Saiba mais sobre O Hobbit, Senhor dos Anéis…

Entrevista com o ilustrador Jef Murray!

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Entrevistamos o artista Jef Murray, a tradução foi feita por Sérgio Ramos.O Jef não é apenas um entrevistado, mas o consideramos como um colaborador constante do site Tolkien Brasil em diversos assuntos, de tal forma que é uma alegria publicarmos essa entrevista.

Jef Murray (www.jefmurray.com) é um artista, autor e ilustrador internacionalmente conhecido. Suas pinturas, desenhos e escritos aparecem em publicações de fantasia e jornais culturais ao redor do mundo. Sua arte estrelou calendários, cursos em vídeo e especiais para a televisão sobre J. R. R. Tolkien, e suas pinturas e desenhos foram expostos nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e Holanda. Seu primeiro livro de contos, poesia e ponderações, Seer: A Wizard´s Journal (Vidente: Jornal de um Mago) foi publicado pela Oloris Publishing em 2012.

 

1.      Conte-me acerca de sua vida

 

Eu nasci em Melbourne, Florida, nos Estados Unidos, mas passei grande parte da infância no norte da Geórgia, aos pés das Montanhas Apalaches. Estas são, a propósito, as montanhas mais velhas do mundo, e elas ainda guardam inúmeros mistérios; me sinto abençoado por ter sido criado em local tão selvagem!

Fui educado em Atlanta e trabalhei no mundo dos negócios/engenharia por quase duas décadas antes de voltar atrás e começar a explorar as questões mais profundas; sobre a vida, sobre a arte, sobre mistério e magia…

2. Quando você começou a pintar?

Eu levei a sério as aulas de arte de estúdio primeiro na faculdade, mas tinha que fazer isso em segredo. As aulas de arte não eram nem mesmo assim chamadas no Instituto de Tecnologia da Geórgia; elas eram chamadas de cursos de “comunicações visuais”. E eu era um dos poucos não arquitetos a fazê-las. Mas, mesmo nos meus dias de engenheiro, eu desenhava e esboçava, fazia trabalhos com caneta e tinta, e criei minha companhia de design de logomarcas. Eu só comecei a pintar em meados dos anos 80, quando eu fiz aulas de pintura a óleo na Faculdade de Arte de Atlanta (agora chamada Faculdade de Design e Arte Savannah). Continuei pintando desde então, mas profissionalmente eu comecei em 1999.

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3.      Quando você teve o primeiro contato com os trabalhos de Tolkien?

 

A primeira lembrança que eu tenho é de minha mãe lendo O Hobbit para mim quando eu estava na 2ª série. Ela recitava um capítulo por noite para mim e meu irmão mais novo como estória de dormir, junto com capítulos dos contos de Nárnia; e desde então eu confundia os dois naquele reino encantado e misterioso de glamour infantil que é a lembrança.

Nós também soubemos, naquele tempo, que havia uma sequência para O Hobbit, mas que não tínhamos idade suficiente para ler antes de dormir. Felizmente, neste ponto, minha mãe estava certíssima; os pesadelos que poderiam ter acontecido se ela tivesse se deixado levar por nossos protestos seriam de proporções épicas! O que a minha imaginação infantil teria conjurado sobre ela lendo acerca dos Espectros do Anel, eu prefiro nem pensar!

Mas, finalmente, eu peguei O Senhor Dos Anéis no colegial e, como tantos outros, me apaixonei por aquele mundo mais encorpado que Tolkien havia criado. Isso foi mais estimulado pois, como falei, meu colegial foi realizado aos pés das Montanhas Apalaches, e para ultrapassar o Limiar do Selvagem, tudo que eu tinha que fazer era mergulhar na floresta que rodeava o campus.

No entanto, eu não sinto que realmente entendia e apreciava O Senhor Dos Anéis e O Silmarillion até voltar a ambos os mundos já adulto. E, como em muitas histórias clássicas, cada releitura subsequente me ensina um pouco mais sobre mim mesmo, sobre o grande mundo lá fora, sobre a natureza da vida e mistério; porque a cada leitura eu me aproximo dos textos como uma pessoa diferente.

 

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4.      O que você aprecia nos trabalhos de Tolkien?

 

Há muitos locais e pessoas maravilhosas no legendarium de Tolkien para que eu possa dar uma resposta adequada, então deixe-me virar sua pergunta de cabeça para baixo e sugerir cenas que não me inspiram.

Através de seus escritos, Tolkien adota o ponto de vista dos povos livres que escolheram se opor e superar a maldade, a vontade de poder, ódio, ao invés de tomar a perspectiva dos aliados do mal. Nós tipicamente só “entramos na cabeça” dos personagens degenerados e corrompidos (Morgoth, Sauron, o Rei dos Bruxos, Smaug, Saruman, os orcs, etc.) através das experiências, perspicácia e conselhos dos Sábios; e mesmo nesses casos, fica claro que eles estão expressando suas melhores impressões de como o Inimigo opera, ao invés de um entendimento pessoal íntimo dos trabalhos do mal.

Então, Tolkien pega o lado que eu creio ser aquele que todos nós devamos tomar, que é o das pessoas falíveis, apesar de decentes, lutando contra o mal. Ele não chafurda em cenas e imagens horríveis, embora eventos horríveis estejam certamente retratados em seus escritos. Na verdade, ele transita pela esperança, perseverança, na fé, na honra e no amor.

Como resultado do próprio posicionamento de Tolkien, eu raramente pintei ou desenhei uma cena da Terra-Média que fosse deliberadamente feia, sinistra ou que eu tivesse a intenção de glorificar ou honrar o poder ou triunfo do mal. Eu espero seguir Tolkien no caminho da luz brilhante, da vida, e da profunda ânsia que temos pelo bem, pela verdade e as coisas belas.

E, como eu disse, os contos de Tolkien estão impregnados de cenas que permitem a um artista retransmitir: florestas outonais e névoas matinais espumantes; as colinas onduladas do Condado; as planícies arrebatadoras de Rohan; os picos escarpados das Montanhas Sombrias; a beleza do povo élfico e suas moradas; o valor dos Dúnedain; a agudeza da luta resoluta contra adversidades esmagadoras; a paz que vem com o reconhecimento da fraqueza e da necessidade de ajuda de uma Providência maior.

Essas são as coisas que eram importantes para Tolkien, e são as coisas que são importantes para mim como artista.

 

5.      O que você acha dos filmes de Peter Jackson?

 

Quando eu penso no trabalho de Peter Jackson, eu lembro do poema infantil de Henry Wadsworth Longfellow que diz assim:

“Havia uma garotinha

Que tinha um cachinho

Bem no meio de sua testa.

Quando ela era boa,

Ela era muito boa,

Mas quando ela era má, ela era horrível.”

Existem muitas e muitas coisas que Jackson e outros escritores e artistas contribuíram para suas versões de O Senhor Dos Anéis e O Hobbit que foram fantásticas e cheias de magia. Mas, houve tantas outras coisas, penso eu, que foram horríveis. Alguns aspectos da nobreza original dos contos parecem ter sido estupidificados, sensacionalizados e algumas vezes apenas confundidos.

É claro que não podemos julgar O Hobbit completamente ainda, pois só conferimos a primeira parte, mas esta, para mim, não fez jus ao amado conto infantil que fez parte do crescimento de tantos de nós. Quanto a OSdA, receio que muita liberdade foi tomada com a estória, e muita ênfase foi dada a cenas de perseguição, batalhas, e uma obsessão com imagens chocantes que tangenciam ou glorificam o mal, a feiura e o horror; e isso, às vezes, com a exclusão da esperança, honra, auto sacrifício, lealdade e tantas outras qualidades com as quais Tolkien deliberadamente despejou em seus personagens.

Mas, O Hobbit pode se redimir – nós só podemos esperar e rezar!

 

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6.      Qual seu personagem preferido da Terra-Média?

 

Novamente, não há resposta simples a essa pergunta. Os personagens de Tolkien raramente são muito simples; eles geralmente exibem profundidade em sabedoria, nuance, bom humor, vaidade, humildade, inteligência. Eles passam por uma gama de personagens difíceis, confusos, e criaturas comprometidas como Gollum até seres profundos e sábios como os Valar. E Tolkien, de forma convincente, cria não apenas uma multitude de raças, mas de uma grande variedade dentro de cada raça, então escolher ainda que um punhado de personagens favoritos é difícil.

Dito isso, como a maioria, sou muito atraído pelos Hobbits em particular, porque eles parecem dispor das melhores qualidades de bondade, solidez, sensibilidade; não são altos aristocratas, mas almas simples com quem você amaria dividir uma refeição e uma bebida. Os outros personagens que me intrigam são os Istari, os magos. Como anjos encarnados, eles constroem uma ponte, de alguma forma, entre a humanidade caída e o mundo espiritual, e apesar disso são, também, vulneráveis à corrupção e engano.

Um personagem favorito meu, em particular, e que quase não é mencionado nos trabalhos de Tolkien, é Alatar, um dos Magos Azuis que “foram para o leste”. Eu sempre fico intrigado quando Tolkien deixa para o leitor se perguntar acerca de personagens que ele mesmo deixou em aberto de propósito. Quem eram os Magos Azuis? Por que eles viajaram ao leste, e por que, aparentemente, eles não ajudaram na batalha contra Sauron? Nós não sabemos, mas é divertido especular; e eu mesmo fiz isso em algumas de minhas estórias curtas.

 

7.      Você pinta apenas sobre Tolkien?

 

De forma alguma! Eu pinto e desenho também cenas de Nárnia dos contos de C. S. Lewis e de outros contos de fadas. Além disso, eu ilustrei alguns livros, tanto cavalheirescos, como “The Magic Ring” [O Anel Mágico] de Fouque, quanto estórias infantis como “Black And White Ogre Country” [País-Ogro Preto E Branco] de Hilary Tolkien. Hilary, a propósito, era irmão de J. R. R. Tolkien. Você pode ver mais de minhas pinturas e desenhos em www.jefmuray.com.

 

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8.      Me conte mais sobre como é pintar sobre Tolkien

 

Toda arte é exploração, e há poucos mundos mais prazerosos de se explorar do que o de Tolkien. E isso é precisamente o que se faz quando se pinta; é dada a você a oportunidade de imaginar como um local ou pessoa se pareceria. E, à medida que você prossegue, você geralmente não fica com a sensação de estar “inventando coisas” como se as estivesse descobrindo pela primeira vez – você as “vê” como elas realmente devem ter sido.

Eu prefiro pensar que Tolkien também descrevia sua escrita e a forma que contava história em termos similares; é uma descoberta seletiva – a descoberta de contos e pessoas que, de alguma forma, não são menos reais pelo fato de nunca terem existido em carne e osso. De alguma forma, se estamos fazendo nosso trabalho corretamente como artistas, eles são mais reais em nossa arte do que talvez eles pudessem ser fisicamente. E o que é mais divertido de pintá-los é que não é somente para mim como artista; eu tenho a chance de tornar reais esses lugares e pessoas para os outros, e partilhar o que eu aprendi nas minhas jornadas à Terra-Média. Não há prazer maior para mim do que ter alguém apreciando uma pintura ou desenho meu e dizer “sim, foi exatamente como eu imaginei!”.

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