Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Contos do Bardo por Sandro França – Parte 04

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média.

Você pode ver as partes anteriores clicando nos links:

Parte 01 -A Floresta das trevas

Parte 02 – Caminho pelo Rio

Parte 03 – Rio Abaixo

 

—————————————————————————————————————-

Parte 4 – CATIVO

 

“- Gildrooon, corra Gildron, eu os enfrentarei, fuja!

Com a habilidade incomum no manejo da espada, o guerreiro lutava contra os tantos Orientais que pareciam aparecer infinitamente detrás das poucas árvores do lugar. O anão ferido tentava fugir, enquanto o bravo guerreiro vertendo sua armadura em tons de prata e azul celeste, gritava para que ele se apressasse, enquanto estancava da forma que podia as ondas de ataques dos Easterlings.

 – Gildrooon, depressa, depressa, fuja!

Um, dois, cinco, oito, dez, treze,… quantos soldados vestidos em negro mais seriam abatidos até que o mestre anão estivesse a salvo? São como formigas saindo às pressas de um formigueiro para atacar aqueles que lhes incomodaram.

 – Gildron, não!

Um machado dourado voou no espaço, saindo das fortes mãos do líder dos Orientais. Sua passagem pelo ar foi rápida e precisa, e em instantes o crânio de Gildron voou pelos ares após o forte impacto. Duas, quatro,… várias mãos vestidas de negro dominaram o cavaleiro do sul, e ele apenas viu o corpo do anão caindo inerte.

 – Gildrooon, nãooooooo…!”

 – …nãoooooo! – Levantou-se com os punhos cerrados, o rosto muito suado e os cabelos embaraçados. Sua respiração estava tensa, e boa parte dos músculos extremamente contraídos.

 – Um pesadelo… foi apenas mais um pesadelo! Por Elbereth! – Relaxou aos poucos os braços, e repousou a cabeça entre as mãos, curvando-se para a frente. Ainda sentia dores na nuca, mas já sentia-se um pouco melhor. Porém estes pesadelos o haviam acompanhando nos últimos dois dias, sendo este o tempo que durou a difícil viagem pelas savanas que o levou, juntos com outros cativos, até Rhûn, a famosa e temida cidade dos Orientais, conhecidos como Easterlings nos reinos dos homens mais à ocidente.

Nenhum conforto teve durante todo o trajeto. A comida era escassa, assim como a água, e as dores na nuca o fragilizava. Não havia notado, mas tinha um ferimento no braço, provavelmente fruto de um golpe de cimitarra, durante a rápida luta que travou contra os Orientais quando foi atacado no Rio Corrente. Haviam mais cinco cativos na carroça em que foram transportados, todos em condições deploráveis, mas pouca atenção deu a estes, preocupando-se, conforme suas forças permitiam, apenas em prestar atenção no caminho que a comitiva fazia. Guardava em seu coração parcas esperanças de conseguir se libertar um dia e voltar, embora soubesse da quase impossibilidade de tal fato diante da fama que tinham os Orientais, de como eram descritos como severos e impiedosos com seus cativos. Provou disso quando chegaram ao cativeiro em Rhûn. Não sabia a razão, mas logo percebeu que conquistou a antipatia de um dos Orientais de forma especial. Havia prazer em seus olhos em infligir dores ao Bardo. Uma forte pancada no queixo o fez cair quase desmaiado quando foi forçado a entrar no cativeiro. Lá dentro, outros tantos homens estavam presos. As dores se elevaram e ele se rendeu, ficando inconsciente.

Lembrou de ter acordado em uma noite fria e olhado rapidamente as estrelas, mas logo voltou a dormir como forma de fuga daquela realidade. Esteve desacordado durante quase todo o dia seguinte à sua chegada, até que despertou do pesadelo. Quando recobrou a consciência e recuperou-se do impacto do terrível sonho, ergueu a cabeça e recostou-se em um canto, passando os olhos ao redor, acostumando-se com a claridade. Foi só então que começou a entender aos poucos a situação em que estava.

A cela em que estava preso com pelo menos mais doze homens era feita com grossos galhos de árvores retorcidos, fincados no solo e unidos em seus pontos de cruz por amarras de ferro. O chão era de barro, e não havia proteção contra intempéries. Durante o dia ficavam expostos ao calor torturante, e à noite, era o frio que lhes vinha atormentar. Pelos buracos na cela, comida era jogada duas vezes ao dia, e cabia aos detentos lutarem cada um por sua porção, sob pena de definharem até a morte se não conseguissem uma parte para comer. Quando saiam para os trabalhos forçados podiam encher em uma fonte próxima seus pequenos alforjes com água, feitos estes de couro mal curtido. Essa provisão de água deveria durar todo o dia, pois não tinham direito a uma segunda abastecida. A maioria dos homens cativos estavam muito magros. Quase todos tinham cabelos e barba muito grandes, emaranhados e sujos. Suas roupas estavam gastas e não possuíam calçados. De todo o grupo, dois chamaram a atenção de Anárion. Um homem de olhos mais puxados e pele morena, assemelhando-se aos próprios Orientais. Ele tinha estranhas cicatrizes em seu corpo e lhe faltava uma das orelhas. Mas o que realmente chamava a atenção nele era sua boca. Aproximadamente metade dela estava costurada de forma rude, o que dificultava e muito ao mesmo comer e beber, e ele nunca falava. Junto a ele estava um homem mais alto e corpulento, de pele muito clara, olhos verdes e forte semblante, com cabelos longos, louro castanhos. Era ele quem ajudava o homem da boca costurada a se alimentar, e durante algum tempo ficou encarando o Bardo, sempre com o semblante sério.

À noite, após despertar de mais um pesadelo, Anárion recostou-se novamente e observou a cela. Teve a impressão, no escuro, de que todos os homens dormiam. Sentia a cabeça doer, o braço latejar, e parecia estar com febre. Seus lábios estavam um pouco rachados, e tinha muita sede.

– Se não cuidar desse ferimento, irá morrer cavaleiro. – Uma forte voz se dirigiu ao Bardo na noite. Era o homem loiro. Arrastou-se mais para próximo, e lhe estendeu seu alforje de água e uma pequena vasilha com algo como uma pasta. – Tome, beba um pouco de água e passe isso em seu ferimento. Se não for forte cavaleiro, sucumbirá em alguns dias.

Anárion tomou grandes goles de água, e era como ganhar vida novamente. Pegou então a pequena vasilha e começou a espalhar um pouco da pasta em sua nuca e seu braço machucado.

– Obrigado. Qual o seu nome senhor?

– Elmmeth, de Rohan. E você cavaleiro, quem é?

– Não sou um cavaleiro, apenas um Bardo…

-…Assim como eu sou apenas de Rohan. Diga-me a verdade cavaleiro, e lhe direi a minha.

– Sou Anárion, filho de Galdor, nasci em Belfalas.

– Meu nome é mesmo Elmmeth, e sou mesmo de Rohan. Sou filho de Eliefren. Sou um capitão de cavaleiros no folde oriental.

 – É um prazer conhecê-lo Elmmeth, filho de Eliefren, embora as condições não sejam agradáveis. Como descobriu que sou um cavaleiro de Gondor?

 – Poucos nascidos entre os homens conhecem as coisas dos elfos. Elbereth não é ninguém por quem clamar em Gondor ou Rohan, mas apenas em Gondor e entre alguns guardiões no norte se é conhecido o significado.

 – Você está certo. Agora diga-me Elmmeth, como veio parar aqui?

 – Longa história Anárion, e da mesma forma triste.

 E foi assim que Elmmeth começou a contar o que lhe havia sucedido. Estava com outros oito companheiros patrulhando a costa oeste do Grande Rio, quando foram atacados por um grupamento de orcs. Ao que parecia, tinham invadido as suas terras para saquear algumas vilas e roubar cavalos que seriam levados à Mordor; mas não lograram êxito. O ataque foi rechaçado, e os cavaleiros atravessaram o rio empreendendo uma caçada aos remanescentes do lado leste, no ermo. Elmmeth então confessou que por sua prepotência fizeram isso, arriscando-se além de suas terras. Conseguiram alcançar e matar os orcs, mas na volta, foram atacados por Orientais. Há tempos não tinha ouvido falar de atividades por parte destes tão a oeste, mas seus dedos crescem à medida que o poder de Mordor cresce, e ao que parecia, tropas e mais tropas estavam sendo arregimentadas dia a dia em Rhûn para lutarem ao lado das tropas do Inominável. Os companheiros de Elmmeth foram quase todos abatidos, ao menos é do que ele se lembra já que seu cavalo foi ferido e ele caiu com o mesmo, tombando em um matagal e ficando desacordado.

Quando recobrou a consciência, viu que, não se sabe por quais forças, não havia sido encontrado pelos Orientais, então resolveu retornar para Rohan, mas não estava consciente da direção já que densas nuvens dominavam os céus, o deixando sem ter como orientar-se. Vagou por um dia e meio nas Terras Ermas, até que encontrou uma família de Orientais fugindo de Rhûn, ao que parecia. Quando viram Elmmeth, ficaram assustados, e o chefe da família tentou lhe enfrentar em combate. O Rohirrim o teria matado se não fossem os gritos de sua esposa. Eles tinham uma filha doente e estavam desesperados. Elmmeth teve compaixão deles, e resolveu ajudar a menina, usando os poucos conhecimentos de cura que tinha, e os parcos materiais, e eles o ajudaram com água e comida. Aguardaram a melhora da menina por dois dias, já que ela não estava em condições de continuar viajando. No terceiro dia, seguiram para o oeste, mas antes de alcançarem o Anduin, foram encontrados e capturados por batedores Orientais, que pelo visto, estava procurando os fugitivos. Rasgul viu sua esposa e filha serem mortas como punição por sua fuga. Ele tinha dívidas de jogo em Rhûn e seria tomado como escravo, juntamente com elas, segundo a lei deles, por isso tentou fugir.

A ira o dominou e ele arremeteu com as próprias mãos nuas contra os Orientais, mas o que poderia fazer? Foi dominado e torturado durante toda a viagem de volta, tendo o corpo marcado por faca, para a pura diversão de seus captores, a cada parada para acampar. Seu senhor mandou que sua língua fosse cortada, e metade de sua boca costurada, e ele foi jogado na cela para morrer. Desde então Elmmeth vinha cuidando dele como podia. Rasgul conhecia bem aquele lugar e seus costumes, e poderia ser fundamental para qualquer tentativa de fuga ser bem sucedida.

Anárion logo percebeu o que se desenhava diante de si, e apenas olhou Rasgul por um tempo. Apiedou-se de sua situação e jurou em seu interior somar esforços com Elmmeth para fugirem daquele lugar o quanto antes.

Elmmeth perguntou a Anárion sobre os motivos que o levaram até Rhûn, e após saber, sobre os motivos que levaram o Bardo para esta aventura no norte da Terra-Média. Conversaram sobre isso durante algumas horas, até que o sono dominou o Rohirrim.

– Descanse agora Bardo. Será melhor que seja conhecido por aqui assim. O ódio dos Orientais por nossos povos é antigo, e se soubessem de nosso nascimento, não sei o que poderia fazer conosco. Enquanto escravos, ainda temos tempo.

– O capataz disse que amanhã iríamos para as cargas. O que seria isso?

– Ah… que pena. Aos olhos dele, você já tem força suficiente e irá levá-lo conosco para os trabalhos forçados. Carregamos água, minérios, pedras e outras coisas para as forjas, que ficam mais perto das colinas. Outros trabalham na extração de materiais. Armaduras, lanças, machados e cimitarras são feitas aos montes todos os dias. Rhûn se prepara para a sua própria guerra, ou para lutar nas guerras de outros. Agora descanse, pela manhã estaremos juntos.

– Obrigado Elmmeth, e conte comigo para ajudar no que for preciso. Você tem a minha palavra!

O jovem Bardo recostou sua cabeça novamente, observando a lua que agora ia alta. Elevou seus pensamentos, o que sempre gostava de fazer, e lembrou de tudo que o levou até ali. Tentava entender os desígnios por trás destes fatos, mas só via uma palavra em seu coração: esperança. Resolveu acreditar nas forças que se moviam para o bem naquele mundo, e em seu coração buscou refúgio e paz. Lembrou daquela que amava, e para a qual vivia. Sentiu saudades de seu sorriso, seu olhar, sua doce voz, e jurou pela Árvore Branca em seu interior que lutaria todos os dias, a partir dali, para voltar a ver sua bela face novamente, nem que fosse por uma última vez.

Divagou em pensamentos durante um tempo, e antes de adormecer completamente, sussurrou:

– Calithil!

facebooktwittergoogle_plusredditby feather
  • Lívia Lima Noronha

    Sandro amei.. Texto bem elaborado… entrei completamente na história… muito bom mesmo!!! Parabéns!!!

  • http://www.facebook.com/max.francadapaz Max França da Paz

    Li antes e Li novamente, muito bom, estou para comentar que é o texto é muito bom, e te desejo muito sucessos pra ti meu amigo! A cada capitulo fica melhor e nunca saberemos como será o fim até chegar!

    • http://www.facebook.com/katsumoto.hideyoshi Sandro França

      Obrigado pelas palavras Max. Esse retorno dos leitores é fundamental para assegurar que estamos no caminho certo. Fica em paz!

  • http://www.facebook.com/renan.soares.16 Renan Soares

    Gostei. Tolkien abordou pouco o universo dos orientais (até pelo seeu pezinho no racismo rs) e por isso é interessante ver mais algumas coisas sobre eles.

    • http://www.facebook.com/katsumoto.hideyoshi Sandro França

      Exato, e talvez eu soe até um pouco “racista” também, por firmar certa concordância com Tolkien, mas tentarei mostrar a sociedade deles sob um outro ponto de vista, na figura de Rasgul. Será breve, mas espero que seja percebido :)

  • Diogenes Sanctus

    Muito apreciavel! Como é bom ler textos epicos com influencia no Universo Tolkien… Parabéns amigo! Sua criatividade está cada vez melhor

    • http://www.facebook.com/katsumoto.hideyoshi Sandro França

      Obrigado meu irmão, e continue curtindo :)

  • LAUSEMAR ARAUJO

    PUXA !!! PARABÉNS. BELÍSSIMO TEXTO.QUE PRAZER VOLTAR A CAMINHAR NA TERRA MÉDIA EM NOVAS HISTORIAS SOB VISÃO DE UM FÃ ASSÍDUO DO MESTRE J.R.R. TOLKIEN. VÁ EM FRENTE !!!

    • http://www.facebook.com/katsumoto.hideyoshi Sandro França

      Muito grato pelo comentário Lausemar. Esteja em paz e seja muito bem vindo aos contos ^^