Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Tolkien entres ateus e agnósticos

 

by Eduardo Stark
(tolkienbrasil@gmail.com)

O ser humano é o único ente vivo que consegue compreender a sua própria existência de um ponto de vista racional. Isso nos leva a pensar sobre a possibilidade de que não estaríamos isolados no mundo, mas que algo além desse plano físico poderia existir. É nesse ponto que se divide as ideias entre aqueles que têm convicção sobre a existência de alguma transcendência e aqueles que consideram apenas o mundo material como a realidade.

O escritor J.R.R. Tolkien tem diversos leitores espalhados por todo o mundo. Isso implica ter diferentes opiniões sobre o que se considera como sendo a verdade. Pessoas de todas as crenças leem as obras do Hobbit e O Senhor dos Anéis e conseguem ter o prazer literário, sem se incomodar com controvérsias religiosas. Foi justamente essa a intenção do autor ao dizer que o livro de O Senhor dos Anéis não tinha motivação política, religiosa, educacional, moral ou econômica (veja mais AQUI). A ideia é que os livros devem ser lidos com o propósito de entretenimento e, se possível, proporcionar uma maior elevação intelectual ao leitor.

Não é segredo que Tolkien era um católico devoto e tradicional (veja mais AQUI), o que se deduz que ele acreditava nos ensinamentos da Igreja Católica registrados nos últimos dois mil anos. E certamente a religião teve influência direta em suas obras em muitos aspectos. E ainda, se o leitor deseja um conhecimento mais aprofundado sobre as obras, especialmente sobre as fontes e origem dos textos, é necessário um conhecimento sobre a religião cristã, especificamente católica.

A controvérsia surge quando um leitor se incomoda com esse aspecto pessoal do autor. Ou mesmo se sentem constrangidos diante de textos que evidenciam o catolicismo na obra de Tolkien. Esse tipo de incomodo surge com premissas equivocadas ou mesmo preconceito em relação à Igreja Católica. Há leitores que ao descobrir a religião de Tolkien chegam a abandonar a leitura da obra tendo em vista isso. Ora, se fossemos observar aspectos pessoais de cada livro do passado, e não aproveitarmos o que a obra se propõe, poucos seriam os livros proveitosos. Como exemplo, teríamos que ignorar as descobertas de Galileu, Isaac Newton por serem cristãos? Ou evitaríamos escutar músicas de Mozart, Bach e Beethoven por serem compositores com fé religiosa cristã? Na verdade, seria preciso ignorar praticamente todos os grandes escritores anteriores ao século XX se levarmos em conta que eram religiosos.

As obras de Tolkien devem ser apreciadas da melhor forma possível, como uma obra de arte em seu sentido próprio. Aqueles que não compartilham da mesma crença do autor podem aproveitar e se deleitar com as obras livremente. É como se estivesse escutando uma música muito bela, com uma letra sutil tratando sobre religião. Ainda seguindo os exemplos dos compositores citados acima, temos a música “Benedictus qui venit in nomine domini[1]. Ao menos três dos grandes compositores elaboraram melodias para essas palavras: Bach, Beethoven e Mozart. Devemos ignorar essas belas músicas por se tratarem de algo religioso? Ao escutar a música não se questiona sobre a vida pessoal do compositor. Apenas se escuta e a aprecia por ser algo belo. Agora, aquele que desejar se aprofundar e entender do que se trata a letra da música, qual o seu contexto e fundo religioso, terá certamente que buscar referências. É esse o comparativo que se aplica a obra de Tolkien. É possível que o leitor se divirta, mas para alcançar o entendimento da obra é preciso buscar as fontes do autor, nelas incluindo fortemente sua religião.

Se os livros do Tolkien de alguma forma são responsáveis por auxiliar a conversão do individuo de uma não crença para uma crença, certamente é algo que iria agradar o autor, porém, não foi claramente o seu objetivo. A ideia é que os livros sejam apreciados da melhor forma possível, porém, a interpretação religiosa é algo que o Tolkien considerava muito mais elevada do que ele poderia imaginar. Para Tolkien os aspectos religiosos estavam tão superiores a sua obra que considerava um elogio não merecido ter essas comparações.

Nesse ponto, aquele que não pratica a mesma religião que Tolkien pode seguir o motivo que ele deu ao escrever os livros: “O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de tentar fazer uma história realmente longa, que prendesse a atenção dos leitores, que os divertisse, que os deliciasse e às vezes, quem sabe, os excitasse ou emocionasse profundamente”. (Prefácio, 2ª edição do Senhor dos Anéis). Mas, caso seja necessário um aprofundamento e a busca de maior entendimento da obra, entender a religião do autor é algo de grande importância: “se assim posso dizer, com humildade, a religião cristã (que eu professo) é, de longe, a mais poderosa fonte suprema, num plano inferior: o meu interesse linguístico é a força mais poderosa”. (Em carta para L.M. Cutts, em 26 de outubro de 1958).

Os argumentos acima foram utilizados especialmente para as obras do Tolkien que tem relação com o seu Legendarium. Ele também escreveu sobre temas religiosos propriamente, porém, sempre com aspectos técnicos de sua profissão de filólogo e de linguista. Ele não se considerava um teólogo e não tinha a pretensão de ser.

J.R.R. Tolkien, professor de Oxford e autor do Hobbit e O Senhor dos Anéis

 

Tolkien entre ateus e agnósticos

É fato que a propagação do ateísmo e agnosticismo é um fenômeno recente na história da humanidade. Especialmente no final do século XIX, escritores ateístas se notabilizaram no mundo, como exemplo Karl Marx e Sigmund Freud. Este último foi fortemente combatido por C.S. Lewis, amigo de Tolkien, em seus diversos livros e escritos (veja mais AQUI). Tolkien foi um professor universitário no início do século XX, justamente quando os primeiros ateus surgiam. Naquele tempo a ideia de valorização da ciência estava em ascensão e isso gerava muitos debates e professores convictos da inexistência de Deus. Havia até mesmo certa ridicularizarão dos intelectuais em relação a escritores muito religiosos. Com as duas guerras mundiais isso foi se ampliando cada vez mais e a descrença era frequente no âmbito universitário.

Era comum Tolkien conviver com professores de Oxford que eram ateus. Dentre seus próprios amigos pessoais havia aqueles que não acreditavam em Deus. Começando por C.S. Lewis, que chegou a Oxford como ateu convicto e foi persuadido por Tolkien a ser cristão. Lewis se tornou um dos grandes apologistas cristãos do século XX e em muitos de seus escritos utiliza ideias que o Tolkien havia utilizado para convertê-lo. Além disso, vários membros do grupo dos Inklings discutiam abertamente temas religiosos e Tolkien estava sempre pronto para defender as ideias e a fé católica.

Havia alunos de Tolkien que não acreditavam na existência de Deus. O fato de serem descrentes não o impedia de compartilhar com eles conhecimentos e diversões.  Nesse aspecto, Tolkien era um acadêmico e uma pessoa tolerante com ideias diferentes, mesmo que elas fossem totalmente incompatíveis com o que ele acreditava. Além disso, Tolkien não se considerava um teólogo e entendia que cabia a Igreja Católica exercer o magistério sobre os preceitos de fé. Como bom católico, ele assimilava e praticava sua religião com dedicação.

Grande parte dos professores que tinham alguma religião em Oxford mantinham suas práticas de fé em âmbito privado. Não era interessante usar o cargo da Universidade para realizar proselitismo. Nesse ponto, C.S. Lewis foi uma exceção forte. Sendo uma voz que tratava sobre o cristianismo em seus diferentes enfoques e publicamente o defendia em livros e palestras. Essa liberdade de Lewis era derivada de sua personalidade forte e pelo fato de não ter compromissos famílias (não teve filhos e se casou apenas no final de sua vida).

Tolkien e C. S. Lewis

Diferentemente, Tolkien tinha esposa e filhos pequenos e a prudência era seu caminho para evitar maiores problemas em um país de predominância religiosa anglicana. Então, raramente podia-se ver o autor do Hobbit em longos debates teológicos com outros professores de Oxford. Isso era realizado com amigos próximos e visitas a sua casa, predominantemente em âmbito privado. O “ativismo Católico” de Tolkien era exercido de outra forma, especialmente em vários grupos que ele participava, como a Henry Newman Association. (veja um exemplo de ativismo do Tolkien AQUI).

Além disso, Tolkien se dedicava a academia. Ele era um professor de anglo-saxão e não um teólogo e propagador de sua fé diretamente. Segundo Tolkien a Filologia era parte de seu trabalho e gostava muito, mas nunca teve a ideia que “fosse necessária para a salvação” (Valedictory Adress, in The Monster and Critics, p. 225).[2] Contudo, Tolkien defendia que existia a vocação para ser professor e que isso talvez fosse até algo religioso: “A devoção ao ‘ensino’, como tal e sem referência à própria reputação, é uma vocação elevada e até de certa forma espiritual.[3] (Carta 250 para Michael Tolkien). Dessa forma, o uso do cargo para finalidades de propaganda religiosa não parecia ter sido bem vinda, tendo em vista o aspecto técnico e acadêmico, porém, Tolkien compreendia o próprio ato de ser professor como uma vocação espiritual. Certamente, aqueles que o procuravam e conversavam sobre o tema encontravam em Tolkien muitos argumentos para se converter ou esclarecer sobre a fé católica.

 

A descrença e a conduta cristã diante de escândalos

Mas o que J.R.R. Tolkien diria a quem tem a fé abalada? Será que Tolkien teve seus momentos de dúvida? Como um católico deve se comportar diante de escândalos?

Na carta para Michael Tolkien de 1 de novembro de 1963, o professor ensina sobre a questão da fé ao seu filho. Tolkien tinha uma imensa preocupação de que seus filhos deixassem a Igreja Católica. Ele até se culpava de uma negligência em relação a eles. A carta está publicada com o número 250 no livro As Cartas de J.R.R. Tolkien.  O tema central desse ponto é que o filho do Tolkien parecia estar com a fé abalada diante de algum escândalo na Igreja Católica da época e coube ao seu pai explicar como se deveria comportar diante disso:

….você fala de “fé alquebrada”. Essa é completamente outra questão: em último caso, a fé é um ato de vontade, inspirado por amor. Nosso amor pode ser esfriado e nossa vontade desgastada pela demonstração de deficiências, tolice e até mesmo pecados da Igreja e seus ministros, mas não acredito que alguém que já teve fé retroceda por essas razões (menos de todos alguém com qualquer conhecimento histórico). (Carta 250 Para Michael Tolkien, 1 de novembro de 1963)

Nesse contexto, muitos Católicos abalavam sua fé em relação à Igreja ou mesmo a abandonavam ao verem escândalos envolvendo membros do clero. Tolkien ensina ao seu filho que isso não é uma justificativa razoável para aquele que realmente entende ou entendeu a sua fé. Porém, sentir-se triste e desconsolado diante de notícias ruins é algo considerado normal, como se fosse um amor abalado diante de algo desagradável no relacionamento. O próprio Tolkien afirma ter tido seus momentos de sua vida que não se dedicou como gostaria a Igreja.

…apaixonei-me pelo Sagrado Sacramento desde o início — e pela misericórdia de Deus nunca deixei de amá-lo: mas, infelizmente, de fato não vivi de acordo com ele. Criei vocês mal e conversei muito pouco com vocês. Por iniquidade e preguiça quase deixei de praticar minha religião — especialmente em Leeds e na 22 Northmoor Road. Para mim não o Cão de Caça do Céu, mas o incessante apelo silencioso do Tabernáculo e a sensação de fome insaciável. Lamento aqueles dias amargamente (e sofro por eles com toda paciência que posso ter); principalmente porque falhei como pai. (Carta 250 Para Michael Tolkien, 1 de novembro de 1963)

Fica evidenciado que Tolkien nunca chegou a ser ateu. Mas que teve alguns momentos que ele considerava não estar praticando bem sua religião. Talvez um dos momentos mais íntimos do pai em relação ao filho esteja expresso nesse parágrafo. O Tolkien afirma ao Michael que não se considerava um bom pai, por justamente não ter tido tempo suficiente para educa-lo na fé da Igreja. Fato é que Tolkien foi um católico considerado até ‘escrupuloso’, do tipo que frequentava a missa mais de uma vez por semana e sempre se confessava e a carta parece demonstrar o quanto o Tolkien era uma pessoa humilde e autocrítica, não se considerando um grande exemplo de fé.

O curioso é que Tolkien se considerava um pai que falhou. Mas escreveu diversos livros infantis para os filhos e frequentemente chegava a lê-los. Como exemplo, Roverandom, Mr. Bliss, Mestre Gil de Ham, As Cartas de Papai Noel. E especialmente o livro O Hobbit, que foi escrito para seus filhos lerem e foi publicado em 1937. O temor de Tolkien se expressa no sentido de seus filhos deixarem a fé católica. Ele agora rezava e pedia a Deus para que seus filhos fossem seguidores fiéis. Mas é importante ressaltar que o filho mais velho dele, John Francis Tolkien, se tornou padre jesuíta, o que demonstra que não foi uma educação cristã tão negligenciada como o autor do Hobbit imaginava.

Ainda tratando sobre a fé que pode ser abalada, Tolkien deixa claro que essa tentação em não acreditar é algo presente no ser humano e isso pode se ampliar diante de casos polêmicos na Igreja. Contudo, esses escândalos não podem ser motivo suficiente para abandonar a fé.

É conveniente porque tende a desviar nossos olhos de nós mesmos e de nossas falhas para encontrar um bode expiatório. Mas o ato de vontade de fé não é um único momento de decisão final: é um ato — estado permanente indefinidamente repetido que deve continuar — de modo que oramos pela “perseverança final”. A tentação à “descrença” (que realmente significa rejeição de Nosso Senhor e de Suas afirmações) está sempre lá dentro de nós. Parte de nós anseia em encontrar uma desculpa para tal fora de nós. Quanto mais forte a tentação interna, mais fácil e severamente ficaremos “escandalizados” com os outros. Creio que sou tão sensível quanto você (ou qualquer outro cristão) aos “escândalos”, tanto do clero quanto da laicidade. (Carta 250 Para Michael Tolkien, 1 de novembro de 1963)

Ainda nessa mesma carta, em um momento de clamor, Tolkien demonstra sua fé ao filho e pede que ele jamais abandone a religião: “Agora rezo por todos vocês, incessantemente, para que o Curador cure meus defeitos e que nenhum de vocês jamais deixe de dizer Benedictus qui venit in nomine Domini”.

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NOTAS:

[1] A frase citada por Tolkien “Benedictus qui venit in nomine Domini” significa “Bendito o que vem em nome do Senhor” e é parte do Sanctus, um hino da liturgia cristã da Igreja Católica (embora a Igreja Ortodoxa e Anglicana também utilizem a expressão).

[2] Philology was part of my job, and I enjoyed it. I have always found it amusing. But I have never had strong views about it. I do not think it necessary to salvation. (Valedictory Address, 225)

[3] The devotion to ‘learning’, as such and without reference to one’s own repute, is a high and even in a sense spiritual vocation”

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