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O Caso Mindszenty: Tolkien e a Newman Association

by Eduardo Stark

Nos anos de 1948 e 1949, o professor J.R.R. Tolkien estava terminando de escrever a sua obra prima de ficção O Senhor dos Anéis. Foram longos anos desde que havia começado os primeiros escritos no final da década de 30.

As dificuldades de se escrever uma obra como O Senhor dos Anéis não passam apenas pelos critérios intelectuais, mas também materiais. Durante a segunda guerra mundial o autor sofreu diversas situações que o desestimulavam e tornavam tudo mais complicado. Seus filhos estavam em campanha militar contra os exércitos dos nazistas e seus aliados. O papel e a tinta ficaram cada vez mais raros e a Universidade de Oxford já não tinha mais o vigor da juventude de seus alunos.

Embora não tivesse vontade de se envolver diretamente com a política, preferindo suas atividades acadêmicas, Tolkien acompanhava atento a situação do mundo. Ele se declarava contrário ao nazismo e as ideias que eram relacionadas a superioridade racial de um povo sobre outro. (Veja mais sobre Tolkien contra o Nazismo AQUI). 

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o nazismo havia sido eliminado e o mundo parecia respirar um pouco mais aliviado. Mas outra grande ameaça a liberdade ainda existia. Os regimes ditatoriais socialistas estavam se fortalecendo e se espalhando por todo o mundo com apoio da URSS.

Tem início o tempo da “Guerra Fria”, em que o mundo se dividia entre dois polos de poder os Estados Unidos da América (E.U.A) e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S).

A Igreja Católica Romana e os protestantes em geral, foram fortes opositores dos Estados socialistas, que tinham atitudes totalitárias contra religiões. E essa oposição repercutiu em todo o mundo no caso da prisão do Cardeal Mindszenty na Hungria.

Tolkien era um católico tradicional (veja mais AQUI). Desde sua infância buscava seguir os preceitos da Igreja e ensinou aos seus filhos, dentro do possível, as doutrinas que aprendeu com o Padre Francis Morgan, seu tutor e segundo pai. Ele também participava de diversos grupos católicos de Oxford, dentre eles a Newman Society ou Newman Association, que promovia o catolicismo entre estudantes e professores universitários.

Diante dos constantes ataques aos católicos nas ditaduras socialistas do leste europeu, ocorreu grande comoção internacional. O Cardeal Mindszenty foi um símbolo de luta pela liberdade individual e contra as arbitrariedades do poder Estatal controlado por ideologia socialista. A prisão de Mindszenty repercutiu em todo o mundo, chegando até Tolkien que se manifestou junto com seus colegas em uma carta publicada no jornal The Times.

Em palestra feita em 1958, em Rotterdam, Tolkien fez a seguinte afirmação:

 “Eu olho para o leste, Oeste, o Norte, o Sul e eu não vejo Sauron. Mas vejo que Saruman tem muitos descendentes. Nós Hobbits não temos armas mágicas contra eles. No entanto, meus caros hobbits, eu dou-lhes esse brinde: Aos Hobbits. Que eles superem os Sarumans e voltem a ver a primavera nas árvores”.

A afirmação tem coerência com as atitudes de Tolkien contra o nazismo e os regimes ditatoriais socialistas do leste europeu. Não se trata de afirmar que sua obra, O Senhor dos Anéis fosse alegórica ou refletisse o seu tempo. Isso é o que o autor chamava de aplicabilidade. É tentar ver sua realidade com uma análise relacionada as obras.

A comparação que Tolkien fez foi de regimes autoritários que existiam pelo mundo em sua época desde o início do século XX e que ainda existiam.Nesse sentido, Sauron seria um mal maior e mais profundo que a capacidade humana possa imaginar, enquanto Saruman são aqueles que deveriam lutar por algo que fosse bom, mas que acabaram por se corromper e criar regimes ditatoriais.

A seguir é feita uma análise da situação do caso Mindszenty e ao final a reprodução da Carta assinada por Tolkien em oposição a prisão do cardeal.

 

O Cardeal Mindszenty e a Hungria no século XX

József Mindszenty (nome de batizado Joseph Pehm) nasceu em 29 de março de 1892, se tornou padre em 1915. Como professor de religião e pároco fundou tipografias, editoras e instituições católicas, para instrução do povo.

Com a Primeira Guerra Mundial, a Hungria deixou o regime monárquico e passou a ser uma república. Após várias disputas políticas, Béla Kun, líder do Partido Comunista Húngaro proclamou a República Soviética da Hungria.

O então jovem padre Pehm, publicou seu primeiro livro “A Mãe” em 1917, onde ressalta as qualidades da mulher, a maternidade e a família. Desde cedo se declarava contra o comunismo, sendo preso em 9 de fevereiro de 1919 por falar contra as políticas socialistas do governo húngaro da época. A prisão chamou a atenção da maioria dos Húngaros que eram católicos. O regime comunista perdeu apoio e iniciou o chamado “Terror Vermelho”, uma forte oposição a todos que atuassem contra o governo e a execução sem julgamento de 590 pessoas.

Com o baixo apoio popular dos comunistas, assumiu o governo os contrarrevolucionários conservadores chamados “Brancos”, que iniciaram o chamado “Terror Branco”, onde executaram sem julgamento comunistas e perseguiram judeus. Foi então que ocorreu a primeira eleição secreta em 1920, onde se elegeu maioria de oposição a esquerda, que meses depois aprovou o retorno da monarquia. Porém, o novo regime não foi instituído, pois diante da crise econômica o novo monarca deveria ser eleito pelo povo após a ordem ser restaurada. Nos próximos anos o governo era liderado pelo regente, que era o primeiro ministro. Nesse período, o padre Pehm foi libertado da prisão.

Em 1939, Mindszenty exortou os seus seguidores a votar contra o Partido da Cruz Flechada, que defendia ideias fascistas aliadas ao nazismo. Em 1940, publicou um panfleto no qual ele caracterizou o movimento nazista húngaro como um movimento diabólico, maligno assim como os comunistas.

Durante a Segunda Guerra Mundial a Hungria se tornou aliada da Alemanha e da Itália devido a suas relações comerciais e ascensão do Partido da Cruz Flechada ao poder. Ao lutar do lado dos nazistas e percebendo uma possível derrota o governo húngaro iniciou secretamente negociações de rendição com a Inglaterra. Adolf Hitler descobriu a traição e invadiu a Hungria em 1944.

O partido fascista que apoiava o nazismo na Hungria, o Partido da Cruz Flechada, com o líder Ferenc Szálasi, conduziu na Hungria um governo conhecido como Governo de Unidade Nacional, entre 15 de outubro de 1944 a 28 de março de 1945.

Foi nessa época que muitos Húngaros descendentes de Alemães, numa atitude de aproximar aos nazistas, retiraram seus nomes húngaros e começaram a usar seus antigos nomes alemães novamente. O Padre Pehm fez o contrário. Renunciou ao nome alemão e tomou o Húngaro, Mindszenty, que era sua cidade natal.

Durante esse tempo, cerca de quinze mil pessoas, em maioria judia, foram assassinadas de imediato, e oitenta mil pessoas, incluindo muitas mulheres, crianças e idosos, foram deportadas da Hungria para a morte no campo de concentração de Auschwitz.  

Cardeal Jozsef Mindszenty

Em 3 de Março de 1944, o Papa Pio XII nomeou Mindszenty como Bispo de Veszprém. O governo do Partido da Cruz Flechada tentou persuadir Mindszenty a colaborar com o regime. Ofereceu terras e dinheiro. O bispo recusou a proposta e protestou em favor dos judeus convertidos em Miklos Horthy. Por sua oposição ao governo foi preso em 27 de novembro de 1944, por crime de traição e por abrigar e colaborar com a fuga de judeus. Quando os Nazistas tomaram seu palácio, encontraram depósitos de roupas que ele coletou para os pobres, mais de 1.500 peças.

Em setembro de 1945, soviéticos e romenos invadiram completamente a Hungria e derrotaram os soldados alemães e húngaros que lá estavam. Como forma de reafirmar a atuação de Mindszenty, agora livre, o papa o nomeou Arcebispo de Estrigónia e Primaz da Hungria em 8 de setembro de 1945.

Com a libertação das influencias alemãs, no mesmo ano, ocorreu os primeiros preparativos para uma eleição do novo governo. Pelo fato dos soviéticos terem sido os libertadores do nazismo, um grande apoio surgiu em relação a URSS. Pouco antes das eleições de 1945, circulou uma carta pastoral escrita por Mindszenty na qual afirmava:

“… Foi a tirania que trouxe a Europa a essa terrível guerra. Foi a tirania que pisoteou os mais sagrados direitos humanos. Foi a tirania que negou mesmo em teoria que os indivíduos têm direito de desenvolver suas habilidades, seus talentos, seus gostos. Mas não devemos ter o tipo de ‘democracia’ que substitui uma brutalidade, uma facção faminta pelo poder, por outra [no caso, trocar o Nazismo pelo Comunismo]. Pedimos, irmãos, que pesem estas palavras antes de lançar seus votos. Não fiquem amedrontados pelas ameaças dos filhos do mal. Quanto menos oposição encontrar, mais forte crescerá a tirania.”(Memoirs, Midszenty, p.72).

Desde o documento Divini Redemptoris, publicado em 1937, a Igreja Católica se manifestava contrária as ideias de Karl Marx, que pregava um materialismo ateísta. A instituição religiosa ensinava que seus fiéis não deveriam se filiar ou apoiar partidos que tivessem ideias comunistas.

Para a tristeza de Mindszenty, os comunistas tomaram novamente o poder na Hungria. Mas dessa vez instalaram um governo ainda mais autoritário do que o feito em 1919. O Papa Pio XII atento ao ocorrido nomeou Mindszenty como cardeal em 18 de Fevereiro de 1946.

Em 1947, o Partido dos Trabalhadores Húngaros, uma fusão de comunistas e social-democratas baniu todo as ordens religiosas. Os católicos passaram a ser perseguidos e presos pelo governo comunista. Cerca de sessenta padres foram presos e os que restavam eram ameaçados quando iam ler alguma carta pastoral ou homilia que fosse contra o governo. Os seminários católicos ficaram sob censura e as  qualquer procisão religiosa estava suspensa.

Por todo o mundo ocidental o comunismo era visto como uma ameaça a liberdade. Em 15 de julho de 1948, o jornal do vaticano L’Osservatore Romano publicou um decreto contra o comunismo do Santo Ofício, que excomungou os que propagavam “os ensinamentos materialistas e anti-cristãos do comunismo”.  Esse documento reforçou as convicções do cardeal que tomou uma atitude direta frente ao governo comunista húngaro.

As escolas deveriam ser agora dirigidas por sindicatos e organizações marxistas. Foram impressos novos livros didáticos e o cardeal foi chamado a verificar se eles continham algo contrário a Igreja. O cardeal se recusou a participar da revisão dos livros, alegando que eles não tinham nada contra a Igreja diretamente, mas que ensinavam ideias contra ela. Além disso, o Mindszenty afastou todos os professores de ordens religiosas das escolas.

EXCOMUNGADOS O GOVERNO E O PARLAMENTO DA HUNGRIA – Cumpriu a promessa o primaz Mindszenty. Cidade do Vaticano, 24 (A.P.) – Chegaram notícias ao Vaticano de que o cardeal Mindszenty, primas da Hungria, excomungou os membros do governo húngaro e do parlamento que, no dia 16, nacionalizaram as escolas católicas da Hungria. A comunicação da excomunhão veio na forma de publicação de um artigo do Código Canônico que estabelece essa pena, “a priori”, contra pessoas que “aprovem leis, decretos ou resoluções contra liberdade e os direitos da Santa Madre Igreja”. Um comentário junto ao artigo pelo cardeal Mindszenty esclarece que, nesses direitos, se inclui o de educar crianças católicas em igrejas católicas.

A declaração de excomunhão expedida pelo Cardeal Mindszenty preocupou o governo da Hungria que agora planejava a morte do religioso. A ideia inicial era que ele tivesse uma “morte acidental” por falta de ar ao ingerir algum alimento ou mesmo ter se enganado em alguma dose de remédio. Porém, a população estava atenta a qualquer coisa que fosse feita com o Cardeal e o Vaticano também. As consequências poderiam ser piores se ele estivesse morto. Tal como diz o ditado que o “sangue dos mártires, semente da Igreja”.

O assassinato de Mindszenty poderia ter consequências fortes. Assim, para passar a imagem de que o governo tinha respeito pela democracia e pela boa aplicação da lei, decidiram prender o cardeal e submetê-lo a um julgamento.

A prisão do Cardeal Mindszenty

Prevendo que pudesse ser preso, o cardeal escreveu uma carta, que foi publicada posteriormente, prevendo haver tortura e chantagem para que mudasse suas afirmações ou que confessasse algum crime:

“Se alguém vos disser, um dia, que me degradei a ponto de fazer confissões em depoimento, ou que me demiti ainda mesmo que estas declarações estejam autenticadas com minha assinatura, considerai-as apenas como o resultado da fraqueza de minha condição de homem”.

Em 27 de dezembro de 1948, em Budapeste, o Cardeal Mindszenty foi preso acusado de traição, espionagem e tráfico de notas monetárias. A notícia causou enorme espanto internacional e diversas reações começaram a surgir.

O presidente da república húngara declarou sobre a prisão que o cardeal Mindszenty constituía “um obstáculo a eliminar no campo da Democracia”, sendo ele um “chefe da reação e agente do imperialismo”.

O cardeal foi acusado também de ser antissemita, o que colocou ainda mais em desconfiança sua prisão. Pois já era do conhecimento dos húngaros e do mundo o seu combate declarado aos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, sua defesa dos judeus e sua consequente prisão em 1944.

Vários países com grande quantidade de católicos realizaram protestos em favor de Mindszenty, incluindo o Brasil, o Chile e a Bolívia. As pressões internacionais começaram a acontecer em relação ao governo húngaro.

Em 2 de janeiro de 1949 , o Papa Pio XII escreveu “Acerrimo Moerore” uma carta para o episcopado Húngaro, tratando sobre a prisão do Cardeal Mindszenty. No documento o Papa lamenta a prisão que considera atentatória e “insulto infligido a toda a Igreja”. Ele pede que os bispos se mantenham firmes em suas convicções e diz que “a religião cristã pode ser caluniada e combatida, mas não pode ser conquistada!”.[1]

A Carta em defesa do Cardeal Mindszenty da Newman Association

Especialmente os católicos da Inglaterra começaram a se manifestar em favor do Cardeal.Em Janeiro de 1949 o jornal Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, publicou a notícia reproduzindo informações vindas de Londres:

Ofensiva comunista contra a Igreja Católica – Londres, 4 (B.N.S.) – A prisão do Cardeal Mindszenty da Hungria, causou profunda emoção no seio de toda a população britânica. O fato é encarado como “clímax” de ofensiva comunista contra a Igreja Católica Romana cujo objetivo final é o completo domínio da Igreja por parte do Estado Comunista. O Cardeal Griffin, Arcebispo de Westminster declarou que “este novo ato brutal constitui outro exemplo da luta entre os cristãos da Europa oriental e as forças do mal. Perante o mundo são óbvios os motivos que determinaram a prisão do Cardeal Mindszenty. Ele insistia em proclamar os direitos humanos e a liberdade religiosa. Atacava corajosamente o governo pela intromissão no ensino religioso e a imposição do credo comunista nas crianças. Não cessava de opor as tradições cristã do seu país contra o poder totalitário da tirania comunista. O Cardeal Mindszenty tem agora a gloria de ter sido preso tanto pelos nazistas como pelos comunistas. Entre ambos é pequena a diferença na ideologia ou na prática”.

Em Fevereiro de 1949, o mesmo jornal Correio da Manhã, no Rio de Janeiro, publicou a notícia de que os ingleses pressionavam seu governo a tomar alguma atitude em relação ao caso da prisão do cardeal.

CLAMOR NA INGLATERRA Londres, 4 (U.P.) – Os católicos britânicos bombardeiam Bevin com cartas, reclamando que “faça alguma coisa no caso Mindszenty”. A opinião geral dos católicos europeus, que fazem preces pelo cardeal, é que o processo é uma “farsa”. Os católicos britânicos acusam o governo por não ter protestado. O governo argumenta que não vale a pena protestar, e que protestou ante a recusa húngara de admitir um observador oficial britânico no processo. Os jornais de domingo apelavam para que obtivessem dos sindicatos e resoluções reclamando iniciativa do governo britânico. Às cartas recebidas, Bevin respondeu com uma declaração impressa, rejeitando as sugestões por considerá-las inefetivas para obter justiça. O arcebispo de Liverpool convocou comícios para segunda-feira.

É dentro desse contexto que ocorreu a participação da Newman Association e a assinatura de Tolkien na carta publicada no jornal The Times. A Newman Association  é uma sociedade nacional britânica que se reúne em ciclos locais os  com o objetivo de promover o catolicismo e garantir direitos dos católicos.

Em 2011, Douglas A. Anderson, um estudioso tolkieniano, reapresentou o recorte do jornal, que até então havia passado desapercebido pelos entusiastas do autor do Hobbit.

Sobre a ligação de Tolkien com essa entidade católica, Anderson questionou ao Dr. Christopher Quirke, o secretário da Newman Association, que respondeu o seguinte:

“Eu fiz pesquisas e vi várias cartas para a Associação durante seus primeiros anos e o nome de Tolkien aparece em uma longa lista de vice-presidentes que parecem ter sido durante esses primeiros anos. A Associação foi fundada em 1942, para graduados universitários católicos, e Oxford foi proeminente na sua fundação. Não posso dizer mais do que isso. Não sei, por exemplo, quão envolvido ele estava com o círculo de Oxford “.[2]

Em 28 de Fevereiro de 1949 foi publicada a seguinte carta no jornal The Times, que contem a assinatura de Tolkien:

 

CARDINAL MINDSZENTY

AO EDITOR DO THE TIMES

Sir, Em nome da Newman Association, composta por cerca de 1.500 professores católicos e outros graduados católicos das universidades britânicas, desejamos registrar um forte protesto contra a ação do governo húngaro na prisão do Cardeal Primado da Hungria. Nos últimos três anos, vimos muitos exemplos da crescente violação da liberdade em países sob dominação soviética ou influência soviética. A prisão do Cardeal Primado é o clímax de toda uma série de incidentes na Hungria e em outros lugares, mas, da nossa experiência do presente e do passado, esperamos uma apreensão muito real. Ninguém mais pode reivindicar estar seguro. Chegou o momento de deixar claro, sem equívocos diplomáticos, que a consciência do mundo civilizado fica chocada com a negação da liberdade religiosa na Hungria e outras áreas da Europa Central e Oriental.

A prisão do Cardeal Primado é quase sem precedentes nos últimos 1.000 anos. Deve deixar-se claro que, sem dúvida, o governo húngaro por sua ação perdeu o respeito de homens e mulheres pensantes de todas as nações ocidentais e que se escarneceu de todos os movimentos das Nações Unidas e de outras agências para a promoção da paz baseada na justiça e na liberdade. Nós consideramos como dever do governo britânico deixar enfaticamente claro a todos a respeito do quanto a população da Grã-Bretanha ficou chocada com a ação do governo húngaro. Senhor, temos a honra de ser seus obedientes servos,

Alexander Moncrieff, presidente honorário; Leslie Aitchison, A. J. Allmand, Thomas Bodkin, A. Leyland Robinson, Edgar Prestage, G. Temple, J.R.R. Tolkien, Edmund Wittaker, F. de Zulueta, vice-presidentes honorários, Newman Association 31, Portman Square, W.1.[3]

Até esse ano o último cardeal que havia sido preso e enfrentado um julgamento fora o Tomás Wolsey, cardeal na Inglaterra, julgado e condenado em 1530 na época do Rei Henrique VIII.

Em Fevereiro de 1949, Mindszenty foi julgado. Ele foi torturado tendo ficado oitenta e duas horas em pé e tomado drogas que distorciam a mente. Era constantemente interrogado e impedido de dormir e sofria ataques constantes para que se confessasse culpado. Como resultado disso ele confessou ter traído seu país para implantar uma monarquia e se declarou antissemita. Foi então condenado a prisão perpétua.

Cardeal Mindszenty lendo sua confissão de ser antissemita e de ter traído seu país.

Os jornais da época do ocidente reproduziam partes do julgamento e declaravam que teria sido uma farsa sem precedente. Como uma reação a essas perseguições em 1 de julho de 1949, a Igreja Católica publicou mais um decreto condenando o comunismo, conhecido como  o Decreto contra o comunismo. Neste documento, o Santo Ofício proibiu os católicos de favorecerem, votarem ou se filiarem em partidos comunistas; e de ler, publicar ou escrever qualquer material que defendesse o comunismo. Caso incorressem nesses atos ocorreria a excomunhão automática ipso facto (ou latae sententiae).

A repercussão da prisão e do julgamento foi tão intensa que geram dois filmes. O primeiro  Guilty of Treason (Culpado de Traição) foi lançado em 1950 (veja o filme AQUI) e em 1955 foi The Prisioner (O prisioneiro) com o papel do cardeal interpretado por Alex Guiness, conhecido por ter sido o ator que fez Obi Wan na série Star Wars (veja o filme AQUI), visto como uma das melhores interpretações no cinema da época.

A Bolivia apresentou petição a ONU para que julgasse o caso de Mindszenty como um crime contra os direitos humanos, o que aconteceu, porém o governo Hungaro manteve a prisão do cardeal. Mesmo diante de tanta pressão internacional o religioso permanecia preso. Foi impedido pelo regime de participar dos Conclaves de 1958 e 1963 que procederam à eleição dos Papas João XXIII e Paulo VI, respectivamente.

Cardeal Mindszenty, visivelmente perturbado, em seu julgamento em 3 de fevereiro de 1949.

Somente por ocasião da Revolução Húngara de 1956, que Mindszenty foi libertado da prisão e obteve asilo na embaixada dos Estados Unidos até 1971. Foram quinze anos na embaixada e é considerado um Record naquele país como o homem que ficou maior tempo na embaixada norte americana. Mindszenty faleceu no exílio, em Viena em 6 de maio de 1975.

Em 1991 o corpo do Cardeal Mindszenty foi exumado e encontrado incorrupto, após 16 anos de sua morte. Em 1996 a documentação para o processo de sua beatificação foi apresentada à Congregação para a Causa dos Santos pelo postulador da Causa Fr. Janos Szoke.

 

Ator Alec Guiness, (o Obi Wan de Star Wars) no papel do Cardeal em 1955, filme The Prisioner.

 

BIBLIOGRAFIA

ANDERSON, Douglas, A. Tolkien and Newman. Disponível em: http://tolkienandfantasy.blogspot.com.br/2011/11/tolkien-and-newman-association.html. Acessado em 03 de agosto de 2017.

KOVRIG, B.  The Hungarian People’s Republic, Baltimore, 1970.

MINDSZENTY, J. Memoirs ,  translated by Richard and Clara Winston, Macmillan New York 1974.

SHUSTER, G.N.  In Silence I Speak, New York, 1956.

VALI. F. A., Rift and Revolt in Hungary, Cambridge, Mass., 1961.

Jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1948 a 1958.

L’Osservatore Romano, 15 de julho de 1948.

Papa Pio XII, Carta Acerrimo Moerore Disponível no “Site do Vaticano: http://w2.vatican.va/content/pius-xii/it/letters/documents/hf_p-xii_lett_19490102_acerrimo-moerore.html. Acessado em: 03 de agosto de 2017.

 

NOTAS:

[1] http://w2.vatican.va/content/pius-xii/it/letters/documents/hf_p-xii_lett_19490102_acerrimo-moerore.html
[2] “I made enquiries and saw numerous letter headed paper for the Association during its early years and Tolkien’s name does appear in a long list of Vice Presidents that we appeared to have during those early years. The Association was founded in 1942, for Catholic university graduates, and Oxford was prominent at its foundation. I can’t say more than that. I don’t know, for example, how involved he was with the Oxford circle.” ANDERSON, Douglas, A. Tolkien and Newman. Disponível em: http://tolkienandfantasy.blogspot.com.br/2011/11/tolkien-and-newman-association.html. Acessado em 03 de agosto de 2017.
[3] CARDINAL MINDSZENTY

TO THE EDITOR OF THE TIMES

Sir, – On behalf of the Newman Association, composed of some 1,500 Catholic professors and other Catholic graduates of the British universities, we wish to register a strong protest against the action of the Hungarian Government in arresting the Cardinal Primate of Hungary. During the last three years we have see many examples of the ever-extending violation of freedom in countries under Soviet domination or Soviet influence. The arrest of the Cardinal Primate is the climax of a whole series of such incidents in Hungary and elsewhere, but from our experience of the present and the past we look forward with a very real apprehension. No one can claim any longer to be safe. The time has now arrived when it must be made clear, without diplomatic equivocation, that the conscience of the civilized world is shocked by the denial of religious liberty in Hungary and other areas of eastern and central Europe.

The arrest of the Cardinal Primate is almost without precedent in the last 1,000 years. It must be made clear beyond dispute to the Hungarian Government that by their action they have forfeited the respect of thinking men and women of all the western nations, and that they have made a mockery of all movements by the United Nations and other agencies for the promotion of peace based on justice and freedom. We regard it as the duty of the British Government to make emphatically clear to all concerned how deeply the people of Britain have been shocked by the action of the Hungarian Government.We have the honour to be, Sir, your obedient servants,

Alexander Moncrieff, Honorary President; Leslie Aitchison, A. J. Allmand, Thomas Bodkin, A. Leyland Robinson, Edgar Prestage, G. Temple, J.R.R. Tolkien, Edmund Wittaker, F. de Zulueta, Honory Vice-Presidents, Newman Association 31, Portman Square, W.1.

 

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Um comentário

  1. Tiago Veiga /

    Bom dia! Muito bom texto, parabéns. Um belo resumo de tais acontecimentos, com a participação de nosso mestre através da Newman Association.
    Apenas uma correção, salvo melhor juízo.
    No texto do The Times, pela imagem parece haver a frase “No one can claim any longer to be SAFE”, ou seja, algo como “ninguém pode mais se dizer SEGURO”.
    Constou como sendo SAGE, corretamente traduzido como SÁBIO, mas na imagem do jornal é SAFE mesmo. 😉
    Obrigado, grande abraço!
    Tiago Veiga

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