Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

As origens dos enredos – Osvaldo Condé

condé

Osvaldo Condé é promotor de eventos, conferencista, livreiro, editor e escritor.em Brasília. É autor do livro “A mitologia e o esoterismo em O Senhor dos Anéis” da editora Gilgamesh e outros livros.Membro da Sociedade Teosófica no Brasil (www.sociedadeteosofica.com.br).

 

Segundo Carl Gustav Jung, o fundador da psicologia analítica ou, como se diz, “Junguiana”,  os mitos estão guardados no inconsciente individual ou coletivo do homem, de onde periodicamente saem como “os males libertados da caixa de Pandora”, só que com objetivo diverso, o de integrar o consciente  e o inconsciente, produzindo o crescimento do homem.

Estes mitos são “arquetípicos” (outra expressão divulgada por Jung), marcas antigas, padrões que se repetem indefinidamente, seja na religião ou nos contos populares, no teatro ou na literatura, já que todas estas manifestações tem por base a natureza humana.

Seja um empresário de Nova York, um camelô da capital de São Paulo, um sambista do Rio de Janeiro ou um índio xavante, todos tem um objetivo em comum: sobreviver.

Assim sendo, todos os personagens acima passam pelos mesmos processos básicos: nascem, crescem, se reproduzem e morrem… vão à escola, fazem amigos, namoram, ganham dinheiro, sofrem, riem, adoecem, lutam, vencem, perdem. Todos eles tem suas referências pessoais, crenças, mitos e um cabedal de experiências particulares.

As experiências particulares são os “sotaques”, o colorido regional ou familiar; entretanto, as bases, as histórias folclóricas, os mitos e as religiões do seu universo psíquico são INCRIVELMENTE as mesmas, pois nascem no mesmo local: o inconsciente humano. E este raciocínio explica a misteriosa  repetição dos enredos, cujos temas centrais ultrapassam a fronteira do tempo e da cultura.

Estudiosos de literatura, escritores e roteiristas de cinema ou TV sabem que o número de  histórias  originais é limitado, alguns falam em torno de 40 histórias. É por isso que o indianos dizem que a história  que não estiver contida no Mahabharata não existe!

O Mahabharata, atribuído a Vyasa, com mais de 90 mil versos em sânscrito, é a maior epopéia já escrita, há milhares de anos, e conta a guerra dentro de um clã  pela posse da Índia antiga. O famoso Bhagavad Gita, livro de cabeceira dos Hare Krishna, é apenas um trecho do Mahabharata (filmado numa versão teatralizada pelo diretor Peter Brook, com mais de cinco horas de duração).

O Bharata tem uma estrutura similar a “As Mil e Uma Noites”, existindo muitas histórias dentro de histórias ou correndo paralelamente ao enredo central (tal como os diferentes “núcleos” nas novelas modernas) .

É num destes clássicos textos arianos, compilados oralmente muito antes de Cristo, donde extraímos alguns exemplos da repetição curiosa dos enredos, mostrando a limitação da originalidade. Ramayana, escrito por Valmiki, é outro clássico e irmão literário do Mahabharata.

O Ramayana (o veículo ou o caminho do deus Rama) possui mais de 25 mil versos e conta a história de um Avatar (uma das nove encarnações da divindade Vishnu) donde, a título de exemplo, podemos citar pelo menos três pequenas histórias ou episódios que se tornaram enredos de modernos filmes hollywoodianos:

 Dois demônios moravam à  beira de uma estrada, na borda de uma floresta. Pela janela da casa eles espreitavam os peregrinos que por ali passavam a caminho da floresta, em busca de um local para meditar. Ao avistar um peregrino que se encaminhava em direção à casa, um dos demônios se escondia na cozinha e o outro tomava feições humanas. Assim disfarçados, o demônio com feições humanas chamava o peregrino, convidava-o a se refrescar à sombra e lhe oferecia comida, o qual, cansado e naturalmente agradecido, aceitava a hospitalidade. Enquanto isso, o segundo demônio se transformava em carneiro na cozinha, onde era morto pelo demônio humanizado, então preparado e servido ao agradecido e inocente peregrino. Tão logo o viajante comia uns pedaços da  refeição, o demônio disfarçado de gente se afastava e gritava: sai berrando! E neste momento o carneiro saía vivo de dentro do peregrino, estraçalhando-o em agonia mortal. Os dois demônios assumiam sua forma original e devoravam o infausto viajante.

Esta história, com milhares de anos, é o enredo do famoso filme “Alien, O Oitavo Passageiro”, o que muda é a ambientação e o tempo em que as duas histórias acontecem, uma na Índia antiga e  outra no espaço sideral, onde um mostro extraterrestre usa seres humanos como hospedeiros de suas crias repugnantes.

 

Outro exemplo do Ramayana, e também convertido (inconscientemente ) em filme, são os feitos de Hanuman, um dos  braços direitos de  Rama (herói central da epopéia em questão). Hanuman tem o poder de  aumentar ou diminuir o seu tamanho a sua vontade e tem uma força prodigiosa. Lançando montanhas no mar para ajudar Rama a construir uma ponte entre a Índia e o Ceilão (Sri Lanka), faz com que os exércitos de Rama possam atravessar e combater o demônio Ravana, que seqüestrou Sita, a  esposa do deus Rama. Hanuman atravessa da Ìndia  para o Ceilão com um salto, onde encontra Sita; conversa com ela dando notícias de Rama e leva dela notícias para o deus; além disso, põe fogo na cidade dos demônios e só não leva Sita para Rama pois esta é a obrigação do Deus. Hanuman é verdadeiramente o símbolo do devoto e seu amor por Sita só é tão grande quanto o que sente por Rama.

Onde entra Hollywood nesta história? Hanuman é um macaco gigante! O protótipo de King Kong, o gorila apaixonado e defensor de uma  jovem indefesa.

 Noutra parte do Ramayana, Indrajit, o filho do demônio que seqüestrou Sita, usando seu principal poder mágico, ataca o exército de Rama  matando muitos dos seus combatentes. Seu poder? Ficar invisível!

Temos então um enredo bem comum em Hollywood: “O homem invisível”, tema explorado recentemente no filme  A Liga Extraordinária. As histórias antigas e modernas  se repetem de uma forma misteriosa.

Vejamos o caso do genial escritor inglês, de origem Sul Africana, J.R.R. Tolkien – considerado o mais genial e criativo ficcionista de todos os tempos – que com sua  criatividade sem igual criou:

um universo mitológico particular povoando-o com uma botânica, zoologia, povos, genealogia, línguas, costumes, geografia, hidrografia , lendas  e um panteão peculiar.

Mas mesmo Tolkien em sua reconhecida genialidade não pôde  fugir dos arquétipos da mitologia nórdica, que eram sua fonte vivificadora.

Naturalmente fica muito difícil dizer o que é influência literária consciente  ou o que é arquétipo inconscientemente impulsionando um autor como Tolkien, já que ele era um escritor com um vasto cabedal de conhecimento literário/histórico dos temas que gostava de abordar, tais como: anões, dragões, gnomos, elfos, cavaleiros andantes e mitologia em geral e nórdica em particular.

 

O número nove

 

Nove são os mundos na mitologia nórdica.

A Terra Média  é  pois  “ Midgard”.

Nove são os personagens da sociedade do anel.

Nove são as noites passadas por Odin dependurado numa árvore para obter as Runas.

Runas são usadas como letras nas línguas faladas na Terra Média e Gandalf  assina com uma  delas.

 

340-A Sociedade do Anel

 

O Um Anel

 

Muitos perguntaram  a Tolkien  a origem do Um Anel, se  ele era derivado do Anel dos Nibelungos, usado por Wagner para compor sua ópera. Tolkien negou veementemente. Em nossa opinião o Um Anel é derivado  do  Draupnir, anel de Odin  forjado pelos anões ou elfos que tinha o poder de se multiplicar “gotejando” a cada nove noites gerando oito cópias iguais, em ouro, enriquecendo assim seu dono.

 

O dualismo Tolkiniano

 

Como um escritor católico Tolkien, educado por um padre, não foge do dualismo maniqueísta do cristianismo.

Para cada personagem há uma contra parte, para cada sombra existe uma luz que lhe corresponde. A encarnação deste dualismo é o personagem Sméagol  um hobbit que se transformou pelo uso do anel maléfico  em Gollum.

Smeágol/Gollum é a repetição arquetípica  da história do Dr. Jackil e Mister Hyde, narrada no livro de Robert L. Stevenson,  uma esquizofrênica briga interna, provocada  num enredo por uma poção química e noutro enredo por um anel mágico. Além da  esquizofrenia de Smeágol a dualidade vai se repetindo noutros personagens:

O conselho Branco

dirigido por Gandalf               X   As forças de Mordor e Sauron

A sociedade do Anel               X   os Nazgul

Aragorn                                   X   Boromir

Elfos                                       X   Uruk Hai

Frodo                                      X   Gollum

Ents                                         X   Orcs

Gandalf                                   X    Saruman

Um típico enredo medieval, um conto de cavalaria, para cada  monstro um herói  salvador. Não podemos esquecer que Tolkien foi o tradutor para o inglês moderno   de  Beowulf  e  de  Sir Gawain e o cavaleiro verde.

 

As aranhas:

 

O tema das aranhas se  repete  em duas ocasiões importantes na obra de Tolkien, primeiramente no Hobbit  o livro que dá origem a saga do Sr. dos Anéis, quando  anões e hobbits são presos numa colônia de aranhas gigantes e são salvos por Bilbo, usando sua  espada (sting) ferroada e sua capa mágica dos elfos, ficando invisível.

Já na trilogia do Sr. Do Anéis Frodo e Sam são atacados por Shelob, a aranha gigante, quando da tentativa dos dois de levar o anel para ser destruído.

Tolkien  repete o tema, e parece que há uma influência pessoal pois quando criança o próprio autor foi atacado por uma tarântula, na África do Sul e quase  morreu.

 

 

Os dragões:

 

Os dragões são temas  comuns de contos diversos, desde Beowulf tão apreciado por Tolkien, até  São Jorge e o dragão. Diga-se de passagem o padroeiro da Inglaterra é São Jorge.

Um livro muito apreciado por Tolkien na sua infância, “O Livro vermelho das fadas”, de Andrew Lang contém muitas histórias referentes a dragões.

Os Nazgul montam dragões alados.

No livro Hobbit  é um  dragão que guarda o tesouro.

Os nomes Sauron e Saruman parecem derivados de sáurios, lagartos.

Um outro dragão muito conhecido já teve  sua vida contada e recontada  no cinema inúmeras vezes… Drácula! A palavra Drácula  quer dizer: filho do  dragão.

 smaugforbis2

 

O amor impossível:

 

Seria o amor de Aragorn  por Arwen  uma versão “Romeu e Julieta”  élfico?

Apesar da nobreza de Aragorn, ele  enfrenta a oposição do pai de sua musa pois  ela  é  imortal e ele não.

O mesmo acontece com Brunnhilde(uma das Valkírias) filha de Odin que se apaixona por Siegfried .

Aragorn é um Dom Quixote que deu certo.

 

 

Os  anões:

 

A figura do anão mineiro aparece nas antigas mitologias nórdicas  e até mesmo na história de “Branca de Neve” e os  sete anões.

Tolkien  trata os anões  de uma forma completamente tradicional.

 

A demanda  da destruição do Anel

 

Este enredo lembra  a busca do Santo Graal (assunto  familiar à Tolkien) a taça sagrada que  por seus poderes mágicos irá salvar Camelot, já o Um Anel tem de ser destruído para salvar a Terra Média  a “Midgard” claramente inspirada na mitologia dos nórdicos. Para destruir o Um Anel acontece uma  “demanda” que poderia  nos remeter aos trabalhos de Hércules.

 

 

O Mago

 

O protótipo do  mago Gandalf  é sem sombra de dúvidas Odin o pai dos deuses nórdicos. Enquanto Gandalf encarna aspectos positivos do mago, Saruman encarna aspectos  negativos.

Gandalf/Odin têm águias como animais simbólicos e a sua disposição, os dois tem poderes mágicos controlando animais e um misterioso poder  da palavra que encanta e os faz serem obedecidos.

Saruman tem aves, semelhantes a corvos, que são suas espiãs, já Odin tem dois corvos que saem de manhã e voltam à tarde para lhe dar informações do que acontece no mundo.

 hobbit-gandalf-scarf

 

A  corda dos elfos

 

A corda que é usada para prender Gollum é um fio prateado feito pelos elfos e que não é muito enfocada no filme, mas no livro ela é mais detalhada e salva a vida dos hobbits, em pelo menos uma ocasião sendo extremamente resistente apesar de fina.

Do mesmo modo, os elfos nos relatos mitológicos anteriores, fizeram uma corda especial e mágica, usada para prender o monstruoso Lobo Fenrir , que irá se  soltar no final dos tempos.

 

O Balrog

 

O demônio de  fogo que ataca  Gandalf  dentro das minas de Mória  parece derivado diretamente de  Surt,  um demônio de fogo que irá aparecer no final dos tempos (Ragnarok) segundo a mitologia germânica.

 

Morte e renascimento

A morte e o renascimento de Gandalf  dentro das minas de Mória é um ritual de passagem que lembra  cerimônias iniciáticas, ritos de passagem em que  a morte simboliza o velho estado de consciência que deve ser deixado para trás.

Morte e renascimento são vistos tanto  no mito de Osíris quanto na história cristã,  e é o que se passa com Gandalf.

Voltando do reino dos mortos ele se converte em Gandalf o  Branco, passando para um novo estágio de consciência.

Facebooktwittergoogle_plusredditby feather

Deixar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

error: