Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Entrevista com J.R.R.Tolkien em 1961

Em Junho de 1961, Lars Gustafsson, um escritor sueco, teve o privilégio de entrevistar pessoalmente, ninguém menos que J.R.R.Tolkien. Essa entrevista permaneceu praticamente esquecida entre os estudiosos de Tolkien, especialmente porque estava na língua sueca e não havia versão em Inglês, mas em fevereiro de 2012, foi postado no blog pessoal do Lars Gustafsson a entrevista na integra e em inglês.

Lars Gustafsson (Vasteras, 1936) é um poeta, filósofo e romancista sueco. Conhecido por ser um dos mais prolíficos escritores da Suécia, tendo suas obras traduzidas em mais de 15 países. No Brasil, seus livros traduzidos são: Sigismundo (1990), História com cão (1996), A morte de um apicultor (2001), A amante colombiana (2001)

Esse é o segundo texto publicado no Tolkien Brasil em que apresentamos de uma forma inédita e exclusiva em Português escritos ou falas do professor J.R.R.Tolkien. Nos sentimos honrados em poder trazer ao nosso público mais este trabalho e agradecemos ao Lars Gustafsson por gentilmente ceder os direitos para publicação da entrevista.

O texto original pode ser encontrado no blog pessoal de Lars Gustafsson, com data de publicação de 12 de fevereiro de 2012 (veja  http://larsgustafssonblog.blogspot.com.br/2012/02/interview-with-r-r-tolkien-from-oxford.html). A tradução para o Português foi feita por Eduardo Stark.

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Nota de Lars Gustafsson:

Alguns dos meus amigos no facebook recentemente expressaram um desejo em ver a minha entrevista com Tolkien, publicada no Dagens Nyheter, em agosto de 1961, com o título – não escolhido por mim -“Den besynnerlige Professor Tolkien” (que significa “O Peculiar Professor Tolkien” ou  “Tolkien, o professor Peculiar”.

O Sr. Morgan Thomsen recentemente traduziu meu original em Inglês para a Tolkien Studies, University of Wester Virginia. (Segundo nota do Tolkien Index, essa entrevista foi editada com uma introdução de  Morgan Thomsen e Shaun Gunner  para o periódico Tolkien Studies (West Virginia University Press). A tradução para o Inglês foi na verdade feita por John-Henri Holmberg).

Den_besynnerlige_professor_Tolkien

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Na minha frente está um homem sentado em uma sala transbordando livros, pinturas, diversos itens estranhos, pilhas de manuscritos e ornamentos vitorianos. Seus traços são tão nítidos que ele se  assemelha a um pássaro de rapina, ou talvez algum tipo de troll. Seus olhos também são como os de uma ave de rapina, a única parte dele  que não envelheceu, neles há uma vigilância rápida, talvez também uma certa desconfiança. Os olhos timidamente se agitam ao longe ou de repente aprofundam em tudo o que ele está olhando com um enorme foco.

Ele fala com uma voz abafada, com um cachimbo constantemente em sua boca. Falar com ele te deixa nervoso, ouvir suas palavras faz você ficar preocupado.  Ele é um ser humano totalmente único.  Ele pode servir como uma alerta aos contadores de histórias que tomam um passo longe demais, envolvendo-se profundamente com o seu conto, mas ele também pode ser um modelo para todos aqueles que queiram criar histórias, pois nelas pode-se encontrar uma concretude, uma clareza alucinatória entrando nos sonhos de seus leitores, dando uma nova cor a todos os que vêem. E ainda assim são apenas contos de fadas.

John Ronald Reuel Tolkien, exceção e excentricidade, o último contador de história da Inglaterra e do mundo,  ou talvez o seu primeiro em muito tempo, sentado a minha frente em sua casa, nos arredores de Oxford, diz:

 “Por muitos anos eu escrevi sem publicar uma palavra. Agora que eu finalmente comecei a publicar, isso me traz nada além de inconveniência. Há tantas cartas, pacotes inteiros de cartas de pessoas que acreditam que sabem melhor do que eu como minha história deveria ser interpretada,  pessoas que querem encontrar provas para sua crença na reencarnação, e eu não sei mais o quê.  Alguns tentam ler os meus livros como alegoria. Acreditam que eles sejam sobre o conflito entre Oriente e Ocidente, e alguns me enviam as suas próprias ilustrações e sugestões para melhorias. É como se todos quisessem fazer parte disso. Sim, é estranho para um velho filólogo entrar no mundo literário “.

Um velho filólogo, certamente. Tolkien é um professor aposentado de filologia Céltica em Oxford, de uma família saxã, filho de um bancário Inglês na África do Sul, um eminente estudioso do Céltico e sagas da Islândia, dialetos do Médio Inglês, e a língua céltica. O que o transformou em uma  literatura súbita, emergente, diferente e irritante, foi o fato de que há alguns anos,  publicou milhares de páginas de um longo épico conto de fadas, O Senhor dos Anéis.  Dois volumes de O Senhor dos Anéis já foram traduzidos para o sueco, e em geral  tem desfrutado de um sucesso esmagador, quase como se o que ele escreveu  fosse uma resposta a alguma necessidade. Ele ainda está sendo traduzido para o polonês e resenhas têm oscilado entre o fascínio  e a aversão irritada.

O conto de fadas escrito por Tolkien é muito estranho, pois é como se fosse um complicado labirinto gigante, em um caminho sinuoso através de três grossos volumes. É bizarro, escuro, violento e em partes tão levemente idílicas que ao se ler parece poesia, está escrito em uma prosa poderosa rígida, ligeiramente antiga e pedante. Isso torna a leitura fácil, uma vez que é extremamente interessante, e o seu carácter global o torna extraordinariamente difícil de se descrever. Pode-se dizer que está ligada a uma tradição que não esteja representada na literatura desde Beowulf e o Kalevala, e ainda não há nada sobre o assunto sugerindo pastiche, nada de uma câmara literária de curiosidades. É arcaico, não antiquado. E, acima de tudo, é uma amostra de ambos extraordinariamente poderosa e, em partes, profunda narração.

Em um trabalho acadêmico sobre Beowulf, escrito em 1939, Tolkien afirma que o que é absurdo e bizarro no conto não é devido à ignorância ou a barbárie do autor desconhecido, mas simplesmente um artifício, um estilo proposital. Beowulf com a sua técnica narrativa peculiar, onde os acontecimentos históricos aparentemente significativos são empurradas para a periferia, enquanto as batalhas fantásticas com dragões ocupam o centro, onde o monstro é empilhado em cima do monstro, na visão de Tolkien é uma obra totalmente proposital de arte, e sua estrutura torna uma ferramenta eficaz para ilustrar fundamentos morais, a coragem, a dúvida, a solidão, a luta entre o bem eo mal.

Esse ponto de vista é altamente aplicável ao próprio conto de fadas de Tolkien. Está ambientado em um mundo arcaico distante e desconhecido com  outros países, montanhas, oceanos e continentes.  A perspectiva é imensa, historicamente. O arco central da história trata de uma imensa luta pelo poder entre povos e países, onde um anel perdido de enorme poder mágico desempenha o papel principal.

Os seres são apresentados como estranhos e fascinantes assim como as paisagens, e são retratados com a mesma clareza alucinatória. Há seres humanos, cavaleiros e guerreiros, mas estilizados como as peças de um jogo de xadrez gótico. Os verdadeiros atores, dadas as características individuais,são  todos os tipos de criaturas mágicas, mal ou bem. Existem trolls, anões, um povo de criaturas amigáveis e amavelmente idílicas com dois pés chamados hobbits, há uma espécie de antigos gigantes de árvore, e  há também repugnantes  famintos humanoides, e demônios fantasmagóricos flutuam no ar noturno espalhando sua frieza para todos os seres vivos. Seu mestre é um ser de mal condensado que visa sempre conquistar o mundo.

A história está centrada em um pequeno e insignificante hobbit, que vai assumir totalmente a responsabilidade pela vitória do bem. É um conto de responsabilidade, de alguém submetido a um teste sobre-humana, uma mensagem enviada a nós de um tempo arcaico indefinido em um mundo bizarro, mas retratada de forma tão transparente e claramente que nós percebemos a sua validade, a impossibilidade de se assumir uma responsabilidade, de ser um herói.

Tolkien

Em algumas partes, o conto de fadas é assustador e patologicamente cruel, mas além disso é fascinante já que cada cena é incrivelmente claramente visualizada. Montanhas e cidades, florestas e lagos aparecem diante dos olhos do leitor, como se  fosse magia. Você pode sentir as pedras pressionando contra seus pés ao longo das estradas no mundo do conto de fadas, e acredita ouvir o vento nas árvores que nunca existiram.

Tolkien ainda consegue evocar a sensação de passado. Em cada palavra proferida, há o peso de um passado sombrio e fatal, uma história ou pré-história tão cheia de histórias sombrias e encantadora como o que você está lendo, tão cheio de luta interminável entre mal e a bravura, de grandes provações e fracassos. E enquanto a história com suas aventuras, prodígios e batalhas segue o seu caminho, você está preenchido com a sensação de uma espécie de infinito, não há fim. É uma tour-de-force (habilidade) da imaginação, e mostra-lhe o quanto pode ser perigosa a força quase extra-humana da imaginação.

O aspecto mais fascinante do conto de fadas é a sua consistência distinta. Tudo é considerado, cada parte da história aponta  para o mesmo centro: a experiência de realizar uma responsabilidade desarrazoada. Uma faceta do conto é que ele faz dos atores partes da situação em que eles estão envolvidos. No final, você se sente mais como se tivesse assistindo a um jogo do que ouvindo uma história.

Tudo o que Tolkien escreve parece permeado por um pessimismo fundamental; suas  percepções sobre o poder e traição nos convence, o homem está preso em uma teia desarrazoada de interconexões.

O velho cavalheiro com os olhos penetrantes e sobrancelhas espessas me olha com desconfiança antes de decidir me dizer algo a mais.

 “É tudo sobre o poder, é claro, e sobre a virtude lutando contra o poder. A história é sobre uma criatura insignificante submetida a um teste transcendendo suas habilidades, e sobre como isso o mudou, como ele tirou a força de dentro dele.”

 E depois de mais um momento de reflexão, com muitas fumaças do seu cachimbo:

Claro que é uma história pessimista. Eu tentei fazer isso atemporal, para mostrar que o mal é atemporal, que o bem sempre prevalece. “

Quando Tolkien começou a escrever? E como ele chegou com essa ideia estranha?

Tudo começou com idiomas. Fiquei internado durante a Primeira Guerra Mundial [ou, dada a sua idade, possivelmente a “Grande Guerra” JH] e passei o meu tempo lendo o Kalevala. E então eu tive a idaia de tentar fazer tudo, veja você, escrever o meu próprio conto de fadas. Mas teria uma atmosfera diferente,um sentimento completamente diferente daquele fornecido pelos nomes finlandeses.  Com a ajuda de uma língua que eu mesmo fiz, eu inventei novos nomes individuais. Escrever contos de fadas e inventar linguagens foram dois passatempos favoritos da minha infância. Os nomes me deram ideias e visões. E tenho continuado desde então. “

 “É assim que eu trabalho

E ele joga ligantes no chão na frente dos meus pés, mapas, esboços, uma fotografia da última erupção do vulcão Hekla (“tais coisas me interessam”), aquarelas, quadros talentosos que ajudaram a manter o controle dos múltiplos personagens e acontecimentos em sua história, diagramas que mostram os movimentos de exércitos no campo de batalha.

 “O conto não está terminado, e é mais longo do que você acredita, muito mais longo. Você deve se lembrar que eu estou escrevendo desde 1917.

 E, em um canto do seu quarto, ele me mostra uma enorme pilha de manuscritos em pastas, o que eu não tinha notado antes. O que foi publicado até agora compreende cerca de três mil páginas. Nesta sala, ele mantém em torno de cinqüenta mil! Por um momento, eu sinto todo o meu poder de compreensão cair: como isso pode ser possível? É verdade que o Professor Tolkien está perdido em um mundo de seus próprios contos de fadas desde 1917, mudo e cego por uma imaginação semelhante a uma força da natureza? Ou entendi errado?

Eu não entendi errado.

O que eu tenho publicado, você vê, é apenas uma parte de um conto muito maior. É muito longo, abrangendo cerca de mil anos. E há tantas histórias. Minha ideia é publicar a maior parte dele antes de morrer, se alguém estiver interessado nisso. Como um todo, torna-se uma espécie de história. Eu também tentei levar a história em frente no tempo, mas eu não poderia. “

Por que não?

Tornou-se tão escuro que me assustou.”

Eu realmente me pergunto como aquele conto de fadas poderia ter um fim. O que já tinha lido é por vezes extremamente assustador e sombrio. E ele me conta uma pequena parte do conto inédito e suas mudanças de caráter como ele diz. Seus olhos se tornam mais amigáveis, quase cintilantes. Ele pára tão de repente como começou:

Bem, há tantas histórias.”

 “” – ele continua usando o modo indicativo, como se tudo isso realmente tivesse acontecido. Para ele, o conto de fadas não é literatura, é a vida, crescendo através dele como uma árvore através de uma rocha.

E eu suspeito que ele o considera mais real do que ele gostaria de admitir. O Professor Tolkien é realmente um homem estranho.

O que me assusta mais é a sensação de profundidade, a sensação de ele ter profundidades ilimitadas da história para tirar, ou parecendo ter. Seu problema não parece ser o de outros autores, o de encontrar uma história. Obviamente ele está lutando para não ser afogado por histórias, cativo é esta multidão absurda.

É claro, alguns disseram que eu sou algum tipo de escapista, que eu permaneci em algum tipo de estágio de infância prolongada. Mas para escrever isso, não é que apenas uma instância simples, simplesmente desamor? “[Se não for isso, eu suspeito que Tolkien poderia ter usado” falta de caridade “. JH]

Por último ele me trouxe para a janela e me mostrou uma grande árvore, uma bétula. Em algum momento durante o seu crescimento de uma parede forçou-o de lado. Agora o porta-malas cresceu em uma curva estranha e distorcida e inclinada.

 PARA COMPLEMENTAR, VEJA ESSA ENTREVISTA:

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