suas histórias de milhares de anos.

Dessa forma, nos rascunhos iniciais do Legendarium há um valor significativo para a tradição oral. O que está escrito são os próprios relatos de testemunhas dos acontecimentos, ou seja, os próprios elfos. A ideia de que haveria manuscritos fictícios não havia sido criada totalmente. Apenas no final dessa fase de desenvolvimento é que o autor incluiu algo nesse sentido. Surgiu a ideia de que o marinheiro seria o autor ou teria contato com o “Livro Dourado”, que continha os registros históricos dos elfos.

Nos rascunhos Tolkien colocava que o Livro Dourado havia sido compilado por algum autor anônimo[1]. Seria ao estilo das outras mitologias cujos autores eram desconhecidos e detalhes sobre eles foram perdidos com o tempo. Porém Tolkien mudou a ideia, passando agora o próprio Eriol tentdo cencontrado o livro e foi dada a oportunidade dele concluir as partes finais, quando ainda estava em Tavrobel com os elfos[2].

Em uma nova fase Tolkien mudou novamente a ideia, sendo agora o filho do Eriol, chamado Heorrenda, que seria o compilador do livro a partir dos escritos deixados por seu pai. Conforme pode ser lido no Livro dos Contos Perdidos:

O Livro Dourado de Heorrenda; sendo o Livro dos Contos de Tavrobel; Heorrenda de Haegwudu; Escrevi esse livro usando os escritos que meu pai Wáefre (a quem os Gnomos nomearam após as regiões de seu lar Angol) fez na sua residência na ilha sagrada nos dias dos Elfos; e muito mais adicionei das coisas que seus olhos não viram depois; todavia tais coisas não se contaram ainda. Até agora. (The Book of Lost Tales, part 2, p. 290-291).[3]

Dentro do desejo de criar uma mitologia para a Inglaterra, Tolkien desejava estabelecer uma conexão das suas histórias com o seu país, como se fossem os mitos fundacionais e seus primeiros heróis. Assim, existe a ligação dos nomes em anglo-saxão. O nome original de Eriol era Ottor, mas ele se chamava Wáefre, do Inglês antigo “retirante, viajante”. Seus filhos Heorrenda, Hengest e Horsa, seriam os conquistadores da Ilha que passou a se chamar “Inglaterra”. Eles se tornaram amigos dos elfos e desde então os Ingleses tem uma “verdadeira tradição das Fadas”.[4]

Com novas mudanças em seus rascunhos, Tolkien passou a chamar o marinheiro “Eriol” pelo nome de “Ælfwine”, embora eles não fossem propriamente o mesmo personagem, mas sua função permaneceu a mesma. O marinheiro que tomaria conhecimento das lendas com os próprios elfos iria escrever as histórias em um livro.

O Livro dos Contos Perdidos e a História dos Elfos de Luthany, [sendo] o Livro Dourado de Tavrobel, o mesmo que Ælfwine escreveu e colocou na Casa de Cem Chaminés em Tavrobel, onde ainda permanece para ser lido o quanto for possível. (The Book of Lost Tales, part 2, p.310).[5]

Entre 1930 e 1937 Tolkien escreveu o Qenta Noldorinwa, uma das primeiras versões do que chamaria de Quenta Silmarillion. Nesse texto ele apresenta um novo título que faz referência ao Livro Dourado. Parece que, ao menos no título, o autor retomou o uso do nome Eriol ao invés de Ælfwine como havia modificado anteriormente. O Livro Dourado aqui é um registro dos elfos e não mais uma compilação feita por Eriol /Ælfwine.

O Quenta, aqui está o Qenta Noldorinwa ou Pennas-na-Ngoelaidh. Esta é a breve História dos Noldoli ou Gnomos, tirada do Livro dos Contos Perdidos, que Eriol de Leithien escreveu, tendo lido o Livro Dourado, que os Eldar chamam Parma Kuluina, em Kortirion em Tol Eressëa, a Ilha Solitária. (The Shaping of Middle-earth, p.77-78).[6]

O Livro Dourado recebe seu nome em élfico Quenya “Parma Kuluina” em que “Parma” significa “Livro” e “Kuluin” quer dizer “Dourado, de Ouro”.[7]

Com o passar do tempo Tolkien foi sofisticando cada vez mais a ideia de uma autoria ficcional e as camadas em suas histórias. Ao escrever o Quenta Silmarillion[8] entre 1937 e 1938 ele inicialmente colocou Ælfwine como um tradutor de escritos feitos pelo elfo Pengolod de Gondolin, sem mencionar o Livro Dourado nominalmente.[9]. Enquanto que no Livro dos Contos Perdidos o seu autor foi o Eriol, após ele ter lido o Livro Dourado em Kortirion.

A última menção de Tolkien sobre o Livro Dourado foi feito em um preâmbulo encontrado em forma de manuscrito e datilografado por Tolkien. O título da folha está escrito “Silmarillion – Ælfwine’s note” (Silmarillion – Nota de Ælfwine) junto com uma “Nota do Tradutor” referente aos versos de Inglês Antigo de Ælfwine. O texto do primeiro parágrafo diz o seguinte:

Essas histórias foram escritas por Pengolod, o Sábio de Gondolin, tanto naquela cidade antes da queda, quanto depois em Tathrobel, na Ilha Solitária, Toleressëa, depois do retorno ao Oeste. Na sua criação, usou muito os escritos de Rúmil, o Elfo-sábio de Valinor, principalmente nos anais de Valinor e o relato das línguas, e ele também usou os contos que são preservados no Livro Dourado. A obra de Pengolod eu aprendi e decorei, e a verti na minha língua, algumas partes durante a minha permanência no Oeste, mas a maioria depois do meu retorno à Bretanha. (The Lost Road and other Writings, p.203)[10]

Evidenciando que Eriol é outro nome de Ælfwine, logo em seguida é colocado junto a nota versos em Inglês Antigo, que é traduzido da seguinte forma:

As histórias são aqui dadas em inglês dessa época, traduzido da versão de Eriol de Leithien, como os Gnomos o chamavam, que era Ælfwine de Angelcynn. Outros assuntos que Ælfwine tirou diretamente do Livro Dourado, juntamente com o relato de sua viagem e a sua permanência em Toleressëa, são dados em outro lugar. (The Lost Road and other Writings, p.203).[11]

Ao que parece, Tolkien abandonou a ideia de Ælfwine, motivo pelo qual seu filho retirou referências a esse personagem, e com isso a ideia do Livro Dourado também foi eliminada de suas histórias, conforme foi afirmado por Christopher Tolkien: “O modo original, em O Livro dos Contos Perdidos, no qual um Homem, Eriol, após uma grande viagem pelo oceano, chega até a ilha onde os Elfos habitam e aprende sua história de seus próprios lábios, gradualmente foi descartada”. (The Book of Lost Tales, part 1, p.5)[12]

Ainda que não tenha sido colocado dentro dos textos mais recentes do legendarium, o Livro Dourado serviu como primeira forma do que se tornaria O Livro Vermelho do Marco Ocidental. Tolkien entendia que haveria a necessidade de um livro que internamente foi escrito por personagens e que seriam parte daquele universo.

Earendil em seu barco branco…

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NOTAS:

[1] The Book of Lost Tales, part2, p.283.

[2] The Book of Lost Tales, part2, p.287

[3] The Golden Book of Heorrenda; being the book of the Tales of Tavrobel; Heorrenda of Haegwudu; This book have I written using those writings that my father Wáefre (whom the Gnomes named after the regions of his home Angol) did make in his sojourn in the holy isle in the days of the Elves; and much else have I added of those things which his eyes saw not afterward; yet are such things not yet to tell. For know. (The Book of Lost Tales, part 2,  p. 290-291).

[4] The Book of Lost Tales, part2, p.293.

[5] The Book of Lost Tales and the History of the Elves of Luthany, being The Golden Book of Tavrobel, the same that Ælfwine wrote and laid in the House of a Hundred Chimneys at Tavrobel, where it lieth still to read for such as may. (The Book of Lost Tales, part 2, p.310).

[6] The Quenta, herein is Qenta Noldorinwa or Pennas-na-Ngoelaidh. This is the brief History of the Noldoli or Gnomes, drawn from the Book of Lost Tales which Eriol of Leithien wrote, having read the Golden Book, which the Eldar call Parma Kuluina, in Kortirion in Tol Eressëa, the Lonely Isle. (The Shaping of Middle-earth, p.77-78).

[7] Vinyar Tengwar 36, p.23.

[8] Publicado no livro “The Lost Road and other Writings”.

[9] The Lost Road, p.201.

[10] These histories were written by Pengolod the Wise of Gondolin, both in that city before its fall, and afterwards at Tathrobel in the Lonely Isle, Toleressëa, after the return unto the West. In their making he used much the writings of Rúmil the Elfsage of Valinor, chiefly in the annals of Valinor and the account of tongues, and he used also the accounts that are preserved in the Golden Book. The work of Pengolod I learned much by heart, and turned into my tongue, some during my sojourn in the West, but most after my return to Britain.(The Lost Road and other Writings, p.201)

[11] The histories are here given in English of this day, translated from the version of Eriol of Leithien, as the Gnomes called him, who was Ælfwine of Angelcynn. Such other matters as Ælfwine took direct from the Golden Book, together with his account of his voyage, and his sojourn in Toleressëa, are given elsewhere. (The Lost Road and other Writings, p.201).

[12] The original mode, that of The Book of Lost Tales, in which a Man, Eriol, comes after a great voyage over the ocean to the island where the Elves dwell and learns their history from their own lips, had (by degrees) fallen away. (The Book of Lost Tales, part 1, p.5).

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