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Tolkien foi indicado duas vezes ao Prêmio Nobel de Literatura

by Eduardo Stark

J.R.R. Tolkien é considerado um grande escritor do século XX e isso não parece ser novidade atualmente. Contudo, na época em que o autor esteve vivo o reconhecimento parecia mais complicado de ser alcançado, especialmente entre os estudiosos de literatura. A Fantasia, Contos de Fadas, Mitologia e todas as histórias que tivessem algo diferenciado, em termos de elementos padrões da realidade, era visto como um escapismo, uma necessidade de fuga das questões relevantes para a vida em sociedade. E assim, não era levado em consideração pelos estudos acadêmicos seriamente.

Esse bloqueio por parte dos intelectuais da literatura na época fez com que C.S. Lewis e Tolkien fossem vistos com um pouco de desconfiança ou mesmo exclusão em alguns desses meios acadêmicos.  Os elementos da fantasia e a grande popularidade de seus livros fizeram com que tanto Lewis quanto Tolkien fossem deixados de lado por muitas instituições que premiavam escritores.

O caso do Prêmio Nobel e as indicações de Tolkien é tema de estudos atualmente graças a liberação de documentos em 2012, que provaram que o autor do Senhor dos Anéis havia sido indicado ao prêmio pór seu amigo C.S. Lewis.

Então surgem os diversos questionamentos. Por que Tolkien não ganhou o prêmio Nobel? Seria a pouca simpatia dos acadêmicos em relação a livros que tem grande acolhimento popular? Ou ainda seria um misto de esnobismo e inveja literária? E ainda, por que C.S. Lewis indicou Tolkien em uma época que eles estavam, aparentemente, distantes em sua amizade?

As respostas para essas perguntas pretendem ser o objeto do presente texto. Certamente poderão ser descobertos novos documentos que esclareçam melhor o período, mas o que será apresento a seguir são as informações encontradas até o momento em conjunto com a organização das ideias e do contexto da época.

O Prêmio Nobel de Literatura

O Prêmio Nobel surgiu a partir da iniciativa de Alfred Bernhard Nobel, um químico sueco responsável pela invenção da dinamite. Em seu testamento havia a indicação para que fosse criado uma fundação que premiasse todo ano aqueles que tivessem contribuído para desenvolvimento da Humanidade. Assim, em 1900 foi criada a Fundação Nobel cujo objetivo era entregar os prêmios em áreas distintas: Química, Física, Medicina e Literatura.

A Academia Sueca foi fundada em 20 de março de 1786 pelo Rei Gustavo III como sendo uma das Academias Reais da Suécia. Desde 1901 essa instituição se tornou responsável por escolher os premiados em matéria de literatura, em memória de Alfred Nobel.

A cada ano a Academia Sueca envia pedidos de indicações de candidatos ao prêmio Nobel em Literatura. Podem apontar nomes aqueles que são membros de Academias, membros de sociedades ou academias literárias, professores de literatura e línguas, ex ganhadores do Prêmio Nobel de literatura e presidentes de organizações de escritores.

Em Outubro de cada ano, os membros da Academia votam nos candidatos que irão receber o prêmio e aqueles que receberem mais da metade dos votos é o escolhido. Somente aqueles candidatos que apareceram mais de uma vez na lista de indicados poderá participar, por isso muitos indicados aparecem mais de uma vez nas listas ao longo dos anos. Após a escolha, o vencedor do Prêmio ganhará uma medalha de ouro, um diploma com uma citação e uma quantia significativa de dinheiro.

O Prêmio Nobel da Literatura é objeto de debates entre os estudiosos da literatura, especialmente quanto a algumas nomeações questionáveis. Contudo, o Prêmio é reconhecido internacionalmente como um dos maiores prestígios e reconhecimento em termos de conhecimento humano. Certamente aqueles que são indicados e premiados estão entre as grandes pessoas do mundo que fizeram algo diferente.

E. M. Forster, escritor indicado por Tolkien ao Nobel.

 

Tolkien indicou E. M. Forster para o Prêmio Nobel em 1954

O escritor Edward Morgan Forster recebeu vinte e nove nomeações entre os anos de 1945 a 1966[1]. Entre essas várias indicações está aquela assinada por J.R.R. Tolkien junto com F. P. Wilson e Lord David Cecil em 1954[2]. Para entender em qual contexto se deu essa nomeação é interessante saber um pouco sobre a relação do Tolkien com os outros dois professores, pois a amizade entre eles levam ao verdadeiro motivo dessa indicação.

Frank Percy Wilson (1889-1963) na sua infância estudou na King Edward’s School em Birmingham, mesma escola que Tolkien havia frequentado. Wilson também serviu como soldado na Primeira Guerra Mundial, e assim como Tolkien, sobreviveu à Batalha de Somme em 1916. Entre os anos de 1929 a 1936 foi professor de Literatura Inglesa na Universidade de Leeds, onde provavelmente deve ter feito contato com Tolkien, que também era professor de Leeds no período. Entre os anos de 1945 a 1959 Tolkien ocupou a cadeira de professor de Inglês e Literatura na Merton College, na Universidade de Oxford, enquanto F. P. Wilson foi professor de Literatura Inglesa na mesma instituição entre os anos de 1947 a 1957, [3] sendo sucedido no cargo por Nevill Coghill, um membro dos Inklings.[4]

A ideia de indicar Edward Morgan Forster ao Prêmio Nobel parece ter sido uma iniciativa que passou por Lord David Cecil, um amigo de Tolkien e membro dos Inklings. Em 1949 Cecil havia publicado o livro “Poets and Storytellers” um série e ensaios sobre quatro canônicos e dois escritores contemporâneos, sendo um deles o próprio Forster.

A relação entre os três indicadores é evidenciada, mas o que motivaria tal escolha e o qual o contexto da indicação é que ainda permanece um mistério entre os estudiosos do assunto. Até o momento apenas hipóteses podem ser ressaltadas. Ao tratar sobre o tema Dennis Wilson Wise concluiu o seguinte:

Minha hipótese é que eles colaboraram com a intenção de assegurar ao seu amigo C.S. Lewis o cargo de professor na Universidade de Cambridge. Durante esse mesmo período em que esse triunvirato submeteu sua indicação em 1954, os amigos e aliados de Lewis, frustrados por parecer que sua carreira estava bloqueada em Oxford, orquestraram a criação de uma nova cadeira em Inglês Medieval e Renascentista em Cambridge. A maioria das discussões sobre esse episódio na história dos Inklings se concentra na persuasão que Lewis precisava para aceitar esta prestigiada promoção, mas ninguém sabe nada sobre os esforços por trás dos bastidores necessários para criar a cátedra em primeiro lugar. Por minha parte, penso que é provável que algumas políticas acadêmicas regulares possam estar envolvidas. Como um meio para acalmar qualquer resistência potencial em Cambridge em aceitar Lewis às suas fileiras de professores, três “Dons” de Oxford – o triunvirato de Tolkien, Wilson e Cecil – prometeram nomear um dos escritores mais famosos de Cambridge para o Prêmio Nobel de Literatura. Todos os três indicadores tiveram amplo motivo para ajudar Lewis. Além disso, Tolkien e Wilson foram escolhidos, ao lado de vários aliados de Lewis, com sede em Cambridge, como eleitores da nova cátedra. (WISE, Dennis Wilson, J.R.R. Tolkien e a indicação em 1954 de E. M. Forster pelo Prêmio Nobel de Literatura, Mythlore, vol. 36, nº 1, 2017, p. 144-145).[5]

A hipótese defendida por Dennis Wilson Wise parece ser razoável e coerente com o contexto.bA relação entre esses três professores de Oxford estava especialmente estreita em 1954, com relação a trabalhos acadêmicos e a nomeação de professores. Em 12 de março de 1954, Tolkien participou de uma reunião da Diretoria da Faculdade de Inglês em Oxford, onde discutiu os trabalhos em uma comissão juntamente com J.N. Bryson (presidente), Lord David Cecil, Humphry House e F.P. Wilson[6].  

Poucos meses depois, em Maio, Tolkien participou como eleitor em uma comissão para estabelecer a nova cadeira de Inglês Medieval e Renascentista em Cambridge, sendo também membro E.P. Wilson e outros. A primeira escolha unanime  para o cargo foi  o C.S. Lewis. O vice-chanceler de Cambridge, Sir Henry Willink, chegou a enviar carta para Lewis informando a escolha e o convidando para o cargo, mas devido a algum mal entendido Lewis acabou recusando a oferta. Ele se sentia velho demais e não queria deixar sua residência em Oxford. Coube a Tolkien conversar e convencer Lewis que ele deveria ocupar o cargo. Tolkien se sentiu responsável pela escolha e chegou a intermediar a situação em vários momentos, até que finalmente Lewis aceitou o cargo.

Um outro momento, 18 de maio de 1954, demonstra a relação entre esses nomes. Ocorreu o encontro entre F.P. Wilson e David Cecil com Tolkien e Lewis, em que eles discutiram sobre se a literatura Vitoriana deveria ser excluída dos exames compulsórios na Oxford English School e, no lugar fosse colocado o Inglês Antigo e estudos medievais. Inicialmente Tolkien e Lewis compartilhavam da importância dessa mudança. Tolkien havia convencido Lewis, que passou a defender a ideia, enquanto Wilson e David Cecil eram opositores da mudança. Ao que parece, temendo algum tipo de antipatia por parte de Wilson e Cecil, Tolkien decidiu não mais apoiar a mudança, enquanto Lewis permaneceu isolado na defesa da ideia. De certa forma, Lewis se sentiu constrangido e isso parece te implicado em desgaste na amizade do autor do Hobbit com ele.

Fato é que nesse período a indicação ao Prêmio Nobel aconteceu e logo depois Lewis decidiu aceitar o cargo em Cambridge. Em 9 de Dezembro de 1954, a Faculdade de Inglês de um jantar informal de despedida para C.S. Lewis na Merton College. Entre os presentes, além do próprio Lewis e seu irmão Warnie, estavam Tolkien e seu filho Christopher, Hugo Dyson, Lord David Cecil, J.N. Bryson, F.P. Wilson, Nevill Coghill, Irvine R. Browning (um dos alunos de Lewis), J.A.W Bennett, R.E. Havard, e Emrys Jones, que seria o sucessor de Lewis em Magdalen.

C. S. Lewis e a indicação do Tolkien ao Prêmio Nobel em 1961

No final de 1960, o Comitê de Literatura do Prêmio Nobel entrou em contato com C.S. Lewis, pedindo que ele indicasse alguém para o prêmio de 1961. A Academia sueca tem o costume de convidar alguns acadêmicos, premiados anteriores e outros representantes institucionais para indicações. Inicialmente Lewis pareceu indeciso entre quatro nomes. Conforme consta em carta para Alastair Fowler (Berg), em 7 de janeiro de 1961:

“Em segredo: Se você fosse convidado a nomear um candidato para o Prêmio Nobel (literatura) quem seria o escolhido? Mauriac teve isso. Frost? Eliot? Tolkien? E. M. Forster? Você conhece a inclinação ideológica (se houver) da Academia Sueca? Mantenha tudo sob seu chapéu.”.[7]

O destinatário da carta era Alastair David Shaw Fowler (1930-), atualmente com 88 anos de idade, um crítico literário escocês e editor, sendo um especialista em Edmund Spenser, teoria de gênero literário e literatura renascentista. Fowler foi aluno de C.S. Lewis em Oxford e em 1967 editou o livro Spenser’s Images of Life que contém textos do autor de Nárnia.

A pergunta de Lewis sobre a inclinação ideológica da Academia parece interessante. Demonstra que desde aquela época havia certa tendência de escolhas por motivos políticos, ou ao menos Lewis acreditava que fosse o caso. Indica também um certo desconhecimento de Lewis sobre o processo de escolha do Prêmio Nobel,  o que o fez pedir uma auxílio a um amigo. O fato de ser feito o pedido de sigilo demonstra a confiança de Lewis em relação a Fowler e demonstra que poucas pessoas chegaram a conhecer essa indicação.

Dos mencionados na carta, T. S. Eliot já havia recebido o prêmio em 1948, “por sua destacada e pioneira contribuição para a poesia contemporânea”[8]. Enquanto que E. M. Foster, como visto anteriormente já havia sido indicado ao prêmio por seus amigos Inklings Tolkien e Lord David Cecil e por seu ex-tutor F. P. Wilson. E naquele mesmo ano de 1961 seria indicado novamente por outra pessoa. De modo que só restou a escolha entre Frost e Tolkien.

 

C. S. Lewis, escritor e amigo de Tolkien

 

Naquele momento, a amizade entre Tolkien e C.S.Lewis parecia abalada e distante. Eles não se viam com tanta frequência e raramente tinham contato por carta ou por terceiros. Tudo isso decorrência de uma série de debates e desentendimentos que fizeram a amizade enfraquecer. Talvez nessa época Lewis tenha descoberto que o que motivou Tolkien na indicação ao prêmio Nobel de E. M. Forster tenha sido a possibilidade de influência na escolha do cargo de professor em Cambridge. Dessa forma, é razoável dizer que Lewis poderia estar tentando retribuir o que Tolkien havia feito. Assim, a escolha de Lewis para o prêmio foi o J.R.R. Tolkien.

No ano seguinte, 1962, C.S. Lewis foi novamente incumbido de escolher outro nome e indicou Robert Frost para o prêmio Nobel. Um nome, como visto, que havia cogitado inicialmente em 1961. Frost chegou a receber trinta e uma indicações ao prêmio entre os anos de 1950 e 1963, mas jamais recebeu o título.

Assim, em 1961 C.S. Lewis indicou Tolkien para o Prêmio Nobel[9], conforme a carta endereçada ao Comitê de Literatura do Prêmio Nobel, guardada nos arquivos da Academia Suíça abaixo:

“Prezados senhores, respondendo ao seu convite, tenho a honra de indicar como candidato ao Prêmio Nobel de literatura de 1961 o professor J.R.R. Tolkien de Oxford, em reconhecimento por sua famosa trilogia romântica O Senhor dos Anéis. Coloco-me inteiramente a sua disposição. C.S. Lewis”[10].

De todos os amigos pessoais do Tolkien, Lewis foi o que teve maior contato com O Senhor dos Anéis, tendo escutado os capítulos serem lidos pelo autor em reuniões privadas e em conjunto com os Inklings. Lewis também foi o responsável pela defesa da obra em jornais, tendo feito duas resenhas dos livros.

Não há documentos ou testemunhos que Tolkien teve conhecimento dessa indicação ao Prêmio Nobel. Fato é que os documentos relacionados a essa indicação ficaram em sigilo desde essa época e só se tornaram públicos em 2012.  

Como dito acima, nessa época os dois escritores estavam com a amizade distanciada por fatores pessoais e talvez tenha sido uma forma do C.S. Lewis de agradar o velho amigo com uma surpresa generosa. Era um costume do Lewis fazer citações relativas ao Tolkien em seus livros e ensaios ou mesmo dedicatórias em livros sem que ele soubesse, o que em alguns casos, Tolkien não considerava como surpresas agradáveis. Tolkien demonstra esse desgosto e, também o momento que passava de distanciamento em relação ao Lewis, em um trecho de suas cartas, ao escrever o seguinte: “Acabei de receber um exemplar do último livro de C.S.L: Studies in Words. Ai! Sua tolice cansativa está se tornando um estilo permanente. Estou profundamente aliviado por saber que não sou mencionado[11]

A lista dos indicados ao Prêmio Nobel em 1961 contempla mais de cinquenta nomes, dentre eles nomes de famosos pensadores como Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre e Aldous Huxley. A lista completa é a que está adiante:

Ivo Andrić                                         Jean Anouilh
W.H. Auden                                      Gaston Bachelard
Simone de Beauvoir                          Karen Blixen
Heinrich Böll                                     Maurice Bowra
Georges Duhamel                              Lawrence Durrell
Friedrich Dürrenmatt                         Johan Falkberget
E.M. Forster                                       Gertrud von le Fort
Robert Frost                                       Romulo Gallegos
Armand Godoy                                 Julien Gracq
Robert Graves                                     Graham Greene
Gunnar Gunnarsson                           L. Hartley
Adrianus Roland Holst                      Taha Hussein
Aldous Huxley                                  Pierre-Jean Jouve
Ernst Jünger                                       Yasunari Kawabata
Miroslav Krleza                                 André Malraux
William Somerset Maugham              Eugenio Montale
Alberto Moravia                                Giulia Scappino Mureno
Pablo Neruda                                     Junzaburo Nishiwaki
Sean O’Casey                                    Ramón Menéndez Pidal
Sarvepalli Radhakrishnan                  Cora Sandel
Aksel Sandemose                              Jean-Paul Sartre
Giorgos Seferis                                  Ignazio Silone
Georges Simenon                               Charles Percy Snow
Michail Solochov                               John Steinbeck
John Ronald Reuel Tolkien                        Junichiro Tanizaki
Miguel Torga                                     Tarjei Vesaas
Simon Vestdijk                                  Arthur David Waley
Edmund Wilson

Dos nomes mencionados na lista, Tolkien teve contato pessoal com alguns deles. Como exemplo W.H. Auden, que escreveu uma resenha de O Senhor dos Anéis e se correspondia com Tolkien; Robert Graves, especialista em mitologia Greco-romana e que chegou a morar na mesma rua que Tolkien em Oxford; e Edmund Wilson, critico literário que escreveu uma resenha sobre O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel em 1956.[12]

Todos os documentos relacionados ao processo de indicação e nomeação dos vencedores do Prêmio Nobel sofrem um sigilo por um período de 50 anos. Após esse prazo os arquivos são reabertos ao público para estudos e análises por historiadores e interessados. Foi assim que em 2012 o jornalista sueco Andreas Ekström, analisando os documentos informou sobre essa indicação e apresentou trechos dos motivos de Tolkien não ter sido o vencedor do prêmio.

Segundo um dos principais julgadores, Anders Österling  a “prosa de Tolkien de forma alguma chega ao nível de narrativa de alta qualidade[13] Naquela época, Österling era um dos mais importantes membros da academia e sua opinião teve peso certamente. Além disso, a regra de que o prêmio deveria ser concedido a um candidato que já tivesse sido indicado anteriormente também pesou no momento da votação.

Em 10 de dezembro de 1961, finalmente ocorreu a cerimônia de premiação. Em meio a vários nomes de peso na literatura, o ganhador do Prêmio Nobel de 1961 foi o Ivo Andrić (1892-1975) da Iugoslávia “pela força épica com a qual ele traçou temas e descreveu destinos humanos desenhados a partir da história de seu país”.[14]

J.R.R. Tolkien

 

Pela segunda vez Tolkien no Prêmio Nobel em 1967

Em 1967 o nome de J.R.R. Tolkien estava novamente concorrendo pelo Prêmio Nobel[15]. Nesse ano o autor já estava bem mais conhecido internacionalmente, em especial nos Estados Unidos devido a pirataria de seus livros pela Ace Books.

Naquele momento Tolkien havia chegado também a Suécia. Desde 1959 o Senhor dos Anéis havia sido traduzido e publicado e em 1968, em Gothenburg foi fundada em “The Tolkien Society”, a primeira organização de fãs na Europa com a finalidade de tratar sobre o autor de O Hobbit. O nome foi mudado com o acréscimo “of Sweden” quando em 1969 surgiu a sociedade inglesa.

Anos antes o Tolkien teve contato com o ciclo universitário de Lund, onde acabou contribuindo com uma nota introdutória para o livro “A Philological Miscellany Presented to Eilert Ekwall” em 1942, publicado para marcar o aniversário de sessenta e cinco anos de Eilert Ekwall, Professor de Inglês da Universidade de Lund, na Suécia.Ao que parece, desde então Tolkien manteve contato com suecos e recebeu diversos convites de visitas ao país.

O responsável pela indicação do professor Tolkien ao Nobel foi Gösta Holm. Per Olof Gösta Holm (1916-2011) foi um filólogo sueco, professor de línguas escandinavas na Universidade de Lund desde 1961. Não há muitas relações entre Holm e Tolkien. Talvez eles tenham se correspondido e tratado sobre as línguas escandinavas, mas o fato é que havia esse contato com o Tolkien e o meio universitário sueco.

A lista de indicados ao Prêmio Nobel de 1967 contém setenta nomes:

Jorge Amado                                     Carlos Drummond 

Louis Aragon                                     Miguel Angel Asturias

Jorge Luis Borges                              W.H. Auden

Samuel Beckett                                  Saul Bellow

Jorge Luis Borges                              Emil Boyson

Arturo Capdevila                               Josep Carner

Alejo Carpentier                                René Char

Mohammed Ali Djamalzadeh            Lawrence Durrell

Rabbe Enckell                         Hans Magnus Enzensberger

E.M. Forster                                       Max Frisch

Rómulo Gallegos                               Jean Genet

Jean Giono                                         Witold Gombrowicz

Robert Graves                                              Graham Greene

Jorge Guillén                                     Lawrence Sargent Hall

Taha Hussein                                     Eugène Ionesco

Ernst Jünger                                    Friedrich Georg Jünger

Marie Luise Kaschnitz                       Yasunari Kawabata

Basi i Khalkhali                                 Väinö Linna

Georg Lukács                                    Karls Löwtih

André Malraux                                Ramón Menéndez Pidal

Yukio Mishima                                  Eugenio Montale

Henry de Montherlant                       Alberto Moravia

Pablo Neruda                                     Junzaburo Nishiwaki

Germán Pardo García                       Konstantin Paustovski

Joé María Pemán                                André Pézard

Katherine Anner Porter                     Ezra Pound

Rahnema Anna Seghere

Georges Simenon                               Claude Simon P. Snow

J.R.R. Tolkien

Pavlo Tychyna                                   Ivan Drach

Lina Kostenko                                   Pietro Ubaldi

Robert Penn Warren                          Tarjei Vesaas

Simon Vestdiik                                  Thornton N. Wilder

Edmund Wilson                                 Juith Wright

Carl Zuckmayer                                 Arnold Zweig

Arnulf Overland

Devido a grande quantidade de indicações de pessoas da América Latina,  no discurso de entrega do prêmio, Anders Österling chegou a afirmar que “A América Latina hoje pode se orgulhar de um grupo ativo de escritores proeminentes, um coro multifacetado em que as contribuições individuais não são facilmente discerníveis”.[16] De fato, o ano de 1967 contemplava muitos nomes de escritores da América Latina. Como exemplo, os brasileiros Jorge Amado e Carlos Drummond de Andrade, porém esses nomes estavam indicados ao prêmio pela primeira vez e isso objetivamente era um empecilho para que fossem escolhidos.

O vencedor do prêmio de 1967 foi o Miguel Ángel Asturias (1899-1974), da Guatemala, “por sua realização vívida literária, profundamente enraizada nos traços nacionais e tradições dos povos indígenas da América Latina.”[17] Segundo Anders Österling  o escolhido era um “proeminente representante da literatura moderna na América Latina[18] Até o momento, Asturias já tinha sido indicado outras três vezes, em 1964, 1965 e 1966[19].

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NOTAS DE REFERÊNCIAS:

[1] https://www.nobelprize.org/nomination/archive/show_people.php?id=3128 Site Nobel Prize, acessado em 11 de janeiro de 2018.

[2] https://www.nobelprize.org/nomination/archive/show.php?id=17677 Site Nobel Prize, acessado em 11 de janeiro de 2018.

[3] Lewis, C. S. (13 November 1992). All My Road Before Me: The Diary of C. S. Lewis, 1922-1927. Houghton Mifflin Harcourt. p. 473

[4]  Bloom, Harold (1 January 2009). Geoffrey Chaucer. Infobase Publishing. p. 48.

[5] My hypothesis is that they collaborated  in order to help secure their friend C.S. Lewis a professorship at the University of Cambridge. During the same time that the triumvirate submitted their 1954 nomination, Lewis’s friends and allies—frustrated that his career seemed blocked at Oxford—orchestrated the creation of a new chair in Medieval and Renaissance English at Cambridge. Most discussions of this episode in Inklings’ history focus on the coaxing Lewis needed to accept this prestigious promotion, but nobody knows anything about the behind-the-scenes efforts needed to create the professorship in the first place. For my part, I think it likely that some normal academic politicking might have been involved. As a means to mollify any potential resistance in Cambridge to adding Lewis to its professorial ranks, three Oxford dons—the triumvirate of Tolkien, Wilson, and Cecil—promised to nominate one of Cambridge’s most famous writers for the Nobel Prize in Literature. All three nominators had ample reason to help Lewis; furthermore, Tolkien and Wilson were even chosen, alongside several Cambridge-based allies of Lewis, as electors for the new professorship. (WISE, Dennis Wilson. J.R.R. Tolkien and the 1954 nomination of E. M. Forster for the Nobel Prize in Literature, Mythlore, vol. 36, no. 1, 2017, p. 144-145).

[6]  p.

[7] “In confidence. If you were asked to nominate a candidate for the Nobel Prize (literature) who wd. be choice? Mauriac has had it. Frost? Eliot? Tolkien? E. M. Forster? Do you know the ideological slant (if any) of the Swedish Academy? Keep this all under your hat”. The Collected Letters of C.S. Lewis, Narnia, Cambridge, and Joy 1950-1963, volume III,  ed. Walter Hooper. Harpercollins, 2007, p.1224.

[8] “for his outstanding, pioneer contribution to present-day poetry”  https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1948/index.html Site Nobel Prize, acessado em 11 de janeiro de 2018.

[9] https://www.nobelprize.org/nomination/archive/show.php?id=16784 Site Nobel Prize, acessado em 11 de janeiro de 2018.

[10]  McGrath, Alister. A vida de C.S. Lewis, do ateísmo às terras de Nárnia, p.363.

[11] Carta 224, para Christopher Tolkien, 12 de Setembro de 1960.

[12] The Nation, April 14, 1956. “Oh, Those Awful Orcs!”.

[13] https://www.sydsvenskan.se/2012-01-03/greene-tvaa-pa-listan-1961

[14] http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1961/index.html

[15] http://www.svenskaakademien.se/akademien/akademiens-arkiv/nobelarkivet-1967

[16] Latin America today can boast an active group of prominent writers, a multivoiced chorus in which individual contributions are not readily discernible.

https://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1967/press.html. Acessado em 12 de janeiro de 2018.

[17] http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/literature/laureates/1967/index.html. Acessado em 12 de janeiro de 2018.

[18] a prominent representative of the modern literature of Latin America.

[19] https://www.nobelprize.org/nomination/archive/show_people.php?id=13187

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