Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Artigo Acadêmico sobre Saruman e o Direito por Amanda Muniz

 

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Amanda Muniz é uma estudante do 9º período do curso de Direito das Faculdades Santo Agostinho. Membro do Programa Especial de Tutoria – PET, desenvolvido pelas Faculdades Santo Agostinho no ano de 2013. E após se formar planeja fazer mestrado com algum ‘Toque do Tolkien’ no direito.

Após uma brilhante apresentação do temido trabalho de conclusão de curso (monografia), a estudante de direito Amanda Muniz já pode se sentir tranquila, pois conseguiu auxiliar um tema que ela gosta com algo que era necessário para se formar.Sim, mais uma monografia sobre Tolkien no Brasil, dessa vez em um curso de direito (já disse que o conhecimento sobre Tolkien não tem barreiras?).

O trabalho foi apresentado e recomendado para públicação. Foi aí que surgiu a ideia de formar o artigo intitulado “O Direito de Muitas Cores: Saruman e os objetivos dúblices do Direitos” foi publicado pela revista jurídica da faculdade.

O artigo pode ser lido e ser usado como referência em monografias e teses acadêmicas posteriores, pois tem publicação reconhecida e pode ser encontrada no seguinte link: http://issuu.com/faculdadessantoagostinho/docs/fas_jus_v.3.n.1_2013?mode=a_p (está na página 59 em diante).

O artigo acadêmico da Amanda Muniz trata de assuntos relevantes para a área do direito, em especial naquilo relacionado aos objetivos do direito, um campo muito complexo da filosofia jurídica. E o mais interessante é que ela conseguiu relacionar esse tema a um personagem intrigantes do universo criado por Tolkien: O SARUMAN.

Segue abaixo o artigo na integra, conforme enviado pela Amanda, nossa amiga e fã de Tolkien desde a formação básica do site:

 

O Direito de Muitas Cores: Saruman e os objetivos dúplices do Direito

 

 

Amanda Muniz Oliveira[1]

 

 

“Pois sou Saruman, o Sábio, Saruman, o Fazedor de Anéis, Saruman de Muitas Cores!”

– Olhei então e vi que as roupas que vestia, que tinham parecido brancas, não eram

dessa cor, mas de todas as cores, e se ele se mexia, mudavam de tonalidade e brilhavam,

de modo que os olhos ficavam confusos.

(Tolkien – O Senhor dos Anéis)

 

Resumo:

 

Não raras vezes, o Direito é apontado como instrumento de paz social, responsável pela solução de conflitos. De fato, através das normas estabelecidas a liberdade individual do cidadão é limitada, para que não ultrapasse o direito pessoal de outrem, mantendo assim um certo equilíbrio social. Todavia, esta é apenas uma das formas de se enxergar e utilizar Direito. De forma mais velada, as leis podem ser utilizadas para legitimar verdadeiras injustiças, protegendo objetivos diversos à pacificação social. Utilizando os estudos interdisciplinares de Direito e Literatura, analisar-se-á o personagem Saruman, da obra o Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, que sob o pretexto de lutar pela paz social acaba realizando diversos malefícios aos povos livres. Tal personagem permite uma abordagem reflexiva, no intuito de analisar de que forma o Ordenamento Jurídico, por vezes, é utilizado da mesma forma, legitimando injustiças sob o pretexto de manutenção da paz social.

 Palavras-Chave: Direito, Literatura, Paz social.

 

Abstract:

 

Often, the law is targeted as a tool of social peace, responsible for conflict resolution. In fact, through the law, the individual liberty of the citizen is limited to not more than the personal right of others, thus maintaining a certain social equilibrium. However, this is just one of the ways to see and use law. In a secret way, laws can be used to legitimize injustice, protecting other objectives and not the social pacification. Using the interdisciplinary studies of law and literature, will it be analyzed the character Saruman, from the book the Lord of the Rings written by J. R. R. Tolkien. Saruman, under the pretext of fighting for social peace, performes several injuries to the free people. This character allows us to reflect and analyze how the legal system sometimes is used in the same way, legitimizing injustice to the pretext of social peace.

 Key Words: Law, Literature, Social Peace.

1. Introdução

Não raras vezes, o Direito é descrito como instrumento de pacificação social, responsável pela resolução de conflitos e manutenção da ordem. De fato, uma sociedade sem leis não se sustenta, pois a liberdade total dos indivíduos acarretaria em caos e guerra, vez que cada um defenderia seus próprios interesses em detrimento dos interesses do outro. Neste sentido, o Direito se mostra de grande valia, pois protege o cidadão tanto das arbitrariedades dos outros cidadãos quanto das injustiças que possam vir a ser cometidas pelo próprio Estado.

Porém, por vezes, esta finalidade precípua do Direito é desvirtuada. Ocorre que as leis são feitas por homens, e, portanto, passíveis de erros, brechas e lacunas. Estas falhas, portanto, são frequentemente utilizadas no sentido de legitimar injustiças, fazendo com que o direito e o interesse individual de certos grupos hegemônicos passem a ser preservados em detrimento do interesse coletivo.

No intuito de revelar este desvio de finalidade, será realizada uma análise do personagem Saruman, da obra O Senhor dos Anéis de J. R. R. Tolkien, aos moldes dos estudos interdisciplinares entre Direito e Literatura. Ocorre que a literatura, por transportar o leitor a uma realidade completamente distinta de sua própria, tem o condão de despertar o senso crítico do leitor, se direcionada na perspectiva adequada. Neste sentido, pretende-se demonstrar a ambição e os discursos enganadores do personagem Saruman, explicitando as reais intenções deste, para então identificar paralelos similares no mundo real primário, especificamente no ambiente jurídico.

Saruman era um sábio e bondoso mago, que ao estudar profundamente sobre o maligno Anel forjado pelo vilão Sauron, verdadeira arma de destruição, se corrompe e passa a desejar o Anel para si próprio. O objetivo oculto do personagem é se tornar o novo vilão, retirando Sauron do poder e colocando a si mesmo como novo Mestre do Anel. Porém, Saruman não assume este objetivo abertamente, alegando que deseja possuir o Anel apenas para derrotar o vilão e instituir a paz social pelo bem comum de todos.

Percebe-se que o Direito, por vezes, serve aos mesmos propósitos. Grupos hegemônicos se aproveitam de sua influência para  leis utilizarem as leis, em tese defensoras do bem comum, para defender seus próprios interesses egoístas. Assim, ao utilizar a literatura como instrumento de análise e interpretação da realidade social, pode-se traçar nítidas semelhanças com as situações vividas no cotidiano social, fazendo com que seja possível uma reflexão equidistante, realizada sob um novo olhar, daquilo que já se tornou trivial e comum no ambiente social. Desta forma, importante destacar as razões de utilizar a literatura como instrumento analítico do Direito.

 

2. O Direito na Literatura

Segundo Godoy (s.d.), a relação entre Direito e Literatura foi tema constante na tradição do ocidente em tempos passados, vez que o homem das leis também era o homem das letras. A busca por um Direito mais racional, burocrático e positivista é apontada como causa da cisão entre estas áreas do conhecimento humano, pois a Literatura foi transferida ao estético puramente artístico, enquanto o Direito foi reservado ao tecnicismo formal.

De acordo com Siqueira (2011), a consolidação do positivismo jurídico proposto por Kelsen afastou do Direito as ciências humanas e sociais, razão pela qual o Direito tornou-se dogmático e dissociado dos valores morais. Com a superação do positivismo, surge uma preocupação de trazer novamente ao Direito questões filosóficas, antropológicas e morais, dentre outras. Neste contexto, alguns juristas passam a defender também a inclusão da literatura no ambiente jurídico, defendendo a reaproximação destas áreas do conhecimento humano.

Desta forma, a aproximação entre o estudo do direito e da literatura ganha importância a partir da década de 60, nos Estados Unidos, com o surgimento de um movimento conhecido como Law and Literature, que defendia a utilização da literatura como ferramenta analítica do Direito. Segundo Siqueira (2011, p. 36)

 Essa proposta surgiu como uma das várias tendências antipositivistas do mais amplo movimento “direito e sociedade”, atuando na formação do profissional do direito de forma a resgatar aspectos humanísticos de que as carreiras jurídicas se afastaram. A centralização do direito no positivismo kelseniano levou à redução gramatical de seus enunciados e à análise estritamente sintática e semântica de suas normas, tornando-o incapaz de atender as demandas sociais postas ao direito.

 Este movimento ganhou notória repercussão após a publicação do livro The legal imagination, de James Boyd White. De acordo com Siqueira (2011), o referido autor acreditava que os tanto os textos jurídicos quanto os literários eram fundamentados pelas identidades de seus personagens e pelos significados de seus conceitos. Ademais, para o autor, a literatura possibilitava ao jurista uma nova abordagem da ordem legal estabelecida, bem como uma nova visão a respeito do ordenamento jurídico vigente.

Diversos foram os estudos acerca da interseção entre Direito e Literatura: o direito como literatura, a literatura como instrumento de mudança do direito, hermenêutica, direito da literatura, direito e narrativa, apenas para citar alguns. Em especial, será destacada a proposta de estudo do Direito na literatura, que investiga as questões jurídicas lançadas nas narrativas literárias.

De acordo com Godoy (s.d.), os estudos de direito na literatura foram iniciados pelo professor norte-americano John Henry Wigmore, que, dentre outros livros sobre o tema, escreveu A List of One Hundred Legal Novels, obra que propõe a leitura de uma centena de romances úteis à ciência jurídica. Segundo Godoy (s.d.), Wigmore acredita que o operador do direito busca a literatura como forma de aprender sobre o mundo jurídico. Para tanto, as obras indicadas, além de selecionadas com rigor, deveriam ser lidas por juristas e não por leigos. Certos autores, como Dickens e Conan Doyle, deveriam ser leitura obrigatória para os estudantes de Direito, vez que para Wigmore (apud GODOY, p.10, s.d.) “uma coisa é saber que a prisão por dívidas foi abolida; e algo totalmente diferente é conhecer os livros de Dickens, que colaboram para um Direito mais humano.”

Segundo Gonzáles, (apud SIQUEIRA, 2011) o estudo do direito na literatura possui um caráter instrumental, vez que trata o direito enquanto recurso literário e a literatura, por sua vez, como recurso de compreensão do direito. Ocorre que a leitura crítica de obras literárias auxilia na formação sociológica e filosófica do jurista, revelando uma verdadeira função pedagógica, fruto da interseção entre as duas disciplinas.

De acordo com Aguiar e Silva (apud SIQUEIRA, 2011), o estudo da literatura torna o jurista mais apto a lidar com sua própria realidade, vez que instiga um senso de alteridade e sensibilidade, e porque não, o despertar de uma visão crítica acerca do mundo que o cerca.

Neste diapasão, compreende-se a obra literária como verdadeira testemunha da realidade social na qual está inserida a realidade jurídica. Os mais diversificados gêneros literários atentam-se a demonstrar um retrato social pautado no particular e no específico, permitindo uma abordagem não normativa do direito. De acordo com Siqueira (p.49, 2011):

A característica de denúncia da literatura tem poder de atuar, portanto, como força recriadora de mudanças sociais e jurídicas, sendo capaz de contribuir diretamente à formulação e à elucidação das principais questões relativas à justiça, à lei e ao poder.

 Importante ressaltar, todavia, que o potencial pedagógico não encontra termo na simples instrumentalidade das narrativas literárias para o direito. A simples apresentação de uma narrativa em nada contribui para o estudo do direito. Faz-se necessário mais. Para Siqueira (2011, p. 108), é de suma importância um estudo crítico e uma construção de significados que permeiam as obras literárias a serem analisadas, no intuito de aproveitá-la ao máximo:

 A análise das obras literárias, portanto, pode representar uma rica possibilidade de discussões de entendimentos jurídicos, ainda que dependa da disponibilidade reflexiva de seu leitor. O cuidado que se deve ter é não restringir-se a uma leitura superficial e ilustrativa, somente a título de exemplificação para o direito.

Siqueira (2011) afirma que os autores da vertente direito na literatura utilizavam, predominantemente os clássicos como Charles Dickens, Arthur Conan Doyle e Mark Twain. Sem sombra de dúvida, as obras clássicas gozam da vantagem de serem atemporais, podendo ser estudadas por indivíduos de diferentes épocas, culturas e contextos sociais. Todavia, nada impede que obras regionais e específicas sejam objeto de análise do jurista. Para Siqueira (2011, p. 113) “importa que o livro desperte a capacidade interpretativa de seu leitor, instigue suas experiências reflexivas e que o incite interpelar diferentes narrativas da forma mais hábil possível.”

Assim, ao discutir quais livros deveriam ser objetos de estudo de direito na literatura, Siqueira, Zambonato e Caume (2009, p. 155) oferecem a seguinte resposta: “aquelas que despertarem a leitura responsável do seu leitor.” Desta forma, nada impede que textos fantásticos possam ser utilizados pelo jurista no intuito de realizar uma análise do Direito.

No que tange à literatura fantástica, remeter-se-á aos escritos de Tolkien, que em um ensaio filosófico trata de um gênero literário fantasioso chamado por ele de “estórias de fadas”, e seu papel na modernidade. De acordo com Lopes (2006, p. 51) Tolkien não define expressamente o que entende por “estórias de fadas”, se limitando a caracterizar o gênero como uma narrativa “que toca ou usa Feéria[2], qualquer que seu próprio propósito central possa ser: sátira, aventura, moralidade, fantasia” acompanhados de um final surpreendentemente feliz, que o autor denominou de “eucatástrofe”.

 Tolkien (2010c) defende que a recuperação é um importante papel desempenhado por tais estórias. Essa recuperação nada mais é do que a capacidade de refletir sobre o tradicional e trivial, seja para contemplá-lo, seja para criticá-lo, libertando o leitor do estado de inércia conformista imposto pela rotina.

A recuperação (…) é uma re-tomada – retomada de uma visão clara. Não digo “ver as coisas como elas são” para não me envolver com os filósofos, embora eu pudesse arriscar dizer “ver as coisas como nós somos (ou fomos) destinados a vê-las” – como coisas separadas de nós mesmos. Precisamos, em todo o caso, limpar nossas janelas; de forma que as coisas vistas claramente possam ser libertadas do fosco borrão de banalidade ou de familiaridade – de possessividade.

Ocorre que a literatura, em especial as estórias de fadas, proporciona verdadeira libertação, causando no leitor, segundo Tolkien (2010c, p.66) certa estranheza “de coisas que se tornaram banais, quando elas são vistas repentinamente de um novo ângulo.” Isto porque as estórias de fadas, como os demais gêneros literários, distanciam-se da rigidez técnico-científica proporcionando uma maior liberdade, não apenas de interpretação como de reflexão propriamente dita. É importante ressaltar que para Tolkien (2010c, p.62) o afastamento do racional através da arte não importa em alienação da realidade. Antes o contrário.

A Fantasia é uma atividade natural humana. Certamente não destrói ou mesmo insulta a Razão; e não cega o apetite pela verdade científica, nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais aguçada e clara a razão, melhor fantasia fará.

Vislumbra-se aqui o mesmo caráter pedagógico da analise do Direito na Literatura. Todavia, ao tratar de temas como elfos[3] e hobbits[4] , o leitor é transportado a um Universo completamente diferenciado do seu próprio, habitado por povos distintos, com costumes e tradições distintos, mas ainda assim similares. Os anseios, os sentimentos, as tramas experimentados pelos personagens são os mesmos que perseguem o ser humano comum. As estórias de fadas possuem heróis, vilões, donzelas e príncipes, que agem e se orientam sob a mesma perspectiva moral que permeia a sociedade. A ambição é castigada; o bom e o justo são recompensados; os tiranos são destronados.

Além disso, o caráter fantástico e mirabolante das estórias de fadas pode proporcionar uma releitura crítica, se trazida ao mundo real. Alguns fatos que ocorrem no cotidiano, especialmente no cotidiano do jurista, nem sempre deveriam ser encarados como normais e aceitáveis. Neste diapasão, Tolkien (2010c, p.65) acredita que as estórias de fadas podem proporcionar essa visão mais aguçada e detalhista da realidade.

Deveríamos olhar o verde outra vez, e ser assombrados de novo (mas não cegados) pelo azul e amarelo e vermelho. Deveríamos encontrar o centauro e o dragão, e então talvez subitamente contemplar, como os antigos pastores, ovelhas, e cães, e cavalos – e lobos. Essa recuperação as estórias de fadas nos ajudam a fazer.

Desta maneira, será utilizada a obra de Tolkien, no intuito de expor de que forma o Direito pode ser utilizado com arbitrariedade, de forma a defender os interesses de uma classe específica em detrimento do bem comum e da própria pacificação social – teoricamente, sua finalidade precípua. Para tanto, faz-se necessária uma breve abordagem do autor e de sua obra.

3. Tolkien e seu Anel

Inicialmente, cumpre destacar a importância acadêmica de Tolkien e suas obras. De acordo com Carvalho (2007), além de estudarem seus livros, os leitores de Tolkien também se dedicam ao estudo do autor, sendo que ambos, autor e obra, são objetos de diversos trabalhos acadêmicos na Europa e na América do Norte. De acordo com Carvalho (2007, p. 32,33):

Em sua terra natal, a Inglaterra, o livro [O Senhor dos Anéis] é apreciado pela quase totalidade de seus leitores. Existem, na Europa, Canadá, Estados Unidos e muitos outros países, sociedades específicas para o estudo das obras e da vida de Tolkien. A primeira dessas sociedades é a Tolkien Society, fundada no ano de 1969, quando Tolkien ainda vivia. O grupo, formado por fãs de Tolkien e acadêmicos que se propuseram estudar o autor e suas obras, persiste até a atualidade e é o órgão que oficializa, no mundo inteiro, os estudos e outras sociedades que se dedicam a Tolkien, ou seja, os grupos associados a esta instituição formam, oficialmente, uma rede mundial de pesquisa sobre a vida e as obras do autor. A universidade de Oxford também possui uma sociedade de estudos da obra de Tolkien, a Taruithorn – The Oxford Tolkien Society que é igualmente filiada à Tolkien Society. Professor reconhecidamente importante e influente na produção literária inglesa, Tolkien é estudado até a atualidade como referencial literário e também na área de linguística, tendo em vista a criação das várias línguas da terra-Média. (…) Há muitos estudos monográficos e teses baseadas nas línguas que Tolkien criou, bem como no mundo fantástico da Terra-Média. A Tolkien Society mantém uma lista de teses, dissertações e artigos que têm como temática principal a vida e a obra de Tolkien e que são enviadas à sociedade para catalogação. Essa listagem apresenta vinte e oito teses e dissertações e quarenta e sete artigos. Tal número representa apenas os trabalhos que são enviados à Tolkien Society, ou seja, que ela tem conhecimento.

Conforme explica Carvalho (2007), Tolkien nasceu em 1892 na África do Sul e criado na Inglaterra, para onde se mudou após a morte de seu pai, Tolkien acompanhou de perto os avanços da sociedade capitalista industrial. Amante da natureza, jamais viu com bons olhos a automação industrial e as maquinarias tecnológicas. Veterano da Primeira Guerra Mundial, Tolkien também viu seus filhos mais velhos servirem na Segunda Grande Guerra, fato que o marcou profundamente. Desta forma, a busca desenfreada pelo Poder, a destruição de parte da Europa e a tecnologia empregada a serviço da matança são temáticas que refletiram na criação de toda a sua obra, mais especificamente no livro O Senhor dos Anéis; segundo Colbert (2002), alguns chegaram a afirmar que o Um Anel de Poder seria a representação da própria Bomba Atômica.

Apesar das diversas especulações realizadas pelos leitores à época de lançamento dos livros, o autor sempre negou qualquer mensagem oculta ou alegórica em seus livros. Porém, Tolkien (2006, p. 45) não descarta a influência que o contexto histórico em que vivia exerceu em sua obra, afirmando que “a escuridão dos dias atuais teve algum efeito sobre ela (sobre a história).”

Certamente, percebe-se que a temática do poder, embora presente na obra, seja um tema adjacente. Tolkien (2006, p. 250) afirma que “a história não é realmente sobre Poder e Domínio: isso apenas mantém as rodas girando”. Entretanto, ainda assim é um assunto que merece ser estudado, vez que o autor trata de forma singular sobre o lado negativo do poder sem controle.

No que se refere à obra de Tolkien, esta tem início, cronologicamente, no livro O Silmarillion.. Neste livro, conta-se a origem do mundo (a Terra-Média) e das raças criados por Tolkien. O livro também trata das primeiras guerras e da criação do Um Anel, personagem crucial em toda a obra. O livro seguinte é O Hobbit, escrito como uma história infantil, que trata do hobbit Bilbo e suas aventuras, bem como de seu primeiro contato com O Anel. Por fim, tem-se O Senhor dos Anéis, cuja temática central é o Anel, sendo que neste livro sua natureza e perigos são revelados aos leitores. Importante destacar que outras obras foram lançadas, tais quais Contos Inacabados, Histories of Middle-Earth e Os Filhos de Húrin, mas estas apenas ajudam a compreender de forma mais profunda as histórias já lançadas por Tolkien.

 Feitas estas considerações a respeito dos livros, tratar-se-á da narrativa em si. Ocorre que Sauron, um poderoso espírito angelical[5], foi dominado pela ambição e sucumbiu à maldade, causando diversos malefícios. Após uma guerra contra os demais espíritos angelicais, Sauron, inicialmente, mostrou-se arrependido. Todavia, seu orgulho falou mais alto e ele fugiu de sua punição, refugiando-se na Terra-Média. Detentor de uma aparência nobre e bela, tentou corromper os elfos, anões[6] e homens a seus propósitos malignos. Assim, adotando a alcunha de “senhor dos presentes”, tornou-se amigo dos elfos, enganando-os e fazendo com que estes construíssem Anéis de Poder, responsáveis por aumentar os poderes de seus usuários e, segundo Tolkien (2009, p.367) por “afastar os estragos do tempo e adiar o cansaço do mundo”.

Porém, em segredo, Sauron forja o Um Anel, mais poderoso que os demais criados pelos elfos. Este Um Anel é capaz de controlar os usuários dos demais Anéis, fazendo com que Sauron possa ler suas mentes e mesmo controlar suas vontades. Uma guerra se inicia, e uma aliança entre elfos e homens é formada; Sauron é derrotado, todavia, não é morto. Ocorre que Isildur, poderoso líder humano[7], se recusou a destruir o Um Anel e este era a fonte da força vital do vilão. Uma vez derrotado, Sauron fugiu e se ocultou do mundo, não sendo mais visto durante longas eras.

Quanto ao Anel, este foi reivindicado por Isildur como espólio de Guerra. Ocorre que por trazer em si a essência maligna de Sauron, o Anel desperta desejo e ambição nos corações das criaturas, agindo como se tivesse vida própria, prometendo a quem quer que o possuísse, vida longa, poder e riquezas. Todavia, o objetivo do Anel era retornar à mão de seu mestre, razão pela qual sempre acabava por trair suas promessas e desgraçar a vida de seus portadores. Com Isildur não foi diferente; este encontrou um fim amargo e, desde então, ninguém soube o paradeiro do Anel.

Séculos mais tarde, o hobbit Bilbo Bolseiro encontra o que julgou ser um simples anel mágico e o mantém guardado. Como avançar da idade, Bilbo presenteia o seu sobrinho Frodo com este anel. Desta forma, o sábio mago Gandalf, ao vislumbrar o anel de Frodo, descobre que este é na verdade o maligno Anel criado por Sauron. Neste ponto, o vilão Sauron já se encontra recuperado, ordenando seus exércitos que procurem o Anel perdido, que lhe trará poder absoluto. Desta forma, é decidido que Frodo deve destruir o Anel; para tanto, ele parte rumo à Mordor, terra de Sauron, pois apenas o fogo daquela terra possui poder de aniquilar o Anel. Para cumprir sua missão, Frodo é ajudado por diversas personagens, sendo que no decorrer da trama novos amigos e inimigos são apresentados ao leitor.

Personagem que merece destaque é Saruman, o branco, também conhecido como Curunír. Mago dotado de grande poder e sabedoria, é dominado pela ganância de poder, tornando-se um inimigo terrível para os povos da Terra-Média.

4. Saruman, o Branco

Em seu livro Contos Inacabados, Tolkien (2011) revela que, no intuito de auxiliar os povos livres em sua luta contra Sauron, os espíritos superiores enviam à Terra cinco magos (ou Istaris), dos quais Saruman é o líder. No referido livro, Tolkien (2011, p.427) descreve Saruman como um homem idoso, dotado de “ nobre semblante e porte, com cabelos negros e uma bela voz” trajando branco. “Tinha grande habilidade nos trabalhos das mãos, e era considerado (…) o chefe da Ordem.” Nesta apresentação, Saruman está disposto a lutar pela paz social, pelo bem da Terra-Média e cumprir sua missão de derrotar as forças malignas de Sauron.

Todavia, no livro O Senhor dos Anéis, Saruman é apresentado de forma diferente. Ocorre que, pesquisando sobre os Anéis de Poder e o Um Anel do vilão Sauron, o mago Saruman fica fascinado pelo objeto e passa a desejá-lo para si. Desta forma, cria seu próprio exército, destrói florestas e corrompe humanos, no intuito de obter o poderoso Anel e se tornar o novo Senhor do Escuro. Após ser revelado como um traidor, Saruman é descrito por Tolkien (2010b, p. 184) como

um velho, vestido num grande manto, cuja cor era difícil de definir, pois mudava se eles mexessem os olhos, ou se ele se movimentasse. O rosto era longo, com uma fronte alta; tinha olhos profundos e escuros, difíceis de se penetrar embora a expressão que agora tinham fosse grave e benevolente, além de um pouco cansada. Os cabelos e a barba eram brancos, mas mechas negras ainda se mostravam na altura dos lábios e das orelhas.

 Interessante destacar a mudança de cores que se opera no personagem. Tolkien (2010a, p. 274) descreve um diálogo entre Saruman e Gandalf, um dos magos engajados na destruição do vilão Sauron. Gandalf, relatando o encontro, assim diz:

 – ‘Eu gostava mais do branco’, disse eu. – ‘Branco’!, zombou ele. ‘Serve para começar. O pano branco pode ser tingido. Pode-se escrever sobre a página em branco; a luz branca pode ser decomposta’. -‘E nesse caso deixa de ser branca’, disse eu. ‘E aquele que quebra uma coisa para descobrir o que ela é deixou o caminho da sabedoria.

 Saruman se revela agora como um traidor. Não era um servo do vilão Sauron, sendo na verdade, um inimigo deste, pois desejava destruí-lo e tomar o seu lugar. Tolkien (2011, p. 428) diz que ele “decaiu da sua elevada missão, e, tornando-se orgulhoso, impaciente e apaixonado pelo poder, buscou fazer sua própria vontade pela força e desalojar Sauron.” (grifou-se).

Observe-se que a ruína de Saruman foi sua paixão pelo poder. Ele não almejava aliar-se a Sauron: seu objetivo era destruí-lo e instalar-se como um novo poder. Tolkien (2010a, p.274) explica, através do próprio mago branco:

 (…) precisamos de poder, poder para ordenar todas as coisas como queremos, para o bem que apenas os Sábios podem enxergar. (…) Um novo Poder se levanta. (…) Existe esperança por esse caminho. A vitória dele se aproxima, e haverá grandes recompensas para aqueles que o ajudarem. Enquanto o Poder crescer, os que se mostrarem seus amigos também crescerão; e os Sábios, (…) poderão, com paciência, vir finalmente a governar seus rumos, e a controlá-lo. Podemos esperar nossa hora, podemos guardar o que pensamos em nossos corações, talvez deplorando as maldades feitas incidentalmente, mas aprovando o propósito final e mais alto: Conhecimento, Liderança, Ordem; todas as coisas que até agora lutamos em vão para conseguir, mais atrapalhados que ajudados por nossos amigos fracos e inúteis. Não precisaria haver, e não haveria, qualquer mudança em nossos propósitos, só em nossos meios.

Importante ressaltar que na obra, Saruman é descrito como um orador impecável. Em O Senhor dos Anéis, quando sua derrota é contada, Tolkien (2010b) escreve de forma clara que o medo maior das personagens era da “Voz de Saruman” – uma voz doce, suave e persuasiva. Além de ser dotado de poder e magia, o mago possuía o dom da oratória e da argumentação. Porém, sobre o tema, Tolkien (2006, p. 264) esclarece:

 A voz de Saruman não era hipnótica, mas persuasiva. Aqueles que o escutavam não corriam perigo de entrar em um transe, mas de concordar com seus argumentos, enquanto totalmente despertos. Estavam sempre abertas à rejeição, por livre vontade e entendimento, tanto sua voz enquanto falava como suas impressões posteriores. Saruman corrompia os poderes de raciocínio.

 O mago branco é apresentado como detentor de um poder de argumentação sem igual, utilizando deste para tentar convencer os personagens a utilizar O Anel. De fato, Saruman acredita ser possível usar o Anel de poder para realizar seus propósitos de “conhecimento, liderança e ordem”.  O personagem, assim, lança uma importante questão: porque não usar o poder maligno do Anel?

Essas respostas são esclarecidas ao longo da obra de Tolkien. Os personagens dizem, em diversos momentos, que não é totalmente impossível que uso do Anel traga boas consequências. O receio dos personagens é que infelizmente o uso do Anel não pararia nas boas ações. Haveria mais. Devido a este caráter dual é que preferem não fazer uso dele, pois o preço a se pagar seria demasiadamente alto. Tolkien (2006, p. 316) afirma “era parte do engodo essencial do Anel encher as mentes com fantasias de poder supremo. Mas isso os Grandes haviam considerado muito bem e rejeitado”.

Desta forma, é revelado que os personagens refletiram profundamente a respeito da utilização do Anel como arma, concluindo que o melhor a fazer seria destruí-lo, vez que as consequências de sua utilização seriam desastrosas.  Desta forma, pode-se transferir as mensagens imbuídas na obra para a realidade no intuito de realizar uma análise reflexiva do Direito.

5. Saruman e o Direito de Várias Cores

Antes de realizar a análise proposta, faz-se necessário o esclarecimento do conceito de Direito. Nader (2010, p.44) propõe dois conceitos distintos: em sua dimensão positiva, o autor afirma que o Direito é o “conjunto de normas de conduta social, imposto coercitivamente pelo Estado, para a realização da segurança, segundo os princípios da justiça.” Em sua dimensão subjetiva, Nader (2010, p. 45) entende o Direito como o “poder de agir e de exigir, que o jus positum proporciona ao sujeito ativo de uma relação jurídica.”

Quanto a seu objetivo, Nader (2010, p. 46) informa:

 A teleologia do Direito é a da garantia das condições básicas de convivência social. Ainda que a função do Direito se amplie atualmente para atender ao bem-estar e progresso dos homens, a sua meta básica é a de promover a ordem na sociedade, e o valor do justo de que se ocupa é o que diz respeito apenas a essa ordem.

 Horn (2005, p. 35) parece concordar com esta afirmativa, vez que define o Direito como “a suma das normas gerais garantidas pelo Estado, para a justa regulamentação da vida humana em comum e para o apaziguamento justo de conflitos interpessoais de decisão.”

Os autores parecem acordar que o Direito é instrumento de paz social, responsável por defender o bem-comum do povo e manter a justiça e a ordem. Em outras palavras, pode-se dizer que o Direito foi concebido para promover boas ações, da mesma forma que o maligno Anel, conforme dito por Tolkien (2009, p.367), fora forjado com o objetivo aberto de “afastar os estragos do tempo e adiar o cansaço do mundo”. Todavia, importante verificar se o Direito, tal qual o Anel de Tolkien, origina efeitos diversos ao que se propõe.

Coelho (2003) afirma que o Direito é o “mais eficiente instrumento de controle dos comportamentos sociais no mundo contemporâneo.” Para o referido autor, o papel do Direito não é a promoção da paz social ou defesa do bem comum, mas:

 instrumento de ocultação daquela estrutural real e, mais ainda, de manipulação do imaginário social no sentido de manter como legítima a distribuição de quotas de poder na sociedade, evidentemente, assegurando os privilégios dos segmentos que detêm os instrumentos de produção e distribuição das riquezas sociais, bem como de gozo dos respectivos benefícios. (COELHO, 2003, p. 343)

Chauí (2004) adverte sobre este caráter elitista do Direito. Para a referida autora, o papel do Direito é camuflar o caráter violento da autoridade estatal, fazendo com que a autoridade do Estado pareça legítima e, portanto, de obediência obrigatória. Assim, o Direito faz parte de um aparato construído pela classe elitista dominante, defendendo os interesses desta referida classe. Chauí (2004, p.82 e 83) afirma que

Através do Estado, a classe dominante monta um aparelho de coerção e de repressão social que lhe permite exercer o poder sobre toda a sociedade, fazendo-a submeter-se às regras políticas. O grande instrumento do Estado é o Direito, isto é, o estabelecimento de leis que regulam as relações sociais em proveito dos dominantes. Através do Direito, o Estado aparece como legal, ou seja, como ‘Estado de direito’. O papel do Direito ou das leis é o de fazer com que a dominação não seja tida como uma violência, mas como legal, e por ser legal e não violenta deve ser aceita. Ora, se o Estado e o Direito fossem percebidos nessa sua realidade real, isto é, como instrumentos para o exercício consentido da violência, evidentemente ambos não seriam respeitados e os dominados se revoltariam. A função da ideologia consiste em impedir essa revolta fazendo com que o legal apareça para os homens como legítimo, isto é, como justo e bom.

Pode-se interpretar esta ideologia imposta, que define o Direito como agente de paz social, como o mesmo poder persuasivo de Saruman, que através da argumentação e da oratória procura convencer a todos de suas boas intenções. Tolkien (2010b), ao descrever a derrota de Saruman, afirma que os personagens temiam as palavras do mago, que pareciam tão acertadas e bem fundamentadas que seria impossível contradizê-las ou criticá-las. Desta forma, a ideia de que o direito é um agente de paz social e apenas isso parece estar  arraigada no imaginário social, que se curva ao poder do Estado sem questionar a justiça ou mesmo o benefício a ser originado pelo cumprimento da lei, conforma disserta Chauí (2004).

Importante salientar que, da mesma forma que Saruman promete utilizar o Anel para o “bem maior”, o Direito se mantém com o discurso de promoção do bem comum. Entretanto, da mesma forma que o Saruman age em defesa de seus interesses pessoais em detrimento do interesse coletivo, o Direito, segundo Coelho (2003 p.349):

não age por si, em virtude de hipotética potencialidade, mas torna-se instrumento de comunicação normativa, codificando a mensagem dos grupos microssociais hegemônicos e sendo decodificado pela macrossociedade. Muito embora possa considerar-se o direito como produzido por uma estrutura macrossocial, essa produção desdobra-se em outros níveis de produção e reprodução, sendo que a operacionalização desse processo ocorre por meio de atores sociais precisos, que são os magistrados, procuradores, promotores, fiscais, delegados, advogados, etc., apoiados por toda a teia de funcionários da administração pública. Esses operadores são os agentes que manipulam a ideologia jurídica a serviço do poder hegemônico, as mais das vezes inconscientemente.

O Direito age, portanto, em benefício de um poder hegemônico, composto em sua maioria pelas classes elitizadas, conforme afirma Coelho (2003).  Assim, utilizando o pretexto de prezar unicamente pela paz social, além de defender interesses estranhos ao bem comum do povo, o Direito adquire validade e legitimidade, na medida em que se porta como fenômeno atemporal, de caráter físico e existência real. Coelho (2003, p. 351) corrobora deste entendimento, afirmando que

O direito (…) passa então a constituir um conjunto de mitos elaborados pela doutrina jurídica através da história, consagrados nas normas e aceitos pelo senso comum como se correspondessem à realidade do homem e da sociedade. (…) Assim, o direito e as instituições não são vistos como criações intelectuais, ou mesmo práticas sociais, mas como algo objetivo que em momento algum é questionado em seu verdadeiro ser.

Coelho (2003, p. 352, 353) prossegue, exemplificando de que forma os institutos jurídicos legitimam situações que fogem à suposta teleologia da paz social:

A empresa, em sentido jurídico, (…) dissimula as condições reais da atividade econômica que só se mantém pela exploração do homem pelo homem e, muitas vezes, manifestam-se sob a forma de escândalos financeiros que privilegiam ainda mais os ricos e poderosos em detrimento do povo. (…) Há o mito da personalidade jurídica, reforçado pelas teorias, grandemente prestigiadas pela dogmática do direito civil, que lhe atribuem a realidade social, como a teoria da instituição e a esdrúxula teoria da realidade técnica. (…) Mas o grande mito do direito privado, que facilmente se presta à manipulação ideológica, é a noção civilista da autonomia da vontade, erigida em princípio geral, pressuposto essencial dos contratos e fundamentos de toda a teoria das obrigações. (…) É evidente que, na civilização capitalista, cristã e ocidental, (…)  a vontade individual não é livre, mas influenciada no sentido de consumismo, das cláusulas de adesão, da imposição do preço para atender aos interesses de quem tem o poder de manipular as regras do direito.

Streck (2005) afirma que no Brasil, “ocorre uma disfuncionalidade do Direito e das Instituições encarregadas de aplicar a Lei.” Assim, embora os governantes devam observar as normas legais no intuito de proteger e defender o bem comum do povo, finalidade precípua do Estado, isto não ocorre. Segundo Streck (2005, p. 34) a razão disto é que

a dogmática jurídica coloca à disposição do operador um prêt-à-porter significativo contendo uma resposta pronta e rápida! Mas (…) quando Caio (sic) participa de uma “quebradeira” de bancos, causando desfalques de bilhões de dólares (como no caso do Banco Nacional, Bamerindus, Econômico, Coroa-Brastel, etc.), os juristas só conseguem “pensar” o problema a partir da ótica forjada no modo liberal-individualista-normativista de produção de Direito.

Observe-se que, portanto, não há uma defesa real do bem comum do povo. O jurista é educado para pensar a questão a partir da ótica positivista, aplicando a lei de forma cega, sem se ater aos impactos sociais a serem originados a partir disto. E vez que a lei, conforme exposto por Coelho (2003) tende a beneficiar uma classe específica, a simples aplicação desta foge aos anseios da pacificação social e bem comum do povo. Streck (2005, p.35) exemplifica de que forma isso ocorre, ao falar dos chamados “crimes de colarinho branco[8]”:

os resultado são assustadores, bastando, para tanto, examinar a pesquisa realizada pela Procuradora da República Ela Castilho, cujos dados dão conta de que, de 1986 a 1995, somente 5 dos 682 supostos crimes financeiros apurados pelo Banco Central resultaram em condenações em primeira instância na Justiça Federal. A pesquisa revela, ainda, que 9 dos 682 casos apurados pelo Banco Central também sofreram condenações nos tribunais superiores. Porém – e isso é de extrema relevância – nenhum dos 19 réus condenados por crime de colarinho branco foi para a cadeia! A pesquisa em questão ressalta, ainda, que o número de 682 casos apurados é extremamente pífio, em face dos milhares de casos de crimes do colarinho branco que ocorrem a todo ano no país!

Campos (2003, p.158), afirma que o direito penal brasileiro atua de forma estritamente seletiva, tanto no que se refere ao agente do crime quanto ao bem jurídico tutelado. A referida autora afirma que o sistema penal

destina-se majoritariamente a perseguir as pessoas pobres e os delitos cometidos por  essas pessoas, como delitos contra o patrimônio, homicídios, roubos, deixando praticamente intacta a perseguição dos delitos cometidos pelos poderosos, os denominados “crimes do colarinho branco”

Assim, vez que tais crimes tendem a serem cometidos por cidadãos pertencentes às classes mais abastadas, os interesses destes meliantes específicos são preservados em detrimento do bem comum do povo, vez que o dinheiro público furtado poderia ser revestido em benefício da população em geral. Vislumbra-se neste ponto o mesmo objetivo de Saruman, o mago da obra de Tolkien. Ele objetiva tomar o Anel e realizar “boas” condutas, desde que essas boas condutas se adequem aos seus interesses particulares. Tolkien (2006, p.236) compreende perfeitamente esta ideia de utilização do poder em benefício próprio.

Não sou um “democrata” apenas porque a “humildade” e a igualdade são princípios espirituais corrompidos pela tentativa de mecanizar e formalizá-los, com o resultado de que conseguimos não pequenez e humildade universais, mas grandeza e orgulho universais, até que algum Orc apodere-se de um anel de poder — e então recebemos e estamos recebendo a escravidão.

Destarte, percebe-se que há muito mais para se ver além das normas positivistas que proclamam a paz social. O Direito possui sim uma face oculta, que, visando proteger a interesses hegemônicos, pode vir a causar malefícios à sociedade. Coelho (2003, p. 355) adverte a respeito deste suposto bem comum tutelado pelo Direito:

uma imagem ideológica comum, a de que o direito é, a de que ele consiste em algo que possa ser definido no plano teórico e, mais ainda, de que se trata de algo fundamentalmente bom ou, pelo menos, eticamente inquestionável em seus fundamentos essenciais.

Neste sentido, o Direito se mostra mais perigoso que o Um Anel, pois Tolkien (2006, p. 316) diz que “apesar de Sauron multiplicar […] o mal, ele deixava o ‘bem’ claramente distinguível dele.” Assim, Tolkien (2006) demonstra conhecimento do caráter oculto do poder, de mascará-lo e de fazê-lo parecer algo bom. Exemplificando tal ideia, Tolkien (2006, p. 316) informa que

Gandalf como Senhor do Anel teria sido muito pior que Sauron. Ele teria permanecido “justo”, mas farisaico. Teria continuado a governar e ordenar as coisas para o “bem” e o benefício de seus subordinados de acordo com sua sabedoria (que era e teria permanecido grande).

Conforme o que foi exposto, compreende-se o porque da não utilização do Anel como arma, já que, de acordo com Tolkien (2006, p. 95) “Você não pode enfrentar o Inimigo com o Anel dele sem se tornar um Inimigo”. Assim, através da instrumentalização de uma obra literária como objeto de estudo, verifica-se a existência de uma teleologia oculta do Direito, que, tal qual Saruman, o mago branco, utiliza o discurso do bem comum e da pacificação social para esconder objetivos não tão nobres, favorecendo classes específicas em detrimento do interesse social.

6. Considerações Finais

O Direito é um instrumento de paz social. Mas não apenas. Diante do exposto, pôde-se demonstrar que a literatura, e sobretudo a literatura fantástica, pode ser utilizada como instrumento de análise do Direito, vez que permite uma interpretação livre e equidistante, permitindo a identificação de fatos que ocorrem no mundo real com aqueles ocorridos nas narrativas fantásticas.

Nesta perspectiva, utilizou-se a obra de Tolkien e o personagem Saruman, criado pelo mesmo autor, para analisar se a finalidade precípua do Direito é única e exclusivamente a pacificação social. Ocorre que o Ordenamento Jurídico não raras vezes tem sua finalidade precípua desvirtuada, permitindo a ocorrência de arbitrariedades e injustiças. Desta forma, objetivou-se com o presente trabalho convocar uma reflexão crítica, vislumbrando o Direito a partir de uma ótica literária equidistante e, ao mesmo tempo, próxima à realidade jurídica, no intuito de demonstrar que o mesmo instrumento de defesa da paz social pode ser utilizado como legitimador de injustiças, ocultas sob a máscara do bem comum.

Propôs-se um afastamento da realidade cotidiana jurídica, para que, com o auxílio de uma obra fantástica, fosse possível vislumbrar situações corriqueiras sob o disfarce de Saruman e suas muitas cores. O personagem em questão foi eleito pelo motivo de que seu discurso defensor do “conhecimento, liderança e ordem” oculta em si uma finalidade específica, qual seja, defender seus próprios interesses particulares sob o pretexto de defesa do bem comum de todos. Tal aspecto relaciona-se diretamente com o objetivo do Direito, qual seja, pacificação social, finalidade que também oculta a defesa de interesses particulares de classes mais abastadas..

 Com o auxílio da literatura fantástica, identificou-se uma finalidade dúplice do Direito: a defesa da paz social e a defesa de interesses particulares das classes dominantes. Verificou-se assim, que embora haja uma preocupação verdadeira em preservar a harmonia social, o Direito também permite a ocorrência de desvios em sua finalidade, vez que a lei pode ser (e é) utilizada para beneficiar particulares.

Referências Bibliográficas

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_______________.  Sobre Histórias de Fadas. São Paulo: Conrad, 2010c.


[1] Aluna no 9º período matutino do curso de Direito das Faculdades Santo Agostinho. Membro do Programa Especial de Tutoria – PET, desenvolvido pelas Faculdades Santo Agostinho no ano de 2013. E-mail: amandai040@gmail.com

[2] Palavra adotada na tradução de Reinaldo José Lopes, em observância ao termo utilizado no original em inglês, Faerie. Refere-se ao reino da fantasia.

[3] Na obra de Tolkien, os elfos são a primeira raça de seres vivos criada por Deus. São descritos como criaturas altas, belas, de porte nobre e grande sabedoria.

[4] Na obra de Tolkien, os hobbits são seres diminutos, com metade da altura de um humano normal. São brincalhões, apreciam boa comida e bebida e gostam do labor rural. A maioria é descrita como tendo cabelos cacheados , semblante simpático e alegre e pés peludos.

[5] Na obra de Tolkien, diversos são os espíritos superiores que auxiliam a gestão da Terra-Média. Tem-se os  Anuir, divididos em Valar e Maiar, que por sua vez se dividem em outros, respectivamente. Para efeitos deste trabalho, tratar-se-á de todos os tipos de espíritos superiores com a expressão “espíritos angelicais”.

[6] Na obra de Tolkien, os anões são uma raça de baixa estatura, longas barbas e natureza teimosa. São exímios mineradores, peritos nos trabalhos com pedras preciosas.

[7] Isildur é filho do rei Elendil, do reino de Gondor. São descentendes dos numenorianos, importantes homens do Oeste que outrora tiveram um reino belo e próspero, posteriormente arruinado. Maiores detalhes em O Silmarillion.

8 No campo da criminologia, este tipo de crime foi  definido como aquele cometido por uma pessoa respeitável, e de alta posição social, no exercício de suas ocupações. Duas características são marcantes nestes crimes: a privilegiada posição social do agente e a estreita relação da atividade criminosa com sua profissão.

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2 comentários

  1. Gildo Cravo Batinga Neto /

    Adorei! Podemos dizer que ideologias são as ditaduras do saber, qualquer conhecimento e justificativa deve ser provado e comprovado na realidade dos fatos para afastarmos esse mau.

  2. Matheus Zarpellon /

    Sensacional ! *–*

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