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O Natal com Tolkien

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Por Gabriel Buzzi

Certamente J. R. R. Tolkien ficou conhecido pelo universo fantástico que criou juntamente com suas criaturas, idiomas, poesias e letras, além dos seus extensos estudos em mito e linguagem. Seus grandes textos mitológicos sobre a Terra Média foram compostos de forma a se confundir com a própria História do nosso planeta – particularmente da Europa – e o que muitos desconhecem é o universo que o professor desenvolveu ao redor de um outro personagem muito familiar para a maior parte de nós: o Papai Noel.

A partir de 1920, pelos 23 anos seguintes, o pai da literatura fantástica compôs anualmente cartas dirigidas aos seus quatro filhos assinadas pelo bom velhinho – ou por seu elfo secretário – se mostrando também um pai incrível e orgulhoso de suas crianças, que não apenas lia “O Hobbit” para eles antes de dormirem, mas ainda, dono de uma imaginação infinita e revelando sua verdadeira paixão: criar histórias.

O antigo mito do velho barrigudo de barbas brancas, que habita o Pólo Norte rodeado de criaturas fantásticas e uma vez por ano dá a volta ao mundo para deixar presentes às crianças é de fato algo que nos emociona, justamente por habitar – as vezes inconscientemente – o nosso imaginário. É uma lenda repleta de magia, ilusões e encantamento, até mesmo para os mais descrentes.

De início John, mas logo depois, também Michael, Christopher e Priscilla, receberam uma dádiva que quase nenhuma outra criança jamais recebeu: respostas às suas cartas de Natal e pedidos ao Papai Noel, todas devidamente seladas, detalhadas e caprichosas, com ilustrações que demonstravam a casa do bom velhinho, seus amigos, ursos polares desajeitados, elfos, duendes e suas principais aventuras durante o ano que se encerrava, tudo desenvolvido por seu próprio pai com esmero e muito cuidado. Até a letra utilizada nas cartas Tolkien se preocupava em alterar, deixando-as tortas e inclinadas devido ao “tremor do frio polar” e aos “1927 anos de idade” do velho Noel.

A descoberta de antigas cavernas cheias de antigos desenhos e as batalhas contra os goblins – aparentemente em guerra com o Papai Noel durante séculos – são exemplos de episódios narrados nas cartas que mantinham o tradicional estilo formal de escrita tolkieniano, mas lançando mão de comentários muito divertidos. Histórias engraçadas permeiam as cartas que narram ainda as trapalhadas do Urso Polar, responsável por rachar o Pólo Norte enquanto tentava recuperar o gorro vermelho do Papai Noel e ainda, inundar a oficina de brinquedos, por ter dormido durante um longo banho na banheira. Esta veia cômica só deixaria de aparecer na última carta, provavelmente pela resignação do autor, por ver as crianças crescendo e perdendo um pouco da ingenuidade necessária para se deixar conduzir por este mundo fantástico.

Considerando a ilusão desarrumada entre a criação do nosso mundo e a criação da Terra Média, planejada por Tolkien, não é incorreto concluir que o Papai Noel habitou entre estes mundos em um período “pré-dilúvio” e anterior aos acontecimentos da Terceira Era. Na revista publicada pela Tolkien Society, “Mythlore”, Laurence e Martha Krieg vão ainda além. Elas sugerem até a semelhança física e comportamental de Gandalf, com o Papai Noel, propondo uma relação de semelhança extremamente interessante.

Um outro vínculo muito interessante e pouco claro para nós leitores, é a figura do Urso Polar – principal ajudante do Papai Noel em suas cartas. Interessante notar que a primeira aparição do Urso nas cartas ocorre apenas 5 anos após o início da correspondência – em 1925 – portanto, dois anos após o surgimento de um outro Urso Polar “Natalino” muito famoso: o Urso da Coca-Cola, que surge nas primeiras peças publicitárias em 1922, em cartazes impressos na França e que habita até hoje nosso imaginário de Natal, ganhando novos formatos, histórias e aparições cada vez mais modernas todos os anos.

Tendo narrado as mais complexas aventuras – desde a destruição de estrelas até a bagunça e o funcionamento da fábrica de brinquedos – as cartas foram enviadas em sua maioria, durante o mês de dezembro. Todas as que fogem a este padrão, eram a clara intenção de um pai, que estimulava seus próprios filhos a escreverem mais e melhor através de suas cartinhas de natal com seus pedidos e curiosidades sobre esta terra fantástica que era o “Topo do Mundo”. Nos últimos anos, já na década de 1940, o bom velhinho relata problemas com o prosseguimento da Segunda Guerra mundial que, segundo ele, fez muitas crianças deixarem de pensar no Natal e esquecerem de enviar suas cartinhas. A esta altura, é natural perceber o amor do pai que tenta despertar uma fagulha de ilusão e paz no coração de seus filhos, mesmo em meio às tensões do conflito que se desenrolava.

As ilustrações detalhadas, coloridas, fantásticas e intrincadas de Tolkien são um espetáculo a parte e fazem as letras de cada carta ganharem vida. Não é difícil imaginar as crianças Tolkien ansiosamente descobrindo e analisando cada um dos desenhos, com a mesma importância dada às palavras escritas. É ainda mais fácil notar como o professor inseria nas histórias narradas, em cada uma das cartas, as temáticas que provavelmente intrigavam cotidianamente a cabeça de suas crianças, como por exemplo, as pinturas rupestres pré-históricas e os fogos de artifício, criando assim um vínculo com a própria realidade infantil de seus rebentos.

As cartas e as ilustrações – todas de autoria do professor, foram agrupadas em um livro publicado três anos após a morte de Tolkien, por iniciativa individual de Baillie Tolkien, a esposa de seu filho Christopher. Esta primeira edição acabou omitindo algumas cartas da década de 1920, sob a justificativa de que além de serem muito curtas, faltavam a elas diversos elementos narrativos das cartas posteriores. O livro foi reeditado – dessa vez com todas as cartas – em 1999 e foi novamente publicado em 2004, encantando diversas gerações de crianças. No Brasil, o livro foi publicado com o título “Cartas do Papai Noel” em 2012, com tradução de Ronald Kyrmse pela editora WMF Martins Fontes. Infelizmente, o livro hoje encontra-se esgotado, sem previsão de nova publicação.

Como as cartas foram escritas para um grupo muito restrito de crianças, com a intenção de dialogar com a realidade deste grupo específico e com a presunção de que eram autênticas cartas do Papai Noel, alguns críticos notam que o livro talvez não interesse tanto às crianças do mundo atual. Particularmente, acredito que “Cartas do Papai Noel” não vai exatamente fazer você voltar a acreditar em bom velhinho, mas é um dos mais bonitos e mais encantadores livros de Natal. É definitivamente recomendado para todas as idades e não apenas para os fãs de Tolkien, mas para todos aqueles que queiram imaginar como era ter um pai inventor de um universo inteiro.

Se você tem crianças em casa ou na família, sugiro que providencie uma edição deste maravilhoso e fascinante livro. Certamente os mais jovens adorarão ter estes contos lidos para eles, enquanto os mais velhos vão amar poder lê-los neste clima natalino. Bom Natal!

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