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“Respondam a mim! Apareçam enfim!’: A última jornada de Frodo Bolseiro, o ocaso de um herói?

Frodo-reading

Por: Gabriel Moreira Medeiros Laureano (historiador e seguidor do Tolkien Brasil).

Frodo Bolseiro, aquele quem podemos considerar como a figura central de “O Senhor dos Anéis” devido à incumbência que o pequeno hobbit reclamou para si – como é do conhecimento de todos –, de levar o Um Anel até a Montanha da Perdição a fim de destruí-lo. Tal propósito foi conduzido de maneira quase perfeita, pois no último instante eis que o Portador do Anel reivindicou a principal, mais poderosa e maligna ferramenta do inimigo. Mas não devemos colocar toda a trajetória de Frodo sobre tamanha sombra, pois até este trágico momento em que cedeu ao desejo de possuir o Anel, Frodo se manteve firme, demonstrando uma resistência sobremaneira, muito acima da apresentada pelos outros que tiveram contato com o Um (resistência ainda maior da demonstrada por Isildur, filho de Elendil, um homem de Númenor). Ao fim dessa jornada que conclusão nós podemos tomar? Afinal Frodo falhou ou foi vitorioso? Tal discussão é a que estas linhas pretendem conduzir. Mas o fracasso ou a vitória de Frodo não se encerraram com a derrota de Sauron, pois após ser resgatado pelas águias, o pequeno grande hobbit se vê as voltas com um futuro sombrio, incerto… Futuro que é obscuro inclusive para nós leitores, mas que encontramos um eficiente lume no poema “O sino Marinho” e em uma das inúmeras cartas enviadas pelo professor.

Antes de nos enveredarmos pelo ponto alto da vida de Frodo, é importante esclarecermos algumas questões acerca de suas origens, vejamos. Primeiramente, o seu nome é de origem nórdica, vem do radical “Fróda” que significa “sábio por experiência”[1], nomenclatura que já nos antecipa e confirma sua trajetória. Frodo nasceu em 22 de setembro de 2968 da Terceira Era, filho de Drogo Bolseiro e Prímula Brandebuque (Bolseiro), entretanto pouco aproveitou a presença de seus pais, pois estes morreram afogados no rio Brandevin quando Frodo tinha apenas seis anos. Depois deste trágico, e controverso acidente que é cercado de muitos boatos, ele viveu ainda alguns tempos na Sede Brandevin até que seu primo de segundo grau (de primeiro grau da mãe de Frodo), Bilbo Bolseiro, o adotou e o tornou seu herdeiro. Tal prática até era regulada, porém não era uma cláusula pétrea, ou seja, irrevogável. Havia muita discussão em torno disso. Tolkien nos diz em sua carta duzentos e catorze, que:

Acredito que era um ponto discutível na tradição Hobbit (que o parecer do Prefeito Samwise impediu que fosse discutido nesse caso em particular) se a “adoção” por parte de um “chefe” sem filho poderia afetar a sucessão da chefia. Chegou ao acordo de que a adoção de um membro de uma família diferente não podia afetar a chefia, esta sendo uma questão de sangue e parentesco; mas havia uma opinião de que a adoção de um parente próximo do mesmo nome (em nota o autor explica que isso significa “descendentes de um bisavô de mesmo nome”) antes que este se tornasse adulto lhe conferia todos os privilégios de um filho. Essa opinião (apoiada por Bilbo) naturalmente era contestada por Otho.[2]

As sucessões e heranças entre os hobbits se davam apenas pela linha masculina, mas em alguns casos podia ser também passada para o neto mais velho a partir de uma filha. Este caso é o de Otho Sacola-Bolseiro, Bolseiro apenas por parte de mãe, que a partir da adoção de Frodo teve os conflitos de interesses ainda mais acirrados com Bilbo, que à época havia acabado de retornar de sua viagem com Gandalf e os anões onde havia adquirido uma boa fortuna, suficiente para torná-lo riquíssimo. Assim, até iniciar sua partida em 23 de 3018, quando atingira a maioridade, ou seja, seus cinquenta e cinco anos, Frodo deixou o Condado como um típico hobbit, vivendo em grande conforto, mas retornaria, tempos depois, um hobbit completamente diferente, cujos confortos não seriam mais suficientes para dar-lhe qualquer comodidade ou sequer um pouco de paz.

Frodo foi aos poucos sendo ferido e modificado pelo Um Anel, que consegue despertar em todos a avidez por possuí-lo e grande ímpeto de protegê-lo, pois aqueles que o portam não se sentem a vontade com a possibilidade de destruí-lo, livrar-se dele. Tal força que vinha do Um, conseguia sobrepujar qualquer outra força, mesmo que levasse algum tempo. E foi exatamente isso que se sucedeu com o Frodo, que, grosso modo, falhou em sua missão, como nos confirma o querido professor:

Frodo realmente “falhou” como um herói, tal como compreendido por mentes simples: ele não agüentou até o final; ele desistiu, desertou. Não digo “mentes simples” com desprezo: elas frequentemente veem com clareza a verdade simples e o ideal absoluto aos quais os esforços devem ser direcionados, ainda que sejam inatingíveis.[3]

O fracasso de Frodo nos é então bastante claro, pois com simplicidade de mente nós podemos apontar tal elemento da jornada de Frodo, pois conforme dissemos, ele reivindicou o Um Anel para si. Contudo, esta queda não encerra os esforços de Frodo ao anonimato ou a esfera da inutilidade, pelo contrário, os tornam ainda mais grandiosos. O fracasso de Frodo foi inevitável, portanto, até onde pôde e suportou, ele conduziu a missão que havia assumido com humildade e consciência de sua incapacidade de cumpri-la. Esta, só foi terminada por conta da misericórdia que Frodo havia outrora demonstrado por Gollum, quase como uma recompensa da Providência Divina de Eru Ilúvatar por conta da boa ação de Frodo e empenhos em prol da Terra-Média, o repugnante Gollum é quem dá cabo de tão penosa tarefa.

Frodo ring

Depois de deixar a Montanha da Perdição, Frodo teve que lidar com a surpresa de ainda estar vivo! Pode soar estranha tal afirmação, mas isso o feriu, pois no fundo esperava se sacrificar. Passado por essas experiências não seria mais o mesmo, e assim também com o próprio Condado. Também foi afligido pela autoconsciência de fracasso, pois havia sobrevivido sendo que não fora diretamente por suas mãos que o Anel fora destruído. E por fim, padecia de um sombrio desejo de reaver o Um, pois como acabamos de dizer, não foi Frodo quem o lançou ao fogo. E toda essa crise de consciência estava acompanhada dos ferimentos físicos, que apesar de cicatrizados traziam consigo lembranças sombrias. Em vista disso, e graças à intercessão de Arwen (que havia lhe dado sua estrela ao perceber seus sofrimentos), Galadriel, e Gandalf, Frodo recebeu a permissão de viajar para as Terras Imortais, onde poderia ter um pouco de descanso e paz. Porém, não lhe era assegurada a imortalidade, pois esta não é da natureza senão dos elfos, assim Frodo morreria de qualquer jeito, mas talvez pudesse morrer em paz.

Quanto a Frodo ou outros mortais, eles podiam viver em Aman apenas por um período limitado – fosse este breve ou longo. Os Valar não possuíam poder nem o direito de conferir-lhes “imortalidade”. Sua estadia era um “purgatório”, mas de paz e cura, e eventualmente faleciam (morreriam por seu próprio desejo e de livre vontade), para se dirigirem a destinos dos quais nem os Elfos nada sabiam.[4]

E sobre este período de purificação em Aman, o que nós sabemos? Nada nos é dito diretamente, mas acreditamos que é possível vislumbrar uma parte dessa realidade a partir do poema “O Sino Marinho”, que nos narra a história melancólica e repleta de tensão de um misterioso indivíduo que nós associamos a Frodo por dois motivos: a situação de ambos é bem semelhante se considerarmos que o eu lírico do poema viajou para terras distantes, em busca de redenção, mas seu sofrimento continua; e o segundo elemento que embasa nossa defesa é uma carta de Tolkien em resposta a crítica muito positiva feita por W.H.Auden ao seu novo livro “As aventuras de Tom Bombadill”, que diz: “fiquei muito animado não somente por seu prazer em receber um poema em inglês antigo (achei que seria apropriado), mas também por seu elogio a Frodo’s Dreme. Isso realmente me fez sorrir feito bobo”.[5]

Não encontramos a tradução para “dreme”, afinal é uma palavra provavelmente do inglês antigo, mas arriscamos dizer que se assemelha a drama, ou talvez a sonho. De todo modo, acreditamos ser um acontecimento relacionado a Frodo. Nesse sentido, ao lermos o poema, podemos observar que não se trataria da fase de sua vida anterior ao recebimento da demanda do Um Anel. No pequeno texto, o misterioso indivíduo é levado a praias brancas, distantes, que prometiam paz e tranqüilidade, e se mostra entusiasmado com tal jornada, mesmo que esta já seja apontada como tardia e talvez inútil, fala muita curiosa do texto e que parte supostamente da boca do barqueiro:

Da costa no arco surgiu-me um barco

na maré cinzenta do ocaso.

É tarde demais” Por que esperais?”

Embarquei: “Vamos lá, sem atraso!”.[6]

Ao chegar a tão belas terras não encontrou nada além de solidão, sendo obrigado a conviver só com suas dores físicas e psicológicas:

Mas pro bem ou pro mal o que foi igual:

pés em fuga, mudez por inteiro;

nem um cumprimento, mas só em lamento

flautas, vozes e trompas no outeiro.

(…)

Coroado de flor fui num morro me pôr,

e, como quem sofre um castigo,

gritei mui altivo: “Mas que povo esquivo!

Por que é que não falam comigo?

De pé sobre a serra, sou rei desta terra,

com espada e cetro a gosto.

Respondam a mim! Apareçam enfim!

Digam algo! Mostrem um rosto!”[7]

Considerando que de fato se trata de Frodo, podemos perceber nesse trecho do poema que ele assumiu postura altiva, pois estava orgulhoso de seus feitos, se considerando digno de muitas honras e louvores pelo serviço prestado, mas é ignorado completamente. Furioso, revida aos gritos, exigindo que apareçam. Na carta duzentos e quarenta e quatro, tal orgulho de Frodo, este desejo de ser devidamente reconhecido, é confirmado pelo próprio Tolkien que define o comportamento mesmo como um resquício da influência maligna do anel. De todo modo, após esta solidão que fora anunciada, “Negra nuvem muralha veio como mortalha”[8], e envolveu nosso personagem até o fim do poema, que sem sombra de dúvidas é o momento mais confuso. “O sino marinho” ou “Frodo’s Dreme”, aparentemente termina que com o personagem retornando ao seu lugar de origem, já que nas praias era ignorado, mas encontra o mesmo destino em seu novo lar, e lamenta: “para mim só existe este caminho triste, a rua e o beco comprido”.[9]

Fazendo as devidas associações, fica claro que as tais praias brancas nada mais seriam do que Aman, e ignorando – pelo menos por hora – a possibilidade a elas retornarem, o personagem do poema, que acreditamos ser Frodo, não teve um período de Purgatório, mas podemos dizer que de verdadeiro Inferno. Pois não deixou as terras imortais renovado pela força dos Valar, mas ainda mais sobrecarregado pelos próprios fardos e completamente desesperançoso de qualquer alívio para carregá-los. Levantamos também a hipótese de que todas essas passagens da poesia sejam apenas fruto de delírios, de uma mente conturbada e ferida. Teria sido esse o destino daquele que carregou o Anel por mais tempo? A influência maligna do Anel foi capaz de ir além de sua destruição e arruinar aquele que foi o maior colaborador para seu fim? São questionamentos que permanecem, mas ao lado de uma certeza: Frodo ficou profundamente marcado pela experiência de ser o portador do Anel e nunca mais seria o mesmo.

1 CARPENTER, Humphrey (org.). As cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2006. p.215

2 CARPENTER, Humphrey (org.). As cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2006. p.282

3 Idem. p. 309

4 CARPENTER, Humphrey (org.). As cartas de J.R.R.Tolkien. Curitiba: Arte e Letra Editora, 2006. p.388

5 Idem. p.358.

6 TOLKIEN, J.R.R. As aventuras de Tom Bomadill. São Paulo: Martins Fontes, 2008. 122

7 Idem. 124

8 Idem.

9 Idem. 126

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