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Conto: Um gigante entre os anões por Marcus Pedrosa

Apresentamos um conto interessante para quem gosta de anões, escrito por nosso amigo Macus Pedrosa.

Marcus Pedrosa é  graduado em Língua e Literatura Inglesa, ilustrador, estudioso das obras de J.R.R. Tolkien, autor dos livros “O Hobbit: Um amigo para seu filho” (2012), Contos dos Mil Riachos (2010), e Papo de Sapo (2009). O seu blog pessoal pode ser acessado AQUI, pagina no facebook AQUI.

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Um gigante entre os anões e uma batalha esquecida

Marcus Pedrosa

Rezam as lendas antigas que os anões nasciam das pedras no coração das montanhas. Outras dizem que eles saiam dos restos de um gigante sem vida.

Esta última merece uma atenção especial, por estar relacionada a um fato praticamente esquecido, mantido apenas na lembrança de velhos anões veteranos da longa e terrível Guerra dos Anões contra os Orcs, cujo saldo foi a derrota destes e perda de Moria, um dos mais esplendorosos reinos anões de então.

Sempre que lembram desta guerra, muitos anões choram ou arrancam fios de sua barba, pelo pesar e raiva, pois muito eles lutaram e perderam entes queridos, sem poder sequer dar-lhes um sepultamento digno, e nem recuperar Moria.

Tamanha indignação fez com que muitos evitassem falar sobre a guerra, daí a razão, e também pelo fato de muitas batalhas terem sido travadas nas profundezas das montanhas, pela qual uma batalha heroica e incomum praticamente se tornou esquecida dentre os grandes acontecimentos da Terra Média.

Conta-se que Frédor, um dos anões que lutavam no coração de Moria, lugar-tenente de um pequeno exército que defendia uma das alas das imensas galerias do reino, via-se em dificuldades devido ao grande número de orcs e pelo terrível troll que lutava junto aos mesmos.

Frédor e seu contingente fortificaram-se diante dos pesados portões de pedra da ala para defendê-la, repelindo as sucessivas ondas de ataques dos orcs, mas sempre a grande custo: apesar da habilidade e armas superiores dos anões, o troll sempre dava aos orcs a vantagem, o que fazia o seu chefe gritar para os anões ao final de cada embate, com empáfia:

– Quando aprenderão, nanicos miseráveis, que vocês nasceram para serem esmagados pelos maiores?

E assim recuava às gargalhadas com seu troll e sua horda.

A cada vez que ouvia isso, a ira inflamava no coração de Frédor, mas pouco havia a ser feito – nas outras frentes de combate em Moria, as batalhas estavam igualmente duras, de modo que ele não podia contar com reforços. Os anões sob seu comando lutavam com uma valentia indomável, mas o número dos orcs e a força monstruosa do troll sempre prevaleciam.

Foi então que Frédor teve uma ideia, como o lampejo do ouro na escuridão de um abismo, devolvendo a esperança ao seu coração preocupado ao ver seu exército ser consumido aos poucos a cada assalto.

Antes da guerra entre orcs e anões começar, Frédor era um hábil e respeitado fabricante de brinquedos e outros utensílios sem maior importância. Seu nome era conhecido em todas as sete casas dos anões pela engenhosidade dos artefatos que fabricava.

Dessa vez, no entanto, ao invés de brinquedos e simples objetos inofensivos, ele estava disposto a utilizar sua inventividade para reverter a situação dos anões na batalha.

Como uma feliz coincidência, havia na ala que defendiam uma grande e bem equipada oficina, e imediatamente, ele ordenou a alguns de seus guerreiros que aumentassem as barricadas para estreitar a frente de combate, pois ele retiraria dela alguns combatentes que também possuíam habilidade em trabalhar metais para ajudá-lo a executar seu plano na oficina.

Nenhum de seus subordinados questionou aquela decisão que parecia inadequada naquela situação, e a ninguém ele revelou o que pretendia, a não ser àqueles que ele havia escolhido, quando já estavam isolados atrás dos portões de pedra.

Isso feito, enquanto sua tropa, não obstante o desfalque, continuava a repelir os orcs, Frédor trabalhava arduamente e sem descanso juntamente com os demais artífices.

Ferro derretido era despejado em moldes e martelos batiam sem parar nas bigornas, dando forma a placas, tubos, engrenagens e rodas enormes, assim como alavancas e várias outras peças, que logo eram montadas uma às outras, dando forma rapidamente a algo que se assemelhava a uma estátua gigantesca e metálica de um anão.

Mas não se tratava de uma simples estátua imóvel. Ao montar a última peça, Frédor mal pode acreditar que conseguira concluir em tempo seu intento – construir um autômato grande o suficiente como um troll, que pudesse ser movimentado e guiado como um dos brinquedos que fabricava, salvo por um detalhe: seria um construto conduzido por anões para dar vida aos seus membros, e para caçar os orcs e seu troll.

Logo após alguns testes rápidos, Frédor e três de seus mais hábeis auxiliares tomaram posições dentro da máquina colossal, que se assemelhava a um anão com máscara de combate armado com um gigantesco machado. Cada qual pôs em movimento as rodas, correntes e alavancas coordenadamente, fazendo o autômato se deslocar lenta e pesadamente em direção ao portão de pedra atrás do restante das tropas de Frédor.

Quando os artífices que ficaram fora da máquina abriram o portão de pedra para que o gigante de metal saísse, anões e orcs, em pleno e feroz combate, por um instante foram forçados a uma rápida trégua pela visão do invento de Frédor. Muitos dentre os anões ficaram confusos, e os orcs olhavam estarrecidos o gigante que veio do nada junto ao inimigo marchando em sua direção, fazendo-os tremer como o chão quando ele mudava o passo.

Os orcs ignoravam o alcance do conhecimento dos anões para criar coisas. Nisso, os anões, com a moral elevada com o reforço inesperado, soltaram um alto e uníssono grito de batalha que intimidaram ainda mais os orcs, e não foi necessário uma ordem direta para que se lançassem com mais fúria sobre eles.

Para cada anão que avançava, pelo menos três orcs caiam antes que houvesse uma baixa dentre eles. Frédor e seu autômato cobria pesadamente cada jarda conquistada, sem qualquer impedimento ou dano – quando os orcs simplesmente não fugiam de terror, em vão disparavam flechas que ricocheteavam em sua espessa couraça de ferro ou tentavam cortar-lhe as pernas grossas como um barril, igualmente sem sucesso, tendo suas lâminas quebradas.

Os mais aguerridos tentavam escalar o colosso para danificá-lo de cima, mas não tardavam a ser abatidos por flechas anãs ou pelos próprios anões que subiam em seu encalço para lançá-los do alto, razão pela qual muitos orcs foram esmagados sob suas pesadas botas de ferro.

De dentro da máquina, Frédor observava a tudo com muita atenção e satisfação. Quando seus guerreiros já haviam se distanciado demais da fortificação, fez soar uma ordem pela boca do autômato, amplificada por uma espécie de trompa que deu um tom metálico à sua voz grave, enchendo mais ainda os orcs de terror, mandando que recuassem para as barricadas.

Nem os anões nem os orcs compreenderam o motivo do comando, o que foi vantajoso para os primeiros, que puderam recuar e se reagrupar sem serem perseguidos. O chefe dos orcs, contudo, ao ver que o gigante estava isolado no meio do campo de batalha, quis explorar o que ele julgou ser uma vantagem, não sem antes provocar Frédor mais uma vez:

– Vocês são bons para fabricar brinquedos, nanicos barbudos, mas é somente bonecos inofensivos que sabem fazer, não importa se pequenos ou grandes!

Tais palavras devolveram a coragem aos orcs, os quais passaram a acreditar que o gigante que os anões construíram não passava de uma figura inerme para intimidá-los, e então investiram com força total sobre ele, com um alto e estridente alarido.

Era exatamente a ação que Frédor esperava. Ele aguardou que os orcs se aproximassem o suficiente, e deu uma ordem aos demais tripulantes.

De repente, uma saraivada de dardos saiu de vários orifícios no amplo busto e no que seria a parte dianteira do cinturão do gigante metálico, fulminando totalmente a vanguarda do contra-ataque dos orcs.

Gigante dos anoes

Ilustração de Marcus Pedrosa

Os que vieram logo em seguida tiveram um destino ainda mais terrível, tão logo soou nova ordem de Frédor: dois anões dentro do autômato manejaram um fole que fez cuspir uma longa labareda de fogo nos orcs através do outro braço sem machado, os quais, uma vez incendiados, corriam desesperados para trás espalhando fogo e caos no restante da horda.

E assim, lentamente e altivo, o gigante de ferro retomou seu avanço em direção ao que restou do exército orc, acuado e trêmulo tal como seu chefe, cujos insultos já não podiam mais sair de sua boca calada pelo que havia acabado de presenciar.

Em seu desespero, sem querer lançar para a morte certa o que restou de suas forças, fosse contra a máquina de guerra dos anões ou contra eles próprios, quem, contrariando as ordens de Frédor para permanecerem recuados, seguiam sem perceber os lentos passos do gigante, com seus olhos brilhando de fúria na escuridão de seus elmos, o Chefe Orc resolveu enviar seu grande trunfo de costume: o troll.

A fera correu ao encontro do gigante de ferro, rugindo de um modo que somente os trolls eram capazes, emitindo um som que gelou mesmo o coração aguerrido dos anões, e brandindo sua enorme clava de madeira crivada de ferro.

Frédor também esperava por aquilo, na verdade, ele havia construído o gigante exatamente para enfrentar o troll.

Quando chegou a uma certa distância, a criatura saltou, e com as duas mãos, golpeou a cabeça do gigante como se quisesse parti-lo ao meio com sua clava. Frédor e os outros foram violentamente balançados e ensurdecidos pela força e som do golpe contra o metal, pois, embora não tenha sofrido nenhum dano considerável, o gigante se estremeceu de certa forma que todos acreditaram que ele simplesmente iria se desfazer. O ruido gerado pelo impacto fez ainda vibrar colunas e despencar partes do teto da galeria, matando muitos dentre anões e orcs que assistiam ao duelo.

Mas Frédor havia unido as peças da máquina não apenas com rebites de ferro, mas também com a antiga e secreta arte dos anões em fazer junções tão perfeitas que pareciam inexistentes, além de outras técnicas que mais se assemelhavam à magia do que ao ofício de um povo mortal.

O troll continuava a golpear furiosamente o gigante com o que restara de sua arma, o qual era estremecido ou ligeiramente amassado, mas nunca lançado ao chão, posto que era por demais pesado, mesmo para a força de um troll.

Com nova ordem de Frédor, o braço do colosso de ferro com o gigantesco machado foi erguido, tão lentamente que o troll, atacando aqui e ali, não percebeu o movimento.

Então, quando este apanhou uma pedra e arremessou contra o gigante, ao que ele girou o tronco, como se tivesse sido avariado pela pedra, que se partiu em várias com o impacto. Por um momento, Frédor pensou que seu plano fracassaria, ao sentir que o gigante balançou a ponto de cair. Já o Chefe Orc, em uníssono com sua horda, deu um grito estridente de vitória.

Todos criam que o gigante de fato havia sido finalmente danificado pelo troll, até vários dentre os anões. Contudo, quando o troll apanhou com dificuldade outra pedra gigantesca e se aproximou como se quisesse esmagar o gigante de metal, foi fatalmente golpeado do ombro ao umbigo pelo enorme machado afiado que até então havia ficado imóvel, com um movimento súbito e coordenado do tronco e do braço do gigante voltando às suas posições originais.

Na verdade, quando ele se virou de lado coincidentemente com a pedrada do troll, a máquina estava sendo controlada por Frédor e seus tripulantes para assumir uma posição de ataque, como uma catapulta que é torcida e presa até finalmente ser liberada para lançar sua carga com força total contra o alvo.

Na trilha do sangue negro do troll caído morto aos pés do gigante, assim como a enorme pedra que carregava, os anões correram para exterminar os orcs imobilizados pelo inacreditável feito de Frédor. Não lhes restou outra alternativa a não ser debandar, perseguidos e mortos o quanto foi possível pelas forças de Frédor, que ainda se fez ouvir pelo Chefe Orc em fuga, através da boca do gigante:

– Malditos sejam sempre sob as montanhas, orcs, vocês são vermes tão desprezíveis que mesmo brinquedos são capazes de pisá-los!

Frédor, o engenhoso construtor de brinquedos, havia conseguido defender aquela ala de Moria, vencendo finalmente a batalha.

Mas foi uma vitória que não pode ser comemorada por muito tempo, e talvez por isso rememorada como deveria –  ao tomarem conhecimento de sua vitória, sem muitos detalhes, logo outros comandantes enviaram mensageiros solicitando seu apoio com urgência nas outras frentes de batalha de Moria.

Ignorado e sem ser poder ser levado, por ser muito lento e pesado, o gigante de metal foi deixado em sua última forma, de frente para o troll que matara, com o sangue negro escorrendo no fio de seu enorme machado.

Com a batalha de Azanulbizar e a morte do líder orc Azog, a Guerra entre anões e orcs chegou ao fim, e como é contado em prosa em verso, os anões venceram, mas não puderam recuperar o suntuoso  reino de Moria.

Destarte, com o passar do tempo, na escuridão e silêncio, os orcs logo retornaram e fizeram das imensas e profundas galerias abandonadas seu esconderijo por muito tempo, pilhando o que restou de suas riquezas e destruindo o que não lhe interessavam.

E provavelmente este foi o fim do lendário gigante de ferro construído por Frédor. Dentre os que testemunharam o feito, houve quem dissesse que Frédor, ao abandonar o colosso, o selou para que jamais pudesse ser pilotado novamente, deixando-o como um altivo monumento da vitória anã.

Outros contavam que sua existência se tornou famosa entre os orcs, os quais temiam que ele pudesse despertar de repente para perseguí-los e matá-los com suas armas furtivas e seu grande machado, razão pela qual aquela ala nunca foi ocupada por eles.

O fato é que ele simplesmente foi esquecido nas profundezas de Moria, onde as eras e a ferrugem lentamente o devoraram, levando seu metal de volta ao coração da montanha.

Quanto ao destino de Frédor, muitos contam que ele morreu em Azanulbizar, outros dizem que ele foi visto nas Montanhas Azuis onde os anões sem lar constituíram nova morada, onde voltou à sua simples vida de fabricante de brinquedos.

De qualquer modo, com o tempo, Frédor foi esquecido como bravo comandante e como criador de uma das mais lendárias armas já feitas na Terra Média.



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  • Yuri saraiva de Oliveira

    perfeito’!

  • lucas

    grande conto, fantástico!