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Contos da Cristina Aguiar – Parte 02

Dando sequencia a história de Owen e Briana, a escritoria Cristina Aguiar nos apresenta mais essa parte empolgante de uma aventura ambientada na terra média. Se você não leu o inicio dessa aventura veja AQUI A PRIMEIRA PARTE.

 

Parte 2 – Terrível Noite Para fugir

Após uma noite não dormida, Owen e Briana tentaram seguir com a normalidade do dia, como se o acontecido da noite anterior fizesse parte de um sonho ruim, embora cada um guardasse as impressões reais e assustadoras da experiência vivida. No entanto, eles se sentiam confusos e abalados o suficiente para evitarem tocar no assunto.

Enquanto acendia o fogo da oficina naquela manhã, Owen pensava nos olhos do anão e imaginava o que ele havia tentado lhe dizer, pois foi um olhar cheio de significado, caso contrário ele não estaria tão perturbado. Naquele momento, enquanto ruminava pensamentos, foi surpreendido com a entrada repentina do velho Aldair, que chegava acompanhado de alguém. Quem o acompanhava não era ninguém mais do que Zârad, o anão!

Por muito pouco o rapaz não deixa todo o carvão cair, tal foi o tamanho de seu susto. O ferreiro passou por ele como se não existisse ninguém ali, assim como o anão que o ignorou completamente. Ambos passaram por ele falando com vozes ásperas e graves, tratando de negócios. Entraram em um cômodo adjacente e suas vozes foram ficando mais baixas. Foi difícil para Owen permanecer atento ao seu trabalho. Um bom tempo depois, Zârad saía sozinho e, dessa vez, parou junto ao rapaz.

— Um anão não costuma dar conselhos, sejam eles bons ou maus. Mas quando faz isso, é bom que sejam ouvidos. Aviso-lhe: não durma essa noite. Coisas desagradáveis podem acontecer.

Ele se foi deixando Owen com os olhos arregalados de espanto e medo. As perguntas martelando em sua mente. Voltou à realidade com a voz rude e grosseira do ferreiro.

— Não fique aí parado, garoto! Temos uma encomenda grande para hoje. Ferraduras novas para os pôneis dos anões. Eles terão uma grande viagem pela frente, e trazem muitas riquezas nos bolsos. Por isso, aqueça logo esse fogo e comece a trabalhar!

Então, eles iam partir! Foi tudo o que Owen conseguiu pensar. E tinham pressa! Eles haviam chegado no dia anterior, o que os motivava a partir tão depressa? Teria sido a invasão do estábulo o motivo?

 

Briana, que observava através de uma janela na cozinha, viu a partida do anão. O seu coração, entretanto, continuava batendo de forma desordenada. Ela e Owen não haviam tocado no assunto de sua infeliz aventura, e ela temia que o velho Aldair os punisse por conta de algo que o anão tenha dito. Ela viu com alívio que o ferreiro saía da oficina, e que parecia tranqüilo, podia-se dizer que até parecia feliz!

Ela correu para falar com o irmão e o encontrou pálido e sentado em uma banqueta, com os dedos brincando com o pingente do cordão.

— Owen! Eu vi o anão! O que ele queria?

Owen, no lugar de se assustar com sua entrada repentina, apenas virou-se para ela com os olhos distantes.

— Eles vão partir amanhã, Briana.

— Partir? Que estranho! Eles chegaram ontem…

A estranheza estava no fato de que geralmente os viajantes detinham-se por ali pelo menos por uma semana. Era o tempo de descansar, reabastecer os suprimentos e estudar as melhores rotas.

— A caixa, Briana…

— Você ainda está pensando naquela maldita caixa? Tivemos sorte de ter saído vivos daquele estábulo ontem! Tudo por causa daquela caixa.

Owen levantou-se e pegou no braço da irmã com uma expressão muito séria no rosto, o que a fez parar de falar.

— Vai acontecer alguma coisa. O anão me disse.

— Ele te disse? E você vai confiar nas palavras dele?

— Não, Briana, eu não vou confiar em ninguém. A única pessoa em quem confio é você. Mas devemos ficar alertas. Seria estupidez não ficar. Afinal “um anão não costuma dar conselhos, sejam para o bem, sejam para o mal”.

— Do que você está falando, Owen?

Ele respirou fundo e encarou a irmã.

— Escute-me, Briana, eu preciso trabalhar agora. Enquanto faço isso, arrume nossas coisas. Junte tudo o que seja necessário levar numa viagem, mas que seja leve para carregar.

Briana arregalou os olhos.

— Vai fazer o que estou pensando?

— Tudo o que sei é que vou seguir um conselho que, com certeza, não foi dado à toa.

 

Chovia naquela noite. O velho Aldair, depois de ter bebido algumas canecas de cerveja no bar da estalagem, recolheu-se ao seu quarto e caiu num sono profundo. A casa estava silenciosa. Era uma casa grande, porém simples. Um pequeno muro levava ao jardim mal cuidado e à porta da frente. A oficina tomava conta de quase toda a parte posterior da casa, deixando um pequeno espaço para a cozinha, e servia de entrada e local de trabalho ao mesmo tempo. Uma porta abria-se para um longo corredor onde ficavam os quartos. Owen dormia no último quarto, próximo a porta dos fundos que dava acesso a um quintal sem muros. O quarto de Briana era o primeiro, mais perto da cozinha. O ferreiro dormia no maior quarto, que ficava no meio do corredor, e que antes pertencera aos pais de Owen e Briana.

O silêncio foi quebrado pelo ranger de uma porta. Era a porta dos fundos, cujo barulho já era bastante característico. Pisadas firmes e pesadas podiam ser ouvidas sobre o piso de madeira. Aconchegados em silêncio, dentro da pequena despensa junto à cozinha, Owen e Briana aguardavam o momento certo para fugir. As palavras do anão provaram ser confiáveis, e a menina não se arrependia de ter dado ouvidos ao irmão. Aquilo vinha confirmar suas suspeitas de que a invasão do estábulo não ia ficar barata para alguns dos anões. Quando eles ouviram o ranger das portas dos quartos sendo abertas, saíram de seu esconderijo e alcançaram a oficina. Abriram a porta sem problemas e saíram para a chuva, agachados no jardim. Eles já podiam ouvir o barulho de coisas sendo quebradas e pragas sendo desferidas. Owen tinha pressa. Ele queria aproveitar a chuva forte e correr em direção ao portão da cidade. Lá, ele sabia existir uma abertura que possibilitaria a passagem.

Ele puxou o braço de Briana e ambos atiraram-se para fora do portão. A rua estava deserta e escura. Chovia ao ponto de deixar o caminho turvo. Quando tudo parecia estar dando certo, eles viram na distância o vulto de dois anões guardando a estrada, com machados nas mãos. Briana empurrou o irmão para uma esquina, antes que fossem vistos.

— E agora? Não podemos ir por ali – ela sussurrou.

— Então, nós teremos que pegar a estrada para o Leste e dar a volta pelas colinas até alcançarmos os campos.

— Teremos que passar pela estalagem novamente.

Ela tinha razão. E lá estariam os anões invasores, aguardando por eles. Owen não sabia o que fazer. De repente, tudo parecia estar dando errado. Foi quando ele ouviu o som de luta e gritos abafados. Aquilo o surpreendeu. Espiaram a rua e não viram mais os anões que montavam a guarda. No lugar deles, com as pernas abertas e as mãos na cintura, estava Zârad.

— Eu sei que vocês estão aí! Saíam logo e me sigam. Não foi de meu agrado bater em meus irmãos, mas anões costumam pagar suas dívidas. Fiz o que fiz, mas não poderei mais voltar. Agora, sou a única chance de vocês. Sigam-me, vamos!

Owen e Briana se entreolharam.

— O que ele quis dizer com “pagar suas dívidas”? – ela perguntou.

— Eu não sei, mas é a terceira vez que ele nos ajuda.

Briana agarrou o braço do irmão.

— Ele é um anão como os outros, Owen! Não confio nele.

— Ele nos ajudou de novo, Briana… – ele repetiu.

Ela soltou um lamento.

— É aquela caixa, não é? Você só pensa nela.

— E você, não? – ele a encarou.

Briana ficou sem respostas e o anão grunhiu impaciente.

— Fiz a minha parte e vou seguir o meu caminho desde já! Sigam-me agora ou não terão outra oportunidade.

Owen olhou suplicante para Briana. Ela finalmente afrouxou a mão que o agarrava.

— Vamos, então. Se o nosso destino é andar com anões, prefiro escolher aquele que nos ofereceu ajuda.

O rapaz sorriu e a puxou pela mão. Zârad já ia muito à frente. Ao chegar ao portão, ele deu um saco de moedas na mão do porteiro e puxou dois pôneis que estavam amarrados a uma árvore ali perto. Eles passaram para fora do portão e da cidade. O anão montou em um dos pôneis. No outro estava estocada a bagagem. Eles perceberam que teriam que andar.

— Você sabia o que ia acontecer? – Owen teve coragem de perguntar.

Zârad puxou o pano que envolvia a sua sela e revelou a caixa de madeira, fazendo o coração de Owen bater em disparada.

— Isso os atraiu, e eu sei o motivo. Mas não é hora e nem lugar para falar sobre isso. A estrada é longa e logo estarão atrás de nós. Não é tempo de falar, mas de correr.

 

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