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Terra Média – Mito ou verdade? por Marcus Pedrosa

“Você acreditaria em uma estória como esta?

Uma balada de felicidade, nós estamos louvando a antiga tradição”

( Blind Guardian, trecho da música Skalds and Shadows)

 

Marcus Pedrosa é  graduado em Língua e Literatura Inglesa, ilustrador, estudioso das obras de J.R.R. Tolkien, autor dos livros “O Hobbit: Um amigo para seu filho” (2012), Contos dos Mil Riachos (2010), e Papo de Sapo (2009). O seu blog pessoal pode ser acessado AQUI, pagina no facebook AQUI.

Trata-se de uma questão comum tanto entre fãs de Tolkien quanto entre “leigos” sobre a obra do autor: o mundo da literatura do escritor britânico J.R.R. Tolkien (1892 – 1973) é resultado da imaginação pura e simples ou contém algum lastro de verdade no mundo real?

Embora tenha criado todo seu universo à medida em que ia escrevendo, Tolkien não deu forma à Terra Média, seus povos, línguas e acontecimentos ao sabor de pensamentos casuais. Como filólogo (estudioso de línguas antigas), ele valeu-se do mesmo processo de criação e evolução das línguas reais como o Finlandês e o Grego (as quais inspiraram o idioma élfico “Quenya”, por exemplo) para criar os idiomas de sua ficção.

Vivendo sua infância no meio rural inglês, ele aprendeu as tradições e costumes mais antigos de seu povo, sobre os quais ele adquiriu mais conhecimento posteriormente na Universidade, juntamente com a história medieval e a cultura dos povos do norte europeu.

Com efeito, na medida em que escrevia, Tolkien não apenas verbalizava tramas meramente imaginárias de uma narrativa totalmente desvinculada da realidade, ao contrário, ele conscientemente fazia junções e combinações de relatos míticos da Europa antiga/ medieval – continente que aliás coincide geograficamente com a sua “Terra Média”.

Elfos, anões, orcs, trolls e dragões são encontrados no imaginário germânico ou nórdico, como por exemplo, no poema medieval saxão “Beowulf” e no milenar “Kalevala” finlandês, dentre outras fontes nas quais o mestre se inspirou para ”unificar” o imaginário europeu, dando por fim ao seu país, a Inglaterra, sua própria mitologia, conforme era sua declarada intenção inicial.

Ele próprio aponta a natureza verossímil de seu trabalho literário, na obra “Cartas de J.R.R. Tolkien”:

“Afinal, creio que lendas e mitos são compostos mormente da ‘verdade’, e de fato apresentam aspectos desta que só podem ser recebidos neste modo; e muito tempo atrás certas verdades e certos modos desta espécie foram descobertos e devem ressurgir sempre.”

Então fica a pergunta: teria existido algum dia elfos, anões como Durin e seu povo, orcs, trolls e dragões? Os contos de Tolkien podem ser considerados relatos mais ou menos verdadeiros de uma era imemorial, muito antes dos cerca de 10 mil anos da História oficial?

Antes de qualquer consideração, convém deixar claro que o próprio Tolkien frisou que seu mundo não era um mundo paralelo ou alienígena em relação ao presente, mas sim situado num passado distante.

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Ironicamente, por depender muito pouco de meios concretos, línguas e tradições perduram mais do que as evidências de seus povos e suas cidades. Tradições podem ser mantidas vivas repassadas de geração em geração, e línguas evoluem, sem jamais desaparecer totalmente (como é o caso do Latim, considerado “língua morta”, cuja forma original está bem presente no Italiano e noutras línguas românicas, e sobretudo em certas expressões usadas no Direito Latino).

Por outro lado, tome-se as frequentes descobertas arqueológicas, que recuperam esqueletos de criaturas ancestrais que pelo porte e desenho poderia perfeitamente ter pertencido a um dragão, ou outros restos mortais de seres humanoides, os quais os especialistas classificam como raças ancestrais do homem, mas que poderiam ter sido de elfos, anões ou orcs.

Como saber o que essas criaturas foram na verdade enquanto vivas? Do que eram capazes, o que faziam? Qual era a real característica por trás (ou melhor, sobre) seus ossos?

Infelizmente, espadas, machados, elmos e escudos não resistem tanto ao intemperismo quanto despojos de seres vivos, de modo que dificilmente se terá alguma informação sobre tais armas anteriores ao que convencionalmente se chama de “Idade do Ferro”. Mas quem garante que a “Idade do Ferro” convencional foi a primeira e única da história do mundo?

O mesmo pode se dizer das cidades – a Ciência convenciona que a datação fornecida por objetos obtidos por escavação ou registros escritos antigos definem quando a civilização começou – mas como saber se não houve outras cidades de pedra e madeira datadas antes de dez mil anos atrás? Naturalmente, as evidências e registros que a Ciência possui não são todos os que certamente existem, e que jazem esquecidos em algum recanto oculto do planeta.

Uma comparação: há cem anos, muitos fatos e coisas dignos de registro ficaram esquecidos simplesmente porque não era comum pessoas portarem câmeras fotográficas ou de vídeo consigo, o que hoje é banal, graças à informatização e miniaturização de tais dispositivos, permitindo o registro cada vez mais frequente de tudo o quanto cada qual julgue relevante.

Então imagine-se a mesma situação há dezenas ou centenas de milhares de anos antes… o que aconteceu? Quais lugares existiam? Como eram chamados? Quem os habitava? Quem eram seus inimigos? Como e por que combatiam? E finalmente, como vieram ao mundo?

São perguntas que os achados arqueológicos, registros e induções científicas simplesmente não podem responder totalmente, tudo o que fazem é servir de marcos para convenções arbitrárias, cuja idade é igualmente questionável, uma vez que é definida por um método científico indireto e impreciso (a concentração do elemento Carbono 14 nos materiais encontrados, o mais comumente utilizado).

Some-se a isso o reduzido número de sítios arqueológicos pelo globo, seja pela carência de recursos financeiros, seja por desinteresse puro e simples das governanças e estudiosos em realizar tal tipo de estudo. Cite-se, a título ilustrativo, o caso das escavações na cidade de Pompeia, em estudo atualmente na Itália – devido à falta de recursos, os pesquisadores estão sob o risco de precisar enterrar novamente o sítio, uma vez que não poderão recuperar os vestígios da civilização engolida pelas lavas do vulcão do monte Vesúvio.

Em que pese a necessidade de escavação para a investigação arqueológica, Vesúvio foi uma descoberta relativamente fácil, uma vez que “desapareceu” sob a superfície, soterrada por lava e poeira vulcânica, em data da História recente. No que diz respeito a cidades que possam estar nas profundezas do subsolo ou do oceano, a humanidade encontra-se limitada, além do fator econômico, pelo fator técnico: Com a tecnologia atual, é insólito imaginar uma cuidadosa exploração dezenas ou centenas de metros seja abaixo do leito do oceano ou da superfície terrestre.

Até aqui, não se foi levado em consideração registros escritos, devido ao caráter perecível de seus veículos, os quais podem perfeitamente ter existido antes dos cinco mil anos de escrita conhecida, mas que simplesmente não resistiram à ação do tempo, e destarte nos permite apenas conjecturar sobre sua existência.

E em se tratando de eras longínquas, deve-se levar em conta os cataclismos que redesenham a superfície do planeta de tempos em tempos, fenômeno que Tolkien fez questão de considerar em sua narrativa, principalmente na submersão da terra de Númenor e do antigo reino de Beleriand ocidental, dando finalmente forma à Terra Média conhecida na trilogia “O Senhor dos Anéis”.

É pacífico no meio científico a existência de tais eventos e sua constante influência no desenho do mapa mundi até sua forma presente. O que havia na face da Terra antes de cada uma destas revoluções sísmicas?

Em geral, elas funcionam como um arado que revolve a terra, invertendo as posições entre subsolo e relva. O que será que jaz no mais profundo seio terreno, por que não talvez ruínas de Gondolin, Erebor, ou Minas tirith, não importa o nome que lhes deem, ou fósseis de trolls e dragões?

Eis, então, porque o método utilizado por Tolkien para criar sua literatura se torna mais fidedigno como uma hipótese de um mundo além do registro da escrita, posto que se ancora nas evidências em que ele se especializou: a língua e suas narrativas seculares e milenares, escritas ou faladas, devido à sua independência do mundo físico para continuarem existindo e pela sua coincidência entre diferentes povos, fornecendo dados muito mais “tangíveis” para supor como teria sido o mais distante passado da humanidade, quando o mundo ainda era habitado por seres que hoje podem ser considerados extintos, ou talvez transformados em outras formas de vida diferentes das originais.

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Christopher Tolkien, filho de Tolkien e quem administra e publica o material inédito deixado pelo seu pai, declarou em sua rara e última entrevista ao jornal francês “Le Monde”:

“Para mim, as cidades do Silmarillion são mais reais do que a Babilônia.”

Tal é o alcance dos detalhes de uma narrativa a partir do conhecimento de J.R.R. Tolkien sobre tradições antigas, compondo um verdadeiro universo com povos, idiomas, geografia, cronologia, cosmogonia, e mesmo astronomia próprios.

Logo, Tolkien pode até não ter sido preciso o suficiente para descrever tal mundo pretérito, mas sua narrativa aproxima-se da realidade muito mais do que a Ciência quer e deveria aceitar. Em sua obra “Sobre Contos de Fadas”, ele escreve:

“A noção de que carros possam ser mais “vivos” do que dragões ou centauros é curiosa; que sejam mais “reais” do que cavalos é pateticamente absurdo. Quão vivo, quão real é uma propaganda de cigarros comparada a um carvalho, pobre sonho dos escapistas…”

Isso porque seu trabalho, ora chamado de “contos de fadas” ora de “alta fantasia”, é sob o olhar cartesiano “escapismo”, fuga da realidade, negação da razão.

Mas tal “escapismo” não nega ou distorce a razão, ao contrário: nada respeita mais a lógica dos acontecimentos do que aquilo que considera o inusitado e o improvável, mesmo porque lógica e razão não são compostos apenas de dados e fatos evidentes, nem tampouco podem abarcar todas as possibilidades, como dizia o próprio físico Albert Einstein: “Nem tudo o que pode ser contado conta, e nem tudo o que conta pode ser contado”.

Digna de nota ainda é a afirmação de outro cientista, o alemão Fritz Kahn, em seu “Livro da Natureza”: “Raramente, lendas são invenções; na maior parte das vezes, são verdades idealizadas”.

A Ciência não é capaz de explicar tudo, mesmo que forneça quase sempre versões plausíveis à razão, mas nem por isso provas incontestes dos fatos reais. Ela própria considera que a “Idade do Homem”, data de cerca de 1,5 milhões de anos. Desse modo, quais teriam sido os acontecimentos no misterioso intervalo entre esta data e os dez mil anos convencionados como início da História oficial?

Por fim, questionar se os relatos da Terra Média de Tolkien possuem ou não alguma chance de ter acontecido de fato na realidade, merece uma cuidadosa análise, uma vez que não se trata de um trabalho do pensamento aleatório, mas o resultado de décadas de estudo linguístico, histórico e cultural que estão profunda e inegavelmente vinculados ao passado do mundo real.

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