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O Homem da Lua no Legendarium de Tolkien

by Eduardo Stark

Antes de ler esse artigo é interessante também ler os artigos anteriores que explicam sobre o Homem da Lua no mundo primário AQUI e nas obras de Tolkien AQUI.

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Na mitologia de Tolkien a Lua tem sua origem em tempos remotos. Após as duas árvores de Valinor terem sido envenenadas e feridas por Melkor e Ungoliant, antes de ser destruída Telperion gerou sua última flor de prata e Laurelin seu último fruto dourado. A Lua foi criada a partir daquela flor de prata e era guiada por Tilion, o Maia, um dos Ainur.

Por ausência de esclarecimentos em escritos do Tolkien, não é possível saber a real ligação entre o maia Tilion e o Homem da Lua, ou mesmo se ele seria um elfo idoso que decidiu morar naquele satélite natural. Mas existem especulações, como o Christopher Tolkien afirmar existir a possibilidade de conto de Tilion ter de alguma forma originado as lendas do Homem da Lua. E a afirmação categórica de Christina Scull e Wayne Hammond que ‘evidentemente’ aquela história deu origem ao folclore do Homem da Lua.

Porém, como o poema do Homem da Lua deve ser assumido como uma representação de lendas e histórias entre os homens e Hobbits que tinham pouco contato com os “verdadeiros” acontecimentos em Arda, especialmente relativos a Arda.

Os versos sobre o personagem fazem parte da cultura dos homens da Terra-média, como “O Homem da Lua desceu cedo demais” um poema do Condado escrito no Livro Vermelho do Marco Ocidental na Quarta Era, que possivelmente tenha sido derivado de Gondor. Da mesma forma o poema “O Homem da Lua se demorou demais” foi escrito por Bilbo Bolseiro e registrado no Livro Vermelho. Essa informação é percebida no livro As Aventuras de Tom Bombadil que dispõe:

A influência dos eventos transcorridos no final da Terceira Era e o alargamento dos horizontes do Condado através de seus contatos com Valfenda e Gondor podem ser percebidos em outras peças. O número 6 [se referindo ao poema O Homem da Lua desceu cedo demais] embora colocado aqui logo após a rima de Bilbo denominada O Homem da Lua, e o último item, o Número 16, devem ser derivados, em última análise, de Gondor. São evidentemente embasados nas tradições dos Homens que habitavam as zonas costeiras e estavam familiarizados com os rios que corriam para o mar. O Número 6, de fato, menciona Belfalas (a ventosa Baía de Bel) e a Torre Costeira, a Tirith Aear de Dol Amroth.(…) Estas duas composições, portanto, são apenas rearranjos da temática sulista, embora possam ter chegado às mãos de Bilbo via Valfenda.(As Aventuras de Tom Bombadil. p.XI-XII).

A última parte do texto destacado merece uma atenção “embora possam ter chegado às mãos de Bilbo via Valfenda”. Isso pode dar margem a ideia de que o Homem da Lua seria uma lenda antiga derivada das história do maia Tilion, e não apenas algo relacionado aos humanos.

Assim, o Homem da Lua pode ser considerado como um personagem das histórias contadas no Condado e em Gondor. Como se fosse um conto de fadas ou um personagem folclórico. Sua conexão com o maia Tilion não parece ser completamente acertada, muito embora a origem do personagem possa ter sido originária dele.

Homem da lua de Alan Lee

O poema “O Homem da Lua desceu cedo demais”

O primeiro poema do Tolkien sobre o homem da lua foi renomeado para “O Homem da Lua desceu cedo demais”. Aqui o personagem é descrito como alguém que usava sapatos prateados, uma barba tecida com fios de prata, coroado com pérolas, com um cinto largo e um manto cinzento. Uma descrição que parece lembrar algumas interpretações artísticas do Merlin das lendas arturianas.

O Homem da Lua se sentia isolado e solitário onde estava e teve o desejo de descer na terra e lá conseguir alguns tesouros, escutar lendas e comer coisas gostosas. Ao descer na Terra, ele acaba caindo em um rio e é carregado por pescadores da região. Eles indicam a cidade em que poderia se hospedar, mas lá não encontra o que esperava, pois praticamente todas as pessoas estavam dormindo.

 Ele chega até uma casa e é atendido pelo dono, que permite que ele fique e coma algo, mas com a condição de que entregasse sua coroa e o manto. È então revelado que ele chegou cedo demais, um dia antes do Natal, onde ele poderia ganhar presentes e comer guloseimas e escutar histórias que queria.

O poema “O Homem da Lua se demorou demais”

No capítulo “No Pônei Saltitante”, em O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel, Frodo e os hobbits estão na estalagem em Bri, onde ocorre um momento de constrangimento e o portador do anel decide cantar uma música feita por Bilbo para distrair os presentes. Essa música, fornecida na integra no livro, de forma descontraída narra a aventura do Homem da Lua ao descer na terra para beber numa estalagem.

Havia uma estalagem na terra, que ficava ao pé de um morro, que produzia uma cerveja de qualidade. Então o Homem da Lua desceu para tomar essa cerveja. O dono da estalagem tem um gato embriagado que toca violino, um cachorrinho engraçado e uma vaca dançarina. O Homem da Lua bebeu tanto que rolou para debaixo de sua cadeira e lá ficou dormindo e sonhando com mais cerveja. Até que a noite estava acabando. O dono da estalagem percebeu que os cavalos brancos da lua estavam relinchando e que o Homem da lua deveria acordar logo e disse para o Gato:

“Os brancos corcéis da Lua
Relincham e mordem os freios de prata;
Mas o Homem ressona, e nada o resgata,
e logo o Sol sai à rua!”.[1]

Então o Gato tocou sua rabeca de forma estridente para acordar o Homem da Lua. Enquanto o taverneiro o sacudia dizendo “já são mais de três da manhã!”. Mas o Homem da Lua não acorda mesmo com o som do Gato. Então eles decidem empurra-lo para dentro da lua. Eles iam rolando o Homem da Lua e seus cavalos iam o seguindo. E todos dançaram e comemoraram o feito. O Gato tocou o violino e acabou quebrando as cordas de tanto tocar. Até que a Lua rolou por detrás da Colina e o Sol começou a surgir. Ao ver todos se apressarem para ir dormir o Sol ficou surpreso, pois já era dia e deveriam estar acordando e não indo dormir.

A menção aos cavalos traz uma ligação com a mitologia nórdica do deus Máni, uma personificação masculina da lua que atravessa o céu em sua carruagem puxada por cavalos brancos. Da mesma forma a deusa grega Selene (Luna, a Lua) é descrita dirigindo uma carruagem puxada por cavalos brancos.

Não há no poema muitas informações sobre o personagem. Mas podem ser extraídas as informações que o Homem da Lua gosta de beber cerveja e possui cavalos brancos. Além disso, segundo Christina Scull e Wayne Hammond existe obviamente uma relação com a rima infantil “Hey Diddle Diddle”[2]:

Hey diddle diddle,
O gato e o violino,
A vaca saltou sobre a lua,
O cachorrinho riu
Ao ver tal esporte,
E o prato fugiu com a colher[3]

Esse são versos antigos, cuja verdadeira origem não é conhecida, porém alguns afirmam ter sido publicado pela primeira vez em 1765 em londres no livro “Mother Goose’s Melody”. Existe também um poema similar no livro “At the Back of the North Wind” em “The True History of the Cat and the Fiddle” de George MacDonald, que talvez possa ter sido uma influência para Tolkien.

A conexão do legendarium e nosso mundo

A ideia de Tolkien sobre o suas mitologias é que elas não tratavam de um mundo diferente do nosso. Na verdade os acontecimentos seriam um passado mitológico de nosso próprio mundo. Ou seja, a Terra-média não é nada mais do que a nossa Terra, porém há milhares de anos atrás em um tempo em que os elfos e hobbits ainda participavam do mundo livremente e o mal concreto podia ser visto.

Desse modo, existe a possibilidade de se fazer uma ligação cronológica entre as aventuras de Frodo no final da terceira e início da quarta era do Sol e o nosso tempo. Segundo Tolkien o tempo atual poderia ser encaixado na sexta ou sétima era do sol.

Com isso em mente, várias associações de lendas antigas podem ser feitas, como se o personagem tivesse sua origem na época da Terra-média e se manteve ao longo das eras nas tradições e cultura dos povos. É assim que o trecho de O Senhor dos Anéis chama a atenção em se tratando da lenda do Homem da Lua.

Pouco antes de apresentar a integra do poema do Homem da Lua, cantada por Frodo Bolseiro na estalagem em Bri, o narrador Tolkien apresenta comentários sobre a música do Bilbo afirmando o seguinte:

Por um instante, Frodo parou embasbacado.Então, desesperado, começou uma canção ridícula muito apreciada por Bilbo (e da qual na verdade se orgulhava muito, pois ele mesmo tinha feito a letra). Era sobre uma estalagem, e talvez por isso tenha vindo à mente de Frodo exatamente naquele momento. Aqui está a canção completa. Hoje em dia, geralmente apenas algumas palavras dela são lembradas. (O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel, No Pônei Saltitante).[4]

A frase destacada “Hoje em dia, geralmente apenas algumas palavras dela são lembradas”[5] Demonstra claramente a conexão do poema no mundo de Tolkien e o nosso mundo. O que se passar é que o folclore dos Hobbits e homens de Gondor foi sendo recontado de geração em geração até chegar aos nossos dias, porém, como o tempo se distanciou restaram apenas alguns versos no folclore europeu propriamente. Assim, o que se conhece sobre o Homem da Lua são as poucas lembranças do próprio conto desenvolvido na época da Terra-média.

Isso se torna evidenciado, pelo fato de Tolkien desejar que sua mitologia fosse dedicada a Inglaterra e dessa forma as lendas se relacionariam a essa cultura. Um quadro comparativo pode ser feito entre o mundo primário (nossa realidade) e o mundo secundário (mundo imaginário de Tolkien que se interliga a nossa realidade), tomando como base a ligação entre a mitologia de Tilion e a lenda do homem da Lua, conforme Christina Scull, Wayne Hammond e Christopher Tolkien evidenciam.

Importante ressaltar que no mundo secundário, o fato de a lenda ter suas origens na terceira Era, não impede também que sua origem tenha relações com o período medieval ou mesmo com a mitologia de Máni, já que em se tratando de mitologias existem os arquétipos, elementos comuns nas várias formas de se contar as histórias.

NOTAS:

[1] No Original: “The White horses of the Moon/They neigh and champ their silver bits/But their master’s been and drowned his wits/and the Sun’ll be rising soon!’. Na tradução de William Lagos: “Os cavalos brancos da Lua/Eles relincham e mordem seus freios de prata/Mas seu amo está aqui e afogou o seu siso/e logo, logo, o Sol vai nascer!…”.
[2] Lord of the rings companion, p.156
[3] Hey diddle diddle/The cat and the fiddle,/The cow jumped over the moon/The little dog laughed/To see such sport/And the dish ran away with the spoon.
[4] For a moment Frodo stood gaping. Then in desperation he began a ridiculous song that Bilbo had been rather fond of (and indeed rather proud of, for he had made up the words himself). It was about an inn; and that is probably why it came into Frodo’s mind just then. Here it is in full. Only a few words of it are now, as a rule, remembered.
[5] Na tradução da editora Europa-américa de o Senhor dos Anéis “embora hoje já só se recordem, geralmente, algumas palavras”. E na tradução da editora Artenova “embora apenas algumas palavras dela sejam lembradas hoje em dia”.

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