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O romance de Tolkien e Edith

Os jovens Tolkien e Edith

Os jovens Tolkien e Edith

by Eduardo Stark

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Com pouca idade Tolkien e seu irmão se tornaram órfãos de pai e mãe, e sua criação ficou sob a responsabilidade do Padre Francis, que era amigo e conselheiro da mãe dos garotos.

Inicialmente, os meninos foram morar com sua tia Beatrice. Ela era uma viúva e com uma situação financeira não muito boa, demonstrando ser insensível e sem afeto com os garotos que tinham acabado de perder a mãe. Então o padre Francis decidiu que eles deveriam se mudar para um lugar em que fossem melhor acolhidos.

Então, o Padre Francis pensou em hospedar os jovens com a Srª Faulkner, que alugava quartos e promovia tardes musicais frequentada por vários padres.

Duchess Road, onde Tolkien encontrou Edith pela primeira vez (foto do arquivo)

Duchess Road, onde Tolkien encontrou Edith pela primeira vez (foto do arquivo)

 

Era uma casa simples, um pouco sombria, coberta de trepadeiras, com cortinas de renda encardidas. Lá moravam a família da Srª Faulkner (marido e filhos) e seus inquilinos.

Dentre esses, havia uma garota que morava no primeiro andar, abaixo do dormitório dos meninos Tolkiens. Essa garota passava a maior parte de seu tempo costurando e tentando se distrair aos modos daquela época. Foi então que Tolkien a conheceu e descobriu que seu nome era Edith Bratt, que também era órfão, assim como Tolkien.

Edith era uma jovem de dezenove anos, que tinha um certo talento em tocar piano e um bom gosto musical. Era bastante bonita, baixa, esquia, de olhos cinzentos, com um rosto firme e límpido com cabelos curtos e escuros.

 

A amizade de Tolkien e Edith

 

O irmãos Tolkien foram admitidos naquela residência no início de 1908. Naquela época, J.R.R. Tolkien tinha apenas dezesseis anos, e conhecia poucas garotas da mesma idade que ele. Em uma época como aquela, em que havia maior conservadorismo nas relações entre as pessoas, pode-se imaginar que Tolkien tivesse uma certa timidez em relação a uma jovem e atraente mulher.Mas como bem afirma Humphrey Carpenter, Tolkien “descobriu que a intimidade bastava para dissipar qualquer nervosismo”.

Assim, com pouco tempo, Tolkien e Edith começaram a conversar e se conhecerem melhor. Imagina-se que em suas conversas haviam vários temas, inicialmente sobre o gosto musical de Edith e seu talento com piano e os comentários de Tolkien sobre o fato de que seu avô era um fabricante de pianos. Edith não demonstrava interesse nos assuntos sobre linguística que Tolkien falava, até por que não recebera uma educação tão qualificada como a de Tolkien.

Em geral eles ainda apresentavam certo comportamento infantil. Havia um pouco de inocência entre os jovens daquela época nessa idade.

Certa vez, Edith convenceu a criada Annie a pegar de forma sorrateira alguns petiscos na cozinha, sem que a Srª Faulkner soubesse de nada. Logo mais, Edith chamava os dois irmãos Tolkien para promover um banquete secreto no seu quarto. Eles diziam ter feito uma união contra a Srª Faulkner, que chamavam de “a Velha Senhora”.

A “Velha Senhora” sempre vigiava atentamente os jovens para que não fizessem nada de errado ou que incomodassem os outros inquilinos. Edith certa vez foi proibida de tocar piano pela Velha Senhora, que se incomodava com o som do piano durante os treinamentos, mas ironicamente ela costumava chamar Edith para tocar quando tinha visitas importantes.

Aos poucos Tolkien e Edith foram cada vez mais se descobrindo. Eles conversavam muitas vezes ao pé do fogo na lareira em dias mais frios e costumavam passear de bicicleta pelas ruas de Birmingham.

Em 1909, Tolkien e Edith passaram a frequentar casas de chá em Birmingham. Eles costumavam brincar com as pessoas que passavam em frente a casa de chá. Havia um balcão que dava para a calçada. Eles se sentavam e jogavam torrões de açúcar nos chapéus das pessoas e quando o açucareiro ficava vazio eles passavam para a mesa seguinte.

Eram momentos de muita alegria entre dois jovens pobres, que tinham perdido seus pais e que necessitavam de atenção especial. Encontraram um no outro o conforto necessário para esquecer ou diminuir o sofrimento.

Jovem Edith Bratt

Jovem Edith Bratt

O primeiro beijo

A intimidade entre os dois começava a ser cada vez mais forte. Inventaram um assobio particular, de modo que toda vez que queriam se ver sem que precisar gritar na janela faziam o som.

Geralmente antes do sol nascer, Edith assobiava do andar de baixo pela janela e logo Tolkien aparecia na janela do andar de cima ou vice versa. Escolhiam esse horário tão cedo, pois todos da casa ainda estavam dormindo e  só assim podiam conversar sem serem descobertos.

Com isso, conversavam por várias horas pela janela até o nascer do Sol, sem que ninguém soubesse o que falavam. Por diversas vezes Tolkien acordava ouvindo o assobio de Edith.

Muitas vezes também conversavam antes de dormir, e foi justamente em uma dessas conversas que veio o primeiro beijo.

Muitos anos depois, o próprio Tolkien relata em uma carta enviada para Edith como foram seus primeiros beijos:

“meu primeiro beijo para você e seu primeiro beijo para mim (que foi quase acidental) – e o momento em que dizíamos boa noite, quando você, às vezes, estava com a sua pequena camisola branca, e nossas conversas longas e absurdas na janela; e como víamos o sol nascendo sobre a cidade, em meio ao nevoeiro, e o Big Bem batendo hora após hora, e as mariposas que quase afugentavam – e nosso assobio – e nossos passeios de bicicleta – e as conversas ao pé do fogo – e os três grandes beijos”. (J.R.R. Tolkien, biografia, Humphrey Carpenter, Martins Fontes, 1992, p. 44).

Então o casal percebeu que realmente estavam apaixonados e que deveriam levar seu relacionamento além de meras aventuras e diversão. Continuavam a se encontrar com certa frequência, mas sempre de forma secreta.

 

A proibição do Padre Francis

 

Mas certo dia em que combinaram de fazer um passeio de bicicleta e tomar chá foram descobertos. A mulher que havia lhes servido o chá contou para outra pessoas que fez chegar ao ouvido do Padre Francis que o jovem Ronald estava se encontrando com uma moça.

Padre Francis era muito bom para os jovens Tolkiens, lhes dava todo o suporte necessário para terem uma vida digna (casa, alimentação e a escola). Mas ele exigia em troca dedicação aos estudos e comprometimento de uma vida correta.

A consequência da falta de atenção aos estudos fez com que Tolkien fosse reprovado no primeiro exame que prestou para Oxford. Vendo que Tolkien estava se distraindo com a jovem, Padre Francis proibiu os dois de manterem esse romance.

Tolkien tinha um grande respeito pelo Padre e decidiu seguir a recomendação de encerrar o romance. Logo o jovem se mudou para evitar encontros com Edith. Apesar disso, a nova casa era próxima ainda da residência de Edith, e Tolkien ficava tentado em visitá-la.

Foi então que decidiram se encontrar as escondidas. Passaram a ter mais discrição nos locais que se passeavam, mas mantinham o mesmo entusiasmo de sempre. Quando Tolkien fez seu décimo oitavo aniversário (03 de Janeiro de 1910) Edith lhe deu de presente uma caneta e para ela Tolkien deu um relógio de pulso (o aniversário de Edith acontecia em 21 de Janeiro).

Mas novamente o casal foi visto junto novamente e isso chegou aos ouvidos do Padre Francis, que agora um pouco mais irritado decidiu deixar bem claro que não queria que o romance prosseguisse e proibiu definitivamente os dois de se encontrarem ou mesmo de se escreverem.

 

A separação dos jovens apaixonados

Assim, Tolkien deveria esperar ‘longos’ três anos para ter algum contato com sua amada Edith.  Para quem está em uma paixão de jovem como eles, três anos era um tempo absurdo e realmente doloroso.

Para piorar a situação, Edith teve que se mudar para outra residência, o que dificultaria qualquer possibilidade de Tolkien ao menos vê-la a distância. Em 02 de março ela se mudaria e Tolkien rezou para poder vê-la pela última vez. Quando chegou a hora da partida ele a procurou nas ruas, sem sucesso. Até que virando a esquina ele a viu passando de bicicleta a caminho da estação. É triste de se pensar que ele não pode se despedir dela e que só poderia vê-la novamente após três anos.

Assim terminou o namoro de Tolkien com Edith. Foi encerrada uma fase de sua vida e uma separação muito triste. Mas o amor de Tolkien por Edith permaneceu a cada dia e ele contava os dias para ver novamente sua amada.

 

O reencontro com Edith e a formação de Lúthien

Passado os três anos, quando atingiu a maioridade, Tolkien logo decidiu se encontrar com Edith, que estava comprometida com outro homem. Mas conseguiu convencê-la a ficar com ele e logo se casaram antes da Primeira Guerra Mundial.Tolkien e Edith permaneceram fiéis e amorosos por toda a vida. Tiveram quatro filhos e muitas tardes de conversa, alegrias, tristezas e tudo o que a vida proporciona.

O amor de Tolkien por Edith foi incondicional e teve até mesmo certa influência em sua obra, particularmente no desenvolvimento da personagem Lúthien. Na carta 340, Tolkien escreveu “Nunca chamei Edith de Lúthien, mas ela foi a fonte da história que no devido tempo tornou-se a parte principal do Silmarillion”.

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Lútiehn, ilustração de Ted Nasmith

Em Junho de 1917, Tolkien havia encontrado com Edith em um bosque em Yorkshire, e ela havia dançado para ele. Como o próprio Tolkien a descreve: “Naqueles dias seu cabelo era preto, sua pele clara, seus olhos mais brilhantes do que você os viu, e ela sabia cantar e dançar”.

Isso acabou sendo colocado no seu legendarium no momento em que Beren encontra Lúthien pela primeira vez, no seguinte trecho do Silmarillion:

Entretanto, perambulando no verão pelos bosques de Neldoreth, ele deparou com Lúthien, filha de Thingol e Melian, a certa hora da noite antes do nascer da Lua, quando ela dançava na relva perene nas clareiras junto ao Esgalduin. Nesse instante, toda a lembrança de sua dor abandonou Beren, e ele foi dominado pelo encantamento, pois Lúthien era a mais bela de todos os Filhos de Ilúvatar. Azuis eram seus trajes como o firmamento sem nuvens, mas seus olhos eram cinzentos como a noite estrelada; seu manto era bordado com flores douradas, mas seus cabelos eram escuros como as sombras do crepúsculo. Como a luz sobre as folhas das árvores, como a voz de águas cristalinas, como as estrelas acima das névoas do mundo, tal era sua glória e sua beleza. E em seu rosto havia um brilho esplendoroso.

Quando Edith Tolkien faleceu em 1971, o professor Tolkien pediu que no túmulo fosse escrito abaixo do nome a palavra “Lúthien”. E após o seu falecimento, os filhos de Tolkien colocaram “Beren” abaixo do seu nome.

Túmulo de J.R.R. Tolkien e Edith Tolkien

Túmulo de J.R.R. Tolkien e Edith Tolkien

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3 comentários

  1. Aline Rocha /

    Belíssimo texto. A história de Lúthien e Beren é linda demais. E a de Tolkien e Edith tb.

  2. Abimael Costa /

    Por essas e outras, impossível não admirar suas obras. Obrigado Tolkien! Parabéns ao autor do tópico!

  3. Emanoel Dias /

    Nuss, a história me prendeu de início ao fim, cheia de emoção e conflitos, que certamente renderia um bom filme… Até mesmo na vida pessoal Tolkin não poupou emoções, o cara é O cara. Parabéns ao escritor dessa publicação.

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