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Contos da Cristina Aguiar – Parte 03

Dando sequência a história de Owen e Briana, a escritora Cristina Aguiar nos apresenta mais essa parte empolgante de uma aventura ambientada na Terra-média. Se você não leu o inicio dessa aventura veja:

Primeira Parte

Segunda Parte

 

Parte 3 – A Caixa

Zârad era esperto. O anão sabia despistar, disso Owen não tinha dúvidas. Eles passaram noites seguidas dormindo pelas colinas, atravessando campos cultivados, escondendo-se em clareiras no meio da floresta tenebrosa, cenário de lendas e histórias que enchiam os corações dos garotos de medo. Mas aquilo não parecia importar para o anão. Ele já devia estar acostumado a enfrentar seres escuros e sombrios em suas jornadas e a pequena e velha floresta parecia-lhe o refúgio perfeito. Além disso, era claro que ele queria evitar a estrada. Zârad não era de falar muito. Ele encarava Owen e Briana com os olhos faiscantes, e só dirigia-se a eles com resmungos ou para dar ordens.

Durante uma semana, eles foram e voltaram pelos mesmos lugares. Era quase como se estivessem caminhando sobre as próprias pegadas. A chuva constante tornava o caminho escorregadio, mas ajudava a apagar os rastros. Aquela, segundo Zârad, seria a última noite que passavam pelos campos. Enquanto a chuva caía incessantemente, eles descansavam sob o abrigo de um velho carvalho cujo tronco seco proporcionava uma pequena e enxuta caverna. Owen, naquele momento, não pode deixar de olhar para a caixa que não saía de perto do anão.

— O que está olhando? – bufou o anão.

— Eu estava pensando sobre o que leva dentro dessa caixa, e por que nunca se separa dela – Owen falou abertamente, apesar do medo que sentia do anão.

Briana arregalou os olhos com a audácia do irmão. Em sua fértil imaginação, viu Zârad puxar o machado e pular sobre Owen numa fúria assassina. Mas o anão limitou-se a encarar o menino, como se ponderasse na própria atitude a tomar.

— Diga a verdade, garoto! Se eu a largasse, você a pegaria para si, não é?

Os olhos de Owen brilharam de excitação. Zârad soltou uma gargalhada zombeteira.

— Seria inútil! Não há como abrir essa caixa.

O rapaz piscou confuso. Briana, que tentava dormir em um canto apertado, sentou-se ao ouvir aquelas palavras.

— O que você quer dizer com isso? – ela perguntou.

Ele demorou um pouco o olhar sobre ela, avaliando se era digna de tal informação.

— Ganhei essa caixa há muito tempo atrás, achando que ela me levaria a grandes riquezas. Um tesouro que Zârad, o anão, encontraria, e com ele criaria o seu próprio reino podendo enfim perpetuar o seu nome – Zârad parecia sonhar de olhos abertos. – Seria um reino tão grande quanto o reino de meus antepassados, construtores das primeiras minas. E o meu nome seria eternamente famoso e respeitado.

O anão tomou alguns goles de cerveja e olhou para as chamas da fogueira.

— Eu fugi naquela noite, em meio aos gritos e à fumaça. A caixa, eu me lembro, pesava em meu braço. Eu sabia que ela guardava um segredo capaz de me deixar rico e poderoso. Por muito tempo ela esteve comigo. Por muitas vezes, eu tentei abri-la. Mas ela, eu acredito, foi feita através de uma arte especial. Coisa dos “elfos”  talvez – ele quase cospe ao dizer àquela palavra. – Todo esse tempo  guardando e protegendo, e sem saber para quê! – De repente ele começou a rir. – Grande riqueza essa minha!

Abrindo os braços, ele mostrou o local no qual estavam.

— Vejam isso, seus pequenos tolos! Esse foi o reino que eu consegui.

Ele, então, parou de rir e apontou para Owen.

— Mas você sabe de algo. A caixa o atraiu lá na estalagem. Vocês usam cordões com o mesmo símbolo da caixa. Mas vejo pelos seus olhos que sabem tanto sobre esse assunto quanto eu.

Ele suspirou e recostou-se.

— Haverá tempo. Agora temos anões enfurecidos para despistar.

 

A sombria floresta mostrou-se um local adequado para se ficar. Era temida por muitos e habitada por poucos. Dificilmente via-se a face de seus habitantes, como se a regra principal fosse respeitar o isolamento de cada um. Mas isso não diminuía o medo dos garotos diante de tudo o que escutaram e aprenderam sobre aquele lugar. Viver na velha floresta era conviver a cada dia com seus medos interiores. O tempo passou e os anões nunca encontraram seus rastros. Se isso foi devido à perícia de Zârad, à chuva constante, ou ao simples temor de se aventurar numa floresta obscura, não se poderia saber. Owen costumava ter pesadelos com os anões e seus machados, mas eles nunca se realizaram. Briana, por sua vez, meditava consigo mesma a esse respeito. Zârad não era assim tão habilidoso e cuidadoso ao cobrir pistas. Seus irmãos anões poderiam ter facilmente encontrado-os, mas não o fizeram. Talvez as riquezas os atraíssem mais do que sair em perseguição a dois garotos e outro anão por simples vingança! Ainda mais sabendo que nada tinham a ganhar com isso. Mas ela e Owen pareciam ter valor para Zârad. O anão deixara tudo para trás por um motivo ainda desconhecido.

Eles encontraram uma velha cabana abandonada em uma clareira apertada. Com sua habilidade de construtor, Zârad a tornou habitável. Mas isso não os constituiu uma família. O anão, por vezes, desaparecia e ficava fora por meses, deixando-os sozinhos para enfrentar seus medos. Quando isso ocorria, ele levava a caixa junto. Owen sabia que quando ele estava em casa, a caixa ficava escondida em algum lugar da floresta. O anão era egoísta e não deixaria que ninguém mais a tocasse além dele próprio. Um dia, quando ele ia sair em viagem, Owen e Briana o seguiram. Eles queriam saber onde a caixa ficava escondida. Seguiram-no até os pés de uma árvore seca. Lá ele abriu a porta de uma toca camuflada com pedras e vegetação, e retirou a caixa embrulhada em um manto de pele.

— Quando ele voltar de viagem, nós vamos pegar a caixa – sussurrou Owen.

— E se não houver nada dentro dela?

Owen deu de ombros.

— Então, nada encontraremos. O que nos custa tentar?

 

Zârad voltou um tempo depois. Estava mais taciturno e calado do que o habitual. Entrou na casa, sentou-se diante do fogo e começou a resmungar frases desconexas.

— Inútil! Tudo inútil! Não há como abri-la…

Owen pulo da cadeira em que estava.

— Está falando da caixa? Então, é isso? Estava tentando abri-la? É esse o motivo de suas viagens?

Zârad o observou. O garoto havia crescido, assim como a irmã. Por que ainda permaneciam com ele, era uma incógnita. Ou não? Eles poderiam ter aproveitado suas viagens para voltar para casa, mas nunca o fizeram, e ele sabia bem o que os segurava ali.

— Você adoraria tentar, não é? Você e sua irmã, com esses seus malditos cordões! Vamos, falem! O que sabem sobre a caixa? Por que a querem?

Briana o encarou com extrema confusão.

— Não sabíamos nada sobre a caixa até vê-la pela primeira vez em seus braços. O que nos atraiu foram os símbolos.

Ela tocou no cordão.

— Esses pendentes foram feitos há muito tempo, quando éramos pequenos, por nosso pai, Brayan, o forte. Ele se foi para a guerra e nunca mais voltou. Ele costumava dizer que esses símbolos pertenciam a nós. Foram criados por ele. Como eles foram parar na caixa que você possui?

Zârad, por alguns momentos, ficou sem fala. Seus pensamentos voltaram no tempo, e penetraram em suas lembranças mais antigas. Seria possível? Aquilo faria realmente sentido? Sendo assim, a chave poderia estar ali na sua frente, e ele nunca percebera isso. De repente, saindo da confusão em que ficara com as palavras da moça, ele começou a gargalhar.

— Talvez tenha chegado o momento de saber a verdade, não é? Fiquem aqui e esperem!

Ele saiu apressado e voltou algum tempo depois com a caixa embaixo do braço. Ele a jogou sobre a mesa, passando pelo olhar petrificado dos garotos. Em seguida retirou o pano que a cobria e saiu da frente.

— Agora vejam o que podem fazer com essa coisa.

Owen aproximou-se lentamente e tocou nos símbolos que se elevavam em relevo. Havia uma depressão, um encaixe! Ele olhou para Briana, enquanto retirava o próprio cordão.

— Briana, você lembra quando papai falou que esses símbolos abririam as portas para nós?

Ela assentiu e aproximou-se dele. Owen colocou o arco dourado do seu cordão sobre a depressão do símbolo da caixa. O encaixe foi perfeito. Briana, retirando o seu cordão, depositou a flecha prateada na depressão que passava sobre o arco. Outro encaixe. Owen sorriu triunfante diante da expressão perplexa do anão. Ele vagarosamente empurrou o símbolo em relevo para baixo e puderam ouvir um estalar baixo, como o de uma tranca que se abre.

– Abriu! – exclamou Zârad. – Ela está aberta!

 

 

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