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O elfocentrismo no Silmarillion

by Eduardo Stark

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Inicialmente J.R.R. Tolkien pretendia criar uma mitologia que fosse dedicada à Inglaterra. O mundo seria o nosso próprio, porém com um período imaginário antigo em que ocorressem lendas e aventuras diversas. Como se fossem histórias há muito tempo esquecidas e que recentemente voltaram a ser estudadas e traduzidas para o Inglês.

Nas mitologias em geral, os protagonistas são heróis com aspectos humanos ou divinos ou até mesmo os próprios deuses. As criaturas que fazem parte das lendas são colocadas como secundárias, sendo vilões ou aliados do personagem principal. Tolkien decidiu inovar nesse ponto em sua mitologia. Os elfos passaram a ser o centro dessas histórias.

Antes da publicação do Hobbit e O Senhor dos Anéis, os elfos não eram o foco principal de contos de fadas e as poucas histórias existentes eram “relativamente raras” e pouco interessantes para Tolkien. Assim, o que o autor pretendia era mudar essa situação, colocando o foco principal em lendas dos elfos e como elas chegaram até os humanos.

A nova mitologia elfica estaria relacionada às origens da Inglaterra. Haveria uma conexão entre o mito e a realidade. As lendas seriam anteriores ao surgimento das Ilhas britânicas e da formação do mundo atual geologicamente. Mas se existe essa relação, por qual motivo ela não chegou a ser conhecida dos ingleses, tal como as mitologias dos gregos e outros povos?

Para Tolkien os elfos estavam tão distantes dos humanos que suas histórias acabaram sendo perdidas com o passar dos anos. A ausência desse contato diluiu e praticamente eliminou por completo as histórias antigas. O que algum dia foi algo visível passou a ser apenas referências em relatos escritos milhares de anos depois.

Dentro desse aspecto, ao tratar sobre contos de fadas, Tolkien entendia que essas histórias não dependem de nenhuma definição ou relato histórico sobre elfos ou fadas, mas que estariam relacionadas ao chamado “Reino Encantado” e as aventuras que ocorressem ali. E nesse aspecto, em seu ensaio Sobre Contos de Fadas, apresentou os seguintes argumentos em relação aos elfos:

se os elfos são de verdade, e de fato existem independentemente de nossas histórias sobre eles, então também isto certamente é verdade: os elfos não se interessam primordialmente por nós, nem nós por eles. Nossos destinos são distintos, e nossas trilhas raramente se encontram. Mesmo nas fronteiras do Reino Encantado só os encontramos em algum cruzamento fortuito de caminhos. (Sobre Contos de Fadas).

No período em que se passa O Senhor dos Anéis, na Terceira Era do Sol, os elfos estão partindo e o mundo para eles já não é mais o mesmo. É como se uma civilização inteira estivesse deixando o continente gradualmente. Por isso, os relatos que foram feitos nesse tempo partem dos humanos ou dos Hobbits. O encontro com os elfos é sempre raro, a ponto de sua existência ser considerada pelos homens comuns apenas lendas de tempos antigos.

A Quarta Era do Sol e os períodos que interligam a história do imaginário de Tolkien ao nosso mundo real são obscuros, mas o autor deixa claro que foram tempos sombrios em que aos poucos os homens deixam de serem grandes reis de Gondor e passam a serem reis comuns. Nesse tempo as tradições e os registros foram perdidos e os elfos seriam novamente vistos como lendas populares.

Pelo fato dos elfos não se interessarem pelos humanos o contato foi perdido. Somente um encontro entre essas duas raças poderia novamente levar aos homens as antigas lendas e restaurar em parte o que quase totalmente foi esquecido. É nessa reflexão que Tolkien escreveu os versos finais do poema “O Clamor do Menestrel” (The Bidding of the Minstrel) em 1915, onde alguém pede ao Menestrel que conte histórias antigas sobre os elfos.

Em seus primeiros escritos da mitologia criada, Tolkien teve a ideia de um viajante marinheiro que por acaso chegaria a uma ilha encantada. Nesse local ele encontraria os elfos que narrariam suas histórias desde a criação do universo até as mais renomadas lendas de seu povo. O marinheiro voltaria para a Inglaterra e lá ele iria divulgar suas histórias. Essa ideia foi bastante explorada nos primeiros escritos do legendarium, sobretudo no Livro dos Contos Perdidos. Mas com o passar do tempo, Tolkien modificou essa ideia de várias maneiras. Foi assim que a mitologia se tornou centrada nos elfos, já que eles próprios seriam inicialmente os narradores de seus feitos.

Em mais de uma oportunidade Tolkien chamava o Silmarillion de uma “história dos Elfos”[1],[2], ou a História dos Eldar (Elfos)[3]. Por tratar dos feitos desses seres e com sua visão a mitologia é considerada por Tolkien como “elfocentrista”[4], ou seja, os homens não são o centro das histórias e sim as criaturas fantásticas. Conforme Tolkien expressou em carta:

Como disse, o lendário Silmarillion é peculiar e difere de todos os materiais similares que conheço por não ser antropocêntrico. Seu centro de vista e interesse não está nos Homens, mas nos “Elfos”. Os Homens surgiram inevitavelmente: afinal de contas, o autor é um homem e, se ele tiver um público, este será de Homens, e os Homens devem ingressar em nossas histórias como tais, e não meramente transfigurados ou parcialmente representados como Elfos, Anões, Hobbits, etc. Mas eles permanecem periféricos — recém-chegados e, por muito que cresçam em importância, não são atores principais. (Carta 131, para Milton Waldman, de 1951).

Nesse mesmo sentido, Tolkien ressalta que os homens são apenas coadjuvantes nas grandes histórias dos elfos. Esse se torna um grande diferencial da mitologia tolkieniana, já que em mitologias tradicionais o homem ou os deuses são os protagonistas. É nesse sentido que em carta o autor afirmou o seguinte:

miticamente essas histórias são Elfocêntricas, não antropocêntricas, e os Homens apenas aparecem nelas, no que deve ser um ponto muito tempo depois de sua Chegada. (Carta 212, rascunho de carta para Rhona Beare, 14 de outubro de 1958).

Em nota dessa mesma carta, Tolkien explica que é muito difícil os humanos escreverem sobre os Elfos, justamente pelo fato de que não se tem uma aproximação com essa cultura por muitos anos. Assim, caberia aos próprios elfos escreverem sobre sua própria história.

No Silmarillion, os primeiros escritos se concentram nas histórias dos elfos puramente e depois se tornam voltadas aos homens. Quando tratam sobre heróis humanos se tornam mais antropocêntricas, como no Akallabêth. Outros exemplos são os contos relacionados a Beren e Lúthien e os Filhos de Húrin. Do mesmo modo, O Hobbit e O Senhor dos Anéis apresentam menor presença dos elfos, porém conta com relatos dos homens e hobbits. Os elfos passam a ser periféricos na história central.

Na narrativa, tão logo a questão torne-se “historia” e não mítica, sendo de fato literatura humana, o centro de interesse deve ser transferido para os Homens (e suas relações com os Elfos ou outras criaturas). Não podemos escrever histórias sobre Elfos, os quais não conhecemos intimamente; e se tentarmos, simplesmente transformaremos Elfos em homens. (Carta 212, rascunho de carta para Rhona Beare, 14 de outubro de 1958).

É possível fazer uma clara divisão entre os estilos de cada obra de Tolkien. O Silmarillion conta as histórias em que os elfos foram protagonistas na luta contra Morgoth, o grande mal que desejava o domínio da Terra-média. Enquanto no período em que se passa O Senhor dos Anéis os elfos estão em retirada da Terra-média. Seu poder já não era mais como o de muitos anos e sua glória parecia irrecuperável.

Nesse mesmo sentido, ao ser questionado sobre O Hobbit, Tolkien afirma que esse livro teria conexão com outras lendas antigas que havia escrito, coloca de certa forma em ordem cronológica:

O Silmarillion, que é virtualmente uma história dos Eldalië (ou Elfos, por uma tradução não muito precisa), de sua ascensão até a Última Aliança e a primeira derrubada de Sauron (o Necromante): isso o levaria quase ao período de “O Hobbit”. (Carta 114, para Hugh Brogan, em 7 de abril de 1948)

Como dito, as primeiras histórias do Silmarillion são centradas no que os elfos entendiam sobre suas origens e como o mundo foi criado. E as histórias do Hobbit e O Senhor dos Anéis apresentam elementos humanos. Sendo que a Guerra do Anel apresenta combinações das lendas dos elfos:

“Assim como presume-se que as Lendas elevadas do início sejam a visão das coisas através de mentes Élficas, a história intermediária do Hobbit assume um ponto de vista praticamente humano — e a última história combina-os”. (Carta 131, para Milton Waldman, de 1951).

Nesse aspecto, os elfos são as figuras principais das histórias do Silmarillion. Resta saber sob qual perspectiva esses contos foram escritos, dentro do legendarium. Investiga-se dentro da ideia de autoria ficcional quem seriam os escritores das histórias dos elfos, se foram os humanos ou os próprios elfos.

 

O elfocentrismo no Silmarillion publicado

Após o falecimento de J.R.R. Tolkien seu filho editou os manuscritos e publicou O Silmarillion. Diversas decisões editoriais foram feitas para manter a obra mais coerente possível. Especialmente com uma consistência em relação ao que já havia sido publicado, em especial O Senhor dos Anéis.

A autoria ficcional foi quase suprimida por completo. Os nomes daqueles que escreveram os contos foram eliminados na edição final. Mas mesmo assim Christopher Tolkien decidiu que a ideia do elfocentrismo permaneceria no livro, tendo em várias passagens exemplos de que tais histórias apresentam visões dos elfos, tal como Tolkien pretendia.

No final do Ainulindalë está demonstrado que as origens dos tempos e do universo foram contadas pelos Valar (os deuses) diretamente aos elfos que tiveram contato com esses seres em Valinor:

Assim começou a primeira batalha dos Valar com Melkor pelo domínio de Arda; e sobre esses tumultos, os elfos sabem pouquíssimo, pois o que foi aqui declarado teve origem nos próprios Valar, com quem os eldalië falavam na terra de Valinor e por quem foram instruídos. (O Silmarillion, p.12).

Os Valar, ou os deuses, viviam em um lugar distante da Terra-média e do contato humano. Somente os elfos tiveram contato direto com esses seres celestiais e a partir desse contato é que os relatos de como o mundo e tudo surgiu foi contado. Os elfos eram imortais e por isso a lembrança daqueles que estiveram com os Valar era sempre presente, porém o registro pareceu necessário em tempos de guerra contra Morgoth, o senhor do escuro.

Basicamente entre os elfos da Terra-média havia essa crença e convicção do contato direto entre elfos e os Valar, pois muitos dos que estavam ali estiveram nas terras imortais. O Valaquenta igualmente é um relato feito pelos elfos. O próprio subtítulo apresenta essa informação “Valaquenta: Relato dos Valar e dos Maiar, segundo o conhecimento dos eldar” (O Silmarillion, p.15).

O Valaquenta é um breve relato de como seriam os Ainur e como os elfos os percebiam e entendiam. Não significa que essa seja a fonte completa e definitiva do que eles seriam, pois reflete o que os elfos sabiam, dentro de um conhecimento limitado.

São esses os nomes dos Valar e das Valier, e aqui se descreve por alto sua aparência, como os eldar os viram em Aman. Mas, por mais belas e nobres que fossem as formas dos Filhos de Ilúvatar, elas não passavam de um véu a encobrir sua beleza e seu poder. E, se pouco se diz aqui de tudo o que os eldar souberam outrora, isso não é nada em comparação com seu verdadeiro ser, que remonta a regiões e eras muito além do alcance de nossa mente. (O Silmarillion, p.21)

O Início do Quenta Silmarillion ecoa a autoria ficcional logo no início com a frase “Diz-se entre os sábios…”[5] .E também de forma semelhante “Dizem que no início...”[6]. E de forma clara expressa que os grandes feitos tratados naquele livro são relacionados aos elfos Noldor:

Mais tarde, os noldor voltaram a Terra-média, e este relato fala principalmente de seus feitos. Por isso, os nomes: e o parentesco dos príncipes podem ser aqui descritos na forma que esses nomes assumiram no idioma dos elfos de Beleriand.  (O Silmarillion, p.63).

Enquanto o Ainulidalë e o Valaquenta são registros feitos de acordo com relatos de encontros dos elfos com os Valar, o Quenta Silmarillion é o relato dos elfos que estavam na Terra-média e por isso existe ainda mais limitações quanto as informações.

A não onisciência dos relatos dos elfos

Os relatos dos elfos têm um limite de conhecimento. Por serem como registros históricos existe a preocupação de ter sido escrito apenas os fatos que foram presenciados por outros elfos ou humanos. Dessa forma, existem muitas informações que não foram registradas ou que não se sabia algo definitivo.

Isso traz uma ideia de realidade a toda a obra. Dando uma maior semelhança ao que está escrito como se fossem registros de fato. Não se trata de autores que tinham o conhecimento total dos fatos em tempo e espaço. Assim, em diversos trechos essa ausência de informações pode ser encontrada, como exemplo: “do destino de Eluréd e Elurín não há relato algum” (O Silmarillion, p.301). Outro exemplo “Bereg conduziu mil indivíduos do povo de Bëor na direção sul, e eles desapareceram dos relatos daqueles tempos” (O Silmarillion, p.180).

O trecho seguinte expressamente mostra a ideia da não onisciência dos relatos dos elfos:

Sobre a marcha do exército dos Valar até o norte da Terra-média, pouco foi contado em qualquer relato. Pois, entre eles, não seguia nenhum daqueles elfos que haviam morado e sofrido nas Terras de Cá e que escreveram as histórias daquele tempo ainda hoje conhecidas. E notícias desses fatos eles só tiveram muito tempo depois, por meio de parentes, em Aman. (O Silmarillion, p.320)

Os relatos são feitos por aqueles que presenciaram algo, ou que escutaram de uma testemunha. Quando não há relatos permanecem as lacunas de informações, pelo obviedade de que não se registra algo que não se tem algum indício.

 

A origem dos anões segundo os elfos

A origem dos anões é um caso interessante de ser analisado e que tem relação com a ideia do elfocentrismo. A origem dos Anões não está presente na música dos Ainur e não está no Valaquenta. E é por isso que é incluída no Quenta Silmarillion, como forma secundária em relação aos elfos, que são os primogênitos de Ilúvatar. Nesse relato do segundo capítulo do Quenta Silmarillion os anões colocados como uma desobediência de Aulë em relação a Ilúvatar, porém acaba sendo perdoado por esse que decide permitir que os anões existissem.

Inicialmente os elfos que viviam em Valinor não tiveram uma aproximação intensa com os anões. Como se trata de um relato feito pelos elfos, que posteriormente tiveram desentendimentos com os anões, nada mais natural que retratar a origem desses seres como sendo não tão virtuosa quanto a deles próprios.

O início da frase é sempre voltado a ideia de que era uma lenda “Dizem que no início os anões foram feitos por Aulë na escuridão da Terra-média” (O Silmarillion,p.40). Na carta 212 Tolkien menciona que “essa é a lenda élfica da criação dos anões”. Ou seja, a origem dos anões no Silmarillion é derivada de lendas dos elfos, não sendo necessariamente o que realmente tenha ocorrido, embora os elfos assim acreditassem. Essa incerteza quanto as origens dos anões é evidenciada nos apêndices de O Senhor dos Anéis:

A respeito da origem dos anões histórias estranhas são contadas tanto pelos eldar quanto pelos próprios anões, mas, uma vez que essas coisas se situam longe no passado, pouco se fala sobre elas aqui. (O Senhor dos Anéis, O Retorno do Rei, Apêndice).

Portanto, entre os elfos havia variações de suas lendas (algo bem natural em mitologias) e existiam outras lendas entre os próprios anões. Porém o pouco que se sabe sobre a história e cultura dos anões parte do que foi dito de Gimli e anotado no Livro Vermelho.

De forma semelhante, outro exemplo que pode ser analisado é a origem dos Ents. Tolkien expressa comentários a respeito e sua conexão com a origem dos anões, dando como exemplo a opinião de Galadriel sobre o tema:

Ninguém sabia de onde eles (Ents) vieram ou apareceram pela primeira vez. Os Altos Elfos diziam que os Valar não os mencionaram na “Música”. Mas alguns (Galadriel) eram [da] opinião de que, quando Yavanna descobriu a misericórdia de Eru para com Aulë na questão dos Anões, ela suplicou a Eru (através de Manwë), pedindo que desse vida a seres feitos de coisas vivas, não da pedra, e que os Ents ou eram almas enviadas para habitarem árvores, ou então que lentamente assumiam a semelhança de árvores devido ao seu amor inato pelas árvores. (Carta 247, para Colonel Worskett, 20 de setembro de 1963).

Assim, a parte inicial do Silmarillion que narra sobre as origens do mundo e de suas criaturas (Ainulindalë, Valaquenta e primeiros capítulos do Quenta Silmarillion) são vistas como as cosmogonias, enquanto que os feitos seguintes são como as lendas heroicas, em que existe uma maior sensação de realidade e maior concretude nos relatos.

NOTAS: 

[1] Ver: Carta 25, para o editor do “Observer”, que foi impressa no Observer em 20 de fevereiro de 1938.
[2] Carta 131, para Milton Waldman, 1951.
[3] Carta 144, para Naomi Mitchison, em 25 abril de 1954.
[4] Carta 181, para Michael Straight, fevereiro de 1956.
[5] O Silmarillion, p.27.
[6] O Silmarillion, p.40.

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