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O Fim do mundo na mitologia Tolkieniana

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by Eduardo Stark

 

Ao lermos o Silmarillion percebemos que os primeiros capítulos se assemelham muito ao início de grandes mitologias. Muitas pessoas até comparam com o ‘Gênese’ da Bíblia e o livro de John Milton sobre a queda de Lúcifer, o Paraíso Perdido.

Se partirmos desse ponto de comparação, necessariamente a história do mundo criado por Tolkien também deveria ter um ‘apocalipse’, onde o mal retornaria e seria finalmente derrotado no fim dos tempos. Na verdade seria uma espécie de Ragnarok, porém com as diferencias peculiares do mundo secundário Tolkieniano.

De fato Tolkien teve essa ideia enquanto escrevia as primeiras versões do que se tornaria o Silmarillion. Contudo, essa parte não foi incluída no Silmarillion que conhecemos. Christopher Tolkien, editor das obras póstumas do pai, decidiu que essa história fora abandonada por Tolkien na década de 50 e por isso não seria incluída em sua versão publicada em 1977.

A questão do ‘fim do mundo’ da Mitologia de Tolkien é um dos temas mais complexos e exige bastante cautela para se obter conclusões. Por isso pretende-se aqui tomar como base apenas argumentos derivados dos textos deixados pelo professor Tolkien, sem a pretensão de formar uma conclusão definitiva sobre o tema.

O Ragnarok e o Armagedom

Antes de tratar da mitologia Tolkieniana sobre o fim dos tempos é interessante ressaltar alguns pontos da mitologia nórdica, já que essa foi uma fonte de inspiração para o professor Tolkien.

Esse legendário termina com uma visão do fim do mundo, sua ruptura e reconstrução, e com a recuperação das Silmarilli e da “luz anterior ao Sol” — após uma batalha final que, suponho, deve mais à visão nórdica do Ragnarök do que a qualquer outra coisa, embora não seja muito parecida com ela”. (carta 131 para Milton Waldman, 1951).

O Ragnarok (‘destino final dos deuses’ em nórdico antigo) é uma profecia da mitologia nórdica que fala sobre uma série de acontecimentos futuros, com a vinda dos deuses e sua batalha final, sendo o mundo destruído e reformado com o fim da batalha.

A fonte escrita mais antiga sobre o Ragnarok é Edda poética, em especial no Völuspá, e na parte do Edda em prosa chamada Gylfaginning.

É pacífico o entendimento que o Edda foi uma fonte de estudo e forte influência do Tolkien. Especialmente na parte Völuspá, onde o professor retirou os nomes dos anões e do personagem Gandalf para o livro O Hobbit. E é justamente nessa parte do poema que se encontra a maior parte das referências ao Ragnarok.

Na mitologia nórdica o fim dos tempos ocorre com uma grande batalha dos deuses. Onde se disputa o domínio de tudo. Nesse acontecimento a terra é partida e tudo é modificado.A grande serpente Jörmungandr luta contra o deus Thor, filho de Odin, descrito como protetor da Terra. Thor consegue derrotar a serpente, porém também falece logo após derrotar o inimigo. Com isso o sol torna-se preto e a terra se afunda no mar, as estrelas desaparecem, o vapor sobe e as chamas tocam os céus.

O mundo é destruído e reconstruído novamente, sendo repovoado pelos únicos dois humanos que sobreviveram Líf e Lífþrasir, que haviam sobrevivido a destruição escondendo-se no Bosque de Hodmímir. Seria aqui, talvez a ligação do mundo pagão com o  novo mundo cristão que estava surgindo na época em que os textos foram escritos. Então, as lendas nórdicas serviriam como uma espécie de prelúdio aos acontecimentos que podem ser lidos na Bíblia, com Adão e Eva.

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Como o Edda poético foi escrito por volta do século XIII, época em que o Cristianismo já dominava a Europa, estudiosos entendem que o Ragnarok teria sido na verdade uma forma modificada do Armagedom encontrado na Bíblia. Seria uma forma adaptada às lendas dos povos nórdicos.

No Armagedom do cristianismo, o messias irá retornar a terra e haverá uma grande batalha contra Anticristo e seus servos malignos. Conta o livro de Apocalipse que o grande dragão fora aprisionado por mil anos. Mas que após esse período ele conseguirá se libertar da prisão e haverá a batalha final e o julgamento dos homens. Interessante ressaltar que há a presença da figura da grande serpente ou dragão, tanto na mitologia nórdica quanto cristã e em outras culturas, tais como os gregos, japoneses, chineses e os indianos.

Na Bíblia o anjo Miguel enfrenta o dragão em uma grande batalha, sendo a primeira batalha: “Houve uma batalha no céu: Miguel e seus anjos guerrearam contra o dragão. O dragão e seus anjos combateram, mas não conseguiram vencer, nem se encontrou mais o seu lugar no céu. O grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo e Satanás, o sedutor do mundo inteiro, foi derrubado, e seus anjos foram atirados com ele na terra”. (Apocalipse capítulo 12, versículos 7 ao 9).

Sendo banido para a Terra, Satanás passou a disseminar o pecado e a discórdia entre os humanos. Mas então ocorreu novamente outra batalha entre os anjos e os seguidores de Satanás. (Apocalipse, Capítulo 19, versículos 11 a 21).

Novamente a serpente e seu exército foram derrotados pelos anjos. Assim, um anjo aprisionou o dragão no abismo e ali ficaria preso por mil anos, quando seria solto novamente.Ao passar os mil anos, Satanás seria solto novamente e seduziria novamente os homens de todo o mundo. Logo depois ocorreria a última batalha e o julgamento final. Onde os pecadores seriam lançados junto com o diabo no lago de fogo e enxofre (Apocalipse, Capítulo 20, versículos 1 a 10).

Como no Ragnarok, o Armagedom bíblico também traz a ideia de que o mundo seria destruído com a última batalha, e tudo seria reconstruído em um novo mundo, conforme está em Apocalipse, Capítulo 21: “Então, eu vi uma novo céu e uma nova terra, porque o primeiro céu e a primeira terra desapareceram e o mar já não existe”.

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A Última Batalha no Silmarillion publicado

Apesar de ter sido desconsiderada no Silmarillion, a Última Batalha ainda permaneceu nele com várias referências, já que ele é produto da edição de escritos antigos do professor Tolkien.

A primeira menção no Silmarillion está no Capítulo II, “De Aulë e Yavanna”. Nessa parte diz que Aulë aos pais dos anões:

que Ilúvatar os abençoará e lhes dará um lugar entre os Filhos no Final. Então, seu papel será servir a Aulë e auxiliá-la na reconstrução de Arda depois da Última Batalha”.

Outra referência está no capítulo seguinte “Da chegada dos elfos e do cativeiro de Melkor”. Nessa parte Varda estava criando e organizando as estrelas no céu, antes da chegada dos elfos, formando o cinturão de estrelas no céu que é um “prenúncio da Última Batalha, que ocorrerá no final dos tempos”.

Em Akallabêth, a queda de Númenor,  está escrito o seguinte:

Já Ar-Pharazôn, o Rei, e os guerreiros mortais que haviam posto os pés na terra de Aman foram soterrados por colinas que desmoronaram. Conta-se que ali eles jazem, presos, nas Grutas dos Esquecidos, até a Última Batalha e o Juízo Final”.

Há também uma referência no livro Contos Inacabados, dando o nome élfico da Última Batalha “Manwe não descerá da Montanha antes da Dagor Dagorath, e a chegada do Fim, quando Melkor retornará”.

Nesse livro Christopher Tolkien faz uma nota dizendo que:

“Essa é uma referência à “Segunda Profecia de Mandos”, que não aparece no Silmarillion; sua elucidação não pode ser tentada aqui, já que exigiria algum relato da história da mitologia em relação à versão publicada”(nota 8).

Christopher Tolkien demonstra que o tema é complexo, pois diz respeito as intenções de Tolkien e o processo de escolhas editoriais do Silmarillion, o que só foi explicado melhor com as publicações dos doze volumes do The History of Middle Earth.

Desses trechos podemos afirmar que haverá uma batalha no fim dos tempos, mas não se sabe o que poderá acontecer após essa batalha. Mas de acordo o Ainulindalë haverá uma segunda música, em que os Filho de Ilúvatar participarão:

Nunca, desde então, os Ainur fizeram uma música como aquela, embora tenha sido dito que outra ainda mais majestosa será criada diante de Ilúvatar pelos coros dos Ainur e dos Filhos de Ilúvatar, após o final dos tempos. Então, os temas de Ilúvatar serão desenvolvidos com perfeição e irão adquirir Existência no momento em que ganharem voz, pois todos compreenderão plenamente o intento de Ilúvatar para cada um, e cada um terá a compreensão do outro; e Ilúvatar, sentindo-se satisfeito, concederá a seus pensamentos o fogo secreto.

Mas se for observado o fim do Quenta Silmarillion há o seguinte texto que de certa forma contradiz o Ainulindalë:

Aqui termina o SILMARILLION. Se ele passou das alturas e da beleza às ruínas e à escuridão, era esse outrora o destino de Arda Desfigurada; e, se alguma transformação houver, e a Desfiguração for corrigida, Manwë e Varda podem saber; mas isso não revelaram, e não está dito nas sentenças de Mandos”.

Tentando afirmar algo sem demonstrar uma incoerência entre essas duas partes, poderia se afirmar que o texto destacado do Ainulindalë, bem como as outras referências ao longo do Silmarillion, seriam uma lenda entre os elfos ou humanos do que poderia acontecer após a Batalha Final, com destaque na expressão “tenha sido dito” e não necessariamente o que poderá ocorrer, pois somente Manwë e Varda podem saber, mas não revelaram.

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A Segunda Profecia de Mandos

Os primeiros escritos do professor Tolkien sobre o fim dos tempos está no The Book of Lost Tales, escrito entre os anos de 1917 a 1919. Nele Túrin Turambar surgiria nos fins dos tempos e com sua espada negra derrotaria Morgoth.

Em 1926, aos escrever o Sketch of the Mythology, Tolkien ampliou a ideia dizendo que Melkor seria derrotado por Turin Turambar e que as Silmarils seriam recuperadas e utilizadas para reviver as duas árvores e o mundo seria novamente iluminado. Earendil renasce e navega com as Silmarils no seu barco protegendo o mundo.

Mais tarde, Tolkien aprofundou ainda mais sua noção do fim do mundo. Em 1930, ao escrever Qenta Noldorinwa, deu o nome dessas previsões de “profecias de Mandos” e que essa profecia era rumor contado entre os elfos e os homens. Morgoth conseguiria sair de sua prisão da Noite Eterna e destruiria o Sol e a Lua. Tulkas, juntamente com Fionwe e Turin Turambar lutam contra Morgoth, que é derrotado pela espada negra de Turin. As Silmarils são recuperadas da terra, céu e mar e Feanor as utiliza para reascender as Duas Árvores e o mundo se iluminará.Os elfos renascerão, os deuses se sentirão jovens novamente e os mortos levantarão. Mas não se sabe o que acontece com os Humanos, com exceção de Turin, que será considerado como um dos Deuses.

Mais tarde Tolkien reescreve novamente a profecia de Mandos. Em 1937, o Quenta Silmarillion fora entregue para publicação ao mesmo editor do Hobbit, mas foi rejeitado. Há pouca diferença em relação a sua forma anterior, com algumas peculiaridades. O texto referente ao fim dos tempos é o seguinte:

Assim falou Mandos em profecia, quando os Deuses se reunirem no julgamento em Valinor, e o rumor de suas palavras for sussurrado entre todos os Elfos do Oeste. Quando o mundo estiver velho e os Poderes se cansarem, então Morgoth, ao ver que a guarda dorme, passará pela Porta da Noite fora do Vazio eterno, e deverá destruir o Sol e a Lua. Mas Eärendel descerá sobre ele como uma chama branca e escaldante e o derrubará dos ares. Então a última batalha ocorrerá nos campos de Valinor. Naquele dia Tulkas lutará com Morgoth, e à sua direita estará Fionwë, e à sua esquerda Túrin Turambar, filho de Húrin, vindo dos salões de Mandos. E da espada negra de Túrin virá a morte de Morgoth e seu definitivo fim e assim os filhos de Húrin e todos os Homens serão vingados.

Posteriomente, a Terra deverá ser quebrada e re-feita, e as Silmarils serão recuperadas do Ar, Terra e do Céu. Pois Eärendel descerá e entregará a chama que ele guardava. Então Fëanor deverá pegar as Três jóias e as levará para Yavanna Palúrien; e ela irá quebrá-las e com seu fogo reacenderá as Duas Árvores, e uma grande luz surgirá. E as Montanhas de Valinor deverão ser niveladas, então a luz poderá passar por todo o mundo. Com aquela luz os Deuses se sentirão jovens novamente, e os Elfos acordarão e todos os mortos renascerão, e o propósito de Ilúvatar será cumprido em relação a eles. Mas sobre os Homens naqueles dias a profecia de Mandos não fala a respeito, e sobre nenhum homem é dito, com exceção de Túrin apenas, pois é dado a ele um lugar entre os filhos dos Valar.

Esse é o texto completo mais moderno escrito por Tolkien sobre a profecia de Mandos. No texto anterior a esse Túrin seria nomeado como um dos deuses, mas agora ele seria considerado como um dos filhos dos deuses, retirando a ideia de que um mortal poderia se tornar um Deus.

A Profecia de Mandos desenvolvida no final da década de 30 do século passado, também teve seu registro no pequeno livro O Hobbit. Antes de morrer, após a batalha dos cinco exércitos, Thorin diz: “Vou agora para os salões da espera, sentar-me ao lado de meus antepassados, até que o mundo seja renovado”. Mostrando a mesma ideia de que mundo seria refeito após um grande evento.

Entre os anos de 1950 a 1951, Tolkien não o reescreveu de forma tão completa o tema, mas apresentou algumas referências a Última Batalha no seu Silmarillion tardio. Inicialmente ele associou a estrela Menelmakar (Orion), ao Túrin Turambar que surgiria para combater Morgoth na Última Batalha. Mas posteriormente abandonou a associação dessa estrela ao herói.

Ao escrever O Senhor dos Anéis, a ideia do fim dos tempos e a Última Batalha ainda era aceita pelo professor Tolkien. A estrela Menelmakar aparece com seu nome em Sindarin: Menelvagor, quando Frodo e os outros Hobbits avistam o céu, mas não é feita a associação dela com o herói Túrin Turambar:

Lá em cima no Leste oscilavam Remmirath, as Estrelas Enredadas, e lenta acima da névoa a vermelha Borgil se levantava, brilhando como uma jóia de fogo. Então, por alguma mudança de ar, toda a névoa foi retirada como um véu; e ali subia, como se escalasse a borda do mundo, o Espadachim do Céu, Menelvagor com seu cinto brilhante”.

Também no Senhor dos Anéis há uma leve referências na canção de Tom Bombadil “Onde portões jamais se abrem, até que o mundo se conserte”.

Como visto acima, em Contos Inacabados, no ensaio sobre os Istari, escrito em 1954, há a referência a Dagor Dagorath, a Última Batalha no fim dos tempos. Mostrando novamente que até o término do Senhor dos Anéis (por volta da década de 1950) essa ideia ainda permanecia como parte de seu legendarium.

 

A profecia passa a ser uma criação dos homens

 

Até então a Segunda Profecia de Mandos era uma previsão típica da cultura dos elfos, com suas tradições milenares. Ocorre que Tolkien parece ter mudado esse aspecto em 1958, pois decidiu que essa não seria mais uma profecia dos elfos, mas dos humanos.

As histórias do Silmarillion seriam agora uma tradição dos Númenorianos e, portanto, textos que mesclaram seus mitos com as antigas lendas dos elfos que mantinham amizade no tempo auge de Númenor. Com a queda de Númenor e o exílio foram transportadas para Gondor e Arnor. (ver Morgoth’s Ring: Myths Transformed) De certa forma, isso justificaria a importância dada a Túrin Turambar na Última Batalha, onde ele derrotaria Morgoth com sua espada negra.

Dentro dessa nova concepção Tolkien destacou que os elfos não mais possuíam lendas sobre o fim dos tempos:

Vale ressaltar que os elfos não tinham mitos ou lendas que tratam do fim do mundo. O mito que aparece no final do Silmarillion é de origem númenoriana; é claramente feita por homens, de certa forma familiarizados com a tradição élfica. Todas as tradições élficas são apresentados como ‘histórias’, ou como contos do que foram outrora”. (Ver Morgoth’s Ring: Athrabeth Finrod Ah Andreth, Note 7)

Seguindo esse mesmo entendimento, por volta de dezembro de 1958, Tolkien escreveu no final do Valaquenta em sua versão mais tardia do Silmarillion:

Aqui termina O Valaquenta. Se ele passou das alturas e da beleza às ruínas e à escuridão, era esse outrora o destino de Arda Desfigurada; e, se alguma transformação houver, e a Desfiguração for corrigida, Manwë e Varda podem saber; mas isso não revelaram, e não está dito nas sentenças de Mandos”.

Observado que a profecia sobre o fim dos tempos não mais era produto dos deuses ou dos elfos, mas fruto da invenção dos homens, Christopher Tolkien entendeu que a ideia da profecia de Mandos havia sido abandonada por Tolkien como parte concreta do legendarium. Assim reproduziu esse trecho acima na versão publicada do Silmarillion, como já ressaltado, porém manteve as referências ao longo do livro.

Sabendo que as profecias do fim dos tempos é conhecida apenas por Manwë e Varda, mas que eles não revelaram, então isso tornaria a profecia feita pelos humanos inválida, já que essas informações permaneciam em segredo entre os deuses. De todo modo, a profecia do fim dos tempos passou a ter um grau de dúvida razoável.

 

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Os vários estágios de Arda

 

No trecho citado do Valaquenta de 1958 verifica-se a expressão “Arda Desfigurada” que merece uma explicação mais detalhada.

De acordo com as palavras de Manwë, no final dos debates dos Valar em As Leis e Costumes dos Eldar (texto escrito em 1958), entende-se que existem três tipos de Arda, conforme as mudanças provocadas pelas batalhas dos deuses contra Melkor:

1. Arda Não-desfigurada: É o mundo em sua forma original, refletindo a ideia dos Ainur e de Eru em sua intenção primária. Nesse estágio Melkor ainda não conseguiu interferir no mundo, ou seja, não o desfigurou.

2. Arda desfigurada: É o mundo após as modificações realizadas pela rebelião de Melkor. Esse é o estágio em que o mundo se encontra enquanto não for determinado o fim. Mas como é dito no Valaquenta, somente Manwë e Varda poderiam saber se o mundo seria corrigido.

3. Arda curada: É o mundo em que as desfigurações foram corrigidas após a Última Batalha. Embora tenha semelhança com a Arda Não-desfigurada não será a mesma coisa, como disse Finrod: “Essa Arda Curada não deverá ser a Arda não-desfigurada, mas uma coisa diferente e maior, mas ainda a mesma” (em Athrabeth Finrod Ah Andreth).

Embora nenhuma criatura possa saber o que acontecerá, Finrod ao que parece chega a imaginar como seriam os tempos após a reconstrução de Arda:

E de repente contemplei como numa visão Arda Refeita; e lá os Eldar completos, mas não terminados poderiam habitar no presente para sempre, e lá caminhar, talvez, com os Filhos dos Homens, seus libertadores, e cantar para eles canções tais que, mesmo na Alegria além da alegria, fariam os vales verdes ressoarem e os topos eternos das montanhas reverberarem como harpas”.

 

Sobre Andreth, a sábia

 

A profecia passa a ser uma autoria de Andreth, uma mulher sábia. Ela é uma humana da casa de Beor, filha de Boromir e irmã de Bregor e Beril (trisavô de Túrin Turambar) que viveram durante a primeira Era do Sol.

Andreth se apaixonou pelo elfo Aeglor, filho de Finarfin, mas eles não puderam se casar, pois havia uma lei proibindo casamentos naquela época entre guerras. Andreth se tornou amiga do irmão de Aeglor, o rei Finrod e frequentemente eles conversavam sobre diversos assuntos.

Foi a partir dessas conversas que surgiu o Athrabeth Finrod Ah Andreth, que é um texto escrito por Tolkien no ano de 1959 tratando de diversos assuntos. Esse texto segue o pensamento anterior do Valaquenta, de que ninguém pode saber o que acontecerá no fim dos tempos. Porém, ao longo do diálogo entre o elfo e a humana são levantadas algumas hipóteses sobre a Última Batalha e o que aconteceria depois.

Nesse novo escrito do professor Tolkien ainda se mantém a ideia de que ocorrerá um fim do mundo, em uma batalha entre aqueles que estão do lado de Eru e os que estão do lado de Melkor. Nessa batalha o mal será destruído o mundo será refeito novamente.

A ideia apresentada em Athrabeth Finrod Ah Andreth,é a de que Melkor seria o ser mais poderoso que habitava Arda e não poderia ser derrotado por ninguém, salvo se o próprio Eru, descesse ao mundo para o derrotar. Porém, essa é uma especulação dita no diálogo de Finrod e Andreth, em que aquele afirma que “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar”.

Importante ressaltar que o Athrabeth Finrod Ah Andreth, dentro do universo mitológico de Tolkien é um texto escrito por humanos, provavelmente númenorianos ou descendentes, conforme já ressaltado anteriormente. Assim, as ideias apresentadas não são definitivas e não podem ser consideradas como profecias que irão acontecer, mas projeções e hipóteses levantadas sobre o fim dos tempos.

O último texto sobre tema escrito pelo próprio Tolkien é datado de 1968, nele novamente Tolkien admite que a profecia de Andreth não é totalmente verdadeira:

As línguas Povo de Haleth não foram utilizadas, pois eles tinham perecido e não se reergueram novamente. A sua língua não será ouvido novamente, a menos que a profecia de Andreth, a mulher-sábia se prove verdadeira, que Túrin na Última Batalha deve retornar dos mortos, e antes que ele deixe os Círculos do Mundo para sempre deve desafiar o Grande Dragão de Morgoth, “Ancalagon, o negro”, e o matar esmagando sua cabeça”. (ver The Peoples of Middle-earth: The Problem of Ros).

Nessa última visão, a profecia passa a ser uma criação de Andreth, a mulher-sábia e não se tem prova de que ela é verdadeira. A mudança fundamental, em relação as ideias anteriores, é que Túrin Turambar não mais seria o responsável pela derrota de Morgoth, pois agora na última batalha ele iria derrotar o dragão Ancalagon, o negro.

 

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Conclusões

 

1 – A antiga referência a profecia como sendo pronunciada por Mandos foi abandonada. Ou seja, não pode ser aceita a ideia de uma “Segunda Profecia de Mandos”, como sendo parte das lendas escritas pelos elfos na mitologia de Tolkien.

2 – Nenhum dos deuses sabe a respeito do fim dos tempos, mas possivelmente Manwë e Varda sabem a respeito, mas mantém em segredo e isso não foi revelado por Mandos.

3 – Os elfos não tinham uma lenda sobre o fim dos tempos, portanto, a profecia sobre o fim dos tempos é uma criação dos homens, que misturaram suas crenças com os antigos relatos dos elfos que tiveram contato.

4 – A profecia foi feita por Andreth, a mulher-sábia, onde Túrin Turambar retornaria no fim dos tempos para derrotar o dragão Ancalagon. O fim dos tempos ocorreria com a vinda do próprio Eru para a Terra e a derrota de Morgoth. O mundo seria refeito e todos os malefícios de Morgoth seriam eliminados do mundo. Sabendo que as profecias do fim dos tempos é conhecida apenas por Manwë e Varda, mas que eles não revelaram, então isso tornaria a profecia feita pelos humanos inválida, já que essas informações permaneciam em segredo entre os deuses, pois uma simples mortal não teria poderes acima Mandos ou de qualquer dos Valar. Dessa forma, para se manter a lógica do legendarium a segunda profecia de Mandos não foi aceita no Silmarillion como algo canônico. Em resumo nas palavras de Finrod:  “Essas coisas estão além do alcance da sabedoria dos Eldar, ou talvez da dos Valar”.

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3 comentários

  1. Aluizio Ribeiro /

    Muito bom esse artigo, sempre tive curiosidade de saber sobre esses assuntos da Terra Média. Parabéns, valeu !

  2. Filipe Nascimento /

    Ótimo artigo, parabéns e obrigado…

  3. Bruno Augusto Borba Baggins /

    nossa, cara, voce esta a cada dia me surpreendendo mais e mais! parabens eduardo!!

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