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Tom Bombadil – Mestre e Mistério

por Cliff Quickbeam Broadway

Mencione o nome de Tom Bombadil perto de fãs de Tolkien e será susceptível de desencadear um debate: um debate que, no fandom de Tolkien, continua a ser um dos mais controversos e mais longamente discutidos de todos eles. Isto é talvez porque mesmo as questões mais fundamentais que cercam Tom Bombadil são difíceis de responder; com certeza, ele é a personagem mais enigmática em O Senhor dos Anéis. Por causa da sua natureza misteriosa, Tom Bombadil continua a ser único entre todos os personagens de Tolkien: como leitores, temos o mesmo entendimento dele hoje como leitores tiveram quando o descobriram primeiro – isto é, enquanto trabalhos acadêmicos sobre Aragorn e Frodo não faltam, não estamos mais perto de descobrir a verdade Tom Bombadil hoje do que estávamos há quase sessenta anos. Ao escrever este artigo, espero conseguir alguns objetivos: primeiro, apresentar um estudo de personagem completa de Tom Bombadil (ou seja, colocar para fora o que sabemos), em segundo lugar, para discutir as principais teorias ou popular no debate (ou seja, para colocar o que nós pensamos), e em terceiro lugar, para tirar uma conclusão (ou melhor, uma inferência) quanto à verdadeira natureza de Tom Bombadil. Se você é um veterano deste debate ou só agora estão sendo expostos a isso, eu espero que você se junte a mim em uma jornada de proporções hercúleas para atender a maior parte dos testes de todas as perguntas: quem (ou o que) é Tom Bombadil?

Como Saruman diz friamente em O Hobbit: Uma Jornada Inesperada: “Vamos examinar o que sabemos.” Bem, neste caso, que é um conselho muito apropriado, de fato. Tom Bombadil, como muitos de vocês já sabem, se depara com os hobbits na Floresta Velha em Setembro de 3018 da Terceira Era; ele resgata-os do Velho Salgueiro Homem, e depois leva-os para a sua casa no meio da floresta onde ele vive com sua (também bastante enigmática) esposa Goldberry. Tom é marcado ao longo destes episódios com um tom leve e alegre: desde o seu traje colorido ao seu aparentemente cantar contínuo (e o seu ring a dong dillo’s). No entanto a natureza de coração leve do Tom – enquanto aparentemente injustificada, considerando onde ele vive – é, de fato, bem atribuída: ele é um homem muito, muito velho e sábio (ou melhor, sendo que se parece com um homem). Nós iremos, com o tempo, voltar a olhar com mais atenção para a importância e singularidade da personalidade de Tom, mas por agora, vamos nos focar na sua idade.

Os leitores rapidamente se tornam cientes de que Tom é uma personagem especial, mesmo do seu primeiro encontro com ele. Uma das razões para isso é a sua fantástica idade. E embora possa não nos surpreender que Tom é realmente velho, quão velho pode ser. Frodo, que parece tão confuso sobre o Tom como nós somos como leitores, pede-lhe repetidamente: “Quem és tu?” (129). Tom responde que ele é “mais velho”, e em seguida ele passa a explicar:

Tom estava aqui antes do rio e das árvores… Ele fez caminhos antes das pessoas grandes, e viu as pessoas pequenas chegar… Quando os elfos passaram para o oeste, Tom já estava aqui, antes de os mares serem dobrados… Antes do Senhor das Trevas vir de fora.”(129)

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Já que as próprias informações de Tom são indiscutivelmente as mais precisas sobre ele, vamos usar a citação acima para determinar o quão velho ele é. Em primeiro lugar, sabemos que Tom vive em Arda desde “antes do rio e das árvores”, uma referência à Primavera de Arda. A Primavera de Arda é o período de 1900 a 3450 (em anos Valar, não em anos solares, saiba – embora vamos voltar a isto em breve) dos Anos das Lâmpadas, no qual o mundo foi povoado com seres vivos. Em segundo lugar, ele está na Terra Média desde o ano 1 da Primeira Era, quando os Homens acordaram; adicionalmente, viu os hobbits migrarem para o oeste em torno de 1300 T.A. Tom também viu os elfos passar para oeste: refere-se à Separação dos Elfos e, mais precisamente, para a Primeira e a Segunda Separações nos Anos das Árvores de 1105 e 1115, respetivamente. Os mares foram dobrados no ano 587 F.A., após a Guerra da Ira. O mais interessante, porém, é que Tom estava em Arda antes de Morgoth (e, por sua vez, todos os Valar) vir lá durante a Primeira Guerra, desde o ano 1 a cerca de 1499 dos Anos das Lâmpadas. Assim, sabemos que Tom Bombadil foi um dos primeiros – se não o primeiro – habitantes de Arda após a Música dos Ainur e a criação de .

Agora, sabendo que Tom tenha existido (é, por enquanto, impossível dizer que ele nasceu ou foi criado, ou mesmo que ele entrou em Arda) desde o ano 1 dos Anos das Lâmpadas, podemos calcular a sua idade exata. Devemos observar, contudo, o tipo de ondulação que existe no tempo nas obras de Tolkien: cada ano nos Anos das Lâmpadas e Anos das Árvores é um ano Valar (cerca de 9 582 anos solares). A Primeira Era, com o nascer do Sol, marca o uso de anos solares na contagem. Assim, podemos usar a faixa do ano 1 dos Anos das Lâmpadas a 3018 T.A. (quando Tom conhece os hobbits) para calcular sua idade. Nós simplesmente multiplicamos 3 500 (o número de anos Valar nos Anos das Lâmpadas) por 9 582 (3 500 x 9 582 = 33 537), repita esse processo para os Anos das Árvores (1 500 x 9 582 = 14 373), e adicione o número total de anos solares de todas as Eras até 3018 T.A. (590 + 3 441 + 3 018 = 7 049). Então, por 3018 T.A. Tom Bombadil já alguns 54 959 anos (solares) de idade!

Além da sua idade, Tom é caracterizado por algumas outras características únicas. O primeiro é a sua reação (ou falta dela) para com o Anel. “Mostre-me o anel!” Diz ele a Frodo, que, surpreendentemente, entrega-o logo sem qualquer enjoo (muito em contraste com o muito protetor, hesitante Frodo que vemos mais tarde). Tom passa a “colocá-lo no seu olho e rir” (130). Sim, a reação de Tom Bombadil para com o Anel Um, o objeto mais poderoso e perigoso do mundo, é o riso – não preocupação ou desespero, e certamente não medo. Então, quando Tom coloca o Anel no seu dedo, não há “nenhum sinal de [ele] desaparecer” (130). E como é que Tom reage a essa instância? Você acertou: ele ri e, para mostrar ainda mais o quão pouco ele se preocupa com o Anel, ele faz o que parece ser um pouco de ilusionismo com ele antes de o devolver a Frodo “com um sorriso” (130).

Não só Tom não é afetado pelo próprio Anel, mas ele percebe os seus efeitos sobre os outros. Quando Frodo coloca o anel (para verificar que é, na verdade, o Anel depois de emprestá-lo a Tom), Tom imediatamente percebe o hobbit invisível a escapar:

“Hey aí!” Gritou Tom, olhando para [Frodo] com um olhar que tudo vê nos seus olhos brilhantes. ‘Hey! Venha Frodo, aí! Onde é que você vai? O velho Tom Bombadil ainda não é tão cego assim. Tire o seu anel de ouro! ” (131)

tombombadil2arte de joaomachay do deviantart

Claramente, Tom não é afetado, pessoalmente ou de outro modo, pelo Anel. E ele é o único personagem em todo o romance a ter essa imunidade ostensiva para com o Anel. É certamente um ser poderoso que possui essa característica.

No entanto o que é que nós normalmente associamos com poder e sabedoria? Talvez visões de indivíduos gastos de idade, bastante duros e insensíveis à mente – contudo este não é o caso com Tom Bombadil. Como notei anteriormente, Tom tem uma personalidade bastante afável, alegre. Ele não é certamente um homem de afetação: não importa a circunstância nem as pessoas envolvidas, Tom está sempre num estado de espírito alegre, cantando e saltando por aí (ou pelo menos disposto a fazê-lo). Tom é tão despreocupado porque ele não tem noção de medo. Tome os seguintes exemplos: (1) ele resgata os hobbits das garras do Velho Salgueiro Homem como se estivesse repreendendo uma criança, não desafiando um grande mal; (2) ele vive na Floresta Velha, um lugar repleto de feras temíveis e sobre a qual contos de terror abundam; (3), ele salva os hobbits de uma criatura tumular, vindo com música e uma mola no seu passo para um dos acidentes mais terríveis e perigosos da história. Aproveite esta citação de “Fog on the Barrow-Downs”, por exemplo:

“Você não vai encontrar as suas roupas novamente”, disse Tom, saltando do monte para baixo, e rindo enquanto dançava à volta deles à luz do sol. Alguém poderia pensar que nada de perigoso ou terrível tinha acontecido; e na verdade o terror desapareceu dos seus corações quando eles olharam para ele, e viram o alegre brilho nos seus olhos ” (140)

É simples de observar: onde outros teriam medo, Tom Bombadil não. Não é simplesmente que Tom não tenha medo, nem que superou o seu medo; mas sim, ele não tem nenhum conceito, nenhuma ideia qualquer que seja, de medo. Ele é inteiramente composto de fibras de boa índole, alegres que o tornam capaz de rir na própria face do Anel Um.

E esta falta de medo (especialmente no que diz respeito ao Anel) é única. Gandalf certamente mostra um sentimento de medo em muitas ocasiões: desde o seu medo de entrar em Moria, ao seu medo do Anel e do inimigo. Galadriel e Elrond ambos temem o Anel, pois usá-lo ou mantê-lo escondido sabem que vai trazer a sua ruína. Mesmo o inimigo não está livre das garras do medo: quando ele descobre o regresso de Aragorn e a possibilidade de oposição unida a ele, Sauron começa a sentir medo. Enquanto o medo que todos estes personagens experienciam pode variar em muitos aspetos, não deixa de ser medo. E é exatamente essa sensação de medo que Tom Bombadil não possui.

Resta agora apenas um último ponto sobre o personagem de Tom que eu acredito que vale a pena destacar: a sua associação repetida com a terra. Frodo, na noite que os hobbits passam na casa de Tom Bombadil, tem um sonho vívido de  “uma canção que parecia vir como uma luz pálida atrás de uma cortina de chuva cinzenta, e crescia mais forte para tornar o véu todo em vidro e prata, até que finalmente foi rolada para trás, e um país muito verde se abriu diante dele debaixo de um rápido nascer do sol.” (132)

Este sonho – uma clara referência a Valinor – é interrompida: Frodo desperta para ver “Tom assobiando como uma árvore cheia de pássaros” e ele observa que “o sol já estava inclinado colina abaixo… Fora tudo era verde e dourado pálido” (132). Aqui, notamos associação forte de Tom com a terra ou, talvez mais importante ainda, a sua dissociação de Valinor. Tom interrompe esse sonho (em essência, o pensamento de que ele poderia estar associado a Valinor), e imediatamente traz Frodo de volta para a terra: os pássaros, árvores e verde da vida, a terra dos mortais. A noção de que Tom é mais um ser mais terreno, temporal, é muito importante: é justificado pelo que temos aprendido sobre a sua idade, e vai ajudar-nos muito para decidir o que Tom é e não é.

Sabendo o que sabemos sobre Tom Bombadil agora, podemos passar para a segunda metade desta tarefa: descobrir o que Tom realmente é. Iremos olhar para as principais e outras teorias populares deste debate, e uma por uma, veremos em qual, das categorias pré-propostas, Tom se encaixa. Depois de examinar cuidadosamente todas as opções, então – e só então – seremos capazes de chegar a uma conclusão final. (E, se tivermos sorte, tal conclusão não pode ser que simplesmente nunca saberemos a resposta.)

Será Tom

Um Homem, Elfo, Hobbit, Anão, etc?

Tom não é decididamente um membro de uma das raças ou tribos da Terra Média. Podemos certamente eliminá-lo de todos esses grupos (especialmente de homens e elfos, que seriam os dois grupos mais prováveis), observando sua idade (ou seja, ele estava por aqui antes deles), as suas características físicas (tamanho, barba, etc.), e em como o Anel não o afeta.

Um Valar?

É certamente difícil afirmar que Tom é um dos grandes poderes do mundo por muitas razões. Primeiramente, todos os catorze Valar são contabilizados, e Tom não é nomeado entre eles. Em segundo lugar, como observamos antes, Tom estava a viver em Arda antes dos Valar (liderados por Morgoth) entrarem no mundo. Em terceiro, Tom refere-se a si mesmo como “Eldest“, um título com o qual todos os Valar são contemplados, e não apenas ele (se é que ele fosse um Valar). Por fim, sabemos que Tom chama Morgoth de “o Senhor das Trevas” (como citado acima). É difícil imaginar qualquer um dos Valar referindo-se ao seu maior rival, a personificação do mal, por este nome: certamente, o Valar reservavam tal reverência no título “Senhor(a)” para Manwë unicamente. Além disso, os fãs de The Encyclopedia of Arda notaram que esperaríamos observar o que caracteriza Tom como um Valar (como Gandalf, um dos Maiar), não acontece.

Um Maiar?

Esta teoria é, de certa forma, um tanto atraente. Sabemos, em primeiro lugar, que nem todos os Maiar foram nomeados por Tolkien – isto, naturalmente, permite a hipótese de que Tom é realmente um deles. No entanto, alguns bons contrapontos contestam este argumento. Primeiro, Tom não é afetado pelo Anel. Sabemos com certeza que outros Maiar, de Gandalf a Sauron, foram afetados pelo poder e atração do Anel Um. Adicionalmente, lembra-se da total falta de um sentimento de medo que discutimos antes? Bem, um sentimento de medo em relação ao Anel (ou o seu destino, pelo Inimigo) permeia o Maiar envolvido nesta luta. Contudo tal não é o caso com Tom. Além disso, é interessante notar como esses Maiar são todos aliados, com um lado ou outro, enquanto Tom permanece independente do conflito.

O Único?

Alguns até empurram a ideia de que Tom é o único, Eru Ilúvatar. No entanto, para todas as observações auspiciosas feitas sobre Tom (como ele é “mais velho”, etc), esta teoria não reterem água também. No Conselho de Elrond, aprendemos muitas das razões pelas quais essa teoria é falsa. Gandalf afirma que “ele não pode alterar o próprio Anel, nem quebrar o seu poder sobre os outros”, uma característica que podemos supor que o ser mais poderoso de todos eles, o próprio criador, possua (259). Glorfindel também comenta sobre a ideia de dar a Tom o Anel para manter em segurança: “no final, se tudo o resto for conquistado, Bombadil cairá, em último como se fosse o primeiro” (259). A noção de que Sauron e o seu povo poderiam derrotar Eru (na verdade, a noção de que Eru é capaz de ser morto, derrotado, ou ferido) parece um pouco ridícula. Além disso, evidências do próprio Tolkien colocam um ponto final a esta teoria: na Carta 181, Tolkien afirma explicitamente que não há incorporação de Eru, que existe para além do deste mundo.

 Um Espírito?

Em muitos dos seus primeiros escritos sobre o que se tornaria O Silmarillion (tal como recolhidos por Christopher Tolkien em The Book of Lost Tales), Tolkien tinha um conceito da Terra Média muito mais semelhante à sua ideia de Faerie. Originalmente, muitos espíritos e duendes (de todos os tipos e nomes) entraram no mundo, assim como Ainur fez – e essa noção não foi totalmente perdida na forma final publicada de O Silmarillion. É uma teoria atraente (por várias razões) para dizer que Tom é uma espécie de espírito.

O melhor caminho a tomar dentro dessa teoria é o de propor que Tom é um “espírito da natureza” (talvez até mesmo um “Pai Natureza,” se preferir). Em primeiro lugar, faz sentido que Tom viesse da Música dos Ainur – isso está de acordo com ele habitar Arda desde o início. Em segundo lugar, a noção de que espíritos existem na natureza é evidente na Terra Média: desde os Ents até ao Velho Salgueiro Homem à grande prevalência de personificação, a natureza está muito mais “viva” na Terra Média do que cremos estar. Como observado anteriormente, Tom está nitidamente associado com a natureza e a terra. A maneira como ele vive tão harmoniosamente com aves e animais (e como ele parece comandar a natureza na sua relação com o Velho Salgueiro Homem) certamente apoia esta teoria. Adicionalmente, sabemos que Tom não está preocupado com o Anel (Gandalf refere que “ele não teria vindo” para o Conselho de Elrond, e observamos antes como ele permanece “sem se aliar” apesar dos tempos). Ele, na verdade, mostra uma total desconexão dos assuntos de todos os outros seres humanoides como ele, e sim, preocupado apenas com o mundo natural. A neutralidade de Tom assemelha-se muito à neutralidade que prescrevemos a natureza. Uma vez que nós, como fãs, aceitamos a existência e o papel dos Ents, como Treebeard, eu creio que dar o salto de um “espírito da natureza” para um homem encarnando o “espírito da natureza” não é tão difícil nem controverso. Ainda assim, devemos nos perguntar por que, então, é que o anel não afeta Tom, quando ele certamente pode afetar outros aspectos da ordem natural?

Uma encarnação da Música dos Ainur?

Esta teoria é bastante singular, e mais recentemente desenvolvida que as outras. Basicamente, sabemos que, de todas as teorias acima, apenas a noção de que Tom é um “espírito da natureza” é relativamente boa; ramificando essa teoria, um fã conhecido apenas como “Ranger from the North” desenvolveu uma teoria na qual ele postula que Tom é “o espírito encarnado da Música dos Ainur.” O “Ranger” observa duas falhas com o básico argumento do “espírito da natureza”: primeiro, Tom não está maioritariamente associado com a natureza (ele, pessoalmente, mostra essa discórdia lutando contra Velho Salgueiro Homem e as trevas da Floresta); em segundo lugar, Tom é, contudo, associado com o canto e a música em toda a parte (a maneira pela qual ele luta contra a natureza, por exemplo, é a canção). Então, é acordado por muitos (e eu sou da mesma opinião) que Tom é, de fato, um espírito (uma encarnação/personificação) de tipo (ou seja, que ele tem alguma relação com a música). A questão agora é saber se acredita ou não que ele é mais intimamente relacionado com a natureza ou com a própria música.

Ranger from the North” faz um caso bem diferente do último. Primeiro, ele trabalha com evidências da teoria do “espírito da natureza”, mostrando como é inteiramente provável a existência de outros, seres/espíritos estranhos na cosmologia de Tolkien. Em segundo lugar, ele mostra como a própria Arda não é a encarnação da Música, distinguindo a Terra Média do meio pelo qual foi criada. Então, o “Ranger” faz uma comparação muito inteligente entre Ungoliant e Bombadil: ele observa como, já que Ungoliant existe em muitas formas como uma discórdia da encarnação da música, ela se assemelha a Tom; estes dois são, diz ele, antíteses e devem ser consideradas da mesma maneira. Assim como Ungoliant encarna o mal e a escuridão com a qual ela foi feita, também Tom encarna a luz e a felicidade da fonte da sua criação. O “Ranger,” além disso, observa um detalhe de suma importância: o nome de Tom não é tudo o que parece. Certamente, nós ouvimos “Tom” e pensar no nosso tio estranho ou irmão mais novo – contudo não é esse o caso, diz o “Ranger“. Ele observa a história do grande gongo Tombo em Unfinished Tales – coincidência que “t-o-m-b-o” são as seis primeiras letras de Tom Bombadil? É também coincidência que encontramos ainda uma outra associação entre Tom e música aqui? Penso que não.

tom

O “Ranger from the North” tem escrito extensivamente sobre a sua teoria, e eu não procuro descrever todos os seus argumentos. Se gostaria de examinar muito mais detalhadamente e minuciosamente a teoria da Música dos Ainur, eu recomendo a leitura que o “Ranger” tem escrito aqui: http://www.whoistombombadil.blogspot.com/

Então, chegamos ao fim da nossa jornada através do “Problema Bombadil.” Nós examinamos os argumentos, vagueamos através da desordem, resolvemos confusões, e obtivemos evidências. É, na minha opinião, a certeza de que devemos continuar a pensar em Tom como único, que devemos dar crédito ao enigma que ele (intencionalmente) é. O verdadeiro “Mestre” aqui é, talvez, o próprio Professor: a verdadeira natureza contraditória deste enigma – a sua simplicidade no caráter e complexidade simultânea na literatura – foi bem trabalhada. O mistério de Tom chega longe nas profundezas da mitologia de Tolkien, e as raízes podem ser encontradas remontando aos primeiros contos de fadas do professor. Enquanto a “charada, envolta em mistério, dentro de um enigma” que chamamos de Tom Bombadil vai continuar a desafiar-nos, assim também nos excitará. Por meio do debate contínuo e discussão, voltamos uma e outra vez aos contos e histórias que nos são tão queridos, despejando páginas durante horas, vasculhando palavra por palavra para encontrar alguma dica secreta, tentando juntar as peças do quebra-cabeça. Sabemos que o mistério sobre Tom foi intencionalmente criado, e que o professor pode ter levado a verdade sobre esse personagem e suas próprias motivações em criá-lo para o túmulo, mas a nossa vontade para descobrir mais sobre o mais enigmático dos seres não é diminui – porquê? Talvez seja justamente por causa da natureza de Tom que nós somos fascinados por ele: numa Terra Média a tão dividida por luz e escuridão, o bem e o mal (ou seja, respostas claras para o “quem” e “o quê”) Tom existe como um descomprometido, descategorizado pedaço de lousa em branco. Ele é um ser tão aberto à interpretação, tão predisposto à nossa imaginação, concebido para o nosso questionamento. Não é de surpreender que amemos Tom tanto, que prosseguimos com este debate tão incansavelmente, porque cada um de nós cria o seu próprio Tom Bombadil nas nossas mentes, – e foi o professor que intencionalmente deixou Tom aberto à interpretação. Talvez possamos aceitar que Tom é simplesmente um mistério – embora, sem dúvida, vamos continuar a discutir e procurar a “verdade”.

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 Artigo de autoria de por Cliff Quickbeam Broadway, publicado em inglês  em 7 de Agosto de 2013, no nosso parceiro theonering.net

Tradução de Lia Margarida Silva,  graduanda em Turismo da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Portugal.
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23 comentários

  1. Rogério Moreira /

    Concordo e muito com sua linha de raciocínio, também tenho esta impressão de que o professor resolveu interagir diretamente dentro de sua obra e criou Tim Bombadil para si mesmo.

  2. Alvaro Rexs /

    Essa é fácil! (Brincadeira! haha).

    Tom Bombadil, assim como Neo de Matrix é uma anomalia.

    Neo é um resíduo da equação, porém necessário para equilibrar o sistema… em outras palavras, se na Matrix não houver a esperança dos que estão presos nela se libertarem, tudo entratá em colapso.

    Tom Bombadil talvez seja os contrapontos da melodia (que nem o estilo de Bach), algum acorde que não estava previsto na canção original, mas que foi necessárrio para criar a harmonia.

    Também podemos compará-los aos ISOS de Tron o Legado: Algo magnífico que acontece, mas que não estava previsto no projeto inicial!

  3. Quando as pessoas esquecem a fantasia e começam a querer cientificar um livro de ficção eu sinto como se estivessem o matando.

  4. Justamente oque eu penso. Tom Bombadil é o avatar de Tolkien na Terra Média.

  5. Wanderson Fernandes Fonseca /

    .Perfeito, o artigo e as discussões desenvolvidas aqui. Particularmente gostei da tese do narrador personificado. É um assunto que vale apena estudar..

  6. BBFGMPPS /

    Na minha opinião, Tom Bombadil é o próprio Tolkien dentro do universo que criou. Sendo isso realidade ou não, Tolkien encontrou alguma forma dele entrar pessoalmente em Arda, que seria um mundo paralelo ao nosso. Devemos lembrar que Tolkien era grande amigo de C.S. Lewis, o qual escreveu “As Crônicas de Nárnia”, que trata justamente da existência de vários mundos. Tolkien, ao escrever toda a história de Arda, acabou criando mais um lago no Bosque entre os Mundos (ler “O Sobrinho do Mago”) e, de alguma forma, conseguiu alcançar esse mundo que, apesar de existir independente, ainda tem o seu destino controlado pela mente de Tolkien,o qual, quando chegou em Arda assumiu o nome de Tom Bombadil. Ele não tem medo pois conhece cada minúsculo detalhe desse mundo, e vive a cantar pois sua alegria de estra dentro de seu universo é tanta que não consegue fazer outra coisa, e sua música é modificadora pois todo aquele univerzo que o rodeia está na mente dele. Sim, é uma teoria um pouco excêntrica (louca), mas para mim faz sentido. Concordo também com a teoria de que qle seja a própria encarnação da música dos Ainur e que também concordo que Tolkien criou Tom Bombadil apenas para rir da cara de todo mundo que tentasse descobrir o que ele é.

  7. Cláudio Ferreira /

    Para mim ele é Tulkas ou então Orome, e sua esposa é Vana ou Nessa. É dito no Silmarillion que Orome por exemplo amava a terra média. Então, de alguma forma, ele continua na terra média, disfarçadamente, e os elfos o conhecem como uma criatura muito antiga. Mas poucos sabem da sua natureza. Gandalf é um maia, mas talvez não seja tão poderoso quanto Sauron para resistir ao poder do anel, além disso ele está na forma humana, o que o fragiliza, se não fosse assim teria acabado com a guerra do anel com facilidade; mas estava somente para auxiliar, o único que foi permitido pelos valar, auxílio. Então Oromê/Tulkas só poderiam auxiliar. Acredito que ele seja um vala ou maia de Tulkas ou Oromê, ou mesmo de Yavanna.

    • Gustavo Jawaad /

      Mesmo como Olórin,Gandalf não derrotaria Sauron pelo menos não com facilidade,digo que iria estar quase destruído no final da luta,pois mesmo sem o Um Sauron estava a níveis maiores do que qualquer outro maia com exceção de Össë e Ëowën,não subestime o maior dos servos de Morgoth ou um dos mais poderosos espíritos maiar.

  8. Pedro Henrique /

    Eu acredito (e acreditava bem antes de ler este post) que o Tom é a personificação da música.

  9. Alisson Seraggioto /

    Eu acho que Tom Bombadil é Eru ou o próprio Tolkien.

  10. Jéferson C. Flores /

    Por favor, procura utilizar as palavras corretas de Tolkien. No singular é Maia e Vala, somente no plural é Maiar e Valar. O mesmo vale para Ainu e Ainur.

  11. Concordo que seja de alguma forma (representando) a musica de Ainur.

  12. Nicolas Salocin /

    Bombadil é senhor de si mesmo!

  13. Daniel Teixeira Santos /

    Tenho mais ou menos a mesma opnião que vc Daniel…

  14. Daniel Teixeira Santos /

    No meu ponto de vista, e deixando bem claro que tenho pouco
    conhecimento sobre as obras de Tolkien, Tom pra mim é um ser único (claro), e
    vejo muito a sua associação direta com a natureza, ou seja, com Arda. Visto que
    a Natureza e todos os seus elementos são frutos diretos da Terra, pra mim Tom é
    o próprio espírito de Arda, materializado em sua forma mais perfeita (os filhos
    de Eru). Vejo isso, pois ele é um ser neutro, que não se envolve com as coisas
    da Terra-Média, porem conhece e compreende tudo, penso assim, pois tanto o Bem
    como o Mal são no meu ponto de vista uma “criação” da natureza, que em sua majestade
    simplesmente permite que seus frutos sejam livres e se tornem independentes, da
    mesma forma que uma arvore nasce e toma por si só sua forma, o Bem e o Mal
    tambem foram gerados e moldados conforme sua própria “vontade”. Pra mim Tom é a
    própria Arda, vivenciando a sua criação. Não sei se deu pra entender o que disse,
    mais quero agradecer pelo texto e pelas informações.

  15. obolsao /

    Todas as nossas tentativas são válidas, mas, no fim das contas, eu acho que Tolkien não queria que Tom fosse compreendido. Se nós pudéssemos defini-lo, ele não seria Tom Bombadil e sim, apenas mais um personagem qualquer.

  16. Victor Oliveira /

    Com certeza salvei o link do blog do “Ranger from the North”. Imprimirei e darei uma boa lida, leituras muito extensas em telas me levam à exaustão.

    Bom post!

  17. Guilherme /

    Uma coisa que eu acho bem estranha é que a maioria dos textos que discutem a natureza de Tom Bombadil esquecem que Gandalf o chama de Iarwain Ben-Adar, nome que consta no Silmarillion como um dos Maiar. Isso pode ter sido uma inserção de Christopher Tolkien, mas mesmo assim é de longe a suposição mais forte.

    Primeiro: Tom Bombadil não é neutro (como Barbárvore). Ele é bem óbviamente do lado do bem. Demonstrado na pronta ajuda aos hobbits e a reverência que elfos e Gandalf tem a ele. Só que não é o papel dele enfrentar Sauron diretamente, da mesma maneira que não é o papel de Gandalf.

    Segundo: existe uma ideia, que considero incorreta, que o universo de Tolkien é maniqueísta, que o Bem e o Mal são forças iguais e opostas. Eru é essencialmente bom, o mal é apenas um instrumento para que seus filhos cumpram seu destino.

    Terceiro: Gandalf, Galadriel e todos os outros temem o Um Anel por que são mais fracos que Sauron, o poder do Anel eventualmente os corromperia. Tom Bombadil é apenas um Maia mais forte que Sauron. Provavelmente Eonwë também não temeria o Anel e Ungoliant provavelmente o devoraria num piscar de olhos. Essa não é uma luta dos grandes, são os pequenos que tem que fazer frente a Sauron.

    Espero que tenha ajudado na discussão :).

    • Tem uma série de coisas que você diz que estão equivocadas.
      1 – Gandalf não chama Tom Bombadil de Iarwain Ben-Adar, quem se refere a ele com esse nome é Elrond e os elfos. Esse é o nome élfico de Tom Bombadil.
      2- O nome Iarwain Ben-Adar não consta como um Maia no Silmarillion, creio que você tenha se enganado quanto a isso.
      3- Sim, a história é maniqueista e Tolkien afirma isso em várias situações. Existem dois polos e Tom Bombadil é algo neutro entre o bem e o mal.
      A resposta para essa questão está em uma carta escrita pelo Tolkien veja aqui:

      “A história é disposta em termos de um lado bom e um lado mau,
      beleza contra feiúra impiedosa, tirania contra majestade, liberdade moderada
      com consentimento contra compulsão que há muito perdera qualquer
      objetivo que não o mero poder, e assim por diante; mas ambos os lados em
      certo grau, conservador ou destrutivo, querem uma medida de controle. Mas
      se você tiver, por assim dizer, feito um “voto de pobreza”, renunciado ao
      controle e contentar-se com as coisas em si mesmas sem referência a si
      próprio, vigiando, observando e de certa forma conhecendo, então a questão dos bens e males do poder e do controle pode tornar-se totalmente sem sentido para você, e os meios do poder sem valor algum. E uma visão
      pacifista natural, que sempre vem à mente quando há uma guerra. Porém, a
      visão de Valfenda parece ser a de que é algo excelente de se ter representado, mas que de fato há coisas com as quais não pode lidar e que, no entanto, sua existência depende delas. Em última instância, apenas a vitória do Oeste permitirá Bombadil a continuar, ou mesmo a sobreviver. Nada lhe restaria no mundo de Sauron”. (carta 144).

      4 – Gandalf não é mais fraco que Sauron. Pelo contrário. Em uma luta contra Sauron Tolkien disse que Gandalf poderia conseguir derrotar Sauron e tomar posse do Um anel e ser o novo governante da Terra Média. Tolkien disse também que Gandalf seria o único do lado do bem que conseguiria derrotar Sauron diretamente.

      5 -Tom Bombadil é mais forte que Sauron? com base em que você chegou a essa conclusão?

      Espero que tenha entendido as correções que fiz ao seu comentário.
      Abraço

      • Guilherme /

        1- Pode muito bem estar certo, falei de memória, mas não era esse o meu ponto.

        2- Quando tolkien enumera os Maiar(Eönwe, Ilmare , Osse…) também coloca Iarwain Ben-Adar. Mas devo concordar que não estou encontrando esta informação nos sites confiáveis. Não estou com a minha cópia do Silmarillion em mãos, mas assim que tiver, posto uma foto.

        3-Maniqueísmo não quer dizer que existe um lado bom e um lado mal. Quer dizer que os lados bom e mal são EQUIVALENTES. O cristianismo não é maniqueísta por que o Diabo não é equivalente a Deus. Já no zoroastrismo Ahura Mazda e Arimah são equivalentes.

        No próprio Silmarillion Eru fala que “ainda terá sido bom que o mal tenha existido”, significando que o mal existe em função do bem, mesmo que seja oposto. Mas de novo, estou citando de memória, posso estar equivocado. Mas na própria carta de Tolkien que você mencionou: ” Em última instância, apenas a vitória do Oeste permitirá Bombadil a continuar, ou mesmo a sobreviver.” Oeste com “O” maiúsculo significa os Valar. Ou seja, se Sauron dominasse a Terra-Média, só uma intervenção dos Valar poderia salvar o Tom Bombadil.

        4- Várias pessoas poderiam derrotar Sauron se tomassem o anel, não quer dizer que são mais fortes. Gandalf e Galadriel sim, em combate direto. Aragorn também poderia derrotá-lo, mas indiretamente, criando um exército mais poderoso. Mas nenhum deles seria capaz de vencer Sauron na plenitude da força (i.e. Sauron com o anel). Por que Gandalf teria medo do anel se ele é mais forte? O poder em si não corrompe, caso contrário Manwë seria maligno. O que corrompe é a vontade maligna de Sauron.

        5- A capacidade de domínio sobre o Anel de Tom Bombadil é que implica isso. Posso ter aplicado lógica circular neste argumento, mas para mim a explicação mais fácil e direta do Bombadil não ser afetado pelo anel é que ele tem mais poder que o seu criador. Como temos referência de Maias fortes como Eonwë e Ungoliant, esta suposição não é um exagero.

        Prometo tirar aquela foto do Silmarillion, esta questão me intrigou muito. Se você tiver uma versão em mãos, seria muito bom se pudesse postar uma foto do trecho em questão.

        Abraços.

        • Renato L Misterio /

          Acredito que ele seja o proprio Eru pois eru criou o mundo por meio da musica e tom so fala por meio dela, alem disso ele e chamado de aquele que nao tem pai … quem mais nao teria pai a nao ser o unico e alem disso nao da pra pegar o que personagens que nasceram recentemente falam sobre tom no conselho do anel e tomar como verdade . Eles supoem que tom tombaria , mas nao quer dizer que eles sejam onicientes e tenham certeza disso. Tolkien so nao disse que o Tom era Eru porque a igreja o pressionaria por de certa forma colocar uma figura divina querendo viver em meio aos humanos.
          Mas de certa maneira é lindo isso, o poder do anel nao corrompe a tom pois tom é todo poderoso e quando se tem tudo nao ser quer nada , por isso o anel é incapaz de despertar a cobiça em seu coração.

    • Gustavo Jawaad /

      Bombadil não é mais poderoso que Sauron,apenas tem uma força de vontade própria que o um Anel não o afeta.

      Sua tentativa foi até boa,mas equivocada,já que o único capaz de derrotar Sauron na terra média em embate direto(em posse do Um)seria Gandalf,e Tolkien afirmou isso incluindo Tom Bombadil.

      Maia maior que Sauron acredito que Ëowën ou Össë seriam esses ou mesmo patamar,Sauron era muito poderoso pra qualquer desprezo,certo que Ungoliant colocou morgoth pra implorar,mesmo assim foi espantada por Balorgs que foram confrontados(sim,no plural)por Fëanor,e morto covardemente. Realmente escalar poderes na terra média seria equívoco.

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  1. Coisas Que Você Deve Fazer: Todas as Passagens Devem Ter um Propósito » Ficcionados - […] De novo, é uma questão de prioridades. Claro que tudo que você escreve na sua história tem um propósito:…

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