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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 06

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média.

Você pode ver as partes anteriores clicando nos links:

Parte 01 -A Floresta das trevas

Parte 02 – Caminho pelo Rio

Parte 03 – Rio Abaixo

Parte 04 -Cativo

Parte 05 – Ainda há esperança

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Parte 6 – Sonhos

 

“Aquela delicada mão lhe tocou, e ele sabia quem era. Tão clara, de dedos pequenos e bem torneados. Um dia repousaria no anelar da mão esquerda dela uma aliança. Ele esperava assim o fazer, olhando em seus olhos enquanto lentamente colocaria o anel em seu dedo, simbolizando diante de todos os presentes o seu compromisso eterno de amá-la e zelar por ela.

– Você sempre olhando o mar ao luar. – sorriu – Em noites de lua é certo lhe encontrar aqui Anárion!

Olhou-a com calma assim que ela tomou lugar ao seu lado. Contemplou sua face, e era como estar nos céus. Tão bela, meiga, perfeita diante de seus olhos. Possuía o mais lindo sorriso. Jamais havia visto algo tão acolhedor, carinhoso e alegre. Quando seus olhos encontraram os dela, viu neles o Grande Mar, e desejou navegar aquelas águas. Um olhar sincero, amoroso, doce. Um olhar cheio de vida, acalentador. Como se sentia seduzido por aquele olhar, como adorava contemplar seus olhos, como era apaixonante encontrar os olhos dela.

– Está tudo bem? – Outro sorriso, os olhos dela procurando respostas!

 – Está sim,… mas acabou de melhorar! – Um sorriso de volta, um segurar de mãos, mais olhares que se cruzam. Ele estava apaixonado. Ela estava apaixonada.

Ela não falou mais nada, apenas repousou a cabeça no ombro de Anárion, segurando timidamente dois dedos de sua mão. Tinha um coração lindo, era uma pessoa de valores raros, e mesmo com a pouca idade, já mostrava-se madura em muitas coisas. Ele enxergava a beleza dela em sua totalidade. Não apenas a beleza física, mas principalmente, sua beleza interior. Além de todas as camadas, visualizava sua essência, e muito mais por isso do que por qualquer outra coisa, a amava demais.

– Gosto de olhar a lua, o mar, os dois juntos. A lua reflete nas águas, e as águas se tornam como prata. Isso sempre me faz lembrar de você Calithil. A lua é como seus olhos, ternos, cheios de luz, e encantadores. As águas movendo-se ao luar são como seus cabelos ao vento, loiros, lindos, perfumados. Em você está toda a minha inspiração, toda a minha poesia. Tudo o que escrevo, canto, declamo,… tudo vem de você!

Segurou mais fortemente a sua mão e a olhou de frente. Sentia o coração quase explodir e voar pelo peito, mas respirou fundo, sorriu, e continuou:

– Nos conhecemos há muitos anos, desde que você era muito pequena e tomava lições com o mesmo mestre que havia me ensinado um dia. Por alguns anos estive em Minas Tirith, e não nos vimos, mas no dia em que retornei, quando repousei sobre ti meu olhar, eu descobri o amor. Amor sobre o qual sempre havia lido, mas nunca entendido. E eis que o descobri de repente e pura e simplesmente aqui, em você. Desde então meu coração bate no compasso de seu sorriso, de seu olhar, e sou completamente apaixonado por ti linda Calithil!

Ela contemplou a face dele, com um sorriso apaixonado, e lhe disse em sua doce voz:

– Nesses olhos que agora estão sobre mim, encontrei também o amor. Desde que começamos a conversar, você passou a habitar os meus sonhos, e já não consigo viver sem pensar em ti, sem desejar estar contigo, sem sorrir a cada vez que vens aos meus pensamentos. Sei que o amo Anárion!

Era tarde, muito tarde, mas eles continuavam ali, sentados naquele terraço, diante do Grande Mar. Logo o dia iria amanhecer, o sol nascer, a vida recomeçar como sempre fazia a cada manhã. Não havia lugar melhor. Aquele era o momento.

– Calithil, eu a amo muito, com tudo o que tenho e tudo o que sou. Você me daria a honra de ser minha noiva? – Falou o Bardo com carinho.

– É sério? – Perguntou ela, pega de surpresa.

– É muito sério! – Sorriu ele, juntando as mãos dela nas suas, olhando-a profundamente.

 – Sim. Eu aceito! – Sorriu ela, sempre econômica nas palavras, mas transbordando alegria em seu sorriso e olhar. Definitivamente, ela o amava muito.

 – Eu a amo Calithil! – Ele disse.

 – Eu também o amo Anárion! – Ela disse.

 Os lábios se encontraram num suave e apaixonado beijo. Ele a tomou então nos braços e ela repousou a cabeça em seu peito. Ele lhe beijou a testa em sinal de respeito. Ela o abraçou forte e soube que a partir dali, jamais estaria solitária novamente”.

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“Saudações meu caro irmão. Mergulhado em livros novamente? Fico pensando se um dia formos atacados, se irás jogar teus livros contra os inimigos. Talvez um daqueles mais pesados possa deixar um deles atordoado! – Riu, enquanto adentrava o quarto de Anárion.

Saudações Adriorn! – Falou Anárion, em tom tranquilo e sério.

– Você não cansa de tanta leitura? Em vez de se dedicar tanto aos livros, porque não vai ao pátio de armas treinar esgrima ou luta com lança? Quem sabe arco e flecha, já que pareces gostar mais? O treino físico te seria muito mais proveitoso, principalmente por seres mais franzino. Quem sabe assim poderias durar um pouco mais nas justas contra mim! – Foi novamente irônico, sentando-se sobre uma mesa, enquanto mordia uma vermelha maçã.

 – Você precisa dos exercícios para desenvolver o corpo meu irmão, na mesma medida em que eu preciso dos livros para desenvolver a mente. Acredito no equilíbrio entre os dois, entre a pena e a espada. – Anárion fechou o livro, ficando de pé e indo em direção à varanda. Sem transpor o portal, contemplou o mar.

 – E eu acredito no braço forte, na habilidade com a espada, e no golpe certeiro. Em pulso firme e em força. Por Gondor, você e seus livros me dão nos nervos. Umbar se levanta como uma ameaça a cada dia, e você lê. Diga-me, que proveito terão os livros quando a batalha chegar? – Ficou também de pé, tomando a direção de sair do quarto. – Nosso pai nos aguarda. Ele pediu para nos encontrarmos com ele na sala de reuniões. Teremos um conselho. – Adriorn saiu do quarto e caminhou pelo corredor. Durante algum tempo seus firmes passos ainda podiam ser ouvidos. Mais alto e corpulento do que Anárion, ostentava em todo o seu jeito de ser sua força. Nada lhe dava mais orgulho do que seu porte e a habilidade nas lutas. Seja com espada ou lança, Adriorn era um oponente voraz e difícil de ser batido.”

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“- Sentem-se todos! – Galdor, senhor da província de Belfalas, vassalo de Gondor, havia falado. Sua voz poderosa e gutural logo estrondou por toda a sala. Ele era pai de dois filhos: Adriorn, o primogênito, e Anárion, o mais moço. Presente na sala de reuniões, além de Galdor e seus dois filhos, estava mais um homem: Lodegard, principal conselheiro de Galdor, chefe da família mais tradicional e rica da província. Ele era o pai de Calithil. Um homem bondoso e prudente, extremamente dedicado ao senhor da província. Nos últimos quarenta anos, ele e Galdor estiveram à frente de todos os assuntos de Belfalas. Eram amigos de longa data e Lodegard devotava um respeito e obediência muito grande ao seu senhor. Não ousava contrariá-lo, mesmo nos momentos em que a impetuosidade do governante trouxe complicações para a província. Tinha a natureza pacata, embora fosse um grande guerreiro. Essa natureza se percebia facilmente em seu jeito de falar e de olhar.

 – Comecemos então, pois o tempo urge e outros afazeres nos aguardam. As palavras devem ser poucas, mas suficientes. As ações devem ser muitas e eficientes! – Galdor estava um pouco agitado, como sempre ficava diante de notícias sobre inimigos. Era um governante bom para a província, muito embora fosse explosivo, impetuoso e duro. Com mão de ferro comandava Belfalas, principalmente as tropas. Não permitia erros, e disciplinava seus comandados com firmeza. Era admirado por muitos e evitado por muitos mais ainda, mesmo assim, era um dos maiores senhores de Gondor daqueles tempos, e seu nome era temido entre seus inimigos, dentre estes, o principal eram os Corsários de Umbar.

– Chamei-os aqui para lhes comunicar decisões importantes que tomei, para o bem de nossas famílias, para o bem de Belfalas e do nosso povo. Estou cansado e velho para as batalhas, e já não posso estar à frente de tropas em combate, ou ir e vir a Minas Tirith ou Dol Amroth sempre que sou necessário. A ameaça de Umbar cresce, e mais navios são vistos organizando-se em seu litoral por nossos enviados. Temo que logo eles nos ataquem, e devemos estar preparados. Assim, depois de muito pensar, tive algumas ideias e as levei até Lodegard, que comigo ponderou sobre as mesmas. Restaram algumas decisões. – Galdor respirou fundo, lançando um olhar firme a cada um dos presentes.

– Adriorn, a partir de hoje, não serás mais o capitão das tropas da província. Esta tarefa caberá agora ao teu irmão, Anárion, que não será apenas líder dos arqueiros, mas capitão de todo o exército. Tu Adriorn, agora serás o príncipe regente de Belfalas. Tua autoridade será total nesta província, e somente eu poderei anular as tuas decisões. Participarás dos conselhos com os outros soberanos sempre que for necessário, e comandarás nossos exércitos em caso de batalha, ficando o teu irmão sob as tuas ordens. – Por um tempo Galdor estudou os rostos de seus filhos. Anárion não havia manifestado qualquer emoção, continuando como estava; já Adriorn, mesmo sem proferir palavra, era a imagem do orgulho.

– Um senhor de província em Gondor deve ser um homem respeitado, prudente e sério, e acima de tudo forte e poderoso. Dessa forma, entrei em acordo com Lodegard para unir nossas casas através de um matrimônio. Tu Adriorn, irás se casar com Calithil, filha de meu conselheiro. Esse acontecimento será importante e te dará crédito e respeito ainda maiores do que os que já ostentas por tua força, e por meu nome. O povo te… – Galdor foi interrompido por Anárion, que levantando-se, falou alto, visivelmente emocionado.

– NÃO meu pai, não! Não podes unir Adriorn e Calithil em matrimônio. Eles sequer se amam! – Argumentou Anárion.

– Dose suas palavras e não me interrompa Anárion. Deixe o amor para suas poesias. Estamos tratando de interesses de estado e isso está acima de sentimentos baratos – Rebateu Galdor.

– Não guardarei para meus livros os meus próprios sentimentos, pois sou eu quem ama Calithil, e nisso sou correspondido. Há alguns dias estivemos juntos e eu a pedi em noivado. Iríamos comunicar quando chegasse o tempo, por isso o senhor não pode permitir que meu irmão a tome como esposa. Ele não a ama, mas sim eu a amo!

– Você quer o governo da província? Quer que o filho mais moço suplante o primogênito, para a desonra de seu irmão e vergonha de nossa família? É isso Anárion?

– Eu não desejo o governo da província, das tropas, ou de qualquer outra coisa. Só desejo poder desfrutar dos meus dias ao lado daquela que amo, e que me ama. Senhor Lodegard, eu lhe imploro, entenda nossa situação e nos conceda essa união!

– Sou solidário a seus sentimentos jovem Anárion, mas os interesses de Belfalas estão além de meus desejos. Sei dos sentimentos de Calithil por ti, mas já comuniquei a ela sobre a nossa decisão e não me levantarei contra seu pai. Peço que entendas, pois os assuntos do estado estão acima dos nossos próprios interesses! – Lodegard estava calmo, e até solidário a Anárion, mas jamais iria se levantar contra a vontade de Galdor.

– Pai, eu lhe tenho sido um filho devoto a tantos anos, nunca o envergonhando em nada. Por minha mãe que partiu dos círculos do mundo, lhe imploro, não permita essa união.

– Já chega Anárion. Deixe sua mãe em paz em seu descanso. Vergonhoso é o que fazes agora, não usando de toda a sabedoria que aparentavas ter para ver a necessidade do nosso povo. Adriorn será senhor de Belfalas e Calitihil será sua senhora. As nossas famílias unidas darão poder ao governante, e não abrirei mão disso.

– Não se trata dos interesses do povo meu pai, e sim dos seus. Lodegard é seu conselheiro e não ousa lhe enfrentar. O senhor governa com mão de ferro, e ninguém pode se opor à sua vontade. O senhor já perguntou a Adriorn se ele deseja se casar com ela? A vontade de seus próprios filhos lhe importa?

– CALE-SE ANÁRION! Eu não discutirei mais este assunto. A decisão foi tomada e será levada a cabo. Cumpra o seu dever para com Gondor e capitaneie as tropas. Você me deve obediência, por isso, não me obrigue a cobrá-la! – Duro foi Galdor em suas palavras, e estas golpearam profundamente a Anárion. Diante da dureza do pai e do não envolvimento de Lodergard e Adriorn, sentiu-se só Anárion, e entendeu que não teria como sobrepor a vontade de seu pai.”

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“- Com sua licença! – Sem esperar resposta, Anárion saiu da sala. Saiu pelos corredores em direção ao seu quarto, quando em um dos pátios encontrou Calithil. Quando os olhos deles se encontraram, ambos estavam em lágrimas. Ela sabia da decisão de seu pai, e não sabia o que fazer ante aquilo. Sabia da dureza de Galdor e que Anárion não conseguiria suplantar sua vontade. Ele por sua vez, sabia que ela sofria com aquilo, mas era escrava da vontade de seu pai. Ela teria de cumprir aquele destino, e mesmo o amando, seria uma esposa devota à seu irmão, como sua educação e o caráter ensinaram a ser.

Doloroso era o momento para Anárion e ele mergulhou no mais profundo de si em busca de como agir, mas só sentia o coração doer, as lágrimas rolarem pelos olhos, o simples pensar no futuro lhe era como espadas transpassando seu corpo. Aproximou-se dela, e sem palavra dizer, lhe beijou o rosto. Sussurrou que a amava, e saiu rapidamente, indo para seu quarto. Trancou-se em seus aposentos, e por muito tempo chorou. Depois começou a pensar sobre tudo que havia acontecido, e percebeu que jamais conseguiria viver ali. Ver aquela que tanto amava nos braços de outro, mesmo sendo o seu próprio irmão, era um golpe duro demais para suportar. Foi nesse momento que foi até sua varanda, mas não olhou em direção ao mar. Caminhando dessa vez pelos terraços, olhou mais para o norte, e viu as Montanhas Azuis. Lembrou então de tudo sobre o qual lera, das diversas terras que existiam para além delas. Seu coração estava muito ferido, e a dor lhe inundava o peito. Sabia que Calithil não teria coragem de ir com ele, e ao mesmo tempo, sabia que iria facilitar tudo para ela, que também estava sofrendo, se não mais estivesse ali. Foi assim que decidiu partir, decidiu deixar tudo o que tinha e viajar sobre um outro nome pela Terra-Média. Conhecer os lugares sobre os quais apenas tinha ouvido falar, e tentar esquecer da vida que havia levado até então no sul de Gondor.

– Meu pai sentirá minha falta, mas os assuntos de estado estarão assegurados. As tropas terão um outro líder. Calithil sofrerá, assim como eu sofro, mas sei que sofreríamos ainda mais convivendo juntos sem poder estar juntos. Sim, é o que devo fazer. Abandonarei meu nome, meus títulos, e minhas posses, e com a noite, devo partir. Que esta noite a lua não venha, para que não me lembre daquela que amo, e assim, torne menos difícil minha jornada. Adeus!”

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– Bardo, Bardo… rápido, acorde! – Desperto de seus sonhos, Anárion viu diante de si Elmmeth, Rasgul e um outro Oriental. Percebeu que ele e seus companheiros estavam livres dos grilhões. Meio sem entender o que estava acontecendo, seguiu os outros e quando saiu da rústica casa, viu a negra noite lá fora, sem lua, da mesma forma como estava no dia em que ele partiu de Belfalas. Entendeu então que estavam fugindo, com a ajuda do Oriental desconhecido. Envolto em seu trajes negros e com o rosto parcialmente escondido, ele parecia frio e determinado, e realmente começou a conduzir os três cativos para a fuga através da noite.

 – Um Gondoriano e um Rohirrim fugindo de Rhûn ajudados por Orientais… – pensou o Bardo – será que estou novamente sonhando?

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  • ERRATA: Gente, me perdoem, mas onde está escrito MONTANHAS AZUIS, o correto seria MONTANHAS BRANCAS. Acho que tenho falado tanto em O Hobbit que errei a cor ^^