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Contos do Bardo por Sandro França – Parte 13

 

Temos o prazer de anunciar a publicação de mais um texto de nosso amigo o escritor Pernambucano Sandro França (Anárion), contando suas belas histórias ambientadas na terra média. Você pode ler as partes anteriores na seção dos contos do Bardo AQUI.

 

13 – CAMINHO PARA O SUL

 

– Adeus Anárion, filho de Galdor. Que sua viagem seja tranquila e rápida, e que com força chegues à tua terra. Que os Dúnedains do Sul prevaleçam contra o mal de Umbar. Que as bênçãos de elfos e homens estejam convosco! – Elrond estava sereno, e seu semblante era uma expressão pura da sabedoria de muitos anos.

– Não tenho palavras suficientes na língua de elfos ou homens para expressar minha gratidão por tudo o que fez por mim, Mestre Elrond. Sinto-me mais que honrado pelo tempo em vossa casa, e parto agora já carregando o desejo de retornar um dia sob ventos mais suaves. – Anárion prestou uma profunda reverência, prontamente respondida pelo senhor da Última Casa Amiga.

– Vamos Ilidan! – Continuou Anárion – É chegada a hora de novamente nos lançarmos pelas trilhas do mundo. O caminho que faremos confio a ti, pois só a partir do Desfiladeiro de Rohan eles me são conhecidos. Partamos em paz, e que aproveitemos o dia para avançarmos muito. – Sobre um cavalo alto e forte, o jovem Bardo passou sobre a ponte acima do rio que cortava o vale, e começou a subir a longa trilha que ziguezagueava em saída de Imladris.

Ilidan sorriu, e meneou a cabeça numa gentileza ao Bardo. Então tomou também seu cavalo, e logo ambos avançavam lado a lado pelo caminho. A trilha subia a encosta daquele lado. Por três vezes um viajante mudaria de direção, até atingir outra ladeira mais reta, voltando a mudar novamente mais duas vezes, até atingir as saídas entre duas formações rochosas, algo quase imperceptível para quem se aproximava de fora. Eram os Portões de Imladris, como eram conhecidos. Dois elfos, pelo visto sentinelas, saudaram em sua própria língua os viajantes quando estes passaram. O ar, o céu, os pássaros, as árvores, tudo parecia fazer parte de uma grande sinfonia chamada Rivendell, que com muito custo, mas sob o peso da necessidade, Anárion agora abandonava, lançando-se novamente em uma nova jornada, ao que parecia, a derradeira desde que deixara Belfalas. Era justamente para lá que retornaria agora, não como alguém que cansou de longos dias de viagem, e retorna ao lar em busca de descanso; mas sim, como talvez a última esperança de uma província brutalmente atacada pelos impiedosos Corsários de Umbar.

A trilha após os portões seguia por terras ermas, com vegetação rasteira e poucas árvores. Haviam muitos arbustos emaranhados, geralmente às grandes pedras ou aos blocos rochosos. Era a típica vegetação das charnecas com elevações abruptas do terreno. Cavalgaram por um tempo, sempre para o oeste, até que a trilha começou a descer suavemente. Nesse ponto, Ilidan parou.

– Poderíamos tomar a trilha à esquerda, pelo antigo Vale dos Gigantes, mas não confio muito neste caminho, embora pareça o mais curto. Acho melhor voltar até o Vau do Bruinen, e depois tomarmos o caminho para o sul, por uma antiga rota usada pelos elfos. Há muito tempo eles habitaram amplas regiões de Eregion, conhecida por muitos como Azevin, e esta era sua principal rota a partir da Grande Estrada do Leste. Vamos!

Arriscaram cavalgar mais rapidamente agora, e assim seguiram por algum tempo, até que atingiram a encosta oeste daquela parte alta, avistando abaixo a Mata dos Trolls. Por uma trilha em três lances de novo zigue-zague, desceram até atingir o Vau do Bruinen. Ali pararam um pouco, e fizeram uma refeição rápida, logo retomando a jornada. Cavalgaram pela estrada por cerca de trezentos metros, até que Ilidan tomou a frente e deixou a estrada pelo lado sul, contornando árvores e formações rochosas. Subiram por aquela trilha, e quando atingiram a parte mais alta, à esquerda estava o Bruinen, agora largo e caudaloso; e à direita, paredões de pedras das muitas elevações rochosas existentes naquela mata.

– Que bela paisagem! – Anárion estava encantado. Ao leste ficavam as terras altas das quais tinha vindo, onde em algum lugar, se escondia Imladris. O Bruinen seguia para o sul seu próprio caminho, e no oeste, a bela floresta. A trilha desceu abruptamente, a ponto de voltarem a cavalgar ao lado do rio, mas logo se despediram, pois o caminho seguia mais para o sudoeste, e por muito tempo eles avançaram assim. Num dado ponto, nodosas raízes de velhas árvores escorregavam até a beira de um dos tantos afluentes do Bruinen, e do lado oposto, havia uma ladeira íngreme, subindo uma alta encosta. Atravessaram esse pequeno vau, tomando a subida do lado oposto. Conforme subiam, Anárion observou nas terras além do rio e abaixo, ruínas de antigas construções. A julgar pela arquitetura, trabalho dos homens.

– Aquelas ruínas pertenceram a que povo? – Indagou Anárion a Ilidan.

– São antigas construções dos dúnedains do norte, no tempo em que os Reis dos Mares estavam em seu apogeu.

– Arnor…! – Anárion se perdeu em pensamentos, rememorando tudo que um dia havia lido sob o antigo Reino do Norte.

– Sim, Arnor era como foi criado, mas depois foi dividido em três reinos, e um a um, caíram diante da força de Angmar. Mas isso foi há muito tempo e é conversa apenas para lugares seguros. Vamos continuar. – Assim seguiram. Quando a subida terminou, a trilha seguia plana, e cerca de duzentos metros à frente, uma grande ponte havia sido construída sobre o Bruinen. Era de madeira, à semelhança de um grande tronco cortado e deitado para servir como passagem. Trabalho antigo, feito com árvores que não mais se viam por lá. Os dois cavaleiros passaram lado a lado cavalgando, e mesmo assim em nenhum momento correram o risco de se aproximarem demais das bordas. Após a ponte, a trilha fazia uma grande curva para o oeste, e depois descia um pouco, para voltar a subir novamente mais à frente. Nesse ponto, Anárion avistou no horizonte mais algumas ruínas sobre um alto morro. Inicialmente pensou que fossem mais construções dos homens, mas conforme se aproximaram pela parte baixa, ele percebeu a arquitetura diferente, especialmente vista na figura de uma torre que ainda permanecia alta e bela, mesmo estando abandonada e velha. Era trabalho dos elfos. A trilha voltou a virar para o sul, e agora dos dois lados encostas rochosas se elevavam, mas o caminho também subia, e após algumas horas, eles estavam no mesmo plano do morro anteriormente avistado.

– O sol já se escondeu no distante oeste e assim, vencemos nosso primeiro dia de jornada. Calculo que mais sete ainda nos aguardem. Acabamos de adentrar a região conhecida como Eregion. Vamos voltar um pouco para o norte, por cima do morro, para as ruínas de Gwingris. Lá pernoitaremos. – Ilidan seguiu na frente. Logo alcançaram uma rústica e antiga estrada calçada, e mesmo na noite que se anunciava, Anárion vislumbrou as mesmas ruínas que vira antes. Duas torres existiram ali, mas agora apenas uma delas estava de pé. Havia outras construções e um enorme portal indicando a entrada. Nas ruínas encontraram dois elfos guardando as passagens, sob as ordens de Elrond.

Passaram a noite ali, e arriscaram uma fogueira. Quando Anárion acordou, Ilidan já estava de pé, perdido em pensamentos, com os olhos vagos observando a imensidão de Eregion. Após um rápido desjejum, tomaram os cavalos e voltaram à sua jornada. As terras de Eregion, daqueles lados, eram boas para se cavalgar, e por muito tempo avançaram por uma antiga estrada de pavimento gasto, coberta em alguns pontos pela grama, mas segura e agradável. Passadas algumas horas, as árvores de um e outro lado começaram a ficar escassas, e agora o ermo se apresentava novamente diante deles. Aqui e ali ainda se viam árvores, mas a predominância da vegetação era rasteira. Desceram o que parecia ser algum antigo canal natural. Do outro lado a estrada se perdia, não sendo possível se ver mais nenhum pavimento dela. Ilidan conhecia bem aquela região, e tomava a iniciativa das rotas a seguir com muita certeza. O jovem Bardo avistou ao longo do caminho muitas ruínas. Às vezes mais perto, às vezes mais longe, mas todas claramente pertencentes ao estilo arquitetônico dos elfos. O elfo havia comentado em Imladris que muito tempo atrás seu povo havia habitado aquela região. Talvez o ar benfazejo e a sensação de paz se explicassem por isso. Mesmo após tantos anos, o poder dos Eldar ainda estava presente naquela terra. Foi numa dessas ruínas que pararam por volta do meio dia para uma refeição. Protegeram-se do sol num antigo terraço com o teto erguido enquanto os cavalos pastavam nas proximidades. O dia estava claro e pacífico.

– Você parece conhecer bem estas terras, Ilidan. Fale-me sobre elas. – Anárion meneou a cabeça, trazendo no rosto um suave sorriso.

– Sim, eu as conheço, e enquanto viver carregarei comigo o lamento pelos Eldalië não mais estarem aqui como outrora estiveram. Belíssimas eram suas casas e torres, gloriosos os seus palácios, paradisíacos os seus jardins; mas o Senhor da Terra-Negra trouxe a guerra até este lugar, e quase tudo do que foi belo e puro aqui um dia, se perdeu. Por sorte seus dedos negros naquele tempo não eram tão grandes, então mesmo destruindo as moradias dos elfos, ele não conseguiu destruir a terra.   – Ilidan ficou de pé, e respirou o puro ar, como quem areja os pensamentos.

– O local onde estamos era um dos três palácios centrais de Eregion. Nosso povo chamava essa região de Echad Eregion. À sudeste daqui fica Echad Dúnan, próxima do portal que chamávamos de Muralha de Moria. Nesse portal começava a estrada dos anões que terminava no Portão Oeste de Khazad-Dûm, como os próprios anões chamavam. À sudoeste daqui fica Echad Mirobel, onde havia a escola de artes e forjaduras de Ost-in-Edhil, na Casa dos Mírdain. Muito do mal que se abateu sobre o mundo nos anos vindouros, ganhou forma lá na figura de anéis de poder. – Ilidan fez uma pausa, rememorando dias passados.

– Nosso caminho segue para o sul, através do ermo, até cruzarmos o rio que desce das Minas de Moria. Nesse momento estaremos entrando na terra dos Homens Bárbaros, mas pretendo evitar esse caminho, seguindo mais para o oeste e o sul, até chegar às Terras Pardas. Chegaremos à Estrada Norte-Sul, e seguiremos por ela até o Desfiladeiro de Rohan. De lá, o caminho pertencerá aos teus desígnios meu caro amigo. – Ilidan sorriu, estendendo a mão ao Bardo e ajudando-o a ficar de pé. Logo estavam novamente montados e viajando, seguindo para a segunda parte da jornada.

Continuaram durante o restante daquele dia e a paisagem não mudou muito. Quando a noite chegou, um magnífico céu sem nuvens e carregado de estrelas surgiu para o deleite de ambos. Havia realmente um ar benfazejo sobre aquela terra, de tal forma que lembrava um pouco a sensação de se estar em Valfenda, como quem sente saudade por finas lembranças de algo concreto e duradouro. Tiveram um sono tranquilo, e quando o sol já havia passado acima das Montanhas Sombrias, e o desjejum havia sido tomado, rumaram novamente, iniciando mais uma jornada. Era o terceiro dia desde a partida do vale de Imladris. Cavalgaram durante toda a manhã, até que atingiram de forma perpendicular uma estrada antiga de tijolos bem pavimentados, embora estivesse abandonada há muito tempo. Ela vinha do oeste para o leste, subindo em direção às montanhas. Paralelo a ela, um fosso largo e relativamente profundo denunciava o que parecia ser um antigo curso de algum rio.

– Essa estrada sobe até Echad Dúnan, e após, a Muralha de Moria. Para o oeste ela conduz até Echad Mirobel, onde outrora haviam escolas de artes e forjaduras. Mas o que me deixa surpreso é a ausência do rio. – Ilidan estava pensativo, olhando em direção às montanhas. – Que diabrura poderia ter feito o rio desaparecer? Seu leito está diante de nossos olhos, mas não há sinal de água, e pelo que o terreno nos conta, há muito tempo.

Anárion nada falou, mas ficou também olhando na direção das montanhas, como se procurasse algo para explicar esse fato. Ilidan continuou: – Esse rio nasce nas Montanhas Sombrias, e descia próximo ao Portão Oeste de Moria. Por vários degraus, obra dos anões, ele descia das partes mais altas do paredão, até seguir seu leito. É estranho que não esteja mais correndo livre como antes. Nunca foi poderoso, nem muito fundo, mas sempre alegrou-nos o canto de suas águas conforme passavam pelas rochas!

– É realmente muito estranho, a julgar pelo que você me diz. Se não fosse a pressa em minha jornada, poderíamos subir o seu curso, e tentar encontrar respostas, mas temo que nosso tempo esteja comprometido. – Anárion observou Ilidan, que prontamente respondeu ao seu comentário. – É claro meu amigo. Nisso estás mais que certo. Mas talvez haja algo que possamos fazer, e nem por isso, abandonar nossa rota. É chegada a hora de pararmos para uma refeição. Passaremos o fosso e subiremos aquela colina à esquerda. Sob a sombra das ruínas daquela torre élfica descansaremos, e eu terei um bom lugar para olhar por ai. Vamos! – Cavalgaram então, primeiro descendo o fosso, para alguns metros depois, emergir dele, logo virando as montarias para o sudoeste, subindo a colina. Sob a proteção das ruínas da antiga torre, eles comeram, e por um tempo olharam ao redor. Anárion acabou adormecendo, enquanto Ilidan continuava observando e da forma que o viu antes de dormir, o jovem Bardo o encontrou quando acordou, cerca de uma hora depois.

– Um sono reparador, sem dúvidas. Acho que podemos cavalgar pela tarde e noite, e estarei inteiro. – Sorriu Anárion. Ilidan o olhou, e sorriu de volta.

– Alguma resposta para a questão do rio? – Perguntou o Bardo.

– Não meu amigo, seja lá o que for que aconteceu, é muito acima do que meus olhos podem ver do antigo leito. Esse trabalho ficará a cargo de outro momento. Devemos seguir agora. Algumas milhas à frente encontraremos outro rio, se o mal de fazer rios sumir não tiver atuado lá também. – Sorriu Ilidan – Ele divide as terras de Eregion, com as Terras Pardas. Então seguiremos mais para o sudoeste, até encontrar a antiga estrada.

Pelo restante da tarde cavalgaram e a vegetação já mudava. Agora árvores de outros tipos apareciam, o chão era mais gramado, e haviam mais rochas sobre os campos. As terras não eram tão boas para cavalgar, pois começavam a ficar mais acidentadas. Ultrapassado o rio no vau conhecido como Ulundín, adentraram então as Terras Pardas. Poderiam parar para descansar, mas estavam próximos das montanhas, e haviam homens bárbaros vivendo por aquela região, ou ao menos havia. Então preferiram avançar um pouco mais. Por caminhos entre rochas eles seguiram, mudando constantemente de direção sempre para contornar algum fosso, ou dar a volta em alguma enorme rocha, até que o terreno começou a subir em direção ao sudoeste. A elevação se estendeu por cerca de trinta metros, até que alcançaram as partes mais altas, e descobriram mais uma estrada pavimentada. Esta tinha grandes blocos quadrados de pedras, e a julgar pelas formas geométricas entalhadas, e pelas estreitas colunas, com suas cabeças pontiagudas, dispostas ao longo do que se podia enxergar da estrada naquele cair de noite enluarado, podia-se com certeza afirmar que era trabalho dos anões. Eles não mais viviam ali, mas haviam estado por algum tempo, como recordou Anárion da história que Dáin o havia contado.

Desceram a estrada por algumas milhas. Depois subiram uma colina à direita, antes de uma grande ponte, também trabalho dos anões, e entre as árvores que povoavam o seu topo, montaram o acampamento para aquela noite. Ilidan foi até o riacho buscar água, enquanto Anárion fazia uma fogueira, já que julgavam estarem agora em local seguro. Quando a lua ficou alta, o jovem Bardo conseguiu ver que a região agora era menos acidentada, embora tivesse aqui e ali muitos barrancos baixos. Mas o que chamou mesmo a atenção de Anárion foi o vento. Era forte, e uivava entre as árvores. Parecia vir das montanhas e era frio, mas não assustador, antes, era até revigorante. Ilidan voltou, e após uma refeição, sentaram-se lado a lado, olhando os campos, enquanto fumavam.

Anárion percebeu uma trilha pouco abaixo da colina, ainda antes do rio, que seguia à direita da estrada dos anões, subindo entre a colina em que estavam; e outra, após o rio, perdendo-se através das árvores que havia acima.

– Conhece para onde vai esse caminho Ilidan? Ele me soa obscuro. – O elfo olhou na direção indicada por Anárion, e seu semblante ficou mais sério.

– Este caminho leva para lugares assombrados. Há um bosque de estranhas árvores de folhas avermelhadas sobre montes pequenos de terra com grama marrom. Uma penumbra sempre está sob este local, e à norte dele, há ruínas de antigas construções dos homens, mas não é trabalho do Ponente, mas sim dos homens que viveram aqui nos Anos Escuros. Eles adoravam o Inominável, e se curvaram perante seus desígnios. Acredita-se entre meu povo que um dos Nove era senhor dos homens que viviam aqui. – Anárion gelou à menção daquilo. Conhecia bem a tradição de horror e medo dos Nove em Gondor. Estes pensamentos, associados a não mais estarem sob o benfazejo ar de Eregion, acabaram por trazer novamente e de forma intensa ao Bardo a preocupação pela situação que o aguardava em Belfalas.

– O tempo está contra nós – disse Anárion – e cada hora perdida talvez apresse a queda de minha província. Devemos seguir com mais ímpeto, ou chegarei a tempo apenas de cinza e fumaça. – O elfo concordou com a cabeça, sem nada dizer.

Os primeiros raios da manhã os encontraram cavalgando, e foi assim também no dia seguinte. Durante estes dois dias mal pararam, a não ser basicamente para descansar os cavalos, e aproveitarem para fazer alguma refeição. Anárion estava mais quieto, e pouco conversava. Ilidan entendia e respeitava, mas sempre tentava animar seu amigo com palavras de ânimo, para que este tentasse conter a ansiedade e não se deixasse tomar pelo desespero. No final da tarde do terceiro dia de jornada pelas Terras Pardas, avistaram dois elevados rochosos no horizonte, e a estrada que seguiam passava pelo meio, descendo entre estas formações de pedra de um e outro lado por cerca de três milhas. Avançaram o máximo possível, mas o sol foi mais rápido e adormeceu no oeste. Então Ilidan parou. Anárion queria seguir por mais um tempo, mas o elfo foi irredutível. – Não devemos passar por aquele caminho com o cair da noite meu amigo. Há túmulos e coisas piores por ali, e antigos templos de adoração ao Senhor da Terra Negra. Muita maldade foi feita naqueles lugares, e dificilmente conseguiríamos sair do outro lado em paz e vivos. Sua demanda consiste na velocidade, mas também na sabedoria. Vamos acampar aqui, e quando o sol vier, prosseguiremos! – Anárion nada disse por um tempo, mas pensou melhor e ponderou tudo o que Ilidan lhe havia dito, então respondeu com um suave sorriso e um aceno de cabeça, indo cuidar de seu cavalo.

Quando a manhã veio, eles estavam terminando o desjejum. Do ponto onde estavam, conforme o dia ficava claro, Anárion podia ver que haviam alguns touros soltos pelos campos, de um tipo que nunca havia visto. Eram mais troncudos, embora menores que os exemplares vistos nos campos de Gondor. Também tinham a pele mais avermelhada. Ilidan havia lhe dito que os povos daquela região adoravam aqueles animais, tendo-os como sagrados em seu culto bárbaro. Chamavam-nos de Onix em sua própria língua. Na maioria de suas casas, havia exemplares da cabeça desses animais parcamente empalhados e colocados sobre a parte superior das portas principais, como um amuleto para afastar espíritos ruins. Talvez os habitantes temessem os espíritos que habitam os túmulos na passagem sul.

Já se via o sol acima das Montanhas Sombrias quando eles avançaram, finalmente, pelo temido acesso através das colinas rochosas. Aqui e acolá, em algum vale ou caminho entre as altas formações rochosas, de um e outro lado da estrada, Anárion conseguia ver enormes blocos de pedra, com espirais desenhadas na rocha. Eram túmulos. Havia também sobre algumas destas colinas árvores de troncos relativamente claros, e folhas muito avermelhadas. O Bardo olhou Ilidan e antes que pudesse falar alguma coisa, o elfo comentou. – São exemplares das mesmas árvores que lhe falei dias atrás, sobre a região mal assombrada. Diante dessas árvores e sobre lugares altos estes antigos homens evocavam seus espíritos. Hoje, mesmo mortos, eles ainda povoam este lugar em terror e desespero, jamais descansando enquanto o Inominável existir. – Um espasmo de medo passou pelo corpo do jovem Bardo, e ele pensou ter visto um corpo muito claro, como algo transparente, disforme nas pernas, mas com braços e tórax nus, sorrindo malevolamente sob olhos odiosos, em uma das tantas passagens que haviam de um e outro lado da estrada, entre os vales das colinas rochosas cheias de túmulos.

Venceram aquela estrada, e agora o caminho descia sempre, contorcendo-se diante dos olhos dos cavaleiros por muitas milhas, num vai e vem quase uniforme. Ao final dessa estrada, tomaram uma curva forte para o leste, e contornando um elevado rochoso, puderam ver uma ladeira íngreme e a seus pés, o Vau do Isen. No final da ladeira, a estrada seguia reta em direção ao rio. Do lado esquerdo, ela seguia para Isengard. Numa colina baixa do lado direito, ficava uma área habilmente cercada com muitas toras de madeira. Lá dentro, havia muitas tendas montadas, erguendo-se uma mais ao fundo em relação às outras. Muitos homens altos, de cabelos loiros e soltos ao vento estavam ali e, antes mesmo que parassem, quatro deles subiam a cavalo em direção a Anárion e Ilidan. Eram batedores dos Rohirrim, os soldados de Rohan. Era o sétimo dia de viagem desde que haviam deixado Rivendell.

– Saudações forasteiros! Somos cavaleiros de Rohan e aqui começam os nossos domínios. Quem são os dois que viajam por nossas estradas e qual seus objetivos aqui? – O rohirrim usava um elmo adornado, deixando à vista apenas os olhos verdes e o queixo forte alinhado por um dourado cavanhaque.

– Meu nome é Anárion, filho de Galdor, e este é Ilidan, mensageiro de Elrond, de Valfenda. Estamos de passagem em direção à Belfalas, pois assuntos urgentes requerem nossa atenção lá. Pedimos vossa permissão para seguirmos em paz! – Anárion estava sereno, e sua voz era firme e pausada.

– A mim não compete dar permissões senhor, apenas indagar os viajantes. Por favor, queiram seguir estes meus dois companheiros até nosso posto de guarda. Nosso Capitão irá decidir sobre a causa dos senhores. – Acompanharam então os soldados, descendo a ladeira em direção ao acampamento no Folde Ocidental. Quando adentraram o lugar, desmontaram dos cavalos, deixando-os presos e seguiram até a tenda principal, no local mais alto daquela pequena colina. Foram anunciados ao Capitão, um alto senhor dos Rohirrim, trajando uma armadura de couro em tons de verde e marrom escuro. Estava conversando com outros cavaleiros e quando ouviu os nomes dos forasteiros anunciados, sorriu, virando-se e caminhando até eles.

– Acabei de chegar para meu serviço nesse lugar, e eis que o destino me prega mais uma peça, dessa vez, agradável. – Retirou o elmo, e não era ninguém menos que Elmmeth, o Capitão de Rohan que Anárion havia conhecido em Rhûn, quando estiveram presos. – Finalmente nossos destinos se cruzam meu amigo, e fico feliz em voltar a vê-lo, nobre Anárion, príncipe de Belfalas! – Prestou uma profunda reverência.

– Saudações, bravo Elmmeth! Fico feliz por esta surpresa, e mais ainda em vê-lo bem e de volta a seus trabalhos. – Anárion retribuiu a reverência. Elmmeth cumprimentou Ilidan também, e logo sentaram-se e foram servidos de vinho e pães naquele final de tarde.

– Retornei a Rohan e após me recuperar e acertar as contas por meus atos com meu Marechal, fui designado para capitanear a guarda do Vau do Isen, no Folde Ocidental. E você, que motivos o trazem de volta? – Elmmeth estava sorridente, mas, ao fazer essa pergunta, captou bem a tensão no semblante de Anárion.

– Precisamos conversar meu amigo. Conversar muito! – Falou o jovem Bardo.

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  • Richard Douglas Mendes

    Faz um bom tempo que não acompanhava os contos do Sandro, porém, ao terminar de lê-lo de fato o autor consegue capturar a atmosfera e o tom clássico dos escritos de R.R.Tolkien! Ansioso para ler a continuação! Parabéns!

    • Sandro França

      Caramba, seu comentário muito me alegra e honra. Imaginar fazer algo que lembre ao menos a forma de escrever do grande mestre Tolkien, é maravilhoso. Obrigado meu amigo. Abraço!