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J.R.R. Tolkien e a tradução da Bíblia de Jerusalém

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O profeta Jonas presente na história do antigo testamento

by Eduardo Stark

Com o sucesso de o Senhor dos Anéis (publicado em 1954-55), Tolkien se tornou relativamente conhecido na Inglaterra. E isso chamava a atenção dos católicos, pois ele era um devoto seguidor da Igreja e participava ativamente de movimentos intelectuais católicos, em um país predominantemente anglicano.

Quando Tolkien era criança perdeu seus pais e ficou sob os cuidados do Padre Francis Morgan, que tratou de dar uma educação católica severa ao jovem. A fé católica era vista por Tolkien como uma espécie de herança de sua mãe, que havia se convertido e sofrido as consequências do abandono de sua família por isso. E assim, o professor de Oxford desde sua infância seguia os dogmas da Igreja profundamente.

Durante toda sua vida Tolkien não tinha pretensão de escrever sobre teologia. Ele acreditava que era o papel da Igreja a interpretação legitima das escrituras. Ao contrário do C.S. Lewis, autor de Crônicas de Nárnia e amigo de Tolkien, que escrevia constantemente textos de cunho religioso e apologético.

Tolkien não tinha a pretensão de fazer dos seus livros objetos para serem utilizados como propaganda cristã ou algo alegórico como havia feito o C.S. Lewis. Ele levava sua fé a sério demais para misturar diretamente algo relacionado aos seus escritos de fantasia. A intenção da obra era a de puramente divertir seus leitores com uma história criativa e bela sob seu ponto de vista.

Como ele mesmo afirma no prefácio de O Senhor dos Anéis “O motivo principal foi o desejo de um contador de histórias de tentar fazer uma história realmente longa, que prendesse a atenção dos leitores, que os divertisse, que os deliciasse e às vezes, quem sabe, os excitasse ou emocionasse profundamente”.

Evidentemente que não há a possibilidade do autor se desvincular do seu passado e sua cultura, por mais que ele mesmo possa tentar. É por isso que certa vez Tolkien afirmou que “O Senhor dos Anéis obviamente é uma obra fundamentalmente religiosa e católica; inconscientemente no início, mas conscientemente na revisão”. Não há elementos cristãos na obra diretamente, pois eles estão dentro da história, de modo implícito.Como o autor complementa o argumento da frase anterior: “o elemento religioso é absorvido na história e no simbolismo. Contudo, está expresso de modo muito desajeitado e soa mais presunçoso do que percebo. Pois, na realidade, planejei muito pouco conscientemente”.

Tolkien não consegue separar o seu passado, suas experiências e sua cultura da forma como escreve e isso é relevante para se considerar o que é esteticamente atraente para ele. É a partir dessa noção que Tolkien inconscientemente escreve como católico, sem ter a intenção de colocar elementos de sua religião de forma direta na obra, pois ele não pretendia criar um livro que fosse uma alegoria religiosa.

Em entrevista para a Telegraph, realizada em 1967 afirmou:

O livro, não é sobre qualquer coisa, mas a si mesmo. Não tem intenções alegóricas, tópicas, morais, religiosas ou políticas. Não se trata de guerras modernas ou bombas H, e meu vilão não é Hitler“.

Mas apesar de não ser conhecido (e não tinha a vontade de ser) como um propagador de sua religião, Tolkien participava ativamente de ciclos Católicos intelectuais de Oxford, em especial os relacionados ao “Movimento de Oxford”.

Cardeal Newman

Cardeal Newman

Esse movimento foi uma tendência de alguns acadêmicos de Oxford em defender os dogmas da Igreja seguindo o que já havia sido iniciado pelo Cardeal John Henry Newman (hoje Beato da Igreja Católica e possível Santo). Newman foi um membro da Igreja Anglicana que havia se convertido a Igreja Católica e iniciado o movimento de propagação de seus preceitos no final do século XIX. E foi Newman o fundador do Oratório de Birmingham, onde Tolkien passou boa parte de seu tempo na infância com o Padre Francis Morgan, o responsável pelo oratório na época.

Mais tarde, na década de 30 do século XX, Tolkien havia participado de grupos relacionados a Newman em Oxford. Tendo inclusive forte relação com o presidente da Oxford Newman Association, chegando a convidá-lo para ser padrinho de batismo de sua única filha a Priscilla Tolkien.

Com o passar do tempo foram criados outros grupos em homenagem ao Cardeal Newman. Um exemplo é o “Theological Studies Group of the Newman Association” (Grupo de estudos teológicos da Associação Newman), que com a liderança de Martin Redfern participou da elaboração da Bíblia de Jerusalém em sua versão inglesa, sob a direção geral do padre Alexander Jones.

Alexander Jones convida Tolkien para traduzir a Bíblia

Com a publicação da encíclica do Papa Pio XII “Divino Afflante Spiritu” em 1943, foi dada uma abertura autorizadora para os católicos de interpretarem a Bíblia e fazerem novas traduções a partir das línguas originais. Dois anos depois de publicada a encíclica surgiu “La Bible de Jérusalem” na frança.

Essa autorização para os fiéis interpretarem a Bíblia não significava em que o ensinamento da Igreja era relativizado ou que teriam a mesma validade que as interpretações feitas pelos fiéis. Pois posteriormente, no Concílio Vaticano II de 1965 foi reafirmado em Dei Verbum que: “O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou transmitida foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade se exerce em nome de Jesus Cristo”.

Com a encíclica de Pio XII, o padre Alexander Jones tinha iniciado os trabalhos para a publicação de uma nova tradução da Bíblia para o Inglês, nos moldes da “La Bible de Jérusalem” (A Bíblia de Jerusalém). Essa tradução havia sido publicada na França em fascículos entre os anos de 1945 a 1955, e edição única em 1956. O formato e tradução da Bíblia, fruto do trabalho da École biblique et archéologique française de Jérusalem,  havia sido um sucesso na época e agora teria sua versão inglesa.

Alexander Jones

Padre Alexander Jones

No Reino Unido coube a “Roman Catholic scholars” realizar as traduções para o Inglês, normalmente realizada a partir da tradução em Francês, mas com comparações palavra por palavra dos originais em Hebraico, Aramaico etc, a fim de manter a conformidade completa com os escritos antigos.

Com o sucesso do Senhor dos Anéis, e tendo já uma boa reputação como professor universitário, Tolkien era reconhecido por muitos de sua época como um dos maiores estudiosos de línguas. E o fato de ser católico chamava a atenção das pessoas que seguiam essa religião.

Assim, pouco tempo após a publicação de O Senhor dos Anéis, em Janeiro de 1957, Alexandre Jones entrou em contato com Tolkien pedindo que ele traduzisse alguns livros da Bíblia. Inicialmente foi pedido para serem traduzidos os livros do Pentateuco (Genesis, Êxodo, Leviticus, Números, Deuteronômio), mas deu a liberdade de traduzir outros textos menores caso Tolkien não tivesse tempo.

Mas Tolkien disse que não era um especialista em Francês e que seria complicado traduzir os textos nessa língua. Tolkien acreditava que era mais fácil aprender o Inglês Antigo do que o Francês Moderno. Apesar disso, Tolkien era capaz de ler e entender essa língua perfeitamente, embora não gostasse da cultura francesa, mas tinha um grau de exigência muito grande a ponto de não se afirmar capaz de ser um tradutor digno o suficiente.

Apesar dessa recusa inicial, Alexander Jones insistiu que Tolkien aceitasse o trabalho, pois ele não olhava o conhecimento relacionado ao Francês de Tolkien, mas sua vasta carreira como professor e especialista em Inglês. E Tolkien também era estudioso de línguas antigas, tais como o Hebraico e o Latim, o que seria um grande auxilio na tradução.

Assim, Tolkien aceitou o pedido de Alexander Jones, mas como estava sem tempo apresentou apenas uma tradução parcial do livro de Isaias e iniciou a tradução do Livro de Jonas. Felizmente esse pequeno texto foi traduzido por completo.

Na época Tolkien escreveu para seu filho Michael Tolkien em 1957:

“Espero que quando eu me aposentar possa entrar em um grupo novo de tradução da Bíblia que está surgindo. Eu passei no teste com uma versão do Livro de Jonas. Não diretamente do Hebreu! Incidentalmente, se você já viu no Velho Testamento, em Jonas perceberá que a ‘Baleia’ (não é para ser uma baleia, mas um peixe grande) é quase sem importância. O fato é que Deus é muito mais misericordioso do que os ‘profetas’ que são movidos facilmente pela penitencia, e não querem ser comandados até mesmo por altos eclesiásticos a quem o próprio havia escolhido.”

Em 1961 Tolkien havia enviado o texto finalizado do Livro de Jonas. Mas não conseguia trabalhar em outras traduções da Bíblia, pois no ano seguinte estava ocupado demais com os livros Ancrene Wisse e As Aventuras de Tom Bombadil, bem como atividades de revisão do Senhor dos Anéis, traduções dos seus livros e a escrita do Silmarillion.

A revisão do texto de Tolkien

O primeiro problema na tradução foi a utilização de palavras arcaicas no texto original de Tolkien. O editor pretendia publicar uma versão da Bíblia com um Inglês moderno. Então o texto original enviado por Tolkien sofreu muitas alterações, com mudanças de palavras até cortes de frases inteiras.

Como exemplo, destacamos para análise o último parágrafo do Livro de Jonas. Na versão publicada o texto é o seguinte:

“Yahweh replied, “you are only upset about a castor-oil plant which cost you no labour, which you did not to feel sorry for Nineveh, the great city, in which there are more than a hundred and twenty thousand people who cannot tell their right hand from their left, to say nothing of all the animals?”

Observando a versão original de Tolkien percebe-se que foram retiradas da versão final várias frases nesse parágrafo, além da alteração das palavras (destacado em vermelho o que permaneceu na versão final):

“And Yahweh answered: “you grieve for this colocynth, which cost you no labour, and which you did not make grow, which sprouted in a night, and in a night has perished.And I forsooth should not grieve for Nineveh, the great city, in which there are more than a hundred and twenty thousand people who cannot tell their right hand from their left, and many cattle as well!”

A justificativa para essas alterações está relacionada ao papel do editor de manter a linguagem de toda a Bíblia de Jerusalém no mesmo estilo, portanto, foi o processo de padronização dos textos que acabou alterando substancialmente a tradução de Tolkien na versão final.

No Prefácio da Bíblia, Alexander Jones expressa gratidão aos principais colaboradores “não menos por que eles foram tão pacientes com as mudanças em seus manuscritos, as quais o Editor Geral deve ter a inteira responsabilidade”.

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem

A versão em inglês da Bíblia de Jerusalem

Na primeira edição dessa Bíblia o nome de Tolkien aparece na lista dos vinte e sete apontados como “Os principais colaboradores na tradução e na revisão literária”. Mas por terem alterado demais seu texto, Tolkien não considerava ter sido um grande contribuidor dessa tradução da Bíblia.

Em 8 de fevereiro de 1967, Tolkien escreveu em uma carta para Charlotte e Denis Plimmer a respeito de sua participação na Bíblia de Jerusalém:

Nomear-me entre os “principais colaboradores” foi uma cortesia imerecida da parte do editor da Bíblia de Jerusalém. Fui consultado em um ou dois pontos do estilo e critiquei algumas contribuições de outros. Fui originalmente designado para traduzir uma grande quantidade de texto, mas após realizar um pouco de trabalho preliminar necessário, fui obrigado a me demitir devido à pressão de outro trabalho, e completei apenas “Jonas”, um dos livros mais curtos.

Os apontamentos que o Tolkien fez com relação as traduções de outros e algumas notas sobre sua própria tradução estão guardados na biblioteca de Bodleian em Oxford.

A Bíblia de Jerusalém

Em junho de 1966  The Jerusalem Bible (A Bíblia de Jerusalém) foi publicada pela editora Darton, Longman & Todd Ltd no Reino Unido e pela editora Doubleday & Company nos E.U.A. O Sucesso foi quase que imediato entre os católicos desses países.

No mesmo ano de sua publicação em 29 de outubro, A Bíblia de Jerusalém foi aceita para utilização nas missas e algumas de suas passagens se tornaram músicas e foram transmitidas pela rádio BBC.

O que se mantém traduzido diretamente da Bíblia de Jerusalém francesa foram a introdução e as notas, que tiveram pequenas adequações apenas. Além disso a tentativa de colocar uma linguagem de fácil leitura no texto, mas com a devida fidelidade aos originais.

Atualmente existe uma versão em Português publicada no Brasil em 1981 pela editora Paulus e é considerada uma das mais populares versões entre os católicos brasileiros.

Recentemente o texto integral da tradução realizada por Tolkien foi publicado em um periódico (veja a noticia AQUI).

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