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Tolkien e sua oposição ao Nazismo de Adolf Hitler

Adolf Hitler e tolkien

Adolf Hitler a esquerda e J. R. R. Tolkien a direita

Eduardo Stark

O professor J. R. R. Tolkien viveu no período da história da humanidade mais conturbado. Ele lutou na Primeira Guerra Mundial, seus filhos lutaram na Segunda Guerra Mundial e ele ainda viu as consequências da chamada Guerra Fria.

Mas algo que talvez tenha incomodado Tolkien ao longo de sua vida foi a distorção dos mitos nórdicos promovida pelo nazismo de Adolf Hiltler.

O presente artigo tem a finalidade de analisar a oposição de Tolkien em relação ao Nazismo e relatar alguns fatos e declarações contrárias a ideologia racial. Como o tema foi tratado com certo detalhe, foi necessária a divisão em duas partes.

 

A Batalha de Somme

 

O primeiro momento que se pode falar em uma relação de Tolkien com o Adolf Hitler é as suas posições na Primeira Guerra Mundial. Eles lutaram em lados opostos e em certo momento da guerra em uma mesma batalha.

A Batalha de Somme, na França, foi considerada a que resultou em maior número de mortes de ambos os lados. Cerca de mais de um milhão de soldados perderam a vida nas trincheiras.

J. R. R. Tolkien na primeira guerra mundial

J. R. R. Tolkien na primeira guerra mundial

Tolkien se tornou tenente do 11º Batalhão de Fusileiros Lancashire  e em Junho de 1916 embarcou na França para a Batalha de Somme. Foram momentos de muita tensão e tristeza. Ele havia se casado recentemente com Edith Tolkien e não sabia ao certo se retornaria para seu lar ou se reencontraria seus amigos e esposa. Ao longo da batalha vários de seus amigos íntimos morreram, em especial dois dos mais próximos.

Ao longo da Batalha andou pela região de Ovillers e Bouzincourt e é dito que possivelmente tenha participado em uma missa católica na Igreja local.

Em Outubro de 1916, Tolkien contraiu a doença da Febre das Trincheiras e ficou impossibilitado de continuar na guerra.

Adolf Hitler soldado da primeira guerra mundial

Adolf Hitler soldado da primeira guerra mundial

Enquanto isso, no outro lado do fronte da Batalha de Somme, Adolf Hitler lutava em favor da Alemanha no 16º Regimento Bavariano Reserva.

No inicio da batalha de Somme esteve com sua unidade próximo a Gundoncourt e depois serviu nas lutas em Morval. Depois seus batalhão se moveu para Eaucourt L’Abbaye onde eles foram atacados e sofreram duras perdas.

Dificilmente Tolkien poderia confrontar Hitler cara a cara. Pois a distância que um estava em relação ao outro girava em torno de mais de trinta e sete quilômetros, o que levaria mais de oito horas caminhando de um ponto ao outro.

No mapa abaixo do lado esquerdo marcado em azul está a localização da região que Tolkien passou. E em vermelho onde Hitler estava.

Batalha de Somme

Batalha de Somme

Para Hitler os momentos da Primeira Guerra Mundial eram lembrados como um dos melhores momentos de sua vida.

Ao abrir, com mãos trêmulas, o documento no qual li o deferimento do meu pedido, com a recomendação de me apresentar a um regimento bávaro, meu contentamento e minha gratidão não tiveram limites. Poucos dias depois, eu envergava a farda, que só quase seis anos mais tarde deveria despir. Começou então para mim, como provavelmente para todos os outros alemães, a mais inesquecível e a maior época da minha vida. Comparado com a luta titânica que se travava, todo o passado desaparecia totalmente. Com orgulho e saudade, recordo-me, justamente nesses dias em que se passa o 10º aniversário daqueles formidáveis acontecimentos, das primeiras semanas daquela luta heroica do nosso povo, na qual graças à benevolência do destino, me foi dado tomar parte. (Minha Luta, Cap V, A Guerra Mundial. p. 123)

Já o professor Tolkien sempre se lamentava da Guerra. Foram momentos de separação entre ele e sua esposa que eram recém casados. Além disso teve que se separar de seus amigos mais próximos que também foram lutar na guerra.

Raramente ele comentava sobre os momentos que esteve na guerra. No prefácio da segunda edição de O Senhor dos Anéis, Tolkien lembra com pesar as guerras.

Na verdade, é preciso estar pessoalmente sob a sombra da guerra para sentir totalmente sua opressão; mas, conforme os anos passam, parece que fica cada vez mais esquecido o fato de que ser apanhado na juventude por 1914 não foi uma experiência menos terrível do que ficar envolvido com 1939 e os anos seguintes. Em 1918, todos os meus amigos íntimos, com a exceção de um, estavam mortos. (Prefácio de o Senhor dos Anéis)

Em O Hobbit, o protagonista Bilbo Bolseiro é levado em um monto da história a uma grande escolha. Ele se depara com a situação em que pode poupar ou não a vida da desprezível criatura Gollum. De fato, Bilbo ter poupado a vida de Gollum mudou todo o rumo do mundo, pois foi graças a essa criatura que o anel foi destruído.

Na vida real algo assim parece também ter acontecido. É dito que o soldado britânico Henry Tandey estava com uma arma apontada para o então soldado Adolf Hitler. Porém, tendo pena, decidiu não atirar e poupou a vida daquele soldado alemão.

Assim como Gollum mudou a vida de muitos destruindo o Um Anel (ainda que intencionalmente), Hitler mudou também a vida de muitos com suas ações. Mas evidentemente que esse caso da vida real não tem nenhuma influência em Tolkien, pois os fatos só foram descobertos quando O Hobbit já estava publicado.

Ainda assim, as palavras ditas por Gandalf em O Senhor dos Anéis, a Sociedade do Anel, parecem se referir ao caso: “Meu coração me diz que ele tem ainda algum tipo de função a desempenhar, para o bem ou para o mal, antes do fim; e quando a hora chegar, a pena de Bilbo pode governar o destino de muitos, e o seu também”.

Muito tempo depois, após ser poupado, Adolf Hitler entrou na política e se tornou o líder de um movimento repudiado por todo o mundo por sua intolerância e vontade de fazer guerras: o nazismo.

Antes que a Segunda Guerra Mundial tivesse inicio Hitler era considerado alguém de destaque, sendo até mesmo escolhido como o “homem do ano” da capa da revista norte americana The Times Magazine em 1938. O editora da revista escreveu o seguinte: “para o bem ou para o mal, Hitler foi, sem dúvida, a maior personalidade de 1938“.

A perseguição nazista na Alemanha

 

Em 30 de Janeiro de 1933, Adolf Hitler se tornou o novo Chanceler da Alemanha. O nazismo havia dominado politicamente e ideologicamente aquele país. Havia uma grande preocupação por parte dos judeus, pois sabiam que esse novo líder alemão era um forte antissemita.

Além disso, cerca de dois terços dos alemães eram protestantes e um terço católico quando os nazistas tomaram o poder. Observando o grau de intolerância religiosa crescente, os católicos temiam que o regime nazista os perseguisse, tal como acontecia na Rússia com o surgimento do Socialismo.

Assim, em 20 de julho de 1933, a Igreja Católica assinou um acordo diplomático com a Alemanha, com a finalidade de garantir a liberdade religiosa e evitar perseguições por parte do Estado controlado pelos nazistas. Mas o documento parecia ser apenas um mero acordo entre estados sem eficácia concreta, pois no mesmo ano em que foi assinado o regime de Adolf Hitler iniciou o chamado Kirchenkampf  (Luta da Igreja).

O Kirchenkampf  estabelecia uma perseguição aos católicos e alguns protestantes. Inicialmente proibiram a existência de vínculos políticos aos católicos. Foi escolhido o capelão Ludwig Müller para o cargo de Bispo da Igreja do Reich como parte do movimento protestante nazista Deutsche Christen, e iniciou a retirada de cruzes das Igrejas, bem como o controle da Igreja pelo Estado e dentre outras medidas.

Analisando os riscos da ascensão de Hitler e seu antissemitismo desenfreado, o Papa Pio XI editou a carta encíclica Mit brennender Sorge (“com ardente preocupação”), em 14 de março de 1937, sendo considerada a primeira declaração de um chefe de Estado europeu a se opor frontalmente ao Terceiro Reich.

O documento foi escrito em alemão (algo raro em documentos oficiais da Igreja que são em Latim) e foi enviado aos bispos e padres de forma clandestina para lerem no Domingo de Ramos, dia em que havia uma maior quantidade de fiéis.

Posteriormente a encíclica foi publicada em vários jornais e a reação de Adolf Hitler foi imediata. Algumas imprensas católicas foram destruídas e mais de mil clérigos foram presos ou enviados aos campos de concentração.

Jornal Advocate de 21 de Abril de 1938 reportando o fim da imprensa católica na Austria

Jornal Advocate de 21 de Abril de 1938 reportando o fim da imprensa católica na Áustria em razão da encíclica papal contra o nazismo.


Temendo novos ataques e perseguições, alguns bispos da Áustria assinaram uma declaração reconhecendo a importância do Partido Nacional Socialista como entidade Estatal, sem se manifestar sobre a ideologia do partido para não contrariar a encíclica do Papa. Contudo, as perseguições não cessaram, pois o Kirchenkampf  continuou ainda mais intenso e perdurou até o fim da Segunda Guerra Mundial.

A perseguição aos judeus foi muito mais forte do que a promovida aos católicos e isso só foi notado com mais intensidade após o fim da Segunda Guerra Mundial e a descoberta dos vários campos de concentração que visavam eliminar judeus e onde clérigos também pereceram.

O Hobbit e os editores alemães

 

Tolkien era um católico praticante e certamente toda essa situação chegou ao conhecimento dele através dos jornais que diariamente acompanhava. A ideologia nazista parecia uma aberração, tal como o comunismo. Ele se sentia incomodado especialmente com a tentativa de vincular a cultura nórdica com o regime nazista. Era uma distorção de um passado nobre para finalidades irracionais.

Nesse mesmo ano em que a Igreja Católica passava por conturbada situação na Alemanha, em 21 de Setembro de 1937 Tolkien conseguiu publicar seu primeiro livro relacionado a terra-média: O Hobbit.

O sucesso foi imediato e em pouco tempo os livros foram vendidos. Novas reimpressões foram encaminhadas e no ano seguinte uma editora alemã já demonstrava interesse em fazer a primeira tradução de O Hobbit.

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A editora Rütten & Loening logo entrou em contato com o próprio Tolkien planejando a tradução. Contudo, a publicação do livro na Alemanha estava condicionada ao fato de que ele demonstrasse que tem ascendência alemã e não judia.

A essa exigência de saber a origem, Tolkien chama de “leis lunáticas”e que se pudesse até não deixaria que fosse publicada uma versão em alemão:

Devo dizer que a carta em anexo da Rütten & Loening é um tanto rígida. Sofro essa impertinência por possuir um nome alemão ou as leis lunáticas deles exigem um certificado de origem “arisch” de todas as pessoas de todos os países? Pessoalmente, eu estaria inclinado a recusar o fornecimento de qualquer Bestätigung (embora aconteça de eu poder fazê-lo) e deixar que uma tradução alemã fosse suspensa. De qualquer forma, devo opor-me fortemente à aparição impressa de qualquer declaração semelhante. (Carta 29, 25 de julho de 1938).

Em nota nessa carta para seu editor Stanley Unwin, ele diz que tem muitos amigos judeus e que considera essa doutrina racial imposta pelos nazista como algo “totalmente perniciosa e não cientifica”:

Não julgo a (provável) ausência total de sangue judeu como necessariamente meritório; possuo muitos amigos judeus, e lamentaria asseverar a noção de que aprovo a totalmente perniciosa e não científica doutrina racial. (Carta 29, 25 de julho de 1938).

Tolkien deu a opção ao editor de escolher a resposta ao editor alemão entre duas cartas. Uma que ele responde de forma agressiva e outra que demonstra ser contrário a exigência, porém de forma mais branda.Provavelmente a carta mais branda deve ter sido enviada e o rascunho da carta mais agressiva se manteve, como se segue:

Só posso responder que lamento o fato de que aparentemente não possuo antepassados deste povo talentoso. Meu tataravô chegou na Inglaterra no século XVIII vindo da Alemanha: a maior parte da minha ascendência, portanto, é puramente inglesa, e sou um indivíduo inglês — o que deveria ser suficiente. Fui acostumado, no entanto, a estimar meu nome alemão com orgulho, e continuei a fazê-lo no decorrer do período da lamentável última guerra, na qual servi no exército inglês. Não posso, entretanto, abster-me de comentar que, se indagações impertinentes e irrelevantes desse tipo tornar-se-ão a regra em matéria de literatura, então não está longe o tempo em que um nome alemão não mais será um motivo de orgulho. (Rascunho da Carta 30, 25 de julho de 1938)

Tolkien se incomodava com a situação da Alemanha. Alguns alunos enviavam cartas reportando sobre como estavam preocupados na parte continental da Europa. E seus amigos padres falavam em suas homilias sobre a situação dos católicos na Alemanha.

Apesar disso, nem todos pareciam ter esse sentimento. Adolf Hitler parecia ser popular na mídia ocidental até mesmo em países como Estados Unidos e Inglaterra. Era visto como alguém que pudesse combater o crescimento do comunismo da Rússia e promover a paz no mundo. O clima era tanto que em 1938, além de figurar na capa da revista The Times Maganize como o Homem do ano, Hitler também foi listado como um candidato do prêmio Nobel da Paz, sob a recomendação de uma judia francesa Gertrude Stein.

Tudo não passou de um engano acreditar que Hitler pudesse lutar contra o comunismo, quando ele fez uma aliança com a Rússia. Teve então o inicio da Segunda Guerra Mundial.

Logo no inicio da Segunda Guerra Mundial, seus três filhos sofreram diretamente as consequências dela. Seu filho mais velho John Tolkien estudava para se tornar padre e já temia perseguições. Os outros filhos Michael Tolkien e Christopher Tolkien tiveram que se alistar no exército britânico para lutar contra os nazistas. Foi um período em que sua família se dividiu por causa da guerra, assim como havia se separado de seus amigos e sua esposa com o inicio da Primeira Guerra Mundial.

A amizade com os judeus

 

Além de estar ciente da situação dos católicos na Alemanha, Tolkien também tinha contato com seus amigos próximos que eram judeus e que também estavam preocupados com a Alemanha.

A amizade com os judeus e Tolkien parece ter sido algo que surgiu pela necessidade e pela própria exclusão imposta aos católicos e judeus em um país de predominância da Igreja Anglicana.

Sir Martin Gilbert, historiador judeu

Sir Martin Gilbert, historiador judeu que foi amigo de Tolkien

Mesmo após a Segunda Guerra Mundial ainda havia resquícios do preconceito na própria Inglaterra. Judeus e Católicos tinham que se sentar separados dos demais professores e alunos protestantes nos jantares da faculdade.

Dentre os amigos que Tolkien fez nessa época está o historiador Sir Martin Gilbert, historiador e judeu. Dotado de uma vontade de saber sobre as guerras mundiais e o holocausto, Gilbert se tornou um dos maiores especialistas nesses assuntos. Tendo publicado diversos livros, em especial a biografia de Winston Churchill.

Como se constata, Sir Martin tinha chegado a conhecer o Professor Tolkien muito bem no final de 1950 e início de 1960, muitas vezes jantando juntos em Merton College. Quando perguntei ao Sir Martin se isso aconteceu por causa de interesses mútuos, ele riu. Porque nem ele nem Tolkien eram protestantes, eles não eram autorizados a sentar-se com os outros professores e estudantes. Em vez disso, os católicos e os judeus tinham que se sentar separadamente dos protestantes. Por isso, como Sir Martin me disse, católicos e judeus sempre foram os melhores amigos. Em alguns aspectos, Sir Martin observou, os judeus se saíam melhor do que os católicos. Ser um anticatólica era algo tão arraigado no caráter Inglês, que todos os ingleses protestantes acreditavam estar no seu direito e, talvez, no seu dever, atacar intelectualmente e brutalmente qualquer Católico Romano. (ver artigo completo Aqui).

Novamente, mais próximo do fim da vida, em outra carta Tolkien demonstra que seria uma honra se fosse de origem judaica, demonstrando respeito por esse povo e mostrando sua oposição ao antissemitismo alemão:

Meu nome é Tolkien, anglicizado a partir de To(l)kiehn = tollkühn, e veio da Saxônia no século XVIII. Não é de origem judaica, apesar de que eu consideraria uma honra caso o fosse. (Carta 324, Graham Tayar, 4-5 de junho de 1971)

Esse antissemitismo nazista era repudiado por Tolkien, pois ele era contra qualquer forma de discriminação, por ser católico e por ter vários amigos judeus. E desde que havia recebido a carta da editora alemã, havia uma preocupação dele de que sua obra fosse considerada de alguma forma vinculada as histórias da mitologia nórdica e assim aos alemãs nazistas e seu culto aos mitos.

Tolkien conhecia bem a cultura judaica, pois até mesmo sabia a língua dos Hebreus. Ele foi chamado para traduzir o Livro de Jonas do Antigo Testamento para uma versão inglesa da Bíblia de Jerusalém.

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem

 

Os Filhos de Húrin e o “absurdo nórdico”

Tornou-se remota, por exemplo, a publicação de suas histórias de Os Filhos de Húrin. A saga do herói Túrin Turambar, que luta contra o dragão Glaurung, que muito pode ser considerada semelhante a história de Beowulf  ou mesmo Sigurd (Siegfried).

Tolkien havia escrito a história de Os Filhos de Húrin muito tempo antes da ascensão de Hitler. Ele lembra que em sua juventude tinha um fascínio pela cultura germânica e nórdica, e que estudou a fundo o assunto e por isso sabia mais do que ninguém, como professor em Oxford dos absurdos que se faziam utilizando como pretexto essa cultura antiga:

Há muito mais força (e verdade) do que as pessoas ignorantes possam imaginar no ideal “germânico”. Fiquei muito atraído por ele quando era um estudante universitário (quando Hitler estava, creio eu, dedicando-se diletantemente à pintura e não tinha ouvido falar de tal coisa), em reação contra os “clássicos”. Você tem de compreender o bem nas coisas para detectar o verdadeiro mal. Mas ninguém nunca me chama para uma “transmissão” de rádio ou para fazer um pós-escrito! Mesmo assim, suponho que sei melhor do que a maioria das pessoas qual é a verdade sobre esse absurdo “nórdico”. (Carta 45, para Michael Tolkien 9 de junho de 1941).

Os primeiros textos sobre Os Filhos de Húrin remontam a um tempo anterior a década de 20 do século XX. Mas Tolkien temia a associação de sua obra por parte de jornalistas mal informados ou que agissem de má-fé e abandonou qualquer pretensão de publicação. Escreveu um pequeno resumo para que fosse então incorporado no seu livro O Silmarillion.

Somente após a morte de Tolkien é que esses manuscritos foram editados por seu filho e publicados em 1981 em Contos Inacabados e em 2007 como livro próprio chamado de Os Filhos de Húrin.

Sempre que alguém se referia a suas histórias como sendo influenciadas pela “Mitologia Nórdica” ele fazia questão de corrigir. Ele não gostava da palavra “Nórdica” para determinar a cultura da região noroeste da Europa, pois esta palavra estava associada a teorias racistas, das quais não desejava nenhum contato. Acreditava terem manchado a imagem da cultura europeia, especialmente com a ascensão de Adolf Hitler.

Nórdica não, por favor! Uma palavra pela qual pessoalmente tenho aversão; está associada, apesar de ser de origem francesa, com teorias racistas. Geograficamente Setentrional em geral é melhor. (Carta 294, para Charlotte e Denis Plimmer, 8 de fevereiro de 1967)

Fica demonstrado que até mesmo em uso das palavras Tolkien se preocupava por estarem associadas as teorias racistas e queria evitar qualquer associação de sua obra a isso.

De qualquer modo, tenho nesta Guerra um ardente ressentimento particular — que provavelmente faria de mim um soldado melhor aos 49 do que eu fui aos 22 — contra aquele maldito tampinha ignorante chamado Adolf Hitler (pois a coisa estranha sobre inspiração e ímpeto demoníacos é que eles de modo algum aumentam a estatura puramente intelectual: afetam mormente a simples vontade), que está arruinando, pervertendo, fazendo mau uso e tornando para sempre amaldiçoado aquele nobre espírito setentrional, uma contribuição suprema para a Europa, que eu sempre amei e tentei apresentar sob sua verdadeira luz. (Carta 45, para Michael Tolkien 9 de junho de 1941)

O que Hitler estava fazendo com a cultura (além de outras atrocidades) era algo imperdoável aos olhos de Tolkien. Pois as consequências poderiam manchar ou amaldiçoar para sempre aquele “nobre espírito setentrional”. Ou seja, toda vez que se pensasse em Nazismo, haveria uma associação aos mitos nórdicos e assim um certo afastamento ou má impressão.

A Sabedoria de Gandalf

Distante de seus filhos durante a Segunda Guerra Mundial. Tolkien enviava cartas para eles narrando os acontecimentos e tentando dar esperanças aos filhos que lutavam, em especial Christopher Tolkien, que estava ajudando seu pai no processo de escrita de o Senhor dos Anéis.

Em suas cartas Tolkien sempre se referia a Hitler com uma total repugnância. E se sentia incomodado com atitudes “hitleristas” feitas até mesmo entre pessoas de seu próprio país.

O Mago gandalf

O Mago gandalf

Quando a guerra já parecia estar chegando ao fim, um jornalista local escreveu um artigo demonstrando que a solução para a Segunda Guerra Mundial seria a eliminação total do povo Alemão. E aí vem a grande lição de Tolkien:

Mas é angustiante ver a imprensa se rebaixando a um nível tão baixo quanto o de Goebbels no seu auge, gritando que qualquer comandante alemão que se mantém firme em uma situação desesperadora (quando as necessidades militares de seu lado também beneficiam) é um beberrão e um fanático apatetado. Não consigo ver muita distinção entre nosso tom popular e os “idiotas militares” celebrados. Sabíamos que Hitler era um cafajestinho vulgar e ignorante, além de quaisquer outros defeitos (e das origens deles); mas parece haver muitos cafajestinhos v. e i. que não falam alemão e que, dada a mesma oportunidade, apresentariam a maioria das outras características hitlerianas. Houve um artigo no jornal local defendendo seriamente o extermínio sistemático de toda a nação alemã como o único curso apropriado após a vitória militar: porque, com sua licença, eles são cascavéis e não sabem a diferença entre o bem e o mal! (O que dizer do escritor?) Os alemães têm tanto direito de declarar os poloneses e judeus vermes sub-humanos extermináveis quanto nós temos de selecionar os alemães: em outras palavras, nenhum direito, seja lá o que tenham feito. (Carta 81, para Christopher Tolkien, 23-25 de setembro de 1944)

Nessa mesma Carta, vem um comentário interessante do Tolkien relacionando com sua obra O Senhor dos Anéis, que ainda estava sendo escrita:

Você não pode enfrentar o Inimigo com o Anel dele sem se tornar um inimigo; mas, infelizmente, a sabedoria de Gandalf parece ter passado com ele há muito tempo para o Verdadeiro Oeste. (Carta 81, para Christopher Tolkien, 23-25 de setembro de 1944).

Essa “sabedoria de Gandalf” mencionada provavelmente deve estar ligada ao trecho em que ele explica ao Frodo sobre o Bilbo ter poupado a vida de Gollum: “Muitos que vivem merecem a morte. E alguns que morrem merecem viver. Você pode dar-lhes vida? Então não seja tão ávido para julgar e condenar alguém à morte. Pois mesmo os muito sábios não conseguem ver os dois lados”. (O Senhor dos Anéis, A Sociedade do Anel).

Infelizmente, os Aliados não pareciam estar cientes dessa consciência moral de Tolkien. E no ano seguinte os E. U. A. detonou as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki matando milhares de cidadãos japoneses e pondo um fim definitivo a Segunda Guerra Mundial.

Ao saber da notícia Tolkien ficou horrorizado com a capacidade da humanidade de fazer tal atrocidade:

A notícia hoje sobre “bombas atômicas” é tão aterradora que é de se atordoar. A estupidez absoluta desses físicos lunáticos de consentirem em realizar tal trabalho com propósitos de guerra, planejando calmamente a destruição do mundo! Tais explosivos nas mãos dos homens, na medida em que seu status moral e intelectual está declinando, é quase tão útil quanto dar armas de fogo para todos os internos de uma cadeia e então dizer que você espera que “isso garanta a paz”. (Carta 102, para Christopher Tolkien, 9 de agosto de 1945

O uso da Bomba Atômica é como se utilizasse o Um anel para lutar contra as forças de Sauron na mitologia de Tolkien. No sentido de que não se pode utilizar uma arma maligna para tentar atingir fins que talvez pudessem ser bons.

Ao longo de toda sua vida várias pessoas faziam justamente essa associação e acreditavam que Tolkien fazia uma alegoria da Segunda Guerra Mundial em suas histórias, em especial O Senhor dos Anéis. Essa comparação irritava muito a Tolkien, pois ele havia iniciado seus trabalhos muito antes do anuncio da guerra e em uma época que não existia a tal bomba.

 

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Um comentário

  1. Fábio Kame Jim /

    Ótimas matérias vocês publicam aqui, parabéns, nós fãs de Tolkien agradecemos pelo esforço de vocês.

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