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Contos da Cristina Aguiar – Parte 05

Dando sequência a história de Owen e Briana, a escritora Cristina Aguiar nos apresenta mais essa parte empolgante de uma aventura ambientada na Terra-média. Se você não leu o inicio dessa aventura veja:

Primeira Parte

Segunda Parte

Terceira Parte

Quarta Parte

 

Parte 5 – Orcs na Floresta

A floresta escura era cheia de barulhos noturnos e havia sempre uma opressão no ar, como se a própria floresta não aceitasse a presença de estranhos ali. Quanto mais adentravam em sua parte mais espessa, mais seus corações ansiavam por voltar à segurança da velha cabana. O que os impediu foram os relatos convincentes de Zârad quanto às conseqüências do encontro com um grupo de anões vingativos. Era preferível enfrentar a floresta ao machado de Grórin, ele disse.

Mas Zârad, em suas viagens misteriosas, havia descoberto trilhas em meio à floresta sombria. Ele, mesmo sendo um anão, e sabendo que anões não se sentem à vontade em florestas, foi o guia que conseguiu levá-los a atravessar a mata opressiva que os envolvia. A cada clareira encontrada, somavam-se suspiros de alívio e alegria. Mas ainda assim, havia uma sombra no ar, oprimindo seus corações e aumentando o seu medo. O mal rondava por ali e fazia o sangue gelar. A própria luz do sol parecia não encontrar espaço para penetrar através das folhagens. A certa altura, eles puderam ouvir ruídos e sussurros. O farfalhar de folhas sendo amassadas e o som de galhos quebrados. Zârad parou e apontou para alguns arbustos.

— Rápido! Escondam-se! – ele passou a caixa para as mãos de Owen, e os dois se encararam por alguns segundos. – Proteja isso, menino!

Eles pularam nos arbustos na hora em que três seres, que eles só sabiam existir pelas histórias que escutavam, pularam na frente do anão, saindo do meio da mata espessa. Eles traziam facas e espadas curvas nas mãos, tinham a pele escura e andavam curvados. Falavam entre si numa língua estranha. Briana pôs a mão na boca para não gritar.

— O que são essas criaturas? – ele sussurrou com a voz trêmula.

— Acho que são orcs… – observou Owen.

Zârod já havia enfrentado orcs em batalhas antes, inclusive aqueles que invadiram o seu lar nas montanhas. Mas aquele grupo não vinha das montanhas do leste, eles vinham do norte. Eram orcs sobreviventes da guerra, que agora perambulavam pela terra em busca de abrigo e de novos motivos para exercerem a sua maldade. O anão tinha em seu coração a fúria contida e o sentimento de vingança que nutria por aqueles seres. E foi nesse espírito vingativo e furioso que ele brandiu o seu machado naquela hora. Ele agora era Zârad, o anão-guerreiro que lutava por seu povo contra aqueles que destruíram o seu reino. Com um grito de guerra, ele passou a rodopiar e o seu machado não errou o alvo. Uma cabeça decepada foi o primeiro sinal da vitória que vinha com a fúria. Os dois orcs restantes hesitaram, mas mesmo assim partiram para o contra-ataque. Zârad jogou o machado que se enterrou no peito de um deles e, girando com sua faca na mão, cortou a garganta do último orc. A sua fúria era tanta, que ele mal sentiu o corte em seu braço, feito pela espada do orc que ele acabava de matar.

Exausto, ele deixou-se ajoelhar, ofegante e cheio de lembranças dolorosas. Owen e Briana correram para ele.

— O seu braço… – falou Briana.

— Eu estou bem, menina… – ele falou após um tempo. – Podem existir mais de onde esses vieram. Não convém ficar aqui muito tempo. Temos que partir!

Ele levantou-se e caminhou cambaleante até o orc que ele matara com o machado. Pondo o pé sobre o corpo da criatura, ele puxou sua arma de volta. Sem se voltar para os meninos, ele falou.

— Vamos!

 

Briana afundou o pé numa poça de lama pútrida e foi puxada por Owen antes que caísse no chão. Após a luta com os orcs, Zârad só tinha um único objetivo: sair daquela floresta, não importando se ainda havia um miserável pântano em seu caminho. Mas era por ali que deveriam ir, caso quisessem evitar a estrada principal. Pela primeira vez, Owen via o anão obcecado por outra coisa além da caixa, e isso era algo realmente raro. Grórin e seu bando não iriam desistir de persegui-los, fosse pela floresta, fosse pelo pântano. Ao longe, quando subiam em algum aclive, eles podiam ver as colinas se estendendo no horizonte. Zârad resmungava nessas horas.

— Colinas e mais colinas! Eu daria tudo para estar perto das montanhas e de uma boa e profunda caverna.

— Talvez existam cavernas naquelas colinas – disse Briana, ao espantar um mosquito que tentava lhe picar. – Dizem que são bem antigas.

— Quem disse isso? – o anão perguntou. – Vocês parecem saber muito do mundo, apesar de nunca terem viajado.

Briana deu de ombros.

— Ouvíamos histórias. Na ferraria, na estalagem, na rua. As pessoas gostavam de falar.

Zârad olhou para os meninos e suspirou resignado. Eles pareciam cansados, mas mesmo assim não reclamavam. Eram crianças de fibra, e isso ele tinha que admitir.

— Vamos pensar nas colinas depois. No momento, precisamos encontrar um lugar seco para passar a noite. Um lugar que continue seco, mesmo após a chuva que se aproxima.

— Se sobrevivermos a esses mosquitos! – reclamou Owen.

O anão pôs a mão forte sobre a cabeça do menino.

— Vamos sobreviver, sim! A picada do mosquito não é nada diante da lâmina do machado de Grórin. E não vamos muito longe, se estivermos cansados. É melhor parar agora.

Briana notou que a manga da camisa do anão estava cheia de sangue.

— Você se feriu naquela luta com os orcs – ela comentou.

— Não foi nada, menina. Quando pararmos, eu darei um jeito nisso.

Zârad era um anão orgulhoso e jamais admitiria uma fraqueza, mas a perda do sangue o estava enfraquecendo, além de atrair mais mosquitos e servir de pista para os anões seguirem. E ainda havia o perigo daquela lâmina orc estar envenenada. Mas ele jamais admitiria seus medos para as crianças. Briana olhou para o irmão e meneou a cabeça.

— Por que anões são tão rabugentos?

— Eu não sei, e nem pretendo perguntar. Ele sabe o que faz de sua vida, Briana. Mais do que nós.

Eles encontraram uma pequena “ilha” no meio daquele pântano. Zârad aproveitou para limpar o ferimento com água e passou um tipo de pasta, que ele trazia consigo no meio de suas coisas. Logo parou de sangrar. O anão levantou-se e cortou alguns galhos podres e fez um abrigo improvisado, pois já começava a chover.

— Como pretende chegar à terra dos elfos? – perguntou Owen, depois que estavam todos acomodados.

— Existe um caminho além das colinas que leva para a terra dos trols.

Briana arregalou os olhos.

— Nós vamos passar pelos trols?

Zârad soltou uma gargalhada.

— O que é que tem? Somos pequenos! Com sorte, eles não nos verão.

— E é o único caminho que há? – perguntou Owen.

— O único que conheço, se nós quisermos evitar a estrada.

O menino estufou o peito.

— Então, é por lá que nós vamos!

Zârad quase sorriu da bravura contida nas palavras do menino.

 

Grórin e seu grupo, ao entrar na floresta e encontrar a cabana vazia, não hesitaram em extravasar sua raiva destruindo o que restava a machadadas. Urin, o rastreador do grupo, um anão atarracado e com fios brancos sobressaindo na longa barba castanha, afastou-se para vasculhar os arredores e ler as pistas dispostas na terra. Ele sorriu, pois Zârad sempre foi um anão impulsivo, sem paciência para planejar os próprios passos. Dessa forma, foi fácil para ele conseguir encontrar os rastros.

— Por aqui! – ele gritou.

O grupo o seguiu pela trilha na qual estavam dispostos os sinais, que apenas os olhos experientes de Urin conseguiam ver. A floresta escura e velha era cheia de ruídos, e logo a coragem inicial dos anões começou a ser abalada.

— A floresta parece que respira – murmurou o jovem Farod.

— Ela nos ameaça – resmungou Dor, apertando a mão no cabo do machado.

— Silêncio! – ordenou Urin. – Florestas não gostam de anões, principalmente daqueles que surgem do nada, invadindo o seu solo com reclamações.

Grórin seguia calado. Era a sua sede de vingança que o impelia a prosseguir em frente, sem temer os sons da floresta.

 

Escondidos por trás das folhagens, um grupo de orcs observava. Eles haviam encontrado os corpos dos companheiros mortos e buscavam os culpados. Eram orcs acostumados com a guerra, sobreviventes de batalhas ocorridas no norte, e que buscavam um refúgio para suas maldades. A floresta e sua fama lhes eram favoráveis. Eles não a temiam, muito pelo contrário, eles queriam fazer parte do terror que lá existia. Quando o pequeno grupo de anões passou por eles, a decisão fora tomada. Eles não sairiam da floresta com vida. Era essa a lei dos orcs. Vida por vida. E aquele grupo em particular, estava sedento. Há muito tempo não matavam ninguém, e suas cimitarras clamavam para serem usadas.

 

 

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