Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Lauterbrunnen, a Valfenda da vida real

 Por Eduardo Stark

Sabe-se que o professor Tolkien não admitia que se buscassem alegorias em suas obras. Mas isso não impede que se façam análises para buscar entender as suas influências ou origens de algumas ideias que ele decidiu escrever.

Isso não quer dizer que os livros de Tolkien sejam biográficos, mas que em alguns pontos carregam características que o Tolkien utilizou em sua vivência.  Um exemplo disso são os locais que visitou em viagens familiares.

Entre o final de agosto e inicio de setembro do ano de 1911, J.R.R.Tolkien na época com 19 anos, realizou uma viagem para a Suíça, com seu irmão Hilary e sua tia Jane Neave, juntamente com a família Brookes-Smith. Durante essa viagem eles andaram durante dias, evitando as estradas e se alimentando ao céu aberto e visualizaram belas paisagens naturais.

Desse cenário Tolkien guardou lembranças e as utilizou nos seus escritos. Um exemplo, que é o objeto desse artigo é o local conhecido Lauterbrunnen, que influenciou Tolkien na imaginação de como seria Rivendell (Valfenda na tradução brasileira).

Comparação de imagens

 

A imagem a seguir é uma visão de Lauterbrunnen, retirada sob um ponto de vista que provavelmente é o mesmo que o Tolkien esteve. Esse ponto é um dos mais comuns para os turistas tirarem fotos e é o cartão postal do local:

  lauterbrunn1

 Lauterbrunnental1a

Evidentemente que é um lugar muito lindo e encantador, tanto que foi inspiração para uma ilustração feita pelo próprio Tolkien. Pode-se observar claramente a semelhança entre a foto e a ilustração de Tolkien do livro O Hobbit, Rivedell (Valfenda):

  paint_rivendell

Tolkien fez diversos rascunhos de Rivendell (Valfenda), mas essa ilustração final parece ser a mais semelhante ao Lauterbrunnen.

 

Conclusões de estudiosos

Apesar da semelhança das fotos do local e da ilustração do Tolkien, não se poderia, a princípio afirmar que ele teve uma influência desse local. Contudo, estudiosos concluem que realmente esse local foi uma influência da visualização de Rivendell (Valfenda), com uma série de argumentos.

Em 1996, Marie Barnfield escreveu um artigo em uma sociedade Tolkieniana apontando os argumentos porque Lauterbrunnen foi de fato uma influência visual para Tolkien. Nesse texto ela argumenta:

“não há apenas semelhança entre a pintura de Tolkien de  Rivendell (Valfenda )e o Vale de  Lauterbrunnen, mas também:

a) que Tolkien visitou Lauterbrunnen em 1911

b) que ele tinha tinha descido para o vale por uma rota incomum que espelha exatamente a rota perversa que seus personagens insistiram em ir até Riverndell (Valfenda).

c) que Lauterbrunnen essencialmente significa o mesmo que Greyflood (Rio Cinzento) e Hoarwell (Fontegris).

d) que Tolkien se espelhou no som do nome Lauterbrunnen propriamente no Inglês e os nomes Elficos para os rios de Rivendell (Valfenda): Loudwater (Ruidoságua)e Bruinen”.

Segundo os especialistas em Tolkien Wayne G. Hammond e Christina Scull: “O cenário ao redor de Lauterbrunnental e Miirren quase certamente iria influenciar como ele visualizava e desenhava Rivendell (Valfenda) e Dunharrow (Templo da Colina) na Terra-média…”.

Argumentos não faltam para se chegar a conclusão de que Tolkien teve influência desse belo ambiente suíço. Mais do que evidência ou argumento, sobre Tolkien ter uma possível influência do local, é uma carta escrita pelo próprio narrando os momentos dessa viagem em 1911.

A Carta 306 de J.R.R.Tolkien

 

Em 1967 , Tolkien escreveu uma carta (enumerada 306) para seu filho Michael, que tinha acabado de conhecer a Suíça. Nessa carta Tolkien escreveu sobre a sua viagem pelo país em 1911, e logo no início está visivelmente estabelecido a sua influência nessa viagem, em especial na história do Hobbit:

 Estou …. muito feliz por você ter conhecido a Suíça e a própria parte que antigamente eu melhor conhecia e que teve o efeito mais profundo sobre mim. A viagem do hobbit (de Bilbo) de Valfenda ao outro lado das Montanhas Nevoentas, incluindo a descida pela encosta nevada e de pedras escorregadias até o bosque de pinheiros, é baseada em minhas aventuras em 1911: o annus mirabilis de luz do sol no qual praticamente não houve chuva entre abril e o final de outubro, exceto na véspera e na manhã da coroação de George V.

E continua narrando na carta suas aventuras naquela época, apontando especificamente os lugares que passou e alguns fatos da viagem:

Nossas andanças, principalmente a pé, em um grupo de 12 agora não estão claras em seqüência, mas deixam muitas imagens vividas tão claras como se tivessem ocorrido ontem (isto é, tão claras quanto se tornam as lembranças mais remotas de um velho). Fomos a pé carregando grandes mochilas praticamente todo o caminho de Interlaken, principalmente por caminhos montanhosos, até Lauterbrunnen e assim até Mürren e, por fim, até a ponta do Lauterbrunnenthal, em uma vastidão de morenas. Dormíamos de maneira rústica — os homens —, freqüentemente em celeiros de feno ou estábulos de vacas, uma vez que estávamos caminhando de acordo com um mapa e evitando estradas e jamais fazendo reservas em hotéis e, após um magro café da manhã, alimentávamo-nos ao ar livre: com utensílios de cozinha e quantidades de “spridvin” (como o mal-educado membro falante de francês do grupo chamava e escrevia o “álcool metilado”).

Nota-se que durante a viagem foi utilizado um mapa para se guiarem no local. Interessante observar que nessa viagem foram momentos felizes para o Tolkien, depois de uma infância triste pela perda dos pais e pela criação severa do padre Francis. Como o próprio Tolkien escreveu nessa mesma carta: “Não creio que tudo isso seja muito interessante agora. Mas foi uma experiência extraordinária para mim aos 19 anos, depois de uma infância miserável. Fui para Oxford naquele outono…..”

 Está claro e evidenciado a influência que Tolkien recebeu daquele ambiente da Suíça, diante dos argumentos apresentados e diante do escrito do próprio Tolkien. A experiência que Tolkien teve nessa viagem foi praticamente uma inauguração de um novo espírito em sua vida, que passou a formar um mundo fantástico em sua imaginação, baseado nesses momentos.

Foi justamente partindo de nossa realidade que se formou na imaginação do professor Tolkien um mundo diferente, um mundo encantado por histórias incríveis e que hoje podemos nos aventurar.

Referências

 

BARNFIELD, Marie. ‘The Roots of Rivendell, or Elrond’s House, Now Open as a Museum’ þe Lyfe ant þe Auncestrye 3, 1996, p. 4-18.

HAMMOND, Wayne G.SCULL Christina. The J.R.R. Tolkien Companion and Guide. London: HarperCollins, 2006. Chronology.

TOLKIEN, J.R.R .As Cartas de J.R.R. Tolkien. Organizado por Christopher Tolkien e Humphrey Carpenter.Tradução: Gabriel Oliva Blum. Curitiba: Arte e Letra, 2006

 _________________________________________

Para completar veja um vídeo gravado no local em 2011, exatos 100 anos após a visita de Tolkien:

 

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather

2 comentários

  1. Alex Sandro Coruja Tavares /

    Li essa reportagem agora , dia 28/08/2014. Em Setembro de 2011 eu, minha esposa e um amigo fizemos uma viagem pela Europa. Passamos pela Suíça , visitamos algumas cidades , em especial Interlaken e pegamos um trem para subir nos Alpes , a montanha jungfraug e passamos por esses lugares das fotos na ida e na volta. Pra mim, fã das obras de Tolkien foi uma satisfação e alegria saber que 100 anos depois estive fazendo o mesmo passeio de excepcional escritor. Incrível coincidência!!!! Abraço a todos boa noite!

  2. Cortina Blackout Produções /

    Um de meus clips inspirado no reino de Valfenda coma música de Bach:

    https://www.youtube.com/watch?v=CjgAv3MY5DI

Trackbacks/Pingbacks

  1. Lauterbrunnen, inspiração para Valfenda… | A Taberna dos Bardos - […] fonte da reportagem: http://tolkienbrasil.com/noticias/diversas/lauterbrunnen-a-valfenda-da-vida-real/ […]
  2. Lauterbrunnen | Gnomonique - […] viagem influenciou posteriormente sua criação da última casa amiga. Pra quem se interessar, aqui tem o texto completo. E…
  3. Tese acadêmica sobre Turismo e Tolkien aprovada na Universidade de Coimbra - Tolkien Brasil - [...] de se imaginar. Já mostramos alguns exemplos de como isso pode ser visto (sobre Valdenda AQUI e a terra-média-…

Deixar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: