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Viagem de campo aos arquivos de Tolkien – Parte Um

 

 por Dr. Karl E. H. Seigfried

Em 26 de outubro, liderei um grupo dos meus alunos em uma viagem de campo para ver a coleção de J.R.R.Tolkien na Marquette University em Milwaukee. Como na viagem de campo Viking no mês passado, a excursão foi aberta aos estudantes em minha aula de religião nórdica no Cathage College, membros da Carthage College Tolkien Society que eu iniciei no ano passado, e estudantes da minha aula em Chicago’s Newberry Library sobre “O Hobbit: As fontes miticas de J.R.R.Tolkien.” A viagem foi organizada por Laura Schmidt, arquivista na Marion E. Wade Center e consultora docente pela Wheaton Colege Tolkien Society. Ela gentilmente me convidou para ajudar a organizar o grupo de viagem para meus alunos de duas instituições e os membros do grupo dela na Wheaton College.

História & guarda da coleção J.R.R. Tolkien

 

Em 1956, a universidade Marquette escolheu William B. Ready (nascido Wales) como diretor de bibliotecas e lhe deu a tarefa de reunir materiais para a nova escola da Biblioteca Memorial, que tinha sido completada em 1953. Ready tinha ido aos Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial e trabalhou na Universidade de Stanford antes de dirigir as bibliotecas de Marquette. Ele acreditava que cada instituição poderia ter uma política de coleção focada em áreas específicas. Sendo a Marquette uma universidade Jesuíta, ele decidiu focar em escritores Católicos Romanos e esteve em sua visão adquirir os trabalhos de Tolkien, um escritor católico então imerso em uma mania da popularidade Americana que deu origem ao fenômeno “Frodo Lives!” (Viva Frodo) nos anos de 1960.

Em seu primeiro ano, Ready contatou Tolkien através da especialista em vendas de livros antigos de Londres, conhecida Bertram Rota. Como nenhuma instituição tinha pedido a compra dos manuscritos de Tolkien, o escritor rapidamente concordou em vender o material para a Marquette por £1500 (hum mil e quinhentas libras). Usando um índice de atualização, esse valor poderia ser aproximadamente £30,000 hoje; ou próximo de $50,000 (cinquenta mil dólares). Naquela época, era praticamente um ano inteiro de salário para Tolkien.

Em 1957, o material relative ao O Hobbit, Mestre Gil de Ham e  o Sr. Bliss chegou em Wisconsin. Tolkien tinha agendado um encontro para falar na Marquette durante o ano que esses primeiros manuscritos foram lançados mas cancelou devido a questões de saúde de sua esposa. Em 1958, os manuscritos de O Senhor dos Anéis chegaram. Tolkien cancelou outro encontro na Milwaukee em 1959, novamente devido a condição de sua esposa.

memorial library marquette university milwaukee jrr tolkien collection archive

Biblioteca Memorial da Universidade Marquette

Em 1965, Tolkien escreveu para William A. Fitzgerald, o novo diretor da biblioteca. Os editores americanos da Ace Books tinham lançado uma versão pirata brochura de O Senhor dos Anéis, que até então tinha sido lançado apenas em versão capa dura. Tolkien e seus editores tinham decidido chegar com sua própria edição autorizada em brochura para competir  com os piratas. Enquanto estava revisando o texto para a nova publicação, Tolkien encontrou mais manuscritos originais de seu trabalho. Ele disse ao diretor da Biblioteca Marquette que esses manuscritos deveriam ir para os arquivos. Contudo, Christopher Tolkien iria eventualmente usar esses manuscritos enquanto estava compilando o sexto livro ao nono de sua monumental History of Middle-earth (História da Terra-média), e esses escritos antigos de O Senhor dos Anéis não chegaram a Marquette antes da década de 1980.

Hoje, a coleção J.R.R.Tolkien é uma fonte maravilhosa que guarda os rascunhos originais e manuscritos de O Hobbit, Mestre Gil de Ham e O Senhor dos Anéis. Os arquivos também guardam uma coleção extensa de edições publicadas dos trabalhos de Tolkien, livros sobre Tolkien, fan fiction, fanzines e gravações. Um exposição permanente de reproduções de vários manuscritos e ilustrações acolhem em vista 800 a 900 pessoas a cada ano, sendo ambos tanto pesquisadores quanto fãs.

Embora eu esperasse ver os manuscritos de Tolkien de O Silmarillion e suas artes originais da Terra-média, esses estão agora guardados na biblioteca Bodleian da Universidade Oxford, juntamente com seus documentos pessoais e acadêmicos. A única arte original vendida a Marquette são os desenhos nas margens que Tolkien fez nos próprios manuscritos. Enquanto temporariamente perplexo em como ele poderia descrever um local que seus personagens tivessem que andar, Tolkien as vezes rascunhava a imagem na página do manuscrito na intenção de cristalizar sua visão antes de continuar com o texto. Algumas dessas pequenas ilustrações foram elaboradas e coloridas o bastante para dar as páginas o glamour de manuscritos de iluminuras medievais.

Somando aos hológrafos de Tolkien (manuscritos da própria mão do autor), a coleção contem textos datilografados e páginas de provas com suas correções escritas. Há aproximadamente 10.000 páginas de manuscritos de O Senhor dos Anéis e cerca de 1.500 páginas de O Hobbit. Há 201 páginas de manuscritos de Mestre Gil de Ham, originalmente dita por Tolkien como um conto para sua família. A coleção também guarda sessenta e uma páginas de manuscritos de o Sr. Bliss, um livro ilustrado para crianças não publicado até uma década após a morte de Tolkien.

Norse visita

Bill Fliss e Amy Cooper Cary nos apresentam a coleção J.R.R. Tolkien.

Nosso grupo de estudantes foram recebidos pelo arquivista Bill Fliss e Amy Cooper Cary, diretora da coleção especial e arquivos universitários. Eles tinham preparado uma maravilhosa exposição para nossa visita privada que mostrou alguns dos mais impressionantes itens de sua vasta coleção. Eles explicaram o significado de cada peça ao grupo e depois responderam perguntas enquanto nos enfileirávamos para aproximar em ver os itens. O que segue são breve descrições das peças que nós vimos.

Impressão original representativa da sobrecapa da primeira edição d’O Hobbit

Os arquivos guardam as mais antigas páginas de O Hobbit – a mais antiga edição impressa em uma série de fólios sem capa, completada com uma lista de Tolkien das correções iniciais das revisões. Sempre mexendo, Tolkien apresenta o novo texto nas supostas páginas “finais”. Embora os arquivos tenham ilustrações originais de Tolkien em aquarela e ilustração de tinta para a capa, estão infelizmente danificadas  Fomos apresentados a primeira impressão pela impressa.

hobbit first jacket 1937

Holográfo de O Hobbit, capítulo 5: “Charadas no escuro”

 

Essa foi uma coisa maravilhosa para meus estudantes verem. Em meu curso de religião nórdica, nós estudamos o poema Vafþrúðnismál (os dizeres de Vafthrudnir”), em que traçamos uma disputa de conhecimento entre Odin e um sábio (mas perigoso) gigante que foi um dos modelos de Tolkien para a disputa de Bilbo e Gollum. Enquanto trabalhava em O Senhor dos Anéis, Tolkien mudou alguns elementos desse capítulo para alinhar se com a nova ideia do anel de Bilbo como sendo O Um Anel no livro posterior. Ele enviou a versão atualizada do capítulo cinco para seu editor em 1947 mas não recebeu nenhuma resposta, o editor silenciosamente incorporou as mudanças na nova edição de 1951 sem notificar o autor.

Manuscrito original da página do título de O Senhor dos Anéis

Neste primeiro rascunho, o titulo original do trabalho – The Magic Ring (O anel Mágico) – é riscado e alterado para o nome que nós conhecemos. Também vemos depois uma página de título mais trabalhada com o título final em runas e tengwar (alfabeto élfico de Tolkien). Embora Tolkien tivesse completado seu rascunho de O Senhor dos Anéis em 1949, a versão final não seria impressa por outros cinco anos.

primeira pagina Sda

 

 

Página com o poema do “Um Anel” de O Senhor dos Anéis

 

Embora a mãe do Tolkien tivesse lhe ensinado caligrafia, seus manuscritos são frequentemente apressado e ilegíveis. Também vimos vários rascunhos que mostravam diferentes estágios na composição e revisão do poema.

Reproduções de seis diferentes versões da primeira página de O Senhor dos Anéis

 

Como conhecido, Tolkien escreveu da sua forma seu magnum opus. Em outras palavras, ele não estabeleceu com um plano definido claro mas desenvolveu e mudou suas ideias conforme ele compunha as partes antigas do livro. Quando Tolkien introduziu primeiro o Cavaleiro Negro, por exemplo, ele originariamente não tinha ideia que figura era. Eventualmente, claro, ele o conectou ao anel do Bilbo.

Até mesmo as ideias de Tolkien sobre o próprio anel não estavam solidificadas antes no processo de escrita, e a ideia do anel governante somente se desenvolveu devagar. Em um holografo de 1938 aquilo é nos mostrado, Tolkien escreveu perguntas e respostas como ele pensou que o anel poderia ser. Uma simples mas dita pergunta: “Necromante?”

Meses depois, possivelmente em 1939, outra das questões de Tolkien a si mesmo mostrou o caminho que tinha começado a viajar: “Porque o Senhor do Escuro desejava aquilo?” Embaixo, a caneta, escreveu uma descrição dos poderes do anel. Como o arquivista Bill Fliss reportou a nós, esse foi um momento aha!

Alguns capítulos, tais como o primeiro traço da introdução de Barbárvore, surgiu em quase toda sua forma. Alguns personagens, como o Faramir, apareceram fora dos manuscritos como uma forma completa resultante de uma inspiração rápida. Em outros casos, como o capítulo com a primeira aparição de Passolargo, Tolkien agonizava sobre pequenas seções do material por anos. Originalmente, o homem entendia o Passolargo como sendo um hobbit com o nome suíno Trotter. Não o personagem mais épico, sua adição no antigo holografo dos Cavaleiros negros foi “Eles me dão arrepios.”.

Trotter desapareceu da mitologia da Terra-média quando Tolkien decidiu dividir Boromir em dois personagens: o Boromir que nós conhecemos e o Passolargo que venho a ser Aragorn. Enquanto explicava essas mudanças dos personagens, o Sr. Fliss referia ao Tolkien como “o santo patrono da revisão.” O que é tão interessante sobre o material nos arquivos é que o visitante pode de fato assistir o processo criativo de Tolkien se desdobrando com o tempo. Mudando Trotter para Passolargo e criando a história de Aragorn, Tolkien conseguiu conectar o personagem a queda de Númenor e outras lendas antigas de seu mundo criado – ou, como Tolkien poderia dizer ‘seu mundo subcriado’. Como um católico intelectual ardente, Tolkien acreditava que o criador de mundos fictícios era um sub-criador, já que somente o Deus Cristão poderia verdadeiramente criar.

 

Desenhos dos Portões de Durin

 

Esta é uma versão mais antiga menos ornada do portão oeste de Moria do que a que aparece em O Senhor dos anéis. Mostra duas árvores de Valinor em uma forma mais simples do que a publicada, com luas conectadas ao seus topos. O martelo explode pequenos pedaços de metal da bigorna – um detalhe que não é visto na versão final.

doors of durin west-gate

Runas no túmulo de Balin

Tolkien escreveu isso em tiras de papéis com pontos entre as letras rúnicas, no estilo da histórica runa nórdica antiga escrita na pedra. Traduzida, elas dizem (como publicado no livro) “Balin, filho de Fundin, Senhor de Moria.”. Especialmente meus alunos de religião nórdica adoraram ver isso. As runas dos anões de Tolkien são baseadas nas runas futhorc Anglo-Saxã, e nós estudamos runas na aula durante nossa unidade sobre Odin.

Páginas do Livro de Mazarbul

Esses eram alguns dos itens que eu estava mais querendo ver. O próprio Tolkien criou facsimiles de páginas do livro dos anões encontrado Sociedade do Anel enquanto eles estavam passando pelas minas de Moria. Nós vimos vários rascunhos das páginas. Tolkien primeiro escreveu o texto em inglês antes de o traduzir para as runas dos anões e as inscrições em tengwar para o facsimile. Talvez o elemento mais legal das páginas simuladas é o rabisco das últimas letras élficas riscando “Eles estão vindo.”

O grande amor de Tolkien por Beowulf brilha através desses facsimiles. Ele os projetou para parecer queimados, como as páginas do manuscrito de Beowulf que foram queimadas no fogo na casa Ashburnham em Westminster em 1731. Tolkien tinha trabalhado com os facsimiles dos manuscritos de Beowulf bem como trabalhou com os livros que St. Bonifacio guardava para defender a si mesmo enquanto foi martirizado.

As marcas de espadas  do martirio de Bonifacio ainda podem ser vistas no manuscrito. Sim, o mesmo St. Bonifácio que cortou o Carvalho de Thor, como parte de seus esforços para converter os alemães pagãos. Tolkien era claramente impressionado pelo senso histórico impregnado nesses manuscritos antigos e pensava em criar manuscritos imaginários de sua própria Terra-média com o mesmo senso de historicidade.

book of mazarbul

 

Desenho a lápis de Orthanc

Esse era outro desenho antigo, na época que a torre escura era usada como base de operações pelo mago Saruman durante a Guerra do Anel.

orthanc

Esboços e mapas em páginas holograficas

“Rascunho da passagem entre os penhascos (Cirith Ungol)” e “A Torre de Kirith Ungol” (uma forma escrita variante de Tolkien) são ambos pequenos desenhos em páginas de textos manuscritos para O Senhor dos Anéis. Como mencionado anteriormente, Tolkien as vezes desenhava diretamente em suas páginas manuscritas quando ele estava bloqueado em um ponto da história e precisava visualizar um elemento que estava tentando descrever. Enquanto escrevia o capítulo chamado “A Cavalgada dos Rohirrim.” Tolkien rascunhou um mapa na página do texto e rotulou “Rascunho de Rota.” Em uma entrevista de 1964 a BBC, Tolkien disse. “Eu tinha mapas é claro. Se você vai ter uma história complicada você deve trabalhar em um mapa, caso contrário você jamais pode criar um mapa do que vem depois.”

Holografo de O Senhor dos Anéis, Livro V, Capitulo 6: “A Batalha dos campos de Pelennor”

Eu já escrevi antes sobre o papel da Éowyn em O Senhor dos Anéis, então foi muito interessante ver o manuscrito original da grande cena de batalha entre Éowyn e o Rei Bruxo de Angmar. Foi nos mostrado também um holografo escrito a lápis com marcas de revisões junto com um datilografado com revisões a lápis.

Rascunhos de O Senhor dos Anéis, Livro VI, Capítulo VIII: “O expurgo do Condado”

Nosso anfitriões pegou esse capítulo em particular para nos mostrar como foi complicado o processo de escrita de Tolkien, e como ele continuava a mudar suas ideias sobre elementos chave até que o livro literalmente foi ser impresso. Os estágios desse capítulo em particular incluem:

Notas Holograficas

Rascunhos

Rascunhos com punho firme

Versão datilografada

Galeria de provas

A Galeria de provas é normalmente verificada pelo escritor procurando erros antes de enviar para a impressão. Tolkien, contudo, usava o processo de revisão como uma oportunidade de fazer mudanças fundamentais no capítulo. Ele juntava um monte de papéis até o final de uma das páginas contendo texto extra tratando sobre a morte de Saruman. A prova impressa diz:

Saruman riu. “Você faz o que tubarão diz sempre, não é, Cobra? Bem, então ele disse: siga! Chutou o Língua de Cobra no rosto enquanto se arrastava, e virou-se e fugiu!. Mas nisso algo estalou: de repente Língua de Cobra se levantou, tirando uma faca escondida, e, em seguida, grunhindo feito um cão, saltou sobre as costas de Saruman, puxou a cabeça para trás, cortou sua garganta, e com um grito correu para baixo da pista. Antes mesmo de Frodo poder se recuperar ou falar uma palavra, três arqueiros hobbits  atiraram e Língua de Cobra caiu morto.

“E esse é o fim disso”, disse Sam. ‘Um fim desagradável, e eu desejo não precisar tê-lo visto, mas é um alívio bom”

Um pequeno texto extra de Tolkien estava inserido entre esses dois parágrafos. Lê-se:

Para o desespero dos que ali estavam, sobre o corpo de Saruman uma névoa cinza se formou e subiu lentamente a uma grande altura, como a fumaça de um incêndio. Uma figura pálida pairou sobre o monte. Por um momento hesitou, olhando para o Ocidente, mas do Oeste veio um vento frio, e o mandou para longe, com um suspiro dissolveu-se em nada.

Frodo olhou para o corpo com pena e terror, pois enquanto olhava pareceu que longos anos de morte foram subitamente revelados nele, e se encolheu, e o rosto enrugado transformou-se em trapos de pele sobre um crânio hediondo. Erguendo a barra da capa suja que estava caída ao lado dele, cobriu-o, e se afastou.

Essa é uma profunda mudança momentânea a se fazer na última hora. Sem isso, Saruman simplesmente teria uma morte lamentável e ruim. Com isso, Tolkien conectou Saruman com as raízes de Saruman o Branco, um dos grande magos enviados pelas divindades Valar para ajudar os habitantes da Terra-média. Sua morte se tornou um momento de tragédia pesada já que ele retorna as Terras Imortais para pedir perdão e isso é negado. Eu acho esse o mais poderoso e mítico momento do livro e fiquei bem surpreso em descobrir que foi acrescentado quase como um pensamento tardio.

Ainda mais surpreendente, esse não foi o final do que Tolkien estava pensando sobre o capítulo. A galeria de provas editada era seguida por uma cópia avançada de prova que Tolkien respondeu com uma lista de mudanças a serem feitas no texto. Os editores tinham finalmente dito basta, e o item final nessa parte amostra foi uma carta do editor Rayner Unwin educadamente, mas firmemente, pedindo a Tolkien rapidez e providenciasse uma versão final do capítulo ou o livro não poderia ser impresso.

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O artigo foi publicado originalmente em 20 de fevereiro de 2014 AQUI. A tradução e publicação foram autorizadas expressamente pelo autor Dr. Karl E. H. Seigfried do texto, a quem agradecemos a gentileza.

Em Breve a segunda parte.

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